Mais um (enfadonho?) texto sobre uma nova casa

Artigo por , em 13 de março de 2010

Com­pa­nhei­ros e (futu­ros?) leitores.

Vou con­fes­sar que isso aqui tá pare­cendo o iní­cio da aPa­tada, nos idos de 2002. Era um tal de tes­tes de deva­neios aqui, exer­cí­cios na madru­gada acolá, tudo para tes­tar o velho e efi­ci­ente sis­te­mi­nha de publi­ca­ção e, prin­ci­pal­mente, afiar os tecla­dos, em tex­tos de aque­ci­mento, de pau­la­tina inauguração.

Agora vejo - 8 (oito!) anos depois - esta mesma movi­men­ta­ção, este bur­bu­ri­nho de mudança, só que para uma nova casa, junto com os anti­gos mora­do­res. Cons­tato que esta­mos enfer­ru­ja­dos, ainda não velhos, mas bem mais velhos que naquele tempo.

Com reser­vas, jus­ti­fi­ca­das ou não, cá nos reen­con­tra­mos. Ainda meio sem jeito no tato e na escrita. O teclado já não fun­ci­ona tão bem como exten­são do cére­bro e os pedi­dos de des­cul­pas vêm a pri­ori, com ou sem reforma ortográfica.

Agora sabe­mos, mesmo sem que­rer, que a pro­posta é séria e que o pata­mar do desa­fio mudou. Nós sabe­mos esta­mos em busca de um tempo per­dido que pas­sou rápido demais e que, agora, não somos mais jovens tolos na faixa dos 20 e pou­cos anos. Mas homens tolos, nas fai­xas dos 30 e poucos.

Sabe­mos que vamos, no mínimo, tentar bus­car a forma de outrora, quando jogá­va­mos entro­sa­dos e com pique, cri­a­ti­vi­dade e velo­ci­dade. Mas, agora, não somos mais ama­do­res despretensiosos. Somos ama­do­res pre­ten­si­o­sos, mesmo sem admi­tir que esta volta poderá tra­zer con­se­quen­cias con­cre­tas para nos­sas vidas e espíritos.

Aban­do­na­mos a aPa­tada por moti­vos pessoais, profissionais e de rela­ci­o­na­mento. Mas man­ti­ve­mos a cer­teza, por expe­ri­ên­cias próprias, que o exer­cí­cio da escrita, com dis­ci­plina e método, é uma ação legí­tima, que nos per­mi­tiu criar um movi­mento com resul­ta­dos bri­lhan­tes. Sim, pro­du­zi­mos gran­des tex­tos como O Adu­la­dor Pro­fis­si­o­nal, Na casa do Bor­ges, Notas sobre o tor­rão de açú­car e o café e Como Dumbhold mudou o mundo.

Então, por mais tímido que seja este reco­meço, somos cien­tes que deve­mos, para nós mes­mos, a reto­mada de uma pro­du­ção séria, legí­tima e, se pos­sí­vel, bem suce­dida. Tudo mudou, cres­ce­mos, nos­sas vidas muda­ram, novas cida­des vie­ram, títu­los aca­dê­mi­cos, publi­ca­ções téc­ni­cas, resul­ta­dos comer­ci­ais. A web se com­pli­cou, tem mais audiência, os recur­sos são mais com­ple­tos, cha­tos e melindrosos. E nos­sos espí­ri­tos, no mínimo, mais complexos.

Então, a hora che­gou. Pre­ci­sá­va­mos deste re-projeto, por diver­sos moti­vos, que calhou numa con­ver­gên­cia sín­crona, sem que­rer ape­lar para misticismos-psicanalíticos fáceis. Então, já que esta­mos aqui, mãos à obra. No curto prazo, tere­mos novas pata­das e opor­tu­ni­da­des vali­o­sas de rea­pro­xi­ma­ção. E, no longo prazo, sal­dar com nós mes­mos uma dívida de um tempo per­dido e ver se pode­mos alcan­çar aquilo que, no fundo, almejamos.

FracoRazoávelMédioBomÓtimo Ainda não há notas: dê já a sua!
Loading ... Loading ...

Comentários

Há 3 comentários.

  1. Mário Neto escreveu:
    13 de março de 2010

    Hehehe, bem lem­brado, PH. Acho que todos os (re)começos devem se pare­cer muito.

    Um bom tempo se pas­sou, é ver­dade, e “mais com­ple­xos” tal­vez des­creva bem nos­sos espí­ri­tos. Entendo por­que chama este longo inter­valo de “tempo per­dido” (sem novos tex­tos, sem o hábito da livre escrita, sem a publi­ca­ção e as con­sequên­cias disto), mas acre­dito (e não é ape­nas um jogo de pala­vras) que tam­bém existe a arte de silen­ciar, “o tempo de depu­ra­ção” de que fala Drum­mond, o are­ja­mento, o dis­tan­ci­a­mento, a rea­va­li­a­ção. É claro, é pos­sí­vel “are­jar” e “depu­rar” enquanto se escreve, não são exclu­den­tes. Mas de minha parte, não fica qual­quer sen­ti­mento de culpa pelo silên­cio. Muita coisa boa acon­te­ceu, outras nem tanto, e se somos mais com­ple­xos deve­mos muito a isso. Sei que não digo novi­dade, ape­nas enfa­tizo a impor­tân­cia do tempo que passou.

    Não sei quais cami­nhos o pipa­rote irá tomar, mas sem dúvida já me sinto feliz de reto­mar o velho hábito, de com­par­ti­lhar o espaço com tanta gente bacana. Tam­bém não sei se tenho tan­tas pre­ten­sões que não a de con­ti­nuar escre­vendo e, mais impor­tante, lendo. Mas estas dúvi­das são natu­rais, e quem sabe o tempo me ajude a respondê-las.

    Enfim, é ótimo lê-lo novamente.

  2. Alexandre Piccolo escreveu:
    16 de março de 2010

    Grande Paulo (o oxí­moro da sau­da­ção é um mero acaso eti­mi­ló­gico — chamá-lo “pro­po­si­tal” seria mania de grandeza…),

    É muito bom poder ler seu(s) texto(s) nova­mente, agora num “novo espaço velho” ou “velho espaço novo” — muta­tis mutan­dis, um “museu de novi­da­des”, pra empres­tar a feliz expres­são da música do Cazuza. Sua prosa fácil parece escrita de sope­tão, lím­pida, fluida, gos­tosa de ler. Quem per­deu o jeito, pelo jeito, não foi você…?! rsrsrs… Para nós outros, con­tudo, é um espaço para desen­fer­ru­jar e, quem sabe, pro­du­zir algo do naipe dos tex­tos elencados.

    Enfim, essa e outras “pro­du­ções”, que aca­ba­mos por dei­xar gra­va­dos aqui e acolá, ao mesmo tempo per­mi­tem que exer­ci­te­mos nossa “vã tolice” (não importa a idade…) por escrito (recor­dando a pun­gên­cia da per­gunta de Rilke: “mor­re­ria, se me fosse vedado escre­ver?”) e docu­men­tam nossa pró­pria pas­sa­gem pelo tempo (os 20-e-poucos anos teriam sido mais vazios sem eles…?!), ao cum­prir esse papel de “caça­do­res do tempo per­dido”, que tanto recorda o pas­sado quanto parece gra­var o pre­sente momen­tâ­neo. O com­pro­misso… bem, o com­pro­misso pode ser o mesmo (“ou não”, diria o cha­vão do nosso tempo) e, no fim, essas pro­du­ções nos aju­da­rão a res­ga­tar a pas­sa­gem desse tempo tão impla­cá­vel. Tal­vez tenha sido isso que per­cebi (ou “quis per­ce­ber”…) lendo seu texto, diva­ga­ções tão com­pro­mis­sa­da­mente descompromissadas…

    Gos­tei da expres­são “ama­do­res pre­ten­si­o­sos” (dá boa tônica à fase pós-incendiária) — ou seria melhor “pre­ten­si­o­sos ama­do­res” — afi­nal, quem adje­tiva quem — e com que inten­si­dade? Bem, pra se pensar…

    Enfim, com sua par­ti­ci­pa­ção e de velhos e novos cola­bo­ra­do­res (suges­tões?), tomara que esse pro­jeto siga em frente: alea iacta est!

  3. Andrés escreveu:
    16 de março de 2010

    Como homem tolo de 45, posso dizer: cui­dado com os silên­cios. Cui­dado com as des­cul­pas que jus­ti­fi­cam nosso afas­ta­mento daquilo que acre­di­ta­mos, no mias íntimo do peito, ser nossa mis­são, aquilo que dá algum sen­tido à nossa pas­sa­gem ter­res­tre. Pre­ten­si­osa ou des­pre­ten­si­o­sa­mente, cito Séneca: “Entre pos­ter­ga­ção e pos­ter­ga­ção, a vida pasa”. Ta na pri­meira das Car­tas a Lucí­lio, e é uma exor­ta­ção diri­gida a um homem bri­lhante e bem suce­dido, que reluta em abra­çar a vida con­tem­pla­tiva.
    Espero ler mais.

Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.