O exercício da escrita

Crônica por , em 7 de março de 2010

Aviso pré­vio: linhas enfa­do­nhas a seguir. Não reclame fazendo-se de desa­vi­sado ou desa­vi­sada; para evi­tar tédio ou frus­tra­ção da lei­tura deste texto, basta abandoná-lo já.

Escre­ver um texto, logo de cara, sobre o exer­cí­cio da escrita é, de algum modo, jus­ti­fi­car a inau­gu­ra­ção do pipa­rote. E, ao mesmo tempo, comen­tar o retorno de um hábito que se cul­ti­vou, anos atrás, naPa­tada. Claro, o pre­sente texto não segue a mesma linha nem tam­pouco tem a boa fluên­cia de alguns bons tex­tos pas­sa­dos, mas é pre­ciso ir pra­ti­cando para tirar a fer­ru­gem. Enfim, escre­ver sema­nal­mente, eis a (boa) ação a ser aqui reto­mada, eis o hábito a ser res­ga­tado e cultivado.

Do fim daPa­tada a esse iní­cio cam­ba­le­ante do pipa­rote, mui­tas coi­sas acon­te­ce­ram. Foram tan­tas que elencá-las seria irre­me­di­a­vel­mente frus­trante, uma vez que fica­riam de fora acon­te­ci­men­tos diver­sos e não menos impor­tan­tes. Não que o mundo tenha pas­sado a girar mais depressa depois do fim de um site (nin­guém che­gou a essa vã ilu­são, por favor). Tal­vez uma só cer­teza, comum a todos: cada um car­re­gando nas cos­tas alguns meses a mais. Debaixo ou não de um novo céu, tudo con­ti­nua a girar na velha roda de sem­pre (uns mais ata­re­fa­dos, outros mais relap­sos, uns mais magros, outros nem tanto…). Con­tudo, uma das coi­sas vali­o­sas que se per­de­ram com o fim daPa­tada foi o con­tato fre­quente que man­tí­nha­mos, ainda que por meio dos tex­tos. Já que nem sem­pre podía­mos nos encon­trar (N.B.: alguns dos cola­bo­ra­do­res, infe­liz­mente, nunca tive­mos o pra­zer de conhe­cer pes­so­al­mente), o texto alheio, de alguma forma, miti­gava — ainda que par­ca­mente — a dis­tân­cia de uma ami­zade, levava à tela alheia um papo amigo, não obs­tante sua ausên­cia. Eis uma perda vali­osa que a reto­mada desse exer­cí­cio da escrita tenta tam­bém remediar.

Para quem pas­sou um ou dois anos escre­vendo sema­nal­mente, ficar sem fazê-lo, de iní­cio, soa como um alí­vio. Espé­cie de pra­zer em não cum­prir um dever de que fala Fer­nando Pes­soa. Afi­nal, para que escre­ver toda semana? A per­gunta me soa ainda mais enfá­tica e per­ti­nente quando relem­bro o con­junto de tanta babo­seira que escrevi, de recei­tas de macar­rão aos mini-hai-contos. Durante esse aban­dono da escrita, o tempo fugiu sem que linha alguma tenha se tor­nado “pública”. Da fre­quen­cia que dimi­nui chega-se à escrita exclu­si­va­mente buro­crá­tica ou aca­dê­mica e, quando nos damos conta, nenhuma daque­las diva­ga­ções ganhou forma, nem um único texto (“des­pre­ten­si­oso e pes­soal”) foi redi­gido — não foi lido, deba­tido, nem comen­tado — como cos­tu­má­va­mos fazê-lo tão pouco tempo atrás. Intriga-me que, em minha ima­gi­na­ção des­de­nhosa, reto­mar esse exer­cí­cio de escrita roti­neira soou sem­pre fácil (vã ilu­são…), tal­vez como um hal­te­ro­fi­lista, há tem­pos sem prá­tica, que olha para os ins­tru­men­tos, com os quais tanto se exer­ci­tara outrora, e facil­mente ima­gina os movi­men­tos que deverá vol­tar a fazer, sem mai­o­res dores ou esfor­ços. Exer­ci­tar a escrita serve tam­bém para refor­çar a ideia de que não há nada fácil num texto (sobre­tudo quando não se pra­tica regu­lar­mente tal exer­cí­cio) e que alguma prá­tica, roti­neira, dis­ci­pli­nada, “bene­di­tina”, possa auxi­liar, senão pro­pri­a­mente na escrita de um texto ou outro, ao menos a dei­xar de lado cer­tas ilusões.

Embora haja, por um lado, com­pro­misso e dever nesse exer­cí­cio fre­quente (houve já quem dis­sesse ser o des­tino do escri­tor…), por outro, há tam­bém recom­pensa e pra­zer… hmm… não exa­ge­re­mos: melhor evi­tar outor­gar que o copo esteja meio-cheio ou meio-vazio; que cada um veja o que qui­ser nesse dito exer­cí­cio; para falar a ver­dade, esse papo de “por um lado e por outro” ser­viu ape­nas para relem­brar os dois gumes da velha faca (ou “os dois legu­mes”, segundo cer­tos alu­nos do ensino médio). Enfim, o espaço aqui deno­mi­nado pipa­rote cum­pre esta fun­ção: pre­zar pelo hábito da escrita, pelo exer­cí­cio de escre­ver cor­ri­quei­ra­mente — com suas ine­vi­tá­veis faces, boa e ruim. Se, como diz um poeta latino (reto­mando uma máxima pita­gó­rica), “tem meio feito aquele que come­çou”, come­ce­mos. Des­fru­te­mos ale­grias e cha­ti­ces, par­ti­lhe­mos agru­ras e con­ví­vios (mesmo dis­tan­tes), ine­ren­tes à comu­ni­dade que rea­viva esse velho hábito do exer­cí­cio da escrita.


p.s.: mesmo tendo dito acima que este texto seria uma espé­cie de inau­gu­ra­ção do pipa­rote, havia já escrito uma rese­nha dos fil­mes (que vi em 2009), para ir desa­guando con­teúdo. Creio que, nesse começo, tex­tos irre­gu­la­res e dis­for­mes sur­gi­rão, mas aos pou­cos a coisa há de entrar nos eixos. Enfim, esse pren­teso texto foi ape­nas “um dos pri­mei­ros” — e só. Apro­vei­tando o ensejo, para os que ainda não viram ou não estão sabendo, pra­ti­ca­mente todo o con­teúdo daPa­tada foi recu­pe­rado (fica­ram fal­tando as foto-legendas, infe­liz­mente) e está hoje em http://apatada.piparote.com. Vá lá visi­tar, enquanto não há (quase-)nada por aqui.

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Comentários

Há 4 comentários.

  1. Mário Neto escreveu:
    8 de março de 2010

    Uma exce­lente forma de reco­me­çar: com o exer­cí­cio da escrita, com peque­nos pas­sos e recons­truindo os con­ta­tos (infe­liz­mente) desfeitos.

  2. PH escreveu:
    11 de março de 2010

    Pois é. Não tenho nem o que falar, é isso aí mesmo. É estra­nho (ten­tar) vol­tar a um hábito tão desa­ver­go­nho­sa­mente pra­ti­cado na aPa­tada, com natu­ra­li­dade (isso não implica neces­sa­ri­a­mente com qualidade…rs). A com­pa­ra­ção com o hate­ro­fi­lista foi ótima. Tb com­paro com um cris­tão, que após anos de dis­tan­ci­a­mento da Igreja, sente nova­mente que deve ten­tar reto­mar os hábi­tos da ora­ção. Ou seja, é uma ques­tão de fé.

    A pro­pó­sito: vcs podem pas­sar nova­mente meu login e senha? :-)

  3. PH escreveu:
    12 de março de 2010

    pô. fiz um comen­tá­rio ela­bo­rado e na hora de pos­tar, apagou!

  4. PH escreveu:
    12 de março de 2010

    Ah… apa­re­ceu sim… sim… :/

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