Diário de Leituras I — Tolstói

Resenha por , em 25 de abril de 2010

Então, sua vida vai bem. Nada de mais, ape­nas mais uma entre tan­tas. Pro­ble­mas razoá­veis (con­tas a pagar, impos­tos sem­pre sur­pre­en­den­tes no pior sen­tido da pala­vra, uma ou outra con­tra­ri­e­dade), alguns pra­ze­res tam­bém razoá­veis – comer bem, beber um bom vinho, com­par­ti­lhar um bom rela­ci­o­na­mento, ter uma famí­lia, fazer alguns pas­seios. Enfim, nada de mais. Tal­vez, algo de menos, dada a infin­dá­vel insa­tis­fa­ção humana. Mas a vida segue. E você, como todo bom ser humano, ignora a sua medi­o­cri­dade (e aqui me refiro ao sen­tido mais “antigo” dessa pala­vra, ou seja, da vida medi­ana e comum), acha-se único, espe­cial e incri­vel­mente mere­ce­dor de aten­ção, alguns favo­res e afa­gos. Um dia, porém, tudo isso cessa e a ina­diá­vel huma­ni­dade, aquela tecida pelas Par­cas, aquela na sua rou­pa­gem mais ter­ri­vel­mente “humana” e “demo­crá­tica” bate à sua porta. Então, como num golpe, você é trans­por­tado, do con­forto, para o que é e não se ques­ti­ona: você fin­dará. Como qual­quer cri­a­tura, como qual­quer “homem hipo­té­tico”, antes cita­ção de jor­nal ou do dis­curso alheio, você mor­rerá. Sim, sim­ples assim, deso­la­dor assim, nu assim.

Eu sei que rela­tado assim, parece ape­nas uma ano­ta­ção sem impor­tân­cia ou tal­vez o alarde do óbvio. Entre­tanto, se visi­tar­mos o texto de Lev Tols­tói, A morte de Ivan Ilitch, a inten­si­dade da nar­ra­tiva, a angús­tia indes­cri­tí­vel tor­nada pos­sí­vel numa nar­ra­tiva lím­pida e pun­gente impres­si­o­nam e fazem mais: nos devol­vem do medíocre-confortador à natu­reza do humano, ina­diá­vel, impos­sí­vel de esca­par, mas, em que, ape­sar de toda dor, há algum final con­forto. Ilitch é o exem­plo de tudo que des­cre­ve­mos acima. Vida tran­quila, bons ren­di­men­tos, famí­lia bur­guesa tra­di­ci­o­nal (com o que isso tem de bom e ruim). E a morte que lhe vem atra­van­car uma exis­tên­cia con­for­tá­vel. No prin­cí­pio, parece con­tor­ná­vel, parece mesmo um engano, algo que se adi­ará, que se dis­si­pará. Não, a morte não se des­diz, não se adia. Deses­pe­rado, Ivan Ilitch lembra-se de que, quando a morte per­tence ape­nas ao nível do dis­curso alheio ou repro­du­zido, quando se refere ao outro, ao “gené­rico”, é ple­na­mente supor­tá­vel, digna de se dita ou pen­sada. É inte­res­sante mor­rer na filo­so­fia, na lite­ra­tura, naquilo que está ape­nas nas estan­tes ou nos pen­sa­men­tos. Mas a morte apli­cada a si, essa não se pode acei­tar:1

O exem­plo do silo­gismo que ele apren­dera na Lógida de Kie­sewet­ter: Caio é um homem, os homens são mor­tais, logo Caio é mor­tal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, cor­reto somente em rela­ção a Caio, mas de modo algum em rela­ção a ele. Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e neste caso era abso­lu­ta­mente justo; mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sem­pre fora um ser com­pleta e abso­lu­ta­mente dis­tinto dos demais; ele era Vânia, com mamãe, com papai, com Mítia e Voló­dia, com os brin­que­dos, o cocheiro, a babá, depois com Káti­enka, com todas as ale­grias, tris­te­zas e entu­si­as­mos da infân­cia, da juven­tude, da moci­dade. Exis­tiu por­ven­tura para Caio aquele cheiro da pequena bola de couro lis­tada, de que Vânia gos­tara tanto?! Por­ven­tura Caio bei­java daquela maneira a mão da mãe, acaso far­fa­lhou para ele, daquela maneira, a seda das dobras do ves­tido da mãe? Fizera um dia tanto estar­da­lhaço na Facul­dade de Direito, por causa de uns pirojki 2? Esti­vera Caio assim apai­xo­nado? E era capaz de con­du­zir assim uma ses­são no tribunal?

E Caio é real­mente mor­tal, e está certo que ele morra, mas quanto a mim, Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sen­ti­men­tos e ideia, aí o caso é bem outro. E não pode ser que eu tenha de mor­rer. Seria dema­si­a­da­mente terrível.

Era assim que ele sen­tia. (p. 49)

Pois bem, longe de nos sal­var das afi­a­das gar­ras da tesoura mor­tal, a indi­vi­du­a­li­dade (ou a pre­tensa cons­tru­ção dela), as lem­bran­ças, a famí­lia, ape­nas nos assi­na­la­rão: somos um, como tan­tos outros com suas expe­ri­ên­cias, gos­tos, memó­rias. Isso não nos salva. Isso acen­tua nossa dor e nossa cons­ci­ên­cia. No fundo, por mais que nos­sas expe­ri­ên­cias e vivên­cias nos par­ti­cu­la­ri­zem, somos um decal­que qual­quer do Caio-genérico do silogismo.

Ilitch, embora não aceite a sua morte, como nenhum de nós acei­ta­ria a pró­pria, aprende a refle­tir sobre a pos­si­bi­li­dade e a con­cre­ti­za­ção dela, embora, insista, não a sente “pró­xima e anun­ci­ada” num pri­meiro momento. Porém, após algum tempo, na con­vi­vên­cia com o ter­rí­vel fim do ciclo natu­ral, há algo que quase o inco­moda mais: a men­tira e a hipo­cri­sia dos que o cer­cam e insis­tem em camu­flar a gra­vi­dade e a rea­li­dade dos fatos:

O sofri­mento maior de Ivan Ilitch pro­vi­nha da men­tira, aquela men­tira por algum motivo aceita por todos, no sen­tido de que ele estava ape­nas doente e não mori­bundo, e que só devia ficar tran­quilo e tratar-se, para que suce­desse algo muito bom. Mas ele sabia que, por mais coi­sas que fizes­sem, nada resul­ta­ria disso, além de sofri­men­tos ainda mais peno­sos e morte. E esta men­tira atormentava-o, atormentava-o o fato de que não qui­ses­sem con­fes­sar aquilo que todos sabiam, ele mesmo inclu­sive, mas pro­cu­ras­sem men­tir perante ele sobre a sua ter­rí­vel situ­a­ção, e obrigassem-no a tomar tam­bém parte nessa men­tira. A men­tira, essa men­tira que lhe era pre­gada nas vés­pe­ras de sua morte, a men­tira que devia abai­xar esse ato ter­rí­vel e solene da sua morte até o nível de todas as suas visi­tas, das cor­ti­nas, do estur­jão no jan­tar… era hor­ri­vel­mente penosa para Ivan Ilitch. (p. 55–56)

A men­tira dos que cer­cam Ivan Ilitch é tão simi­lar às “men­ti­ras” que nos cer­cam a vida. A morte sem­pre foi adi­ada, evi­tada. Seja nas bus­cas das fon­tes e eli­xi­res da juven­tude de tan­tos sécu­los de his­tó­ria, seja nas pro­pa­gan­das todas que nos pre­gam, hoje, a eterna beleza, a eterna idade dos 25–30 anos, a eterna pos­si­bi­li­dade de ser­mos “ale­gres, bem-sucedidos, jovens”. Já não havia espaço para a morte na soci­e­dade de Ilitch, ainda livre das amar­ras do con­sumo desen­fre­ado e do impé­rio abso­luto da imagem.Mais que nunca se vende isso: não há espaço para a morte em nossa vida, em nossa soci­e­dade da eterna beleza e juven­tude. E o que dire­mos se, como Ivan Ilitch, nos bater à porta a ter­rí­vel cer­teza: somos huma­nos, iguais na fra­gi­li­dade e na insig­ni­fi­cân­cia, e por mais que tenha­mos vivido o sonho do “indi­vi­dual”, nada ali­vi­ará o nosso fardo e a neces­si­dade de enfre­ta­mento: morreremos?!

Tal­vez, nos venha, como a Ilitch, mori­bundo, o deses­pero que tam­bém asso­lou Brás Cubas – implo­rar por uma última gota de vida. E nos per­turbe uma súbita cons­ci­ên­cia, a de que a vida não fora o que pode­ria ter sido:

E o que tu que­res agora? Viver? Viver como? Viver como tu vives no tri­bu­nal, quando o mei­ri­nho pro­clama: Está aberta a ses­são!…’’- repe­tiu con­sigo. – Aí está o jul­ga­mento! Mas eu não tenho culpa! – excla­mou com raiva. – Por quê? – parou  de cho­rar e, vol­tando o rosto para a parede, pôs-se a pen­sar sem­pre no mesmo: por quê, por que todo esse horror?

Mas, por mais que pen­sasse, não encon­trou res­posta. E quando lhe vinha o pen­sa­mento, e vinha-lhe com frequên­cia, de que tudo aquilo ocor­ria por­que ele não vivera como se devia, lem­brava no mesmo ins­tante toda a cor­re­ção da sua vida e repe­lia esse pen­sa­mento estra­nho. (p. 68)

O estra­nha­mento, na ver­dade, é o des­lin­da­mento final: não há chance de vol­tar; como diz o senso comum, não há ras­cu­nho ou ensaio na vida. Tudo é defi­ni­tivo, jogo de impro­vi­sos, de acer­tos e erros mise­rá­veis frente a uma pla­teia que nem sem­pre se conhece, que não se escolhe.

Sim, o livro é ter­rí­vel, a his­tó­ria é ter­rí­vel. Mas, volto a dizer, é humana. Tal­vez, das mais huma­nas já escri­tas. Num daque­les raros momen­tos em que a lite­ra­tura, longe de embe­le­zar a vida com o que se diria fic­ção, adorna com a des­cri­ção mais trans­pa­rente dos sen­ti­men­tos e vivên­cias humanas.

Por isso, pela angús­tia e pela pro­funda expe­ri­ên­cia de lem­brar a huma­ni­dade da qual não esca­pa­mos, o livro vale ser lido, relido. Mas, não se trata só da expe­ri­ên­cia ter­rí­vel. Ao final, Ivan Ilitch liberta-se e o con­fronto com a morte é nar­rado como um momento de alí­vio e luz. Sim, há espe­ran­ças na ine­xo­rá­vel expe­ri­ên­cia do pleno fim, na cons­ci­ên­cia de que cessaremos.

Fica uma lei­tura memo­rá­vel, des­sas que faz a insig­ni­fi­cân­cia da vida valer muito, muito a pena.

Edi­ção citada: TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Trad. Boris Sch­nai­der­man. São Paulo: Ed. 34, 2006.

  1. Os tre­chos cita­dos foram reti­ra­dos da edi­ção da Edi­tora 34, cuja refe­rên­cia com­pleta está no final desse texto.
  2. Espé­cie de boli­nhos reche­a­dos (notas do tra­du­tor, Boris Sch­nai­der­man).
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Comentários

Há 4 comentários.

  1. PH Ferreira escreveu:
    26 de abril de 2010

    Fabi­ana, belís­sima rese­nha. Pro­funda e crua, no tom do livro rese­nhado. Aliás, estou me aven­tu­rando mais nes­tes rus­sos, seja por este seu tex­tos, pelos tex­tos do Alê e pela recente lei­tura que fiz de Dos­toiévski (Crime e Cas­tigo). Sinto neles esta inten­si­dade sufo­cante (e repen­ti­na­mente liber­ta­dora). Seria este um traço da alma russa, sem­pre opri­mida por Par­ti­dos e Cza­res, mas sem­pre me busca de uma gran­deza uni­ver­sal? Muito intri­gante esta ques­tão, que os bons e velhos rus­sos nos aju­dam a explo­rar. Para­béns pelo texto. Abs.

  2. Mário Neto escreveu:
    27 de abril de 2010

    Exce­lente, Fabi­ana, uma rese­nha à altura de “Ivan Ilitch”. []!

  3. Brunno escreveu:
    17 de maio de 2010

    Fabi­ana, seu texto é uma grande e boa pro­vo­ca­ção para refle­tir­mos e ques­ti­o­nar­mos nossa medi­o­cri­dade (no sen­tido da “vida média”, “vida comum”) em face aos nos­sos (geral­mente fre­quen­tes) auto­jul­ga­men­tos de “gran­di­o­si­dade” e “heroísmo”. Todos somos, à nossa maneira, Ivan Iitch (embora haja ape­nas um Ivan Ilitch, claro). Para­béns pelo texto!

  4. Lucy escreveu:
    26 de maio de 2010

    Ótimo texto!
    Quando eu era mais nova, eu pen­sava que toda essa “tur­bu­lên­cia” que a morte causa em nós era oca­si­o­nada por alguma “des­na­tu­ra­li­za­ção” do pro­cesso. Eu acre­di­tava que, anti­ga­mente, a famí­lia tinha mais con­tato com o mori­bundo e, por isso, lidava melhor com a morte. Hj em dia, hos­pi­tais e empre­sas fune­rá­rias cui­dam de tudo, per­de­mos aquele con­tato ime­di­ato e quase não vemos, de perto, o momento em que a morte chega.
    Além disso, me pare­cia que as pes­soas pos­suíam mais ilu­sões. Ou fé. E isso as faziam ver a morte como uma espé­cie de “pas­sa­gem”. Hj em dia, não temos tempo nem paci­ên­cia para nos dedi­car­mos a uma reli­gião, por exem­plo. Existe tanta coisa para nos entre­ter que a “medi­ta­ção sobre as coi­sas” e a “fan­ta­sia” ficou em segundo plano. É a filo­so­fia do “é mais fácil com­prar que fazer”.
    Mas aí eu li Ivan Ílitch e minhas teo­rias des­mo­ro­na­ram (ainda q eu nem sem­pre admita). Se, anti­ga­mente, as pes­soas eram mais fan­ta­si­o­sas e tinham maior con­tato com a morte, pq expe­ri­men­ta­vam os mes­mos sen­ti­men­tos que nós?
    Acho que é aquilo que vc disse: cons­ta­tar que não há ras­cu­nho ou ensaio na vida é muito duro. E a morte nos faz ver isso da forma mais clara pos­sí­vel. Além, claro, da dor da perda, que deve ser igual para todos e inde­pen­dente de qual­quer fator.
    De fato, é uma cons­ta­ta­ção ter­rí­vel. Mas aí, eu acho que a gente pode usar uma obra como essa — e um texto como o seu — como motiv­ção para reto­mar as anti­gas prá­ti­cas e, quem sabe, mudar um pouco nos­sos atos e pers­pec­ti­vas em rela­ção à vida.

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