— Resenha por Alexandre Piccolo, em 19 de dezembro de 2009
Final de ano é tempo de recordar. É costume relembrar feitos, acontecimentos, coisas boas e ruins que perpassaram nossos dias durante esse intervalo que nomeamos ano. Então recordemos as idas ao cinema (ao menos as que conseguimos lembrar…) e um filme visto em DVD neste mesmo ano de 2009, que vale a pena recordar.
Comecemos com os filmes que não tenho tanta certeza se vimos em 2009 ou no final de 2008. De qualquer modo, O dia em que a terra parou (The day the earth stood still) inaugura a lista dos filmes horrorosos dessa e de outras listas. Tudo bem quanto à refilmagem, quanto à “atualização” do argumento (os alienígenas que antes vinham nos alertar para o perigo da guerra fria, agora nos avisam — ou melhor, nos aniquilam — graças à destruição que promovemos do planeta Terra), quanto à Jennifer Connelly. Nada disso salva o filme. Acho que nem se a trilha sonora viesse com a música homônima do Raul Seixas o filme se salvaria. Uma cena, de tão ridícula, merece ser lembrada: Keanu Reeves (sim, o eterno salvador Neo…) chega à casa de um importante cientista da atualidade, professor Barnhardt, vivido por John Cleese (a própria escalação do papel já cheira a safadeza). Há uma complexa equação na lousa da sala-de-estar do estudioso. De repente, ambos começam a “simplificar” a equação, cortando termos lá e cá e… eis que surge um feliz resultado qualquer, um E=mc2, sei lá, e tudo está resolvido no planeta em perigo. Faltou só o cumprimento Top Gun (se já não o há no filme e minha memória me atraiçoa…). Intragável. Se puder, não veja.
Vicky Cristina Barcelona (assim mesmo, sem vírgulas, nem “e”, nem dois pontos…) não é um Woody Allen em plena forma, mas ainda é um Woody Allen. Isso significa dizer que o filme tem diálogos interessantes (mas não ótimos), inusitados vai-e-vens amorosos, personagens cujas diferentes personalidades geram situações um quê cômicas, às vezes encenados por atores e atrizes renomados (Penélope Cruz e Javier Bardem marcam suas presenças, além do repeteco de Scarlet Johanson), tudo isso conduzido por um roteiro simples, sem a usual pirotecnia de Hollywood. Se, no lugar de Barcelona, o filme se passasse em Nova Iorque, o diretor provavelmente traria à cena as belas paisagens da cidade que, não raro, sustentam muitos de seus filmes (lembremos Melinda e Melinda, só para citar um recente). Mas vale conferir os duros conflitos por que passa Juan Antonio Gonzalo (personagem de Bardem), artista plástico em crise de criatividade, tema algo familiar a outras histórias de Woody Allen.
Clint Eastwood já provou seu talento como diretor com filmes variados: A troca (Changeling), com Angelina Jolie (irreconhecível, para alguns; sua atuação é mesmo primorosa, o que talvez me tenha feito demorar a lembrar que John Malkovich sequer estava no filme), mesmo não sendo uma “obra-prima”, não deixa a desejar. Desde o sumiço do garoto e sua imediata reaparição forjada até os meandros escuros a que o filme é conduzido, persiste uma impressão de sufoco. Em altos e baixos, seja quando acompanhamos os caminhos sem volta a que a protagonista é levada, seja na cena aterradora do enforcamento do criminoso (cena, vale dizer, dispensável — ao menos na forma como é mostrada; a música infantil, entoada debaixo do capuz, torna tudo ainda mais dilacerante). Lembro-me que, enquanto via o filme, aumentava minha sensação de incômodo recordar que o enredo se baseia numa história real, ocorrida na Los Angeles do final da década de 20, que liga o drama pessoal da mãe, cujo filho desaparece, à corrupção na polícia e em outros órgãos da cidade.
O leitor (The reader) talvez agrade apreciadores de livros e, em geral, amantes da literatura. Singelas são as cenas em que Hanna Schmitz, funcionária alemã (vivida Kate Winslet) da empresa de bondes urbanos, se deixa enlevar pelo encanto de textos consagrados da literatura ocidental, em gêneros diversos, lidos por seu amante adolescente, o jovem Michael Berg (interpretado, quando adulto, por Ralph Fiennes). A dama do cachorrinho, A Odisséia, As aventuras de Huckleberry Finn, mesmo a estranheza de uma declamação em latim (de um epodo horaciano) ou grego (de um poema de Safo) fascinam uma apreciadora sensível dessa dedicada da arte da palavra. Claro que o filme não trata apenas desse fascínio literário: ao contrário, toca assuntos difíceis, como o envolvimento duma mulher madura com um adolescente ou a culpa de determinados atos nazista assumida integralmente por Hanna, mais fáceis de serem admitidos do que a vergonha do analfabetismo. Mas confesso que tais temas me pareceram menores ante a entrega da mulher a sua paixão pelo livro.
O curioso caso de Benjamin Button, como muito se comentou na época do lançamento, tem sua história inspirada no conto de F. Scott Fitzgerald — mas desse muito difere. Claro que, em ambas narrativas, os protagonistas homônimos nascem já velhos e, ao invés de envelhecerem, rejuvenescem com o passar do tempo. Mas as semelhanças param aí. No texto, o velhote nasce falante, bem humorado, já procurando sua bengala; no filme, foi preciso chegar aos detalhes do “realismo científico” (poder-se-ia dizer…) para mostrar o nascer e o crescer dum “velho bebê enrugado”. Méritos à maquiagem. A expulsão de Benjamin da faculdade tem um gosto especial no texto norte-americano, detalhe desprezado na encenação. Falou-se também duma evidente influência na composição do filme: Forrest Gump. Ambos filmes passam mensagens otimistas após um longo e atribulado percurso de vida, com participações em guerras e episódios notáveis na história do século XX, ambos destacam o papel do amor (também cheio de percalços) com finais “quase felizes”, dentre outras semalhanças. Não é pra menos: Eric Roth é o responsável pelo roteiro (screenplay) dos dois filmes.
Dentre os premiados na festa do Oscar, Milk merece destaque. Sean Penn no papel de Harvey Milk está excelente. E ainda seria preciso lembrar de outros, como Josh Brolin (o bigodudo de Onde os fracos não tem vez, fugindo do Javier Barden psyco), vivendo o parlamentar explosivo Dan White, e James Franco (o melhor amigo do Peter Parker/Homen-Aranha), representando Scott Smith. O filme retrata não só a memória de um homem ou de uma época (cultural, sexual, eleitoral…) da cidade de São Francisco, mas sobretudo a história de luta pelos direitos das minorias que merece e precisa ser contada. Em épocas de liberalismo como a nossa (talvez mais alardeado do que praticado), parece imprescindível resgatar percursos de pessoas que combateram desigualdades, mártires cuja memória deve-se reverenciar. O envolvimento de Harvey Milk na luta por direitos iguais para os homossessuais é tamanho, já em plena campanha e compromissos eleitorais, que a cena do suicídio (por enforcamento) de seu companheiro, embora chocante e traumática, passa como mais uma fatalidade em sua vida atribulada. Sequer há tempo para o luto. Mesmo com sua história triste, lembro de sairmos do cinema não desanimados nem cabisbaixos, mas recompensados, em muitos aspectos.
Ver O casamento de Raquel (Rachel getting married) foi uma experiência nova. Primeiro por conhecer um cinema novo, num shopping “novo”, numa região da cidade onde nunca havíamos ido. E foi bacana a experiência, tanto que a repetimos para ver A onda. Segundo porque não esperávamos ver Anne Hathaway nesse papel deprê-emotivo, cheio de silêncios desagradáveis e músicas ambientes inusuais. Para quem a viu em O diabo veste Prada ou Noivas em guerra e se acostumou com a mocinha bem comportada em busca de sucesso na profissão e no amor (ou na festa de casamento…), O casamento de Raquel surpreende. Não que o filme seja empolgante ou uma reviravolta na arte de filmar (ou coisa que o valha), mas a jovem se mostrou versátil e pronta a enfrentar roteiros não tão enlatados ou açucarados, que o filme não tem. Uma experiência válida, especialmente para um final de semana chuvoso e caseiro.
Quem quer ser um milionário (Slumdog milionaire), meses depois de tê-lo visto uma única vez, foi o filme não norte-americano com mais cara de Hollywood que já vi. Nem Cidade de Deus me pareceu tão gringo assim. Desde a toada da narrativa (os cortes entre o presente — momentos próximos à pergunta final do concurso — e os flashbacks do protagonista), os enquadramentos, as cenas com fortes contrastes de cores, até as personagens e o enredo (a busca pelo amor “escrito nas estrelas”, a qualquer preço), enfim, toda uma gramática cinematográfica se mostra muito bem aplicada ao cenário indiano contemporâneo. Porque, convenhamos, não era preciso que se passasse na Índia toda essa história. Talvez os custos da mão-de-obra mais barata (como os atendentes de telemarketing, que uma cena do filme retrata) tenham levado os produtores até lá. De todo o filme, além da dancinha “contagiante” nos créditos finais, gravou minha memória a cena cruel em que uma menor abandonado é “anestesiado” e cego, com um metal quente nos olhos, numa operação fria e calculada dos exploradores de crianças de rua — forte recurso cinematográfico, eficaz ao pintar os detalhes da exploração da pobreza, sobretudo infantil.
A meu ver, este foi o filme do ano de 2009: Gran Torino. Eastwood sabe o que faz e como fazer bem feito. A expectativa se cria desde o trailer: o filme há de ter sangue, tiros, lutas de gangues. Um velho ranzinza (Walt Kowalski, isto é, Clint Eastwood) irá fazer tudo isso pipocar, como num velho faroeste. Eis que algo diferente começa a se mostrar — creio que é aí que entra a sutileza do bom diretor. A relação com a família se revela tosca: no enterro, no velório, nas decisões sobre o destino do velho solitário. Em outro tom, as alfinetadas religiosas lembram as de Menina de Ouro (afinal, quem está apto a dizer “verdades” a um homem calejado pela vida? um jovem padreco?). Na vizinhança asiática que o velho Walt tanto odeia, o estranho passa a se mostrar não só mais ordinário e comum do que se supunha, porém também mais familiar e acolhedor. Contudo, os laços que se estreitam herdam consigo os conflitos específicos (mas não exclusivos) da comunidade asiática: as gangues, as dificuldades da inclusão social. Um estranho, como Eastwood, torna-se apenas o estopim das brigas tão ansiadas. E (sem estragar o final tão brilhante), na cena redentora, pode-se ouvir, lá ao fundo, umas notas musicais dos velhos e bons faroestes de Clint… um primor de referências cruzadas, de sutil intertexto cinematográfico. Filme pra se ver e rever.
Mas não foram apenas novos clássicos a que assistimos em 2009. X-men origins: Wolverine é um desses não-clássicos. Acho que foi o Rubens Edwald Filho (se não me engano…) que havia dito que gostou desse quarto filme dos mutantes porque esse tinha história e isso bastava para nos prender. Sim, se comparado aos outros três filmes da saga, esse é o X-men que parece ir mais longe no tempo para contar como surgiu o mais carismático (porque mais rebelde?) dos mutantes, Wolverine. Em comparação com o volume três, então, esse ganha em disparado: se aquele visa a acabar com os mutantes na tela, o origins mostra que é possível desenterrar o passado para recontar a história de cada super-herói, incluindo na moderna “teia mitológica” os epísódios que envolvem personagens, até então, inéditos no cinema. Mas é melhor parar por aqui: é uma notável produção blockbuster, com explosões, tiros e efeitos de tirar o fôlego — a história, no fundo, parece ser o que menos conta.
A mulher invisível me decepcionou. Ainda não descobri um só porquê, mas talvez estivesse esperando demais do filme. Acho que fui assistir imaginando encontrar cenas engraçadas como as de Um espírito baixou em mim (com um hilário Steve Martin) ou Ghost (nos trechos com Whoppi Goldberg) — em que há ótimos episódios de “conversas com pessoas ausentes” (invisíveis, espíritos…). No lugar disso, vi um Selton Mello por demais afetado (no papel de Pedro), desengonçado, longe de seus excelentes trabalhos de humor (Chicó nO auto da Compadecida, Leléu no Lisbela e o Prisioneiro), e uma Luana Piovani fazendo o que ela faz de melhor — apelar para seus dotes físicos (nada contra). Talvez a única cena engraçada de que me recorde é a com Paulo Betti, do ataque de nervos em meio aos colegas de trabalho. Não me convenceu, por exemplo, o Pedro dançando sozinho na boate (a reação das pessoas ao redor, na cena, não parecia consonante), nem mesmo ele na fila do cinema, quando Marcelo Adnet faz uma ponta curtíssima como funcionário da bilheteria.
Dos dois filmes nacionais que vimos no cinema em 2009, O contador de histórias salvou a pátria. O filme é bonito, singelo, despretensioso: conta a história de Roberto Carlos, mineiro “entregue” pela mãe à Febem de BH ainda bem pequeno. Aí começam as agruras (que ele conta com doce ironia: “lá tinha ceia, amigos, educadores etc.” — enquanto se vê comida estragada, socos e pontapés de todos os lados). Entre tantas de suas peripécias, fugas e retornos à instituição, o menino acaba topando a jovem francesa Margherit (talvez você se lembre dela duma ponta em Pulp Fiction…), estudando pedagogia na capital mineira. Ela, então, decide ajudá-lo, quase como um projeto “acadêmico-social”, buscando uma aproximação paulatina do menino, sem ignorar a distância enorme em suas histórias pessoais. Em suma, o filme é isso, uma amostra da superação de barreiras econômicas, sociais, afetivas e culturais — e como nos parece mais cômodo apenas fingir não vê-las. Quando ouvimos histórias de quem as enfrenta, o resultado costuma ser gratificante, como é essa história de Luiz Villaça.
É claro que não é preciso ter visto Borat para assistir ao Brüno, mas acho que quem não viu àquele talvez tenha se espantado mais com esse. Nesses filmes de Sacha Baron Cohen (seria um gênero específico?), a primeira experiência torna a surpresa mais impactante, as situações grotescas em meio às convenções sociais são notadamente mais chocantes na primeira vez em que as vemos. Basta lembrar a correria dos dois pelados no hotel ou as perguntas e situações bizarras de Borat à mesa de jantar. Esses sketches (supostamente cômicos) se repetem em Brüno, com ligeiras variações, cujo encadeamento não chega a resultar numa roteiro propriamente: um austríaco homossexual afetado em busca de fama nos EUA. No fim, o que nos fisga parece ser a pergunta: o quanto essa situação que vemos é “armada”, é combinada entre o ator e os demais integrantes da balbúrdia? Por exemplo, a participação de Brüno num programa de auditório popularesco ou na luta de vale-tudo parecem, no fundo, tirar sarro desses mesmos eventos, sobretudo de como a imprensa as retrata, de como são cultuados e como tudo isso os torna fascinantes. A simples chance de que não haja ensaio ou encenação nas situações filmadas parece lançar, em última análise, um questionamento incômodo: quão idiota nossa sociedade se tornou para chegar a esse ponto?
Up (no Brasil, com o subtítulo Altas Aventuras) foi uma experiência sui generis. Primeiro graças à impressão fantástica do filme em 3D: empolgante, de um “realismo novo” dentro da sala de cinema. Depois, a própria animação se revelou inusitada: começa numa toada jamais vista em “desenho animado”, tratando de temas “sérios” (ou “adultos”) logo nos primeiros minutos do filme, como a vida de um casal sem filhos, os problemas duma vida a dois, a morte da companheira amada, o tédio duma velhice solitária. Para não virar um desenho às avessas, um garotinho xereta acaba se intrometendo nos planos mirabolantes do vovô (na voz de Chico Anysio, na versão dublada) vendedor de balões, e aí a aventura começa. Perdidos numa selva paradisíaca, o encontro com os “cachorros falantes” (ótimas sacadas: tanto o artifício da coleira, quanto a expressão do trejeitos caninos na fala) e com a simpática ave colorida — além das “ilusões perdidas” no reencontro com um velho ídolo do passado — compõe os ingredientes ideais para para uma história e tanto, para ser revista (não mais em 3D).
Devo confessar que fui ressabiado assitir ao A onda (Die Welle): o filme havia sido indicado a adolescentes do ensino médio, para alguma atividade escolar. Entretanto, o desprendimento dos alunos de ensino médio retratados no filme tirou meu pé-atrás logo nos primeiros minutos do filme, que foi aos poucos se mostrando naturalmente interessante. Ora, rapidamente se percebem as estratégias e intenções do jovem professor de História, cansado da mesmice de um assunto espinhoso para os alemães, relembrar o nazismo — ou melhor, falar de autocracia, para ser mais preciso. Assim, frente a uma platéia ansiosa tanto por atenção quanto por reconhecimento, explicar o “auto-governo” com um pouco de ordem prática em sala de aula passa a fazer um efeito além do esperado pelo professor. Eis que estávamos fisgados: onde seus planos, já em plena execução, iriam dar? Mesmo tendo esperado por outro final (talvez algo mais moralista por parte do professor…), o filme me surpreendeu, no melhor sentido. E recomendo a experiência.
Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds) integra a linha dos “arrasa-quarteirão” a la Tarantino, com o diretor no auge de sua popularidade — em especial depois do sucesso dos dois Kill Bill. A marca do diretor está em todo o filme (a divisão em capítulos, cenas sanguinolentas de espirrar na tela, ótimos diálogos tensos, musiquinhas marcantes etc.), mas algo me deixou ressabiado com o conjunto da obra. Não que eu não tenha gostado, mas saímos do cinema sem o impacto de outros filmes (como Jackie Brown, para não apelar para Pulp Fiction ou Cães de Aluguel). Devo admitir que é provável que me falte bagagem cinematográfica para perceber as prováveis referências que o diretor deve fazer (imagino…) a outros filmes de guerra. Digo isso porque me lembro de ter lido a entrevista de Tarantino no Le Monde, antes de ver o filme, e fiquei boiando ao vê-lo citar tantos títulos que o inspiraram. A propósito, mesmo sem ter visto Operação Valquíria (será que vale a pena?), Bastardos Inglórios me pareceu tirar sarro do engajamento dedicado de Tom Cruise para matar Hitler.
É preciso declarar aqui que não foi fácil lembrar dessa lista de filmes: como não havia guardado nenhuma impressão por escrito, detalhes à época marcantes vão se esvaecendo, fica por fim um esboço geral daquilo que vimos. Além disso, um texto que recupere tantas lembranças de tantos filmes acaba por se tornar longo, enfadonho, sem conseguir falar com detalhes de obra nenhuma. Bem, prometo não fazer isso novamente.
Se não foi fácil recordar essas idas ao cinema e suas impressões vividas em 2009, os filmes que vi na tela da tv parecem ainda mais evanescentes. Contudo, dentre os “clássicos” que ainda não havia assistido e pude conferir esse ano (como Gilda, ou Por um punhado de Dólares, ou o inspirador Hitchcock de Pacto Sinistro — melhor: Strangers on a train -, ou A felicidade não se compra, de Frank Capra), o filme marcante de 2009 na tela caseira, para mim, foi Na natureza selvagem (Into the wild), dirigido por Sean Penn e lançado em 2007. Belo filme, cujo roteiro se baseia na biografia de Christopher McCandless (interpretado por um dedicado Emile Hirsh), escrita por John Krakauer. Ao som de Eddie Vedder, composto exclusivamente para o filme, a reconstrução do livro de Krakauer ganha cores marcantes, desde a narrativa não linear até as bonitas imagens das paisagens por onde passa o protagonista. Não há dúvidas de que as dificuldades que o livro enfrenta são outras (como, por exemplo, evidenciar os rastros dum jovem não-suicida). Na tela grande nota-se, sobretudo, a contrução não-linear da imagem do protagonista, separada nas fases da vida (do nascimento, infância, juventude e idade adulta) que não se reduzem aos estereótipos de hippies, mendigos ou drogados. Se, por um lado, talvez tenha faltado no filme a solidariedade de McAndless (distribuindo comida aos pobres durante uma madrugada de final de semana), por outro, as telas concretizam sua perfeita inadequação ao ambiente urbano inóspito, selva de pedra perversa e hipócrita (por exemplo, na cena em que Hirsh vaga à noite pelos subúrbios, e se vê, durante um curto lance d’olhos, como um jovem-engomado-qualquer de classe média, alternativa plausível para seu futuro urbano, porém inaceitável segundo seus padrões morais). Filme bonito, que recomendo.
Por último, desejo que 2010 venha com ainda mais filmes, cada vez melhores.
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