Dylan fora de época

Artigo por PH Ferreira, em 28 de abril de 2010

No livro 31 Can­ções, Nick Hornby afirma que não é um grande fã de Bob Dylan. Começa dizendo que, obvi­a­mente, pos­sui a dis­co­gra­fia básica (Blonde on Blonde, Highway 61 Revi­si­ted, Brin­ging it All Back Home e Blood On The Tracks). Segundo o escritor, qualquer um que goste de música tem que ter estes qua­tro álbuns. Mas logo observa que tam­bém adqui­riu outras gra­va­ções, como The Boo­tleg Series e os recen­tes Time Out of Mind e Love and Theft. Daí ele nota que tem outra serie espe­cial, a Bio­graph.

Ao olhar melhor sua estante, per­cebe que “de algum modo” ele reco­lheu pelo cami­nho outros tan­tos títu­los, inclu­sive Oh Mercy, cuja a “ado­rá­vel” faixa Most of the Time está na tri­lha sonora de seu Alta Fide­li­dade. Enfim, Hornby veri­fica  que tem cerca de 20 álbuns de Bob Dylan. Ele con­clui, sur­preso, que Dylan é o artista de quem ele pos­sui mais dis­cos, entre todos.

A sur­presa de Hornby tra­duz um pouco a den­si­dade da obra de Bob Dylan. São mais de 50 dis­cos, entre altos e bai­xos, fases pagã, ati­vista, lisér­gica, gos­pel, madura, entre outras. Na última década, foram qua­tro álbuns iné­di­tos. Só em 2009, dois novos álbuns.

Capa de “Christ­mas in The Heart”

E é jus­ta­mente sobre o último album de Dylan que eu quero escre­ver. No final do ano pas­sado, Bob Dylan lan­çou um disco nata­lino, Christ­mas in The Heart. Por des­cuido e pela cor­re­ria atrás do vento, só enco­men­dei o álbum em março deste ano. A Ama­zon demo­rou para entre­gar, a enco­menda che­gou em abril. Resul­tado: aqui em casa, esta­mos em natal fora de época.

No disco, Dylan traz 15 can­ções nata­li­nas, den­tre músi­cas sacras, tra­di­ci­o­nais e comer­ci­ais. Pode­ria ser, natu­ral­mente, um dis­qui­nho brega, como tan­tos por aí, de artis­tas que se apro­priam do clima de nata­lino, para tra­zer uma “noite feliz” às famí­lias de gosto musi­cal duvidoso.

Mas este disco é do senhor Bob Dylan. Car­rega um natal ao som de um homem que já pas­sou por quase tudo na vida, que aju­dou a regis­trar (e musi­car) a his­tó­ria do século XX, e que sabe colo­car a impor­tân­cia desta cele­bra­ção na dimen­são cor­reta. Sem per­der a iro­nia, nem a fé.

O lado irô­nico, diga-se de pas­sa­gem, garante a diver­são do álbum, tanto musi­cal, quanto gra­fi­ca­mente. Por exem­plo, soa um pouco des­lo­cado — mas muito diver­tido — ouvir um senhor rouco, de quase 70 anos, abrir o disco can­tando Here comes Santa Claus, com os seguin­tes versos:

Santa knows that we’re God’s chil­dren,
That makes everything right.
Fill your hearts with Christ­mas cheer,
‘Cause Santa Claus comes tonight.

Dylan tam­bém recu­pera o cará­ter pagão das bala­das nata­li­nas, quando o espí­rito sacro geral­mente não é con­vi­dado. A diver­ti­dís­sima Must Be Santa car­rega o tom das bebe­dei­ras e das come­mo­ra­ções alu­ci­na­das de noi­tes de natal, com direito a um clipe sur­real, pas­telô­nico e muito, muito ébrio.

A pin-up nata­lina. Seria a Betty Page?

O gra­fismo, então, é a cereja do bolo: se a capa traz um trenó e a contra-capa, os três reis magos, o encarte interno vem com uma deli­ci­osa pin-up, com uma Mamãe Noel insi­nu­ante, de cinta-liga, segu­rando um pequeno boneco do Papai Noel. Dylan sabe das coisas…

Jus­ta­mente por causa do senso afi­ado de seu autor, Christ­mas in the Heart vai fundo, bem além das  far­ras natalinas. Com muita precisão, o disco tran­sita entre sen­ti­men­tos con­tra­di­tó­rios e des­taca uma sen­sa­ção muito comum nesta época de fes­tas: a melancolia.

Can­ções como Lit­tle Dru­mer e Have Your­self a Merry Lit­tle Christ­mas garan­tem aquele nó na gar­ganta inex­pli­cá­vel, que toda pes­soa com razoá­vel sen­si­bi­li­dade (cri­ança ou adulto) sente ao rece­ber um pre­sente e/ou a par­ti­ci­par de uma farta ceia, cien­tes que mui­tos outros não fazem parte disso. Aquela con­vic­ção que, tris­te­mente, Papai Noel não chega para todos. Daí o The Christ­mas Blues:

May all your days be merry
Your sea­sons full of cheer
But ’til it’s Janu­ary
I’ll just go and disap­pear
Oh Santa may have brought you some stars for your shoes
But Santa only brought me the blues
Those brigh­tly pac­ka­ged tin­sel cove­red Christ­mas blues

Mas o aspecto mais con­tu­dente do disco, como não pode­ria dei­xar de ser, é a decla­ra­ção, lúcida, do real sig­ni­fi­cado do natal, a saber: o nas­ci­mento de Jesus Cristo, o sal­va­dor da huma­ni­dade, Ema­nuel, Deus Conosco, o Prín­cipe da Paz.

No álbum, Dylan faz uma pro­fis­são de Fé Cristã, de quem, na reta final da vida, che­gou em reso­lu­ções definitivas, sem dei­xar muita mar­gem para inter­pre­ta­ção. Esta pro­fis­são de fé é o ele­mento mais gri­tante do disco.

Afi­nal, é impos­sí­vel dei­xar de se reves­tir do genuíno espí­rito de natal, ao fazer uma audi­ção cui­da­dosa de 3 can­ções tra­di­ci­o­nais do hiná­rio cris­tão, pre­sen­tes no álbum:  Hark the Herald Angels Sing, tra­du­zida para o por­tu­guês como “Lou­vor Ange­li­cal”; O’ Come All Ye Faith­full (Adeste fide­les), ou “Ado­ra­ção”; e The First Noel, conhe­cido por aqui como “O Pri­meiro Natal” 1. É de arre­piar a intro­du­ção de Adeste Fide­les, em que Dylan pro­clama em latim:

Adeste, fide­les, laeti triumphan­tes;
Venite, venite in Beth­lehem.
Natum videte Regem ange­lo­rum.
Venite ado­re­mus, venite ado­re­mus,
Venite ado­re­mus, Dominum.

Dylan fez do natal um álbum genial. Christ­mas in The Heart é um disco que con­densa os sen­ti­men­tos e valo­res de uma festa mun­dial (e mun­dana), pós-moderna, capi­ta­lista. Mas que, ainda assim, é a festa em que se cele­bra o nas­ci­mento de Jesus Cristo, fato que mudou incon­di­ci­o­nal­mente a tra­je­tó­ria de toda a civi­li­za­ção humana, quer você aceite, quer não.

Eis o âmago da obra. Dylan expli­cita, com pre­ci­são, que esta cele­bra­ção pode ser cons­ci­ente ou incons­ci­ente. Ébria, melan­có­lica ou com fé, o mundo todo está envol­vido com esta festa. Ele nos tra­duz tudo isso em boa música e, como pano de fundo, rea­firma seu credo, com um solene “Amém”, que encerra O’Little Town of Beth­lehem, a faixa final.

Na con­di­ção de um dos gran­des pen­sa­do­res do século XX (arrisco eu), Dylan deixa claro que - inde­pen­dente de qual­quer coisa - o natal tem um único e genuíno motivo, que é cen­tro de toda cele­bra­ção. Dylan sabe muito bem o que o natal sig­ni­fica e, neste disco, ates­tou sua convicção. O “Amém” final não deixa dúvidas.

  1. Estes três hinos podem ser con­fe­ri­dos em suas ver­sões em por­tu­guês no hiná­rio pres­bi­te­ri­ano “Novo Can­tico”, nos hinos 240, 230 e 231, res­pec­ti­va­mente.
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Comentários

Há 3 comentários.

  1. Alexandre escreveu:
    28 de abril de 2010

    Boas dicas, PH, não conhe­cia nem o livro do Hornby nem o disco do Dylan. E pelas aná­li­ses, tanto as músi­cas quanto a obra (como um todo) do “senhor Bob Dylan” são real­mente den­sas. O que se des­ta­cou como pagão (como o clipe — que via­gem! — e a pin-up — que beleza, hein?!) pare­ceu mesmo refor­çar que “Dylan sabe das coi­sas…”, do “mun­dano” em espe­cial. Tal­vez judeus ou ori­en­tais não-cristãos, por exem­plo, dis­cor­dem quanto à “festa mun­dial”, o que não des­me­rece em nada a apre­ci­a­ção seleta que você teceu do álbum (como um todo) e de algu­mas can­ções, pelo jeito legais de se ouvir (no natal, então?!, nem se fala…!): a curi­o­si­dade foi des­per­tada. Quem sabe o natal desse ano ganhe um som novo. Mais uma vez, pude apren­der mais um pouco sobre Bob Dylan com você. Abs!

  2. Mário Neto escreveu:
    28 de abril de 2010

    Ótima rese­nha, PH. Foi engra­çada a sur­presa de Hornby, que afirma não ser grande fã de Dylan, mas se sur­pre­ende por ser o artista de quem mais tem álbuns. (Que mis­té­rio…) Bela intro­du­ção. Foi engra­çado tam­bém ler esta rese­nha sobre um disco nata­lino num período pós-carnaval e pós-páscoa, “fora de época”, como diz o título. Tal­vez o espí­rito não-natalino tenha lhe aju­dado a rese­nhar melhor e a dar mais cla­reza (esta minha con­clu­são é duvi­dosa, mas deixe-me fan­ta­siar…), apon­tando deta­lhes curi­o­sos como as fai­xas “ébrias” (ótima adje­ti­va­ção!), a pin-up e o “cará­ter pagão”.

    Con­fesso fugir de dis­cos nata­li­nos, com os blém-bléns e ding-dongs tra­di­ci­o­nais, naquela toada que você bem cha­mou de “dis­qui­nho brega” para “famí­lias de gosto musi­cal duvi­doso”. Com esta rese­nha, vou dar uma chance ao Dylan. Quem sabe… []!

  3. Leonardo Afonso escreveu:
    29 de abril de 2010

    LEGAL… Dylan é cer­ta­mente um injus­ti­çado em minha estante — embora eu deva ter uma cole­tâ­nea em LP. Não sei, minhas ten­ta­ti­vas de apro­xi­ma­ção não foram adi­ante. Mas se eu não ouço a música dele, pelo menos ele tem grande res­pon­sa­bi­li­dade pela revi­ra­volta na car­reira dos Bea­tles, que tanta coisa boa pro­du­zi­ram do Revol­ver em diante!
    Já o Natal, eu o detesto e ponto final.

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