Pressupostamente bêbado — ou subentendido?

Conto por , em 16 de março de 2010

Vez ou outra encon­tro algum rabisco num caderno antigo. Mui­tos vão pro lixo (aten­ção: não são escri­tos pro­li­xos, vão “para o lixo” — ótima piada da “vida como ela é”, como me con­tou o professor-historiador Paulo Renato), outros eu acabo recu­pe­rando, sobre­tudo aque­les de que eu mais gosto, por moti­vos diver­sos: tra­zem boas lem­bran­ças (aulas enfa­do­nhas, lei­tu­ras tedi­o­sas, aquela espera inter­mi­ná­vel… vocês sabem), fazem rir de novo e, depois de digitá-los, faço cum­prir lhes o des­tino, comum aos demais tex­tos - o lixo. Abaixo as distinções.

Estes dois aqui digi­ta­dos foram bons come­ços. O pri­meiro lembrou-me qua­dros à Praça é Nossa ou à (sau­dosa) Esco­li­nha do Pro­fes­sor Rai­mundo (“tio­zera”, parece que já tô até ouvindo…). O segundo, tal­vez por se apre­sen­tar tão incom­pleto, mere­ceu a digitação:


1.

Num bar (nem muito chi­que, nem muito chulé), começa o garçon:

- Por favor, senhor, queira se retirar.

- Mas eu não quero…

- Meu senhor, por obsé­quio — o senhor já pas­sou da conta.

- Mas aqui tem limite? Onde está escrito…? Meu car­tão não tem limite…

- Cava­lheiro, não insista. O senhor bebeu demais.

- De mais não: de menos! Você parou de me ser­vir há horas.

- Ah! Que bonito: agora, então, a culpa é minha?

- Bonito nada, você é muito é feio, isso sim. E sua mãe é a cul­pada, a culpa é dela! Bonito sou eu.

- Pois pare, senhor. Não insista — o senhor está com­ple­ta­mente bêbado!

- Com­ple­ta­mente não… ainda falta um pou­qui­nho, com­pleta pra mim uma dose de menta…

- Hnf…! (indignado)

- Splaf (tapa na cara do garçon).

Volta o gar­çon, ainda cordialmente:

- Meu senhor, vamos, por favor, não quero ser grosso.

- Então faça dieta, coma só coi­sas light

- Senhor…, o senhor tá me enchendo…

- Pó-pará! Não me venha com pia­di­nha de duplo sen­tido: não vou soprar sua man­guei­ri­nha não, tá me estranhando?!

- Então já pra rua, fora!

- Rua? Fora? Mas isso não se fala nem pra cachorro… (já todo encolhido)

- E é isso que o senhor é: um cachorro!

- Au-au!

(uns dizem que foi outra coisa que ele disse, mas pre­fe­ri­mos não ferir o pudor deste espaço).


2.

O namo­rado vem pas­sar o fim de semana na casa da namo­rada. A vovó, por um acaso do des­tino, dor­mi­ria na casa da famí­lia durante esses dias. Mãe e filha, assim, com­bi­na­ram que seria impos­sí­vel para o com­por­tado (mas não menos fogoso) man­cebo dor­mir no quarto da garo­ti­nha querida-do-papai. Olha­res levi­a­nos, sus­pei­tos, assus­ta­dos foram tro­ca­dos entre o jovem casal, em frente à atenta vovó, ape­sar da avan­çada idade. Ao fim, diz a irri­queita senhora:

- (aqui rasga meu ras­cu­nho; fica ao lei­tor, por­tanto, dar voz à “irri­qui­eta vovó”)

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Comentários

Há 3 comentários.

  1. Alexandre escreveu:
    16 de março de 2010

    é, relendo, agora online, acho que deve­riam ter ido pro lixo antes mesmo de terem sido digi­ta­dos… foi mal.

  2. Mário Neto escreveu:
    16 de março de 2010

    Hahaha, boas pin­ça­das… A pri­meira his­tó­ria na boa tra­di­ção das situações-que-levam-ao-absurdo, o gar­çom ner­vo­si­nho e cons­tran­gido e o bêbado tirando onda. Na segunda, o pri­meiro pará­grafo já cria a expec­ta­tiva do conflito-cômico, mere­ce­ria desenvolvimento.

  3. PH escreveu:
    16 de março de 2010

    Nem pro lixo, nem pro­lixo. O pri­meiro texto tem uma atmos­fera de crô­nica cari­oca dos anos 60, ainda mais com a dose de menta. Mas é moderno (vide o termo light). Ou seja, um diá­logo retrô…rs

    O segundo, com a liber­dade pro­posta ao lei­tor (perigo!), só me resta cons­ta­tar que a dife­rença entre vó e neta, é que a pri­meira tem uns 70 a mais de malí­cia. Então, me reservo a não colo­car o absurdo que esta danada senhora falou, para o hor­ror de todos os presentes.…rs

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