— Conto por Alexandre Piccolo, em 16 de março de 2010
Vez ou outra encontro algum rabisco num caderno antigo. Muitos vão pro lixo (atenção: não são escritos prolixos, vão “para o lixo” — ótima piada da “vida como ela é”, como me contou o professor-historiador Paulo Renato), outros eu acabo recuperando, sobretudo aqueles de que eu mais gosto, por motivos diversos: trazem boas lembranças (aulas enfadonhas, leituras tediosas, aquela espera interminável… vocês sabem), fazem rir de novo e, depois de digitá-los, faço cumprir lhes o destino, comum aos demais textos - o lixo. Abaixo as distinções.
Estes dois aqui digitados foram bons começos. O primeiro lembrou-me quadros à Praça é Nossa ou à (saudosa) Escolinha do Professor Raimundo (“tiozera”, parece que já tô até ouvindo…). O segundo, talvez por se apresentar tão incompleto, mereceu a digitação:
Num bar (nem muito chique, nem muito chulé), começa o garçon:
- Por favor, senhor, queira se retirar.
- Mas eu não quero…
- Meu senhor, por obséquio — o senhor já passou da conta.
- Mas aqui tem limite? Onde está escrito…? Meu cartão não tem limite…
- Cavalheiro, não insista. O senhor bebeu demais.
- De mais não: de menos! Você parou de me servir há horas.
- Ah! Que bonito: agora, então, a culpa é minha?
- Bonito nada, você é muito é feio, isso sim. E sua mãe é a culpada, a culpa é dela! Bonito sou eu.
- Pois pare, senhor. Não insista — o senhor está completamente bêbado!
- Completamente não… ainda falta um pouquinho, completa pra mim uma dose de menta…
- Hnf…! (indignado)
- Splaf (tapa na cara do garçon).
Volta o garçon, ainda cordialmente:
- Meu senhor, vamos, por favor, não quero ser grosso.
- Então faça dieta, coma só coisas light…
- Senhor…, o senhor tá me enchendo…
- Pó-pará! Não me venha com piadinha de duplo sentido: não vou soprar sua mangueirinha não, tá me estranhando?!
- Então já pra rua, fora!
- Rua? Fora? Mas isso não se fala nem pra cachorro… (já todo encolhido)
- E é isso que o senhor é: um cachorro!
- Au-au!
(uns dizem que foi outra coisa que ele disse, mas preferimos não ferir o pudor deste espaço).
O namorado vem passar o fim de semana na casa da namorada. A vovó, por um acaso do destino, dormiria na casa da família durante esses dias. Mãe e filha, assim, combinaram que seria impossível para o comportado (mas não menos fogoso) mancebo dormir no quarto da garotinha querida-do-papai. Olhares levianos, suspeitos, assustados foram trocados entre o jovem casal, em frente à atenta vovó, apesar da avançada idade. Ao fim, diz a irriqueita senhora:
- (aqui rasga meu rascunho; fica ao leitor, portanto, dar voz à “irriquieta vovó”)
Há 3 comentários.
Alexandre escreveu:
16 de março de 2010
é, relendo, agora online, acho que deveriam ter ido pro lixo antes mesmo de terem sido digitados… foi mal.
Mário Neto escreveu:
16 de março de 2010
Hahaha, boas pinçadas… A primeira história na boa tradição das situações-que-levam-ao-absurdo, o garçom nervosinho e constrangido e o bêbado tirando onda. Na segunda, o primeiro parágrafo já cria a expectativa do conflito-cômico, mereceria desenvolvimento.
PH escreveu:
16 de março de 2010
Nem pro lixo, nem prolixo. O primeiro texto tem uma atmosfera de crônica carioca dos anos 60, ainda mais com a dose de menta. Mas é moderno (vide o termo light). Ou seja, um diálogo retrô…rs
O segundo, com a liberdade proposta ao leitor (perigo!), só me resta constatar que a diferença entre vó e neta, é que a primeira tem uns 70 a mais de malícia. Então, me reservo a não colocar o absurdo que esta danada senhora falou, para o horror de todos os presentes.…rs
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