— Artigo por Leonardo Afonso, em 19 de março de 2010
Lula visitou Cuba já faz um tempo, mas a oposição brasileira faz tudo para tirar o máximo do episódio. Lula por sua parte não contribuiu nada com suas declarações, e esta postagem poderia muito bem se chamar Cala a boca Magda Redux. Sei que resolvi meter minha colher nesse grude, e já estou vendo eu sair lambuzado, mas vejamos.
Os críticos do regime castristas adotam o discurso e o ponto de vista dos Estados Unidos, o senhorio que foi despossuído em 1959, e preferem ignorar que a Revolução representou, no mínimo, a transferência da posse da ilha dos americanos (e elite local) para os cubanos como um todo. Houve resultados impressionantes pelo menos em educação e saúde, universalizadaos, analfabetismo erradicado e por aí vai. Houve problemas de desabastecimento, que em grande medida podem ser creditados ao embargo imperialista. E sempre houve os que discordassem, com os quais o regime sempre lidou no modo tradicional das ditaduras. Até que ponto isso seria “inevitável” no ambiente de conflito que açulado desde os EUA, é matéria de debate. Não há liberdade de imprensa e paira uma sensação de vigilância. Qualquer esquerdista, por mais que defenda os Castro, tem que reconhecer isso.
Há uma discussão que cabe aqui: a democracia-institucional-liberal-burguesa-iluminista é o bem supremo a ser perseguido, mesmo quando sirva de máscara para uma plutocracia que mantém uma parcela da população na indigência (como é o caso da nossa)? É a pergunta que Serra lança em seu artigo, já respondendo: não queremos justiça social a custo da democracia. Bem, essa pergunta deveria ser feita aos cubanos; eu mesmo nunca ouvi falar de enquetes, se são sequer permitidas ou não. Mas tomemos um caso bem afim: a Venezuela, sede — a crer na mídia — das maiores ameaças à democracia, apresentava índices de aprovação da democracia pátria bem maiores que os brasileiros.
A questão é: vemos o regime comunista cubano tornar-se algo anacrônico, apresentar sinais de desgaste com a saúde frágil de Fidel, mas a abertura que parecia natural ficou em suspenso. Temos o fator do ego de Fidel, de ditador latino, influindo: seu projeto era sinceramente de libertação e melhoria social, mas um projeto de poder pessoal todo o tempo. O que nos faz crer que só sua morte trará a détente. A pergunta que vem à mente é: o fim da ditadura e a adoção de “frescuras” burguesas como eleições pluripartidárias, destruiriam as conquistas sociais? Não é possível construir um país a partir daqui? Com o povo escolhendo no voto seus caminhos? O que os comunistas fazem estendendo o regime é garantir uma reação conservadora quando se romper a represa autoritária.
E nosso presidente, por mais que se entenda sua amizade pessoal com os irmãos Castro, suas posições a que tem todo direito (afinal, foi eleito por um partido nominalmente de esquerda), deveria ter sido mais diplomático ao reagir à morte do preso político Zapata, por greve de fome, quando o comparou a bandidos comuns, e mesmo menosprezando uma morte. Há sempre aquela baboseira de não-intervenção em assuntos internos — que vale quando interessa, em Honduras não valia — mas o que há de fato é uma política de alianças. E Cuba é um aliado, e um aliado de peso quando se trata de mineiramente minar a hegemonia americana no hemisfério, surgindo como um contrapeso. Nesse caso, o dicurso oficial é de apoio ao governo instaurado — o que não incomoda a mídia quando se trata da ditadura chinesa ou dos maiores violadores dos direitos humanos do planeta — mas nada obriga Lula a fazer pouco dos dissidentes. Poderia muito bem afirmar que Cuba tem seus problemas internos sérios, que esperamos que sejam resolvidos da melhor forma, etc. um bla-bla-bla bem manjado e insípido, ou seja, diplomático.
O Brasil deve ficar esperto, e certamente Lula e Amorim o sabem, para ser protagonista na inevitável abertura cubana, ocupando espaços de modo a evitar a reincorporação do antigo bordel dos gringos. E é aí que Lula poderia ter dado a cartada de mestre: poderia ter ido além dos panos quentes e domado a situação em seu proveito (harness): afirmando abertamente a disposição de mediar o diálogo na ilha rumo a uma transição pacífica — que mesmo Raul e Fidel certamente já veem com bons olhos — conservando as conquistas socialistas, mas com mais liberdade política. E por esse caminho Lula poderia chegar mais fácil a seu tão sonhado Nobel da Paz: a paz no Oriente Médio não está a seu alcance.
Há 4 comentários.
PH escreveu:
19 de março de 2010
Leo, proposta de texto ousado. Acho que discordo de alguns pontos da sua análise, mas eu só falaria pessoalmente e compartilhando uma garrafa de Bohemia contigo. Seria mto mais legal do que um estático comentário por aqui, pois aproveitaríamos e colocaríamos o papo em dia! Mas o que eu quero dizer é: é muuito bom reencontrá-lo! Um abração, PH.
Alexandre Piccolo escreveu:
20 de março de 2010
Bom retorno, Léo?! Com toda a verborragia ácida, ágil, atirando firme e forte para todos os lados, com muita competência linguageira (é bom que se diga), sem cabrestos lógicos, antolhos retóricos, nem freios temáticos — é bom lê-lo novamente (agora nessa “nova casa”): bem vindo de volta!
Mário Neto escreveu:
20 de março de 2010
Muito bom, Léo! Primeiro, ótimo ver uma reflexão sobre política, tema tratado com desdém por alguns ou com o clássico maniqueísmo pelas mídias hegemônicas. Segundo, por vê-lo tratar de assunto polêmico sem papas na língua. Terceiro, por apontar bem uma das fontes da polêmica na sopa de valores associados a democracia, comunismo, liberdade, justiça social, censura, etc. Dependendo das posições, há quem minimize os avanços sociais (ainda que limitados) por parte de Cuba ou a liberdade (ainda que limitada) de regimes democráticos. Por fim, creio ser impossível entender nossa (recente) fé na democracia sem olhar para nossa história, repleta de ditaduras que nos deixam sempre alerta para que nunca mais voltem a acontecer. Enfim, bem vindo!
Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.