— Conto por Leonardo Afonso, em 26 de março de 2010
Ele se sentia desconfortável naquele ambiente. Uma enorme sala de espera com gente de todo jeito, algumas crianças fazendo algazarra, e um calor medonho. Um único ventilador girava no teto, mofando de todos. Do lado direito um televisor distraía a maioria — a ele só incomodava — e no esquerdo havia um painel eletrônico que indicava as senhas chamadas. Entre os dois, uma dúzia de postos de atendimento com um funcionário de má vontade e um terminal de computador. Talvez fossem eles a provocar nele um mal-estar; não sua existência física ali, já que eram quase onipresentes, mas o fato de que estava ali justamente para prestar contas àquele portentoso sistema que nada o agradava.
Sua senha apareceu no visor, que o direcionava para a posição sete. Cuidadosamente colocou o marcador na página que lia — deu-se um tempo para concluir o parágrafo —, fechou o livro e com um suspiro ergueu-se, caminhando até a cadeira de plástico azul, enquanto um rapaz magrelo do outro lado do balcão de fórmica cinza já tocava pela terceira vez aquela campainha eletrônica irritante.
— Calma! — aborreceu-se ele.
— São tempos rápidos, senhor. (essa era a frase feita da moda, começara com uma publicidade de computadores, acho)
— E, no entanto, vocês não parecem estar chegando a lugar algum — permitiu-se uma de suas tiradas ácidas enquanto se acomodava na cadeira.
O rapaz não quis saber de sua presença de espírito:
— O que o traz aqui, senhor?
Ele pensou que irritar ainda mais o menino com uma blague circense do tipo “o ônibus me trouxe” não seria boa ideia — com toda razão.
— Olha, eu não quero nada de vocês — preferiria não estar aqui —, mas um funcionário de vocês esteve em casa me entregou este documento… aqui (tirando-o do bolso), que me ameaçava de danação eterna se eu não comparecesse.
O funcionário ergueu a sobrancelha esquerda e encetou um meio-sorriso, mais que amarelo, em resposta à ironia, estava mais preocupado (e sinceramente curioso) em ver de que documento se tratava. Sua primeira observação foi:
— Mas não há nome nenhum aqui!
— Perfeitamente, está endereçado ao “Residente”.
— Aqui diz apenas que o senhor precisa comparecer a um posto do DCCC para regularização cadastral. Isso é muito simples.
— Espero que seja, eu preciso regar as rosas ainda pela manhã.
— Tudo bem, senhor, vou consultar seu arquivo. Seu documento, por favor.
— Pois não (tira do bolso um papel com a plastificação se desfazendo).
O rapazola assustou-se e quase que gritou:
— É sem chip!
Alguns funcionários suspenderam o que faziam para olhar, chegaram mesmo perto para conferir aquela aberração.
— Sem chip, amigo, eu sou do século passado.
— Mas é obrigatório! Desde… ora, há muito tempo!
— Dez anos apenas.
— Então o senhor sabe.
— Sei.
— E não regularizou sua situação?
— A mim não faz falta…
— Tudo bem, vou fazer uma busca. Seu nome completo, por favor.
— Afonso Affonso Afonso.
— Isso é sério ou é piada, senhor?
— Aqui meu documento, pombas!
— Tudo bem, tudo bem…
— O Affonso do meio é com dois efes.
Após alguns instantes…
— Senhor, seu nome não consta no sistema, como pode?
— Você que me diga. Você quer dizer então que eu não existo?
— Hum… boa pergunta. O sistema diz que não… no entanto eu estou te vendo na minha frente.
— Eu podia ser um holograma.
— Vou chamar meu superior, senhor.
Há 3 comentários.
Mário Neto escreveu:
26 de março de 2010
Curti, Leo… Curioso que várias pistas bem sutis me fizeram imaginar uma espécie de 1984 cômico… Aguardo o desfecho. Abraço!
PH escreveu:
26 de março de 2010
Mto bom, sr Afonso! Ótima pegada do texto, intrigante. Aguardo a segunda parte, pra ver o que acontecerá com este tal de Sr. Afonso (aliás, Affonso do meio com dois efes foi impagável). Em tempo, com a volta dos dias para cada membro do Piparote, cada dia da semana tem se tornado mais agradável! Abs.
Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.