— Crônica por Alexandre Piccolo, em 7 de março de 2010
Aviso prévio: linhas enfadonhas a seguir. Não reclame fazendo-se de desavisado ou desavisada; para evitar tédio ou frustração da leitura deste texto, basta abandoná-lo já.
Escrever um texto, logo de cara, sobre o exercício da escrita é, de algum modo, justificar a inauguração do piparote. E, ao mesmo tempo, comentar o retorno de um hábito que se cultivou, anos atrás, naPatada. Claro, o presente texto não segue a mesma linha nem tampouco tem a boa fluência de alguns bons textos passados, mas é preciso ir praticando para tirar a ferrugem. Enfim, escrever semanalmente, eis a (boa) ação a ser aqui retomada, eis o hábito a ser resgatado e cultivado.
Do fim daPatada a esse início cambaleante do piparote, muitas coisas aconteceram. Foram tantas que elencá-las seria irremediavelmente frustrante, uma vez que ficariam de fora acontecimentos diversos e não menos importantes. Não que o mundo tenha passado a girar mais depressa depois do fim de um site (ninguém chegou a essa vã ilusão, por favor). Talvez uma só certeza, comum a todos: cada um carregando nas costas alguns meses a mais. Debaixo ou não de um novo céu, tudo continua a girar na velha roda de sempre (uns mais atarefados, outros mais relapsos, uns mais magros, outros nem tanto…). Contudo, uma das coisas valiosas que se perderam com o fim daPatada foi o contato frequente que mantínhamos, ainda que por meio dos textos. Já que nem sempre podíamos nos encontrar (N.B.: alguns dos colaboradores, infelizmente, nunca tivemos o prazer de conhecer pessoalmente), o texto alheio, de alguma forma, mitigava — ainda que parcamente — a distância de uma amizade, levava à tela alheia um papo amigo, não obstante sua ausência. Eis uma perda valiosa que a retomada desse exercício da escrita tenta também remediar.
Para quem passou um ou dois anos escrevendo semanalmente, ficar sem fazê-lo, de início, soa como um alívio. Espécie de prazer em não cumprir um dever de que fala Fernando Pessoa. Afinal, para que escrever toda semana? A pergunta me soa ainda mais enfática e pertinente quando relembro o conjunto de tanta baboseira que escrevi, de receitas de macarrão aos mini-hai-contos. Durante esse abandono da escrita, o tempo fugiu sem que linha alguma tenha se tornado “pública”. Da frequencia que diminui chega-se à escrita exclusivamente burocrática ou acadêmica e, quando nos damos conta, nenhuma daquelas divagações ganhou forma, nem um único texto (“despretensioso e pessoal”) foi redigido — não foi lido, debatido, nem comentado — como costumávamos fazê-lo tão pouco tempo atrás. Intriga-me que, em minha imaginação desdenhosa, retomar esse exercício de escrita rotineira soou sempre fácil (vã ilusão…), talvez como um halterofilista, há tempos sem prática, que olha para os instrumentos, com os quais tanto se exercitara outrora, e facilmente imagina os movimentos que deverá voltar a fazer, sem maiores dores ou esforços. Exercitar a escrita serve também para reforçar a ideia de que não há nada fácil num texto (sobretudo quando não se pratica regularmente tal exercício) e que alguma prática, rotineira, disciplinada, “beneditina”, possa auxiliar, senão propriamente na escrita de um texto ou outro, ao menos a deixar de lado certas ilusões.
Embora haja, por um lado, compromisso e dever nesse exercício frequente (houve já quem dissesse ser o destino do escritor…), por outro, há também recompensa e prazer… hmm… não exageremos: melhor evitar outorgar que o copo esteja meio-cheio ou meio-vazio; que cada um veja o que quiser nesse dito exercício; para falar a verdade, esse papo de “por um lado e por outro” serviu apenas para relembrar os dois gumes da velha faca (ou “os dois legumes”, segundo certos alunos do ensino médio). Enfim, o espaço aqui denominado piparote cumpre esta função: prezar pelo hábito da escrita, pelo exercício de escrever corriqueiramente — com suas inevitáveis faces, boa e ruim. Se, como diz um poeta latino (retomando uma máxima pitagórica), “tem meio feito aquele que começou”, comecemos. Desfrutemos alegrias e chatices, partilhemos agruras e convívios (mesmo distantes), inerentes à comunidade que reaviva esse velho hábito do exercício da escrita.
Há 4 comentários.
PH escreveu:
11 de março de 2010
Pois é. Não tenho nem o que falar, é isso aí mesmo. É estranho (tentar) voltar a um hábito tão desavergonhosamente praticado na aPatada, com naturalidade (isso não implica necessariamente com qualidade…rs). A comparação com o haterofilista foi ótima. Tb comparo com um cristão, que após anos de distanciamento da Igreja, sente novamente que deve tentar retomar os hábitos da oração. Ou seja, é uma questão de fé.
A propósito: vcs podem passar novamente meu login e senha?
PH escreveu:
12 de março de 2010
pô. fiz um comentário elaborado e na hora de postar, apagou!
PH escreveu:
12 de março de 2010
Ah… apareceu sim… sim… :/
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