— Resenha por Fabiana Bigaton Tonin, em 25 de abril de 2010
Então, sua vida vai bem. Nada de mais, apenas mais uma entre tantas. Problemas razoáveis (contas a pagar, impostos sempre surpreendentes no pior sentido da palavra, uma ou outra contrariedade), alguns prazeres também razoáveis – comer bem, beber um bom vinho, compartilhar um bom relacionamento, ter uma família, fazer alguns passeios. Enfim, nada de mais. Talvez, algo de menos, dada a infindável insatisfação humana. Mas a vida segue. E você, como todo bom ser humano, ignora a sua mediocridade (e aqui me refiro ao sentido mais “antigo” dessa palavra, ou seja, da vida mediana e comum), acha-se único, especial e incrivelmente merecedor de atenção, alguns favores e afagos. Um dia, porém, tudo isso cessa e a inadiável humanidade, aquela tecida pelas Parcas, aquela na sua roupagem mais terrivelmente “humana” e “democrática” bate à sua porta. Então, como num golpe, você é transportado, do conforto, para o que é e não se questiona: você findará. Como qualquer criatura, como qualquer “homem hipotético”, antes citação de jornal ou do discurso alheio, você morrerá. Sim, simples assim, desolador assim, nu assim.
Eu sei que relatado assim, parece apenas uma anotação sem importância ou talvez o alarde do óbvio. Entretanto, se visitarmos o texto de Lev Tolstói, A morte de Ivan Ilitch, a intensidade da narrativa, a angústia indescritível tornada possível numa narrativa límpida e pungente impressionam e fazem mais: nos devolvem do medíocre-confortador à natureza do humano, inadiável, impossível de escapar, mas, em que, apesar de toda dor, há algum final conforto. Ilitch é o exemplo de tudo que descrevemos acima. Vida tranquila, bons rendimentos, família burguesa tradicional (com o que isso tem de bom e ruim). E a morte que lhe vem atravancar uma existência confortável. No princípio, parece contornável, parece mesmo um engano, algo que se adiará, que se dissipará. Não, a morte não se desdiz, não se adia. Desesperado, Ivan Ilitch lembra-se de que, quando a morte pertence apenas ao nível do discurso alheio ou reproduzido, quando se refere ao outro, ao “genérico”, é plenamente suportável, digna de se dita ou pensada. É interessante morrer na filosofia, na literatura, naquilo que está apenas nas estantes ou nos pensamentos. Mas a morte aplicada a si, essa não se pode aceitar:1
O exemplo do silogismo que ele aprendera na Lógida de Kiesewetter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele. Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e neste caso era absolutamente justo; mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais; ele era Vânia, com mamãe, com papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a babá, depois com Kátienka, com todas as alegrias, tristezas e entusiasmos da infância, da juventude, da mocidade. Existiu porventura para Caio aquele cheiro da pequena bola de couro listada, de que Vânia gostara tanto?! Porventura Caio beijava daquela maneira a mão da mãe, acaso farfalhou para ele, daquela maneira, a seda das dobras do vestido da mãe? Fizera um dia tanto estardalhaço na Faculdade de Direito, por causa de uns pirojki 2? Estivera Caio assim apaixonado? E era capaz de conduzir assim uma sessão no tribunal?
E Caio é realmente mortal, e está certo que ele morra, mas quanto a mim, Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e ideia, aí o caso é bem outro. E não pode ser que eu tenha de morrer. Seria demasiadamente terrível.
Era assim que ele sentia. (p. 49)
Pois bem, longe de nos salvar das afiadas garras da tesoura mortal, a individualidade (ou a pretensa construção dela), as lembranças, a família, apenas nos assinalarão: somos um, como tantos outros com suas experiências, gostos, memórias. Isso não nos salva. Isso acentua nossa dor e nossa consciência. No fundo, por mais que nossas experiências e vivências nos particularizem, somos um decalque qualquer do Caio-genérico do silogismo.
Ilitch, embora não aceite a sua morte, como nenhum de nós aceitaria a própria, aprende a refletir sobre a possibilidade e a concretização dela, embora, insista, não a sente “próxima e anunciada” num primeiro momento. Porém, após algum tempo, na convivência com o terrível fim do ciclo natural, há algo que quase o incomoda mais: a mentira e a hipocrisia dos que o cercam e insistem em camuflar a gravidade e a realidade dos fatos:
O sofrimento maior de Ivan Ilitch provinha da mentira, aquela mentira por algum motivo aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo, e que só devia ficar tranquilo e tratar-se, para que sucedesse algo muito bom. Mas ele sabia que, por mais coisas que fizessem, nada resultaria disso, além de sofrimentos ainda mais penosos e morte. E esta mentira atormentava-o, atormentava-o o fato de que não quisessem confessar aquilo que todos sabiam, ele mesmo inclusive, mas procurassem mentir perante ele sobre a sua terrível situação, e obrigassem-no a tomar também parte nessa mentira. A mentira, essa mentira que lhe era pregada nas vésperas de sua morte, a mentira que devia abaixar esse ato terrível e solene da sua morte até o nível de todas as suas visitas, das cortinas, do esturjão no jantar… era horrivelmente penosa para Ivan Ilitch. (p. 55–56)
A mentira dos que cercam Ivan Ilitch é tão similar às “mentiras” que nos cercam a vida. A morte sempre foi adiada, evitada. Seja nas buscas das fontes e elixires da juventude de tantos séculos de história, seja nas propagandas todas que nos pregam, hoje, a eterna beleza, a eterna idade dos 25–30 anos, a eterna possibilidade de sermos “alegres, bem-sucedidos, jovens”. Já não havia espaço para a morte na sociedade de Ilitch, ainda livre das amarras do consumo desenfreado e do império absoluto da imagem.Mais que nunca se vende isso: não há espaço para a morte em nossa vida, em nossa sociedade da eterna beleza e juventude. E o que diremos se, como Ivan Ilitch, nos bater à porta a terrível certeza: somos humanos, iguais na fragilidade e na insignificância, e por mais que tenhamos vivido o sonho do “individual”, nada aliviará o nosso fardo e a necessidade de enfretamento: morreremos?!
Talvez, nos venha, como a Ilitch, moribundo, o desespero que também assolou Brás Cubas – implorar por uma última gota de vida. E nos perturbe uma súbita consciência, a de que a vida não fora o que poderia ter sido:
“E o que tu queres agora? Viver? Viver como? Viver como tu vives no tribunal, quando o meirinho proclama: Está aberta a sessão!…’’- repetiu consigo. – Aí está o julgamento! Mas eu não tenho culpa! – exclamou com raiva. – Por quê? – parou de chorar e, voltando o rosto para a parede, pôs-se a pensar sempre no mesmo: por quê, por que todo esse horror?
Mas, por mais que pensasse, não encontrou resposta. E quando lhe vinha o pensamento, e vinha-lhe com frequência, de que tudo aquilo ocorria porque ele não vivera como se devia, lembrava no mesmo instante toda a correção da sua vida e repelia esse pensamento estranho. (p. 68)
O estranhamento, na verdade, é o deslindamento final: não há chance de voltar; como diz o senso comum, não há rascunho ou ensaio na vida. Tudo é definitivo, jogo de improvisos, de acertos e erros miseráveis frente a uma plateia que nem sempre se conhece, que não se escolhe.
Sim, o livro é terrível, a história é terrível. Mas, volto a dizer, é humana. Talvez, das mais humanas já escritas. Num daqueles raros momentos em que a literatura, longe de embelezar a vida com o que se diria ficção, adorna com a descrição mais transparente dos sentimentos e vivências humanas.
Por isso, pela angústia e pela profunda experiência de lembrar a humanidade da qual não escapamos, o livro vale ser lido, relido. Mas, não se trata só da experiência terrível. Ao final, Ivan Ilitch liberta-se e o confronto com a morte é narrado como um momento de alívio e luz. Sim, há esperanças na inexorável experiência do pleno fim, na consciência de que cessaremos.
Fica uma leitura memorável, dessas que faz a insignificância da vida valer muito, muito a pena.
Edição citada: TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Trad. Boris Schnaiderman. São Paulo: Ed. 34, 2006.
Há 4 comentários.
PH Ferreira escreveu:
26 de abril de 2010
Fabiana, belíssima resenha. Profunda e crua, no tom do livro resenhado. Aliás, estou me aventurando mais nestes russos, seja por este seu textos, pelos textos do Alê e pela recente leitura que fiz de Dostoiévski (Crime e Castigo). Sinto neles esta intensidade sufocante (e repentinamente libertadora). Seria este um traço da alma russa, sempre oprimida por Partidos e Czares, mas sempre me busca de uma grandeza universal? Muito intrigante esta questão, que os bons e velhos russos nos ajudam a explorar. Parabéns pelo texto. Abs.
Mário Neto escreveu:
27 de abril de 2010
Excelente, Fabiana, uma resenha à altura de “Ivan Ilitch”. []!
Brunno escreveu:
17 de maio de 2010
Fabiana, seu texto é uma grande e boa provocação para refletirmos e questionarmos nossa mediocridade (no sentido da “vida média”, “vida comum”) em face aos nossos (geralmente frequentes) autojulgamentos de “grandiosidade” e “heroísmo”. Todos somos, à nossa maneira, Ivan Iitch (embora haja apenas um Ivan Ilitch, claro). Parabéns pelo texto!
Lucy escreveu:
26 de maio de 2010
Ótimo texto!
Quando eu era mais nova, eu pensava que toda essa “turbulência” que a morte causa em nós era ocasionada por alguma “desnaturalização” do processo. Eu acreditava que, antigamente, a família tinha mais contato com o moribundo e, por isso, lidava melhor com a morte. Hj em dia, hospitais e empresas funerárias cuidam de tudo, perdemos aquele contato imediato e quase não vemos, de perto, o momento em que a morte chega.
Além disso, me parecia que as pessoas possuíam mais ilusões. Ou fé. E isso as faziam ver a morte como uma espécie de “passagem”. Hj em dia, não temos tempo nem paciência para nos dedicarmos a uma religião, por exemplo. Existe tanta coisa para nos entreter que a “meditação sobre as coisas” e a “fantasia” ficou em segundo plano. É a filosofia do “é mais fácil comprar que fazer”.
Mas aí eu li Ivan Ílitch e minhas teorias desmoronaram (ainda q eu nem sempre admita). Se, antigamente, as pessoas eram mais fantasiosas e tinham maior contato com a morte, pq experimentavam os mesmos sentimentos que nós?
Acho que é aquilo que vc disse: constatar que não há rascunho ou ensaio na vida é muito duro. E a morte nos faz ver isso da forma mais clara possível. Além, claro, da dor da perda, que deve ser igual para todos e independente de qualquer fator.
De fato, é uma constatação terrível. Mas aí, eu acho que a gente pode usar uma obra como essa — e um texto como o seu — como motivção para retomar as antigas práticas e, quem sabe, mudar um pouco nossos atos e perspectivas em relação à vida.
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