— Artigo por PH Ferreira, em 24 de março de 2010
Tem rolado na internet uma mania de homenagear alguma figura pública com uma série de posts engraçadinhos, sempre com um “esporro” direcionado à celebridade. O melhor exemplo desta onda é o blog “Porra Maurício”, onde um blogueiro “exalta” Maurício de Sousa tirando do devido contexto alguns trechos das histórias da Turma da Mônica, dando uma conotação (muito) politicamente incorreta. Além deste, existem diversas iniciativas semelhantes, como “Porra Friends”, “Porra Sílvio”, entre outros.
Mas este texto não é sobre bobagens virais e passageiras da net. Mas sim sobre uma produção bem menos fugaz: “O Livro de Ouro da História da Música — da Idade Média ao Século XX”, de Otto Maria Carpeaux. Nesta obra, Carpeaux praticamente esgota - de um ponto de vista pragmático, em termos editoriais — a história da música clássica.
Carpeaux explora desde as origens da música ocidental, “um fenômeno específico da civilização do Ocidente”, passando pelos diferentes períodos (Barroco, Clássico, Romântico…) e por praticamente todos os compositores - sem entrar nos contextos sociais e políticos de cada época, tampouco sobre as origens do pensamento ocidental. Ele foca, exclusivamente, a música.
É nesse ponto que cabe a exclamação: “Porra, Carpeaux! Como você conseguiu fazer tudo isso?”. A obra é impressionante, magnífica. Vou tentar não adjetivar muito, para o bem da objetividade, mas vou compartilhar meus questionamentos sobre este livro-catedral.
Carpeaux, nascido na Áustria em 1900 e radicado no Brasil a partir de 1939, traz em “O Livro de Ouro…” um espantoso relato da história da música ocidental. De cara me traio e já uso o adjetivo “espantoso”, não apenas porque ele escreveu - com um estilo límpido - mais de 500 páginas sobre compositores, músicas, períodos, sinfonias, scherzos, árias e tudo mais; mas também por conhecer, no detalhe, cada compositor.
Não estamos falando “apenas” de Palestrina, Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Wagner, Verdi et alii. Diga-se de passagem, conhecer no detalhe a obra completa da turma acima, bem como a relação de inúmeros fatos e influências nas respectivas produções, já seria um grande feito.
Mas Carpeaux exaure mesmo a história da música ocidental. Ele desce a nomes como Cristóbal Morales (1512), Leonado Leo (1694), Gasparo Spontini (1774) e Albert Lortzing (1801). Também se mostra profundo conhecedor da vida e obra de compositores valiosos, porém pouco conhecidos do grande público, como Des Prés, Rossini, Bruckner, Bizet, Wolf e Villa-Lobos. Ninguém escapa.
O que me intrigou, além do resgate da produção de mais de 90 compositores, foi o nível de detalhamento na análise de cada trabalho, música, movimento. Ele é capaz de relacionar, com a naturalidade de um cronista do pop-rock, os “ataques do polemista Pfitzner contra o modernismo de Busoni”. Ou ainda comparar minúcias como as diferenças entre os títulos das composições de Chopin, diante das de Schumann e Debussy.
E tudo isso não é - nem de longe, Deus me livre - pirotecnia. É erudição in natura, das mais profundas que se tem conhecimento, de uma mente gigante, que tratou com precisão diferentes temas da cultura universal: a história da música; as literaturas universal, alemã e brasileira; o contexto político do Brasil e América Latina na década de 60… E ainda mais.
Um último aspecto que eu quero questionar é: como Carpeaux conhecia a obra completa, cada música, de cada mestre? Como ele conseguia identificar e relacionar, com profundidade, estilos e influências, de músicos de tempos e lugares distintos? Ora, este livro foi publicado na década de 50, período, obviamente, sem os recursos atuais de transmissão e aquisição de produtos culturais. Assim, ao mencionar uma determinada ária da segunda ópera de Monteverde (“Arianna”), ou os movimentos de Pugnani, que o famoso vionilista Fritz Kreisler costumava executar, só me resta me render à certeza que Carpeaux, sim, tinha a inteligência, o fôlego e a intensidade para dominar, de fato, toda a história daquilo que “a partir do século XIII até 1950 se chamava música”.
Não é por acaso que, na última linha deste monumento em forma de livro, Carpeaux dá o assunto como encerrado. Ou seja, este é um livro-desafio para conhecer mais sobre a história da música ocidental e, quem sabe, para tentar capturar um pouco de uma mente que foi capaz de dominar uma gigantesca fatia do conhecimento humano. Então, na falta de (mais) adjetivos, só me resta exclamar: “Porra, Carpeaux!”.
Referência:
O Livro de Ouro da História da Música
da Idade Média ao Século XX
Otto Maria Carpeaux
Editora Ediouro, 2001
1a. edição publicada em 1958
Há 7 comentários.
Mário Neto escreveu:
24 de março de 2010
Hahaha. Boa… Pelo jeito Carpeaux deve ter levado anos (ou seriam décadas?) entre pesquisas, caça a materiais, viagens e a escrita em si. Estes empreendimentos sempre merecem nosso louvor, especialmente quando produzem algo bem escrito e com extremo cuidado nos detalhes.
E você bem lembrou: se ele escreveu na década de 50, como conseguiu acesso a tão vasto material num momento em que os produtos culturais ainda não encontravam a difusão que temos hoje? Se você um dia descobrir, conte pra gente.
Alexandre Piccolo escreveu:
24 de março de 2010
É, PH, nesse mundo de ipod, iphone e outros gadgets mil, se mal se conhece um ou outro nome dessa História da música ocidental, imagine só a infinidade de músicas (com sua especificidade, divisões, épocas…), suas histórias e relações com o mundo em que nasceram… isso tudo na época do LP (quando não se ouvia ao vivo)… é de espantar. Desses homens que não se encontram mais por aí. Acho que o Cony e o Alfredo Bosi (dentre vários outros, certamente…), dos que o conheceram pessoalmente, já confessaram essa admiração pelo Carpeaux (como você acabou de fazer… rsrs), em relatos bem legais (tem um papo que diz que ele era feio à beça…).
É, PH, a exclamação/indagação “Porra, Carpeaux! Como você conseguiu fazer tudo isso?” é muito pertinente, Otto Maria era mesmo “foda” (pra continuar com o vocabulário “impertinente”). E morreu no ano em que muitos de nós nascemos…
Dorly Neto escreveu:
24 de março de 2010
Porra, PH! Como você conseguiu escrever um texto foda desses, porra?
PS: Não conhecia a obra e, por se tratar de um escritor brasileiro tratando do assunto que mais gosto, decidi procurar um exemplar.
Ronaldo Fernandes escreveu:
25 de março de 2010
Do caralho o texto, PH! Gerou a vontade de ler o livro.
Senti a mesma admiração por Mario Sergio Conti, em Notícias do Planalto. Na época, eu estava na faculdade de jornalismo e fiquei abismado com a capacidade de apuração do Mario, do nível de detalhamento dos personagens e dos acontecimentos da história política brasileira na era Collor.
Livros assim são conhecimento puro e combustível de admiração para quem gosta de ler e também escrever…
Grande abraço. De olho no piparote.com!
Drex escreveu:
17 de maio de 2010
Olá,
Meio atrasado, mas ainda faço questão de comentar. Acabei de ler agora a “História da Música” do Carpeaux. E assino embaixo do seu “Porra, Carpeaux” embasbacado com o conhecimento (e clareza) desse grande sujeito.
Carpeaux nasceu em 1900. Os LPs ainda demorariam muito para surgir. Que dirá a oferta de música que temos hoje à disposição. Mas a obra de Carpeaux não foi fruto de pesquisa, de caça à referências e fontes. É fruto de uma vida inteira de formação cultural, de exposição à música. E, afinal, ele cresceu na Áustria, repleta de concertos e saraus à disposição de um jovem curioso e dedicado.
E pensar que ele também escreveu um livro parecido sobre a História da Literatura.
Enfim, é um tipo de erudição que dificilmente se encontra hoje em dia. Estamos hoje imersos em tantos estímulos que parece que somos incapazes de construir um filtro para construir algum significado a eles. Ao invés de conhecer de verdade, dispersamos a atenção.
Mas já estou divagando. Valeu pelo texto. Abraço,
Eduardo Marques escreveu:
29 de agosto de 2010
O livro de Carpeaux sobre música me caiu nas mãos há pouco tempo e eu me apaixonei por esse homem (ui!). Ele é simplesmente fantástico! É uma pena que não seja tão conhecido, hoje em dia.
Porra, Carpeaux!
Luiz escreveu:
13 de maio de 2011
Caro PH Ferreira,
Carpeaux parece que não tinha toca-discos em casa, mas uma estante com milhares de partituras, nas quais literalmente lia as músicas e reproduzia-as na orquestra da imaginação, pois que não se agradava de nenhuma das execuções então à venda. Daí o conhecimento profundo e tranqüilo de tantas obras e compositores.
Abraço.
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