Retrospecto cinematográfico 2009

Resenha por , em 19 de dezembro de 2009

Final de ano é tempo de recor­dar. É cos­tume relem­brar fei­tos, acon­te­ci­men­tos, coi­sas boas e ruins que per­pas­sa­ram nos­sos dias durante esse inter­valo que nome­a­mos ano. Então recor­de­mos as idas ao cinema (ao menos as que con­se­gui­mos lem­brar…) e um filme visto em DVD neste mesmo ano de 2009, que vale a pena recordar.

Come­ce­mos com os fil­mes que não tenho tanta cer­teza se vimos em 2009 ou no final de 2008. De qual­quer modo, O dia em que a terra parou (The day the earth stood still) inau­gura a lista dos fil­mes hor­ro­ro­sos dessa e de outras lis­tas. Tudo bem quanto à refil­ma­gem, quanto à “atu­a­li­za­ção” do argu­mento (os ali­e­ní­ge­nas que antes vinham nos aler­tar para o perigo da guerra fria, agora nos avi­sam — ou melhor, nos ani­qui­lam — gra­ças à des­trui­ção que pro­mo­ve­mos do pla­neta Terra), quanto à Jen­ni­fer Con­nelly. Nada disso salva o filme. Acho que nem se a tri­lha sonora viesse com a música homô­nima do Raul Sei­xas o filme se sal­va­ria. Uma cena, de tão ridí­cula, merece ser lem­brada: Keanu Ree­ves (sim, o eterno sal­va­dor Neo…) chega à casa de um impor­tante cien­tista da atu­a­li­dade, pro­fes­sor Bar­nhardt, vivido por John Cle­ese (a pró­pria esca­la­ção do papel já cheira a safa­deza). Há uma com­plexa equa­ção na lousa da sala-de-estar do estu­di­oso. De repente, ambos come­çam a “sim­pli­fi­car” a equa­ção, cor­tando ter­mos lá e cá e… eis que surge um feliz resul­tado qual­quer, um E=mc2, sei lá, e tudo está resol­vido no pla­neta em perigo. Fal­tou só o cum­pri­mento Top Gun (se já não o há no filme e minha memó­ria me atrai­çoa…). Intra­gá­vel. Se puder, não veja.

Vicky Cris­tina Bar­ce­lona (assim mesmo, sem vír­gu­las, nem “e”, nem dois pon­tos…) não é um Woody Allen em plena forma, mas ainda é um Woody Allen. Isso sig­ni­fica dizer que o filme tem diá­lo­gos inte­res­san­tes (mas não ótimos), inu­si­ta­dos vai-e-vens amo­ro­sos, per­so­na­gens cujas dife­ren­tes per­so­na­li­da­des geram situ­a­ções um quê cômi­cas, às vezes ence­na­dos por ato­res e atri­zes reno­ma­dos (Pené­lope Cruz e Javier Bar­dem mar­cam suas pre­sen­ças, além do repe­teco de Scar­let Johan­son), tudo isso con­du­zido por um roteiro sim­ples, sem a usual piro­tec­nia de Hollywood. Se, no lugar de Bar­ce­lona, o filme se pas­sasse em Nova Ior­que, o dire­tor pro­va­vel­mente tra­ria à cena as belas pai­sa­gens da cidade que, não raro, sus­ten­tam mui­tos de seus fil­mes (lem­bre­mos Melinda e Melinda, só para citar um recente). Mas vale con­fe­rir os duros con­fli­tos por que passa Juan Anto­nio Gon­zalo (per­so­na­gem de Bar­dem), artista plás­tico em crise de cri­a­ti­vi­dade, tema algo fami­liar a outras his­tó­rias de Woody Allen.

A_TrocaClint Eastwood já pro­vou seu talento como dire­tor com fil­mes vari­a­dos: A troca (Chan­ge­ling), com Ange­lina Jolie (irre­co­nhe­cí­vel, para alguns; sua atu­a­ção é mesmo pri­mo­rosa, o que tal­vez me tenha feito demo­rar a lem­brar que John Mal­ko­vich sequer estava no filme), mesmo não sendo uma “obra-prima”, não deixa a dese­jar. Desde o sumiço do garoto e sua ime­di­ata rea­pa­ri­ção for­jada até os mean­dros escu­ros a que o filme é con­du­zido, per­siste uma impres­são de sufoco. Em altos e bai­xos, seja quando acom­pa­nha­mos os cami­nhos sem volta a que a pro­ta­go­nista é levada, seja na cena ater­ra­dora do enfor­ca­mento do cri­mi­noso (cena, vale dizer, dis­pen­sá­vel — ao menos na forma como é mos­trada; a música infan­til, ento­ada debaixo do capuz, torna tudo ainda mais dila­ce­rante). Lembro-me que, enquanto via o filme, aumen­tava minha sen­sa­ção de incô­modo recor­dar que o enredo se baseia numa his­tó­ria real, ocor­rida na Los Ange­les do final da década de 20, que liga o drama pes­soal da mãe, cujo filho desa­pa­rece, à cor­rup­ção na polí­cia e em outros órgãos da cidade.

O lei­tor (The rea­der) tal­vez agrade apre­ci­a­do­res de livros e, em geral, aman­tes da lite­ra­tura. Sin­ge­las são as cenas em que Hanna Sch­mitz, fun­ci­o­ná­ria alemã (vivida Kate Wins­let) da empresa de bon­des urba­nos, se deixa enle­var pelo encanto de tex­tos con­sa­gra­dos da lite­ra­tura oci­den­tal, em gêne­ros diver­sos, lidos por seu amante ado­les­cente, o jovem Michael Berg (inter­pre­tado, quando adulto, por Ralph Fien­nes). A dama do cachor­ri­nho, A Odis­séia, As aven­tu­ras de Huc­kle­berry Finn, mesmo a estra­nheza de uma decla­ma­ção em latim (de um epodo hora­ci­ano) ou grego (de um poema de Safo) fas­ci­nam uma apre­ci­a­dora sen­sí­vel dessa dedi­cada da arte da pala­vra. Claro que o filme não trata ape­nas desse fas­cí­nio lite­rá­rio: ao con­trá­rio, toca assun­tos difí­ceis, como o envol­vi­mento duma mulher madura com um ado­les­cente ou a culpa de deter­mi­na­dos atos nazista assu­mida inte­gral­mente por Hanna, mais fáceis de serem admi­ti­dos do que a ver­go­nha do anal­fa­be­tismo. Mas con­fesso que tais temas me pare­ce­ram meno­res ante a entrega da mulher a sua pai­xão pelo livro.

O curi­oso caso de Ben­ja­min But­ton, como muito se comen­tou na época do lan­ça­mento, tem sua his­tó­ria ins­pi­rada no conto de F. Scott Fitz­ge­rald — mas desse muito difere. Claro que, em ambas nar­ra­ti­vas, os pro­ta­go­nis­tas homô­ni­mos nas­cem já velhos e, ao invés de enve­lhe­ce­rem, reju­ve­nes­cem com o pas­sar do tempo. Mas as seme­lhan­ças param aí. No texto, o velhote nasce falante, bem humo­rado, já pro­cu­rando sua ben­gala; no filme, foi pre­ciso che­gar aos deta­lhes do “rea­lismo cien­tí­fico” (poder-se-ia dizer…) para mos­trar o nas­cer e o cres­cer dum “velho bebê enru­gado”. Méri­tos à maqui­a­gem. A expul­são de Ben­ja­min da facul­dade tem um gosto espe­cial no texto norte-americano, deta­lhe des­pre­zado na ence­na­ção. Falou-se tam­bém duma evi­dente influên­cia na com­po­si­ção do filme: For­rest Gump. Ambos fil­mes pas­sam men­sa­gens oti­mis­tas após um longo e atri­bu­lado per­curso de vida, com par­ti­ci­pa­ções em guer­ras e epi­só­dios notá­veis na his­tó­ria do século XX, ambos des­ta­cam o papel do amor (tam­bém cheio de per­cal­ços) com finais “quase feli­zes”, den­tre outras sema­lhan­ças. Não é pra menos: Eric Roth é o res­pon­sá­vel pelo roteiro (scre­en­play) dos dois filmes.

Den­tre os pre­mi­a­dos na festa do Oscar, Milk merece des­ta­que. Sean Penn no papel de Har­vey Milk está exce­lente. E ainda seria pre­ciso lem­brar de outros, como Josh Bro­lin (o bigo­dudo de Onde os fra­cos não tem vez, fugindo do Javier Bar­den psyco), vivendo o par­la­men­tar explo­sivo Dan White, e James Franco (o melhor amigo do Peter Parker/Homen-Aranha), repre­sen­tando Scott Smith. O filme retrata não só a memó­ria de um homem ou de uma época (cul­tu­ral, sexual, elei­to­ral…) da cidade de São Fran­cisco, mas sobre­tudo a his­tó­ria de luta pelos direi­tos das mino­rias que merece e pre­cisa ser con­tada. Em épocas de libe­ra­lismo como a nossa (tal­vez mais alar­de­ado do que pra­ti­cado), parece impres­cin­dí­vel res­ga­tar per­cur­sos de pes­soas que com­ba­te­ram desi­gual­da­des, már­ti­res cuja memó­ria deve-se reve­ren­ciar. O envol­vi­mento de Har­vey Milk na luta por direi­tos iguais para os homos­ses­su­ais é tama­nho, já em plena cam­pa­nha e com­pro­mis­sos elei­to­rais, que a cena do sui­cí­dio (por enfor­ca­mento) de seu com­pa­nheiro, embora cho­cante e trau­má­tica, passa como mais uma fata­li­dade em sua vida atri­bu­lada. Sequer há tempo para o luto. Mesmo com sua his­tó­ria triste, lem­bro de sair­mos do cinema não desa­ni­ma­dos nem cabis­bai­xos, mas recom­pen­sa­dos, em mui­tos aspectos.

Ver O casa­mento de Raquel (Rachel get­ting mar­ried) foi uma expe­ri­ên­cia nova. Pri­meiro por conhe­cer um cinema novo, num shop­ping “novo”, numa região da cidade onde nunca havía­mos ido. E foi bacana a expe­ri­ên­cia, tanto que a repe­ti­mos para ver A onda. Segundo por­que não espe­rá­va­mos ver Anne Hathaway nesse papel deprê-emotivo, cheio de silên­cios desa­gra­dá­veis e músi­cas ambi­en­tes inu­su­ais. Para quem a viu em O diabo veste Prada ou Noi­vas em guerra e se acos­tu­mou com a moci­nha bem com­por­tada em busca de sucesso na pro­fis­são e no amor (ou na festa de casa­mento…), O casa­mento de Raquel sur­pre­ende. Não que o filme seja empol­gante ou uma revi­ra­volta na arte de fil­mar (ou coisa que o valha), mas a jovem se mos­trou ver­sá­til e pronta a enfren­tar rotei­ros não tão enla­ta­dos ou açu­ca­ra­dos, que o filme não tem. Uma expe­ri­ên­cia válida, espe­ci­al­mente para um final de semana chu­voso e caseiro.

Quem quer ser um mili­o­ná­rio (Slum­dog mili­o­naire), meses depois de tê-lo visto uma única vez, foi o filme não norte-americano com mais cara de Hollywood que já vi. Nem Cidade de Deus me pare­ceu tão gringo assim. Desde a toada da nar­ra­tiva (os cor­tes entre o pre­sente — momen­tos pró­xi­mos à per­gunta final do con­curso — e os flash­backs do pro­ta­go­nista), os enqua­dra­men­tos, as cenas com for­tes con­tras­tes de cores, até as per­so­na­gens e o enredo (a busca pelo amor “escrito nas estre­las”, a qual­quer preço), enfim, toda uma gra­má­tica cine­ma­to­grá­fica se mos­tra muito bem apli­cada ao cená­rio indi­ano con­tem­po­râ­neo. Por­que, con­ve­nha­mos, não era pre­ciso que se pas­sasse na Índia toda essa his­tó­ria. Tal­vez os cus­tos da mão-de-obra mais barata (como os aten­den­tes de tele­mar­ke­ting, que uma cena do filme retrata) tenham levado os pro­du­to­res até lá. De todo o filme, além da dan­ci­nha “con­ta­gi­ante” nos cré­di­tos finais, gra­vou minha memó­ria a cena cruel em que uma menor aban­do­nado é “anes­te­si­ado” e cego, com um metal quente nos olhos, numa ope­ra­ção fria e cal­cu­lada dos explo­ra­do­res de cri­an­ças de rua — forte recurso cine­ma­to­grá­fico, efi­caz ao pin­tar os deta­lhes da explo­ra­ção da pobreza, sobre­tudo infantil.

A meu ver, este foi o filme do ano de 2009: Gran Torino. Eastwood sabe o que faz e como fazer bem feito. A expec­ta­tiva se cria desde o trai­ler: o filme há de ter san­gue, tiros, lutas de gan­gues. Um velho ran­zinza (Walt Kowalski, isto é, Clint Eastwood) irá fazer tudo isso pipo­car, como num velho faro­este. Eis que algo dife­rente começa a se mos­trar — creio que é aí que entra a suti­leza do bom dire­tor. A rela­ção com a famí­lia se revela tosca: no enterro, no veló­rio, nas deci­sões sobre o des­tino do velho soli­tá­rio. Em outro tom, as alfi­ne­ta­das reli­gi­o­sas lem­bram as de Menina de Ouro (afi­nal, quem está apto a dizer “ver­da­des” a um homem cale­jado pela vida? um jovem padreco?). Na vizi­nhança asiá­tica que o velho Walt tanto odeia, o estra­nho passa a se mos­trar não só mais ordi­ná­rio e comum do que se supu­nha, porém tam­bém mais fami­liar e aco­lhe­dor. Con­tudo, os laços que se estrei­tam her­dam con­sigo os con­fli­tos espe­cí­fi­cos (mas não exclu­si­vos) da comu­ni­dade asiá­tica: as gan­gues, as difi­cul­da­des da inclu­são social. Um estra­nho, como Eastwood, torna-se ape­nas o esto­pim das bri­gas tão ansi­a­das. E (sem estra­gar o final tão bri­lhante), na cena reden­tora, pode-se ouvir, lá ao fundo, umas notas musi­cais dos velhos e bons faro­es­tes de Clint… um pri­mor de refe­rên­cias cru­za­das, de sutil inter­texto cine­ma­to­grá­fico. Filme pra se ver e rever.

Mas não foram ape­nas novos clás­si­cos a que assis­ti­mos em 2009. X-men ori­gins: Wol­ve­rine é um des­ses não-clássicos. Acho que foi o Rubens Edwald Filho (se não me engano…) que havia dito que gos­tou desse quarto filme dos mutan­tes por­que esse tinha his­tó­ria e isso bas­tava para nos pren­der. Sim, se com­pa­rado aos outros três fil­mes da saga, esse é o X-men que parece ir mais longe no tempo para con­tar como sur­giu o mais caris­má­tico (por­que mais rebelde?) dos mutan­tes, Wol­ve­rine. Em com­pa­ra­ção com o volume três, então, esse ganha em dis­pa­rado: se aquele visa a aca­bar com os mutan­tes na tela, o ori­gins mos­tra que é pos­sí­vel desen­ter­rar o pas­sado para recon­tar a his­tó­ria de cada super-herói, incluindo na moderna “teia mito­ló­gica” os epí­só­dios que envol­vem per­so­na­gens, até então, iné­di­tos no cinema. Mas é melhor parar por aqui: é uma notá­vel pro­du­ção block­bus­ter, com explo­sões, tiros e efei­tos de tirar o fôlego — a his­tó­ria, no fundo, parece ser o que menos conta.

A mulher invi­sí­vel me decep­ci­o­nou. Ainda não des­co­bri um só porquê, mas tal­vez esti­vesse espe­rando demais do filme. Acho que fui assis­tir ima­gi­nando encon­trar cenas engra­ça­das como as de Um espí­rito bai­xou em mim (com um hilá­rio Steve Mar­tin) ou Ghost (nos tre­chos com Whoppi Gold­berg) — em que há ótimos epi­só­dios de “con­ver­sas com pes­soas ausen­tes” (invi­sí­veis, espí­ri­tos…). No lugar disso, vi um Sel­ton Mello por demais afe­tado (no papel de Pedro), desen­gon­çado, longe de seus exce­len­tes tra­ba­lhos de humor (Chicó nO auto da Com­pa­de­cida, Leléu no Lis­bela e o Pri­si­o­neiro), e uma Luana Pio­vani fazendo o que ela faz de melhor — ape­lar para seus dotes físi­cos (nada con­tra). Tal­vez a única cena engra­çada de que me recorde é a com Paulo Betti, do ata­que de ner­vos em meio aos cole­gas de tra­ba­lho. Não me con­ven­ceu, por exem­plo, o Pedro dan­çando sozi­nho na boate (a rea­ção das pes­soas ao redor, na cena, não pare­cia con­so­nante), nem mesmo ele na fila do cinema, quando Mar­celo Adnet faz uma ponta cur­tís­sima como fun­ci­o­ná­rio da bilheteria.

Dos dois fil­mes naci­o­nais que vimos no cinema em 2009, O con­ta­dor de his­tó­rias sal­vou a pátria. O filme é bonito, sin­gelo, des­pre­ten­si­oso: conta a his­tó­ria de Roberto Car­los, mineiro “entre­gue” pela mãe à Febem de BH ainda bem pequeno. Aí come­çam as agru­ras (que ele conta com doce iro­nia: “lá tinha ceia, ami­gos, edu­ca­do­res etc.” — enquanto se vê comida estra­gada, socos e pon­ta­pés de todos os lados). Entre tan­tas de suas peri­pé­cias, fugas e retor­nos à ins­ti­tui­ção, o menino acaba topando a jovem fran­cesa Marghe­rit (tal­vez você se lem­bre dela duma ponta em Pulp Fic­tion…), estu­dando peda­go­gia na capi­tal mineira. Ela, então, decide ajudá-lo, quase como um pro­jeto “acadêmico-social”, bus­cando uma apro­xi­ma­ção pau­la­tina do menino, sem igno­rar a dis­tân­cia enorme em suas his­tó­rias pes­so­ais. Em suma, o filme é isso, uma amos­tra da supe­ra­ção de bar­rei­ras econô­mi­cas, soci­ais, afe­ti­vas e cul­tu­rais — e como nos parece mais cômodo ape­nas fin­gir não vê-las. Quando ouvi­mos his­tó­rias de quem as enfrenta, o resul­tado cos­tuma ser gra­ti­fi­cante, como é essa his­tó­ria de Luiz Villaça.

É claro que não é pre­ciso ter visto Borat para assis­tir ao Brüno, mas acho que quem não viu àquele tal­vez tenha se espan­tado mais com esse. Nes­ses fil­mes de Sacha Baron Cohen (seria um gênero espe­cí­fico?), a pri­meira expe­ri­ên­cia torna a sur­presa mais impac­tante, as situ­a­ções gro­tes­cas em meio às con­ven­ções soci­ais são nota­da­mente mais cho­can­tes na pri­meira vez em que as vemos. Basta lem­brar a cor­re­ria dos dois pela­dos no hotel ou as per­gun­tas e situ­a­ções bizar­ras de Borat à mesa de jan­tar. Esses sket­ches (supos­ta­mente cômi­cos) se repe­tem em Brüno, com ligei­ras vari­a­ções, cujo enca­de­a­mento não chega a resul­tar numa roteiro pro­pri­a­mente: um aus­tríaco homos­se­xual afe­tado em busca de fama nos EUA. No fim, o que nos fisga parece ser a per­gunta: o quanto essa situ­a­ção que vemos é “armada”, é com­bi­nada entre o ator e os demais inte­gran­tes da bal­búr­dia? Por exem­plo, a par­ti­ci­pa­ção de Brüno num pro­grama de audi­tó­rio popu­la­resco ou na luta de vale-tudo pare­cem, no fundo, tirar sarro des­ses mes­mos even­tos, sobre­tudo de como a imprensa as retrata, de como são cul­tu­a­dos e como tudo isso os torna fas­ci­nan­tes. A sim­ples chance de que não haja ensaio ou ence­na­ção nas situ­a­ções fil­ma­das parece lan­çar, em última aná­lise, um ques­ti­o­na­mento incô­modo: quão idi­ota nossa soci­e­dade se tor­nou para che­gar a esse ponto?

Up (no Bra­sil, com o sub­tí­tulo Altas Aven­tu­ras) foi uma expe­ri­ên­cia sui gene­ris. Pri­meiro gra­ças à impres­são fan­tás­tica do filme em 3D: empol­gante, de um “rea­lismo novo” den­tro da sala de cinema. Depois, a pró­pria ani­ma­ção se reve­lou inu­si­tada: começa numa toada jamais vista em “dese­nho ani­mado”, tra­tando de temas “sérios” (ou “adul­tos”) logo nos pri­mei­ros minu­tos do filme, como a vida de um casal sem filhos, os pro­ble­mas duma vida a dois, a morte da com­pa­nheira amada, o tédio duma velhice soli­tá­ria. Para não virar um dese­nho às aves­sas, um garo­ti­nho xereta acaba se intro­me­tendo nos pla­nos mira­bo­lan­tes do vovô (na voz de Chico Any­sio, na ver­são dublada) ven­de­dor de balões, e aí a aven­tura começa. Per­di­dos numa selva para­di­síaca, o encon­tro com os “cachor­ros falan­tes” (ótimas saca­das: tanto o arti­fí­cio da coleira, quanto a expres­são do tre­jei­tos cani­nos na fala) e com a sim­pá­tica ave colo­rida — além das “ilu­sões per­di­das” no reen­con­tro com um velho ídolo do pas­sado — com­põe os ingre­di­en­tes ide­ais para para uma his­tó­ria e tanto, para ser revista (não mais em 3D).

Devo con­fes­sar que fui res­sa­bi­ado assi­tir ao A onda (Die Welle): o filme havia sido indi­cado a ado­les­cen­tes do ensino médio, para alguma ati­vi­dade esco­lar. Entre­tanto, o des­pren­di­mento dos alu­nos de ensino médio retra­ta­dos no filme tirou meu pé-atrás logo nos pri­mei­ros minu­tos do filme, que foi aos pou­cos se mos­trando natu­ral­mente inte­res­sante. Ora, rapi­da­mente se per­ce­bem as estra­té­gias e inten­ções do jovem pro­fes­sor de His­tó­ria, can­sado da mes­mice de um assunto espi­nhoso para os ale­mães, relem­brar o nazismo — ou melhor, falar de auto­cra­cia, para ser mais pre­ciso. Assim, frente a uma pla­téia ansi­osa tanto por aten­ção quanto por reco­nhe­ci­mento, expli­car o “auto-governo” com um pouco de ordem prá­tica em sala de aula passa a fazer um efeito além do espe­rado pelo pro­fes­sor. Eis que está­va­mos fis­ga­dos: onde seus pla­nos, já em plena exe­cu­ção, iriam dar? Mesmo tendo espe­rado por outro final (tal­vez algo mais mora­lista por parte do pro­fes­sor…), o filme me sur­pre­en­deu, no melhor sen­tido. E reco­mendo a experiência.

Bas­tar­dos Ingló­rios (Inglo­ri­ous Bas­terds) inte­gra a linha dos “arrasa-quarteirão” a la Taran­tino, com o dire­tor no auge de sua popu­la­ri­dade — em espe­cial depois do sucesso dos dois Kill Bill. A marca do dire­tor está em todo o filme (a divi­são em capí­tu­los, cenas san­gui­no­len­tas de espir­rar na tela, ótimos diá­lo­gos ten­sos, musi­qui­nhas mar­can­tes etc.), mas algo me dei­xou res­sa­bi­ado com o con­junto da obra. Não que eu não tenha gos­tado, mas saí­mos do cinema sem o impacto de outros fil­mes (como Jac­kie Brown, para não ape­lar para Pulp Fic­tion ou Cães de Alu­guel). Devo admi­tir que é pro­vá­vel que me falte baga­gem cine­ma­to­grá­fica para per­ce­ber as pro­vá­veis refe­rên­cias que o dire­tor deve fazer (ima­gino…) a outros fil­mes de guerra. Digo isso por­que me lem­bro de ter lido a entre­vista de Taran­tino no Le Monde, antes de ver o filme, e fiquei boi­ando ao vê-lo citar tan­tos títu­los que o ins­pi­ra­ram. A pro­pó­sito, mesmo sem ter visto Ope­ra­ção Valquí­ria (será que vale a pena?), Bas­tar­dos Ingló­rios me pare­ceu tirar sarro do enga­ja­mento dedi­cado de Tom Cruise para matar Hitler.

É pre­ciso decla­rar aqui que não foi fácil lem­brar dessa lista de fil­mes: como não havia guar­dado nenhuma impres­são por escrito, deta­lhes à época mar­can­tes vão se esva­e­cendo, fica por fim um esboço geral daquilo que vimos. Além disso, um texto que recu­pere tan­tas lem­bran­ças de tan­tos fil­mes acaba por se tor­nar longo, enfa­do­nho, sem con­se­guir falar com deta­lhes de obra nenhuma. Bem, pro­meto não fazer isso novamente.

Se não foi fácil recor­dar essas idas ao cinema e suas impres­sões vivi­das em 2009, os fil­mes que vi na tela da tv pare­cem ainda mais eva­nes­cen­tes. Con­tudo, den­tre os “clás­si­cos” que ainda não havia assis­tido e pude con­fe­rir esse ano (como Gilda, ou Por um punhado de Dóla­res, ou o ins­pi­ra­dor Hit­ch­cock de Pacto Sinis­tro — melhor: Stran­gers on a train -, ou A feli­ci­dade não se com­pra, de Frank Capra), o filme mar­cante de 2009 na tela caseira, para mim, foi Na natu­reza sel­va­gem (Into the wild), diri­gido por Sean Penn e lan­çado em 2007. Belo filme, cujo roteiro se baseia na bio­gra­fia de Chris­topher McCan­dless (inter­pre­tado por um dedi­cado Emile Hirsh), escrita por John Kra­kauer. Ao som de Eddie Ved­der, com­posto exclu­si­va­mente para o filme, a recons­tru­ção do livro de Kra­kauer ganha cores mar­can­tes, desde a nar­ra­tiva não linear até as boni­tas ima­gens das pai­sa­gens por onde passa o pro­ta­go­nista. Não há dúvi­das de que as difi­cul­da­des que o livro enfrenta são outras (como, por exem­plo, evi­den­ciar os ras­tros dum jovem não-suicida). Na tela grande nota-se, sobre­tudo, a con­tru­ção não-linear da ima­gem do pro­ta­go­nista, sepa­rada nas fases da vida (do nas­ci­mento, infân­cia, juven­tude e idade adulta) que não se redu­zem aos este­reó­ti­pos de hip­pies, men­di­gos ou dro­ga­dos. Se, por um lado, tal­vez tenha fal­tado no filme a soli­da­ri­e­dade de McAn­dless (dis­tri­buindo comida aos pobres durante uma madru­gada de final de semana), por outro, as telas con­cre­ti­zam sua per­feita ina­de­qua­ção ao ambi­ente urbano inós­pito, selva de pedra per­versa e hipó­crita (por exem­plo, na cena em que Hirsh vaga à noite pelos subúr­bios, e se vê, durante um curto lance d’olhos, como um jovem-engomado-qualquer de classe média, alter­na­tiva plau­sí­vel para seu futuro urbano, porém ina­cei­tá­vel segundo seus padrões morais). Filme bonito, que recomendo.

Por último, desejo que 2010 venha com ainda mais fil­mes, cada vez melhores.

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