— Artigo por Mário Neto, em 25 de março de 2010
Este é o primeiro texto de uma série de crônicas, ensaios e artigos que pretendo escrever sobre Erico Verissimo, explorando seus diversos momentos, facetas e obras em capítulos razoavelmente autônomos. Vejamos onde isto me leva. As referências para as citações irei incluir em breve usando notas de rodapé.
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Corria o ano de 1938, e Erico Verissimo tinha pouco mais de trinta anos. Morava em Porto Alegre e trabalhava como redator de revista para a Editora Globo. Casado, dois filhos pequenos, vivia com parco salário. Para complementar a renda, colaborava com o Correio do Povo — jornal porto-alegrense — e traduzia livros do inglês. Paralelamente, durante noites e sábados, escrevia romances. Já havia publicado alguns até então: Clarissa, Caminhos cruzados, Música ao longe e Um lugar ao sol. Eis que vem Olhai os lírios do campo.
O sucesso de vendas foi imenso, para espanto de José Bertaso, velho dono da Editora Globo que “recusava dar crédito aos pedidos que chegavam de centenas de livrarias de todo o Brasil”. Não acreditava que “um escritor gaúcho fosse capaz de produzir um livro vendável”. Mas José Bertaso aceitou de bom grado o engano. Os pedidos não paravam de chegar, e Erico começava a “ganhar direitos autorais mais altos”. As vendas de Olhai alavancaram também os demais romances, a ponto de Erico poder “determinar a fonte do dinheiro” com que compravam os apetrechos da casa: “A estante de livros? Caminhos cruzados. A mobília do quarto de dormir? Olhai os lírios do campo. O tapete da sala de jantar? Gato preto em campo de neve”.
Mas além dos ganhos financeiros, a publicação de Olhai teve um efeito imprevisível: Erico tornou-se um escritor muito conhecido, quase uma celebridade. Recebia cartas diariamente, muitas pedindo conselhos, e gostava sempre de respondê-las pessoalmente. Outras pessoas apareciam em seu escritório e expunham suas dificuldades verbalmente, “em geral de ordem sentimental, moral ou financeira”. Em 1940, numa viagem a São Paulo, foi convidado pelos irmãos Saraiva para uma sessão de autógrafos. Cético, questionava-se: dar autógrafos “a quem?”. Temia que não houvessem interessados em sua assinatura. Qual não foi sua surpresa ao constatar que “muito antes da hora marcada para o princípio da sessão, formou-se uma longa fila que começava na metade da quadra e estendia-se até a mesa junto da qual me encontrava.” Mas nada disso era mais curioso — para não dizer perturbador — do que as constantes visitas de turistas à sua casa em Porto Alegre, algumas chegando sozinhas, outras em ônibus lotados, apenas para poder vê-lo ou trocar poucas palavras. A casa de Erico havia se transformado em ponto turístico obrigatório de Porto Alegre.
É por essas e outras que, no prefácio de Olhai escrito em 1966, 28 anos após a publicação da primeira edição, Erico fez um rápido balanço: o livro havia operado “uma mudança considerável” em sua vida, e foi a partir de então que pôde “fazer profissão da literatura”.
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Cruz Alta, 1928. Erico morava na cidade em que havia nascido, crescido e estudado. Lá, vivia muitas dúvidas sobre o que deveria fazer, tinha vinte e poucos. Era sócio de uma farmácia, mas reconhecia ser um péssimo homem de negócios. Como esportista, sentia-se uma negação. Gostava de desenhar, mas concluía que “jamais seria um bom desenhista, isto é, um criador”. Erico depositava suas esperanças nas letras, e a autocrítica mordaz o impelia à ficção: “já chegara à conclusão de que me faltava talento para a poesia e carecia de cultura para o ensaio. Restava-me tentar a ficção”.
Erico escrevia contos, quase sempre atrás do balcão da farmácia. Preferia “ler ou fazer literatura atrás do balcão a vender remédios ou discutir com fregueses suas dores, disenterias, tosses ou blenorragias”. (Ironia do destino: anos após, Erico receberia com frequência pessoas em sua casa para ouvir e discutir suas dificuldades…) Gostava de manter suas produções literárias em segredo. A mãe insistia para que publicasse no jornal local, mas Erico “repelia aquela ideia quase indignado. O literato nas cidades pequenas sempre foi uma espécie de ‘idiota da aldeia’, sujeito olhado com certa ironia e piedade pelos homens ‘normais’, espécie de bicho ridículo e inútil”. Com isso, ele “insistia em apenas traduzir. Era uma atitude de caramujo”.
Até que, numa manhã quente em fins de 1930, enquanto fazia a barba, Erico tomou uma decisão e comunicou sua mãe. 1
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— Resolvi ir a Porto Alegre — disse eu à minha mãe.
— Fazer o quê? — perguntou-me ela, cessando de pedalar por um momento a máquina de costura sobre a qual estava encurvada.
— Vou tentar ganhar a vida como escritor — murmurei, apenas semiconvencido de que isso fosse mesmo possível.
D. Bega lançou-me um olhar de alarmada surpresa.
— Escritor? — repetiu.
— Bom… sei que essa profissão ainda não existe no Brasil. Mas que diabo! Não custa tentar. Não tenho a menor vocação para o comércio. Posso arranjar emprego num jornal, traduzir livros, colaborar em revistas…Um dia, quem sabe…
— Bom, se tu achas… — começou ela. Mas calou-se. A expressão de seus olhos disse o resto.
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Erico confessa: “A decisão de deixar Cruz Alta era de natureza intelectual. Emocionalmente eu queria ficar.” Mesmo assim, dois dias depois, com dinheiro emprestado do tio e máquina de escrever portátil emprestada do futuro sogro, partiu para Porto Alegre com uma “roupa no corpo e outra na mala”. Mal desconfiava do que viria se tornar.
Há 5 comentários.
PH escreveu:
25 de março de 2010
Caramba, Mário. Esse texto é uma franca provocação, não é? rss… Depois de nossas conversas, você vem com este texto límpido, gostoso… e justamente sobre o sucesso editorial de um “amador pretencioso” que, com um trabalho calado e constante, conseguiu atingir aquele “turning point”, que o transformou em um escritor profissional de uma vez por todas. Será este texto um registro indireto de sonhos semi-confessos dos velhos patadianos e novos piparoteanos? Aliás, Mário, por falar em profissionais da escrita, seu estilo continua ótimo, texto sempre fluente, delicioso de ler. Por fim, pra não me alongar muito, achei hilária a definição do Érico Veríssimo sobre a figura do literato de pequenas cidades. Definição precisa…rss… É este o desafio de todo escritor: dar um salto desta posição de rídiculo-inútil-sonhador, para alguém que consegue gerar riqueza, conhecimento e sonhos em outras pessoas, através de seus escritos. Baita desafio que o Érico Veríssimo conseguiu suplantar! Parabéns pelo texto e boa sorte para todos nós neste desafio que (já) começou!… Quer vc queira ou quer não… ;^)…rsss.… Abraços meu amigo! PH
Alexandre Piccolo escreveu:
25 de março de 2010
Belíssimo texto, Neto! Pelo andar da carruagem, vai ser mais fácil ler sobre a vida do Erico aqui em seus relatos do que no “Solo de Clarineta”. Gostei bastante da fluência, dos excertos escolhidos, dos episódios alinhavados quase que ao acaso, muito bom mesmo. Difícil arrumar maneira mais saborosa de aproveitar essa “jornada pelos pampas”, hein?!, lendo e relendo as impressões de vida bem dosadas desse gaúcho, cuja obra é preciso aproveitar. Quiçá a ironia que perpassa a vida de Eugênio, em “Olhai os lírios do campo”, se aproxime daquela que viveu Erico, ouvindo (um médico, outro farmacêutico) os pacientes variados em seus reclames intestinais, do âmago da vida… — e tenha ajudado o gaúcho a aprender a viver. Excelente texto, que outros mais acompanhem-no!
Dorly Neto escreveu:
26 de março de 2010
Essa história representa a busca por um sonho, acima de qualquer barreira física ou emocional. A busca pelo sonho precisa ser vislumbrada para além dos limites, além das barreiras que nós mesmos nos impomos diariamente, através da segurança de uma vida alienada.
Coloco-me no lugar do Erico, com 20 e poucos anos, para tomar a decisão da sua vida: se tornar, ou não, um dos maiores literatos do Brasil. Seria interessante saber se ele tinha essa consciência, se passava de algum modo em sua cabeça essa ideia ao comunicar que iria para Porto Alegre.
No mais, ótima história Mário, xará de Neto =)
Leosfera escreveu:
27 de março de 2010
Boa, Mário. Um texto biográfico sempre vai bem. É bom vermos a dureza em que grandes escritores entrarm na lide literária (por exclusão!), para deixar de ficar reclamando de “falta de inspiração” ou repetindo “se ao menos eu tivesse o dom!”
Isso aí, vamos ressussitar esse projeto tão bonito. Às letras, camaradas!
Brunno escreveu:
17 de maio de 2010
Grande Mário, mais um belo texto de sua lavra. Pouco conheço da história de Erico Veríssimo. Aliás, pouco conheço sobre os escritores gaúchos e sua literatura (e estou ciente de que estou perdendo muita coisa boa, até o momento). Por isso, aos poucos vou “beliscar” aqui e ali um livro… Erico, talvez por ser o mais conhecido (por mim), é o primeiro da lista.
Assim que li seu texto, tive uma lembrança: uma amiga minha, que há anos atrás também foi morar no Sul (Rio Grande, quase Uruguai), logo depois que se estabeleceu nos pampas, contou-me que estava a ler “Olhai os lírios do campo”. É interessante esse “convite à imersão” que vocês dois me parecem ter aceito através dos livros de Erico.
Grande abraço!
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