Dois textos de Tolstói

Resenha por , em 23 de março de 2010

Pre­ciso viver por mim mesmo, sozi­nho, e por mim mesmo e sozi­nho mor­rer (e muito em breve), por isso não posso de modo algum acre­di­tar senão naquilo em que creio, preparando-me para ir ao encon­tro daquele Deus do qual pro­vim. (p. 123)

Eis um tre­chi­nho da res­posta que León Tols­tói ende­re­çou à reso­lu­ção do Sínodo de 20–22 de feve­reiro de 1901 (que o expul­sara da Igreja Orto­doxa russa), bem como às car­tas que o escri­tor rece­bera nessa oca­sião. A tra­du­ção dessa mis­siva pública encontra-se ao final do volume Padre Sér­gio, novela tra­du­zida por Bea­triz Mora­bito e publi­cada pela Edi­tora Cosac Naify.

Padre Sérgio

Volume da novela “Padre Sér­gio”, de Tols­tói, publi­cado pela Cosac Naify, em tra­du­ção de Bea­triz Morabito

Há muito o que se extrair do pequeno tre­cho em ques­tão. Uma soli­dão aus­tera (mas não solip­sista), um con­ceito pes­soal de Deus, um código moral infle­xí­vel, todos temas caros ao autor russo — creio — e, de algum modo, rela­ci­o­na­dos a um legado que invade o limiar de sua obra. Toda­via, a ima­gem da morte, infle­xí­vel e nada mise­ri­cor­di­osa (nil mise­rans…), batendo à porta, pareceu-me o tema mais insis­tente do pouco que conheço dos tex­tos de Tolstói.

Em seu cami­nho ator­men­tado e sinu­oso, Sti­e­pán Kas­sátski (que vem se cha­mar padre Sér­gio, após aban­do­nar repen­ti­na­mente a bri­lhante car­reira mili­tar e um casa­mento pro­mis­sor para dedicar-se à vida monás­tica), vive sozi­nho por anos e anos, do mais puro iso­la­mento. Sua fuga da vida em soci­e­dade é, ao mesmo tempo, com­pro­misso reli­gi­oso e supe­ra­ção ide­li­zada, abs­ti­nên­cia e vai­dade. Diz o nar­ra­dor: “Quanto menos impor­tân­cia dava à opi­nião das pes­soas, mais for­te­mente sen­tia a pre­sença de Deus.” (p. 103)

Des­crita assim, em período tão fugaz, essa deci­são de afas­ta­mento espi­ri­tual, esco­lha árdua e abne­ga­dora, pode aca­bar soando como opção fácil, sem mai­o­res dúvi­das ou afli­ções. Kas­sátski, con­tudo, as tem aos mon­tes (eis o éthos comum e admi­rá­vel da per­so­na­gem) e res­ponde a seus temo­res com dis­ci­plina fer­re­nha, extre­mada: “não é minha tarefa raci­o­ci­nar, minha tarefa é seguir o cami­nho da obe­di­ên­cia, seja em pé junto às relí­quias, can­tando no coro, ou geren­ci­ando as con­tas da casa de hós­pe­des” (p. 34). Se, por um lado, sua von­tade enér­gica e deter­mi­nada res­ponde às inda­ga­ções do(s) sábio(s) do Ecle­si­as­tes (por exem­plo: Ecl. II, 22 Quid enim pro­de­rit homini de uni­verso labore suo et afflic­ti­one cor­dis, qua sub sole labo­ra­vit? — na ver­são online da Vul­gata), propondo-lhe uma reso­lu­ção prá­tica, por outro, as ladai­nhas e outras supers­ti­ções infan­tis (“Repe­tiu uma ora­ção da infân­cia […] e sentiu-se leve, repleto de terna ale­gria” — p. 52) lhe ser­vem de anto­lho espi­ri­tual, osci­la­ção que retrata o equi­lí­brio ins­tá­vel da fé cons­tan­te­mente aba­lada. E estes são ape­nas pre­nún­cios aos efei­tos ator­do­an­tes da parte V da his­tó­ria, ápice das agru­ras vivi­das (na carne, vale dizer) por padre Sérgio.

Por mais dis­ci­pli­nado e dedi­cado que seja, a novela parece afir­mar que não há cris­tão (quiçá “ser-humano”…) que suporte o peso dos con­fli­tos impos­tos por sua cons­ci­ên­cia, sobre­tudo quando ten­si­o­na­dos entre os polos soci­e­dade e reli­gião. Assim reco­nhece Kas­sátski (ou ainda Sér­gio), já exausto (mas não entre­gue): “Não há Deus para aque­les que, como eu, vivem para a vai­dade humana.” (p. 100) — em tom de ele­vada auto­cons­ci­ên­cia. Não por acaso, é o pró­prio Tols­tói (na carta ao Sínodo) que des­taca uma pas­sa­gem do evan­ge­lho de Matheus (6, 5–13) para jus­ti­fi­car sua aver­são a qual­quer deter­mi­na­ção dou­tri­ná­ria. Coin­ci­den­te­mente, o Deus do autor e da per­so­na­gem tal­vez exista ape­nas longe das exi­gên­cias do mundo. A solu­ção final da novela pareceu-me menos um enfra­que­ci­mento nar­ra­tivo do que um escape da morte. É pre­ciso con­ti­nuar vivendo (como foi pre­ciso a Kas­sátski), cada um a sua maneira, com sua pró­pria cons­ci­ên­cia. Ainda que a morte insista em bater à porta, com os mais diver­sos acompanhantes.

Tolstói

Segundo o wiki­pé­dia, essa é a única foto­gra­fia colo­rida do escri­tor, tirada em 1908 em Iás­naia Polyana (sua vasta pro­pri­e­dade rural), por Prokudin-Gorskii, pio­neiro da foto­gra­fia colorida.

Como de cos­tume, a fama exce­dia os fei­tos” (p. 67–8), diz um período dessa novela russa, e os fei­tos e a fama de Tols­tói cos­tu­mam che­gar aos exces­sos de inva­dir inter­pre­ta­ções de seus tex­tos. Dito de outro modo, não é difí­cil encon­trar quem queira “ler” (melhor: inter­pre­tar) a obra do autor russo como reflexo sor­ra­teiro e ime­di­ato dos atos do homem que a escre­veu. Seria tolice que­rer negar que um autor leva con­sigo as idéias de sua época e seu país, porém parece ainda mais tolo tomar como mero regis­tro auto­bi­o­grá­fico, pura e sim­ples­mente, a rea­li­za­ção artís­tica de qual­quer escri­tor, mais ou menos ator­men­tado. Obra e vida, texto e autor de carne-e-osso devem ser sepa­ra­dos quando se pre­tende ana­li­sar aquele — e não esse. Em minha parca opi­nião, acho que não é fácil falar de Tols­tói, cuja vida, cheia de idas e vin­das, tende (quase que ine­vi­ta­vel­mente) a ser olhada atra­vés de seus tex­tos. Mas, creio tam­bém que esse movi­mento é natu­ral, natu­ra­lís­simo: à pri­meira vista, parece deve­ras ins­ti­gante encon­trar uma pista, em obra tão pro­lí­fica, que ajude a elu­ci­dar os mean­dros de uma pes­soa cuja vida parece tão enig­má­tica e, ao mesmo tempo, tão reles, tão de carne-e-osso como a nossa. Eis que surge a per­gunta: ao se ana­li­sar uma “obra lite­rá­ria”, com que se está deve­ras pre­o­cu­pado — com os tex­tos ou com a pes­soa (seus docu­men­tos, seu ves­tuá­rio, sua ali­men­ta­ção cotidiana)?

Texto citado:

Tols­tói, L. Padre Sér­gio. Trad. Bea­triz Mora­bito. São Paulo: Cosac Naify, 2001.

P.S.: Pra não dei­xar com­prido demais, fica prum pró­ximo texto comen­tar outra lei­tura recente: Anna Kari­ê­nina.

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Comentários

Há 4 comentários.

  1. PH escreveu:
    23 de março de 2010

    Alex, como é bom vol­tar a ter, nas terça-feiras pela manhã, a expec­ta­tiva de encon­trar um novo texto seu publi­cado. E o de hoje, em espe­cial, foi pri­mo­roso. Muito bom este recurso que você usou, para entre­la­çar dois aspec­tos de sua aná­lise: a obra em sim mesma, com a vida do autor — cul­mi­nando em uma refle­xão “meta­lin­guís­tica” que evita (ou se pro­põe?) mes­clar idéias do texto e as expe­ri­ên­cias do pró­prio autor. Eis um texto de ele­vado pro­pó­sito espi­ri­tual, com ques­ti­o­na­men­tos legí­ti­mos, sem res­pos­tas pron­tas. Por fim, o res­gate da foto colo­rida do Tols­tói foi um pequeno pre­sente para fina­li­zar a frui­ção. Fico feliz em ver que vc está em plena forma, aliás, melhor ainda! Para­béns por este texto de grande enver­ga­dura! Abs. PH

  2. Mário Neto escreveu:
    23 de março de 2010

    Uma ótima aná­lise da obra, Ale­xan­dre, e os ques­ti­o­na­men­tos finais sobre a com­plexa rela­ção entre autor, obra e auto­bi­o­gra­fia foram muito bem enca­mi­nha­dos, aler­tando para o risco de redu­ci­o­nis­mos e deter­mi­nis­mos variados.

    Men­ção a esta inci­siva refle­xão sobre vida-e-morte:

    É pre­ciso con­ti­nuar vivendo (como foi pre­ciso a Kas­sátski), cada um a sua maneira, com sua pró­pria cons­ci­ên­cia. Ainda que a morte insista em bater à porta, com os mais diver­sos acompanhantes.”

  3. Leosfera escreveu:
    28 de março de 2010

    Boa, Alê!

    Taí um autor que eu ainda pre­ciso abordar…

    Sua rela­ção com reli­gião é bem pecu­liar, e ele é tomado como “dou­trina” pelos cristãos-libertários. Quando eu li sobre isso, até com­prei o “O Reino dos Céus Está em Você”, que um dia des­ses eu espero ler. Claro que tem a obra fic­ci­o­nal tam­bém, que o con­sa­grou afi­nal, que merece uma visita. É que ulti­ma­mente tenho lido mais não-ficção…

    Só não entendi que você atri­bui o livro à 34 e à Cos­sac Naif.

  4. Alexandre Piccolo escreveu:
    28 de março de 2010

    Bem obser­vado, Léo, o volume é mesmo da Cosac, erro meu men­ci­o­nar a 34. Cor­rijo já. E curti a dica de lei­tura, enri­quece o post de modo geral: entrou já pra minha lista.

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