— Artigo por Mário Neto, em 8 de abril de 2010
Olhai os lírios do campo foi um best seller, imenso sucesso nas livrarias e até hoje o livro mais vendido de Erico. Isso o tornou, portanto, um escritor de best sellers. O lançamento de um novo livro sempre atraía a atenção do público e da imprensa. Era convidado com frequência para conferências e palestras. Recebia cartas e visitas aos montes. Enfim, era uma celebridade.
Mas ser um escritor de best sellers atraiu também a desconfiança de críticos e um olhar enviesado sobre sua obra. Acusaram-no de inovar pouco na técnica e na narrativa, de mirar apenas a “pequena burguesia” — diferentemente de outros escritores do período, como Jorge Amado, que escreviam sobre o proletariado, os pobres —, de ser acomodado (dizia a esquerda) ou comunista (dizia a direita), e de uma superficialidade no trato dos temas e no retrato das personagens.
Erico conhecia todas essas críticas, talvez se incomodasse um pouco com elas, mas no fim concordava. Em uma entrevista que deu a Clarice Lispector em 1967, comentou:
“Para começo de conversa, devo confessar que não me considero um escritor importante. Não sou inovador. Nem mesmo um homem inteligente. Acho que tenho alguns talentos que uso bem… mas que acontece serem os talentos menos apreciados pela chamada ‘crítica séria’, como, por exemplo, o de contador de histórias. […] Mas, falando sério, concordo com os críticos: não sou profundo. Espero que me desculpem”.
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É interessante observar como há estes dois pólos de tensão na vida de um escritor contemporâneo, especialmente do ficcionista. De um lado, a crítica literária, que avalia e classifica, que dá ou tira a importância, que premia ou joga na lama, a partir de uma autoridade que outorga a si mesma por possuir conhecimentos históricos e técnicos. De outro, os leitores comuns, e indiretamente o mercado cultural, para os quais um escritor precisa publicar e vender seus textos — em jornais, em revistas, em livros — se quiser viver da escrita, e que também avalia e classifica, dá ou tira importância, premia ou joga na lama, a partir de uma autoridade dita “democrática”, como se a maior ou menor aceitação do público dissessem algo a respeito do valor da obra.
Para lidar com estas tensões não existem respostas ou saídas fáceis. Erico de certa forma ressentia que a crítica da época (entre 1930 e 1970, pois hoje isto é diferente) não lhe concedesse uma análise justa de sua obra, independentemente de seu sucesso editorial. Ainda em entrevista a Clarice Lispector, afirmou: “Há essa natural má vontade que cerca todo escritor que vende livro, a idéia de que best-seller tem de ser necessariamente um livro inferior”.
Isto é claro não o consumia, pois se considerava um “contador de histórias”: o que importava era escrever, contar uma boa história. Ainda assim, creio que a escrita de O tempo e o vento, obra prima que lhe tomou mais de 15 anos de vida, tenha tido como uma de suas razões de ser a resposta à crítica, com a profundidade da abordagem, o esmero na técnica e a variedade de temas que tanto lhe acusavam faltar.
Quanto ao mercado editorial, Erico era muito ciente dos perigos do sucesso: a repetição de fórmulas e de temas, a escrita sempre orientada pela aceitação popular. Em Solo de Clarineta, seu livro de memórias, escreveu: “Estou certo de que o escritor que produz um livro por ano acaba sofrendo duma espécie de auto-intoxicação: repele fórmulas, ‘cacoetes’ de estilo e até de técnica”. E mais à frente: “O autor dum best-seller pode, inconscientemente, acabar dando sempre ao público o que esse espera dele, isto é, a repetição da receita anterior, o adocicado xarope de tão doce sabor e de tão grande aceitação popular”. Já no prefácio de Olhai, sempre muito autocrítico, Erico questionou-se: por que o sucesso do livro? Apontou a falta de complexidade das personagens (Olívia era quase uma santa) e uma “filosofia salvacionista barata que me faz perguntar a mim mesmo como pude escrever tais coisas, mesmo levando-se em conta o fato de haver atribuído essa filosofia a personagens do livro”.
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Ao que parece, Erico conviveu bem com a fama, e lhe agradava muito a ideia de que um grande número de pessoas comentassem seus textos e os usassem como referência para suas vidas. O que não se pode é concluir, a partir disso, que o sucesso editorial era sua razão de ser escritor, menos ainda que soubesse o que o esperava quando saiu de Cruz Alta.
Erico queria ser um escritor, queria construir sua vida em torno disso da maneira que lhe fôsse possível. E isto acabou se concretizando, como profissão, com a publicação de Olhai, algo completamente inesperado a ele e aos editores. Erico teria o alcance que teve ou produzido a rica obra que produziu sem isto? Talvez sim, talvez não. Mas a história não nos permite tais indagações, só a imaginação.
Há 4 comentários.
PH escreveu:
8 de abril de 2010
Excelente, Mário. Gostei muito da análise bem equilibrada que você fez entre os pólos de tensão opostos: a crítica e o público, como se um ou outro tivesse a capacidade de atribuir o real valor de uma obra. Este seu texto é muito esclarecedor sobre a relação de Érico Veríssimo com sua própria obra. Você o trouxe para uma dimensão humanizada, surpreendido por um inesperado sucesso editorial. Sem ser piegas, quero também dizer que seu texto nos permite conhecer mais da vida e obra do Veríssimo e nos faz querer conhecê-lo mais. Até mesmo pela identificação com este aspecto humano, de alguém, comum, que teve a coragem de tentar a vida nas letras. E que conseguiu, por talento e pela sorte.
Alexandre Piccolo escreveu:
8 de abril de 2010
Neto, essa sua série sobre Erico Veríssimo está se mostrando cada vez melhor. Excelente reflexão, balizada desde o princípio entre o aval do público e aceitação da imprensa, a reprovação dos leitores e a condenação da crítica. Muito boa reflexão mesmo: afinal, quem está apto a “avaliar” o texto literário, a “história contada”? essa avaliação é o que realmente conta? ou basta a satisfação de uma leitura solitária, individual? afinal, o que faz uma boa história? Questionamentos como esses me foram despertados lendo seu texto, que equilibrou muito bem a imagem que o próprio Erico fazia de si (sobretudo em relação à crítica) com as possibilidades criadas pela “realidade do escritor de best sellers” — chegando até às incertezas que, vislumbradas do passado, o futuro guardava para o autor. Essas reflexões sobre o homem-escritor gaúcho vai de vento em popa!
Brunno escreveu:
17 de maio de 2010
Mário, muito boa a segunda parte dessa série. Como já foi dito em comentários anteriores, tem sido uma ótima oportunidade de reflexão sobre os aspectos que envolvem a vida e a carreira de um “homem das letras”. Você levanta muitos pontos que são muito interessantes para aqueles que estão envolvidos com a escrita, seja por brinquedo ou seja por ferramenta.
Continue escrevendo. Temos muito a aprender com a(s) história(s) de Erico Veríssimo.
Abração.
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