— Resenha por Alexandre Piccolo, em 30 de março de 2010
Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombra e de luz. (p. 56)
Não foi fácil ler Anna Kariênina, é preciso confessar. No princípio, a ausência de um fio condutor único na história deixou-me disperso. Os relatos sobre a agricultura e o campesinato russos (na parte III, por exemplo) pareciam contribuir para um progressivo desinteresse. A frágil marcação do tempo no romance retardava ainda mais cada expectativa. Demorei a me habituar ao entrelaçamento das duas histórias familiares e a frui-lo a contento. Uns poucos amigos, cujas “readings in progress” partilhamos, ouviram-me os reclames. Olhando para trás, semanas depois de terminada a leitura do romance, percebo a “má influência” que os deleites dO Conde de Monte Cristo (lido anteriormente, tema pra outro texto…) exerceram na apreciação do texto russo. Contudo, todos os entraves desse tolo desabafo acabaram por se revelar menores ou insignificantes ante o impressionante impacto do final da parte VII: o suicídio de uma personagem em visível atordoamento.
Diz um clichê que o amor não mede esforços e, se preciso, leva tudo às últimas consequências. Contudo, seria injustiça rotular as fronteiras ultrapassadas no romance de Tolstói como mero clichê, ainda que o texto opere com tensões há milênios consagradas. Por exemplo, as agruras excruciantes de amor e ódio, tão próximas ao momento derradeiro de Kariênina, saltam à vista. Diz o autor: “E onde termina o amor, começa o ódio.” (p. 746) — e, na página seguinte, a dupla antitética reaparece: “como ela amava e odiava Vrónski”. Essa encruzilhada amorosa, que se persegue sem saber os porquês, recordaram-me a arte lapidar de Catulo, em seu brevíssimo poema 85 (odi et amo). A impressão desse suicídio foi tamanha que, terminada a leitura, ficamos (Fá e eu) a lembrar e divagar sobre outros suicidas ficcionais: Dido1, Píramo e Tisbe, Romeu e Julieta, Werther, Svidrigáilov…2
Rubens Figueiredo, tradutor do romance para o português, nos revela o evento que teria inspirado Tolstói: o suicídio de uma amante de um vizinho do escritor, também chamada Anna. Além dessa confluência entre vida e obra, por vezes tão difícil de separar, lemos também na apresentação do volume publicado pela Cosac Naify sobre as dificuldades de Tolstói para prosseguir e arrematar o romance, que chegou a ter outro título. Que Anna Kariênina fora primeiro publicado em partes ou “fascículos” numa revista russa3, facilmente se percebe pelo tamanho notadamente regular de cada capítulo. E como falamos do tradutor, a tradução, por sua vez, merece os elogios não só pelo fôlego da empreitada, mas também por explicitar ao público-leitor alguns de seus critérios norteadores (como a preservação das frases longas, das repetições lexicais, da sintaxe arrevesada), o que patenteia a sensibilidade tradutória da obra. A sutil mudança do título, mais que simples alteração na convenção que translitera o russo ao português, dá pistas dessa versão sensível.
Tão impressionantes quanto esse grand finale me pareceram as crises filosóficas por que passa Liévin, alter ego de Tolstói no texto. Suas reflexões (de quem? eis a difícil separação…) acerca da morte, respingadas aqui e ali, não são jamais banais e pressagiam a pungência da fase “mais madura” (como no inesquecível Ivan Ílitch):
(…) todo esse nosso mundo não passa de um pequeno bolor que cresceu na crosta do planeta. E pensamos que pode haver em nós algo de grandioso, ideias, obras! Tudo isso são grãos de areia. (…) Quando você compreende que vai morrer qualquer dia desses e não vai restar nada, tudo se torna tão insignificante! (…) Assim, a gente vai passando a vida, se distrai com a caça, com o trabalho, só para não pensar na morte. (p. 374)
Páginas atrás, o próprio narrador proclamara essa ideia fixa da personagem: “Os pensamentos de Liévin eram os mais variados, porém o fim de todos os pensamentos era um só: a morte.” (p. 346) A vingança e a recompensa divinas, a que o incipit do romance alude (Deut. 32, 35), não só soam “humanas, demasiado humanas” no vagaroso desenrolar da história, como parecem lentamente se aproximarem, se tocarem e se fundirem num destino único e inexorável, indiferente aos caminhos pelos quais chega a morte. Se as famílias felizes se parecem, mas não as tristes, como propõe o período inicial tão célebre, essa morte implacável surge como elemento comum que efetivamente arrasta todos, sem exceções, aos lamúrios do Orco. Assim, bastaria dizer (indiretamente) que não há famílias parecidas — cada uma é sempre única em seus derradeiros sofrimentos.
“Com aquela atenção à leitura que só os solitários conhecem” (p. 631), a sombra e a luz, de algum modo, simbolizaram no desenrolar da leitura (confessadamente difícil) os extremos das impressões que vivenciei ao ler o romance. Tendo cruzado a meia-luz, as sombras, os obscuros recônditos das percepções humanas, de repente, por um postigo, chega-se às luzes, claras, vivas, intensas — curiosamente trazidas pela narração da morte. Verdadeiro estrondo. Como as lembranças, aos poucos, se arrefecem, empalidecem e, esmaecidas, às trevas retornam.
Texto citado:
TOLSTÓI, L. Anna Kariênina. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
Há 6 comentários.
PH escreveu:
30 de março de 2010
Mais um profundo texto, Alex. Relaciona vida e obra do autor (olha aí de novo…), com temas como morte, amor e ódio. Suponho que o texto, de certa forma, reflete a complexidade do livro (que ainda não li e, pelos seus comentários sobre a aridez desta obra, deve ficar para daqui alguns anos).
Mário Neto escreveu:
30 de março de 2010
Outra bela análise, Alexandre, porém esta com um pouco mais de sua presença nas impressões e sobre a leitura da obra em si, o que me agradou ainda mais. Lembro de ter começado a ler “Anna Karênina”, de uma dessas coleções de clássicos, e acabei empacando já no segundo capítulo. Creio que não tinha espírito para a leitura naquele momento, e talvez ainda não o tenha.
De qualquer forma, lendo sua análise reconheço a constante referência à morte presente também em “Ivan Ílitch” e “Senhor e Servo”, dois textos cujas imagens me marcaram e permanecem até hoje. Tolstói parece ter este poder de construir cenas fortes e memoráveis…
Por fim, a referência a outros suícidios de personagens na literatura me deu vontade de ler mais a respeito. Fica aí uma dica para você, quem sabe escrever algo mais sobre isso.
Lucy escreveu:
7 de abril de 2010
Que texto gostoso de ler! Despretensioso e fluente, embora fale de Tolstói…
Meu début na literatura russa se deu por meio de ‘sonata a Kreutzer’. Eu tinha uns 16 anos (faz tempão, hein?) e comecei a ler a obra por causa do título, que faz referência a um peça de Beethoven: a sonata n. 9, para violino e piano, a minha favorita. Essa peça tem uma história fantástica. Ela é fantástica. Inconstante e perturbadora, mas fantástica (por Zeus, eu já disse isso…).
Se vc ouvir a sonata com atenção, entenderá porque o mestre russo a escolheu para nomear sua novela.
Enfim, o tema do ‘amor e ódio’ também está presente, de certa forma, em ‘sonata a Kreutzer’. E o ‘pessimismo’ típico do autor também não fica de fora.
Aliás, em grande parte das obras de Tolstói, parece-me que ‘amor e ódio’ mantém uma relação muito forte e estreita com ‘matrimônio e morte’.
Aí fica difícil ser otimista, não é, não?
Brincadeiras (sem graça) à parte, virei fã do blog de vcs!
ósculos e amplexos
Alexandre Piccolo escreveu:
7 de abril de 2010
Curti muito a dica, Lucy. Tava ensaiando pra ler a ‘sonata a Kretzer’ e agora vou poder fazê-lo tendo já conhecido o pano de fundo que você apresentou.
Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.