Leopardi ou a melancolia

Tradução por , em 20 de abril de 2010

Não fala­rei sobre esse ícone do Roman­tismo Ita­li­ano, Gia­como Leo­pardi — sinto faltarem-me lei­tu­ras para con­se­guir arti­cu­lar boas impres­sões acerca desse autor, a meu ver, tão impor­tante. A mar­cante impres­são de l’Infinito (bas­tante tra­du­zido para o por­tu­guês — por exem­plo, por Viní­cios de Moraes, Mário Faus­tino, Ivo Bar­roso e outros — e cuja tra­du­ção de Haroldo de Cam­pos ren­deu um artigo muito bom de Andréia Gue­rini, da UFSC) além de um ou outro poema de Leo­pardi foram sufi­ci­en­tes para per­ce­ber que se está diante (ou melhor, nos ombros!) de um gigante — ávido lei­tor cui­da­doso tanto da Anti­gui­dade greco-latina quanto de seus ante­pas­sa­dos com­pa­tri­o­tas (Dante, Petrarca…), cri­a­tivo poeta, melan­có­lico, esme­ra­dís­simo.

Mas o assunto aqui não é Leo­pardi e, sim, um de seus poe­mas, que aventurei-me a tra­du­zir, sem métrica e “o mais colado no ori­gi­nal”, no afã de esme­rar o ita­li­ano. Faço, por­tanto, algu­mas diva­ga­ções pré­vias, a fim de comen­tar a emprei­tada e seus resultados. Traduzir tex­tos poé­ti­cos entre lín­guas “pró­xi­mas” é um exer­cí­cio de difi­cul­da­des sui gene­ris. Pala­vras seme­lhan­tes ora par­ti­lham, ora diver­gem sen­ti­dos pró­xi­mos. Por vezes, uma sílaba que “falta” ou “caiu” ali serve para apro­xi­mar certa nuance aqui e, com con­so­ante e vogal acres­ci­das (ou reti­ra­das), acaba-se pre­en­chendo um inters­tí­cio desi­gual entre pala­vras “tão pró­xi­mas, tão dis­tan­tes” — como posare e “repou­sar” (v. 3).

No entanto, a apa­rente sime­tria entre idi­o­mas “pare­ci­dos” parece mais enga­nar incau­tos e difi­cul­tar cer­tas trans­po­si­ções. Por exem­plo, senti fazer falta à nossa flor do Lácio uma pala­vra cor­ri­queira para ver­ter sera (fran­cês soir, inglês eve­ning, ale­mão Abend), cuja semân­tica vai de “tarde” e “fim de tarde” até “noite”, como pre­feri. A dupla nomen­cla­tura para o dia, (v. 17) e giorno (v. 23), em ita­li­ano, tam­bém per­deu um pouco da sutil dis­tin­ção, uma vez que usei “dia” (sem optar por “jor­nada”, por exem­plo) em ambos os casos, aplainando-os. Tam­bém senti falta, no por­tu­guês hodierno, de um lati­nismo tão vivo quanto cura, em ita­li­ano, e seu leque de sen­ti­dos, que optei ver­ter por “afli­ção” (v. 9). Tendo falado em Latim e usado a raiz de fligo, –ere (“bater, gol­pear”; cf. “afli­gir”), lembrei-me de ado­tar este quase-latinismo em por­tu­guês, “fla­gelo” (do neu­tro fla­gel­lum, –i: “açoite, vergôn­tea”), para aproximar-me de l’affanno (temi que “faina” e “afã” se afas­tas­sem demais da semân­tica do sofri­mento que esco­lhi des­ta­car). Feita essa mea culpa pré­via, deixo duas últi­mas divagações.

Leopardi Canti

Capa do volume “Canti” de Gia­como Leo­pardi, pela Mondadori

Numa pales­tra em que ouvi Alfredo Bosi falar, lembro-me de um de seus comen­tá­rios en pas­sant em que ele elen­cava pos­sí­veis (e vari­a­das) influên­cias para o famoso delí­rio do Brás Cubas — den­tre essas, Leo­pardi (note-se, por exem­plo, o des­ta­que que pro­põe Luci­ana Ste­gagno Pic­chio, em sua His­tó­ria da Lite­ra­tura Bra­si­leira, para o Dia­logo della natura e di un islan­dese). No poema aqui tra­du­zido, nos ver­sos 13 a 16, a natura onni­pos­sente, sua voz que nega a espe­rança, a impo­si­ção do pranto irre­du­tí­vel, levaram-me a relem­brar a “Natu­reza ou Pan­dora” macha­di­ana, tam­bém de pas­sa­gem. Essa pre­sença mar­cante da natu­reza no texto de Leo­pardi, como subli­nha Gior­gio Ficara1 no volume publi­cado pela Mon­da­dori, em meio às fór­mu­las expres­si­vas (ora… ora…) no final do poema (verso 35), ape­nas se “trans­veste de natu­reza”. Em outras pala­vras, a expres­são nos­tri avi famosi recordou-me uma ima­gem que pri­meiro vi pin­tada por Horá­cio, em sua Ode I.6 (ver­sos 1–2), ao cha­mar a Vário “ave dos poe­mas do Meô­nio” (i.e. de Homero), com­pa­ra­ção nada inu­sual nos poe­tas anti­gos. Por­tanto, seriam tam­bém as “aves de Leo­pardi” metá­fo­ras para os “poe­tas do pas­sado”, ou seja, uma ima­gem não pro­pri­a­mente da natu­reza, mas tomada à meto­ní­mia na tra­di­ção. Eis alguns cami­nhos por onde fla­na­ram as divagações.

La sera del dì di festa

Dolce e chi­ara è la notte e senza vento,

E queta sovra i tetti e in mezzo agli orti

Posa la luna, e di lon­tan rivela

Serena ogni mon­tagna. O donna mia,

Già tace ogni sen­ti­ero, e pei balconi

Rara tra­luce la not­turna lampa:

Tu dormi, che t’accolse age­vol sonno

Nelle tue chete stanze; e non ti morde

Cura nes­suna; e già non sai nè pensi

Quanta piaga m’apristi in mezzo al petto.

Tu dormi: io questo ciel, che sì benigno

Appare in vista, a salu­tar m’affaccio,

E l’antica natura onnipossente,

Che mi fece all’affanno. A te la speme

Nego, mi disse, anche la speme; e d’altro

Non bril­lin gli occhi tuoi se non di pianto.

Questo dì fu solenne: or da’ trastulli

Prendi riposo; e forse ti rimembra

In sogno a quanti oggi pia­cesti, e quanti

Piac­quero a te: non io, non già, ch’io speri,

Al pen­sier ti ricorro. Intanto io chieggo

Quanto a viver mi resti, e qui per terra

Mi getto, e grido, e fremo. Oh giorni orrendi

In così verde etate! Ahi, per la via

Odo non lunge il soli­ta­rio canto

Dell’artigian, che riede a tarda notte,

Dopo i sol­lazzi, al suo povero ostello;

E fie­ra­mente mi si stringe il core,

A pen­sar come tutto al mondo passa,

E quasi orma non las­cia. Ecco è fuggito

Il dì fes­tivo, ed al fes­tivo il giorno

Vol­gar suc­cede, e se ne porta il tempo

Ogni umano acci­dente. Or dov’è il suono

Di que’ popoli anti­chi? or dov’è il grido

De’ nos­tri avi famosi, e il grande impero

Di quella Roma, e l’armi, e il fragorio

Che n’andò per la terra e l’oceano?

Tutto è pace e silen­zio, e tutto posa

Il mondo, e più di lor non si ragiona.

Nella mia prima età, quando s’aspetta

Bra­mo­sa­mente il dì fes­tivo, or poscia

Ch’egli era spento, io dolo­roso, in veglia,

Pre­mea le piume; ed alla tarda notte

Un canto che s’udia per li sentieri

Lon­ta­nando morire a poco a poco,

Già simil­mente mi strin­geva il core.

A noite do dia de festa

Doce e clara é a noite e sem vento,

Qui­eta sobre os tetos e em meio aos hortos

Repousa a lua, e de longe revela

Serena todas as mon­ta­nhas. Ó minha senhora,

Já cala toda vereda, e pelos balcões

Raro trans­luz o noturno lampião:

Tu dor­mes, que te aco­lhe ágil sono

Em tua qui­eta alcova; e não te dilacera

Nenhuma afli­ção; e já não sabes nem pensas

Quanta chaga me abriste em meio ao peito.

Tu dor­mes: eu este céu, que tão benigno

Surge à vista, a sau­dar me vejo,

E a antiga natu­reza onipotente

Que ao fla­gelo me fez. “A ti a esperança

Nego”, me disse, “até a espe­rança; e dou­tra coisa

Não bri­lhem teus olhos, senão de pranto.”

Esse dia foi fes­tivo: agora aos passatempos

Dás des­canso; e tal­vez te lembres

Em sonho de quan­tos gos­taste hoje, e quantos

Gos­ta­ram de ti: não eu, não já, que eu espere,

Em pen­sa­mento a ti recorro. No entanto eu pergunto

Quanto me resta viver, e aqui por terra

Me lanço e grito e tremo. Ó dias horrendos

Em tão verde idade! Ai, pelo caminho

Ouço não longe o soli­tá­rio canto

Do arte­são, que retorna tarde à noite

Depois das alga­zar­ras, a sua pobre morada,

E for­te­mente se me aperta o coração,

A pen­sar como tudo no mundo passa,

E quase ves­tí­gio não deixa. Eis que acabou

O dia fes­tivo, e ao fes­tivo o dia

Vul­gar sucede, e leva o tempo consigo

Todas fata­li­da­des huma­nas. Ora onde está o som

Daque­les povos anti­gos? Ora onde está o grito

De nos­sas aves famo­sas, e o grande império

Daquela Roma, e as armas, o frêmito

Que andou pela terra e oceano?

Tudo é paz e silên­cio, e todo o mundo

Repousa, e deles não mais se fala.

Na minha juven­tude, quando se espera

Avi­da­mente o dia fes­tivo, tão logo

Ele havia pas­sado, eu dolo­roso, em vigília,

Aper­tava as penas;2 e tarde à noite

Um canto que se ouvia pelas ruas,

Se apar­tando, mor­rer pouco a pouco,

Já igual­mente me aper­tava o coração

  1. Il punto di vista della natura
  2. do tra­ves­seiro
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Comentários

Há 2 comentários.

  1. PH escreveu:
    21 de abril de 2010

    oi Alex. Já que hj é feri­ado — e caiu bem na quarta, veja só… — me dou como satis­feito em con­tri­buir com um comen­tá­rio sobre seu texto (e, con­ve­ni­en­te­mente, ‘enfor­car’ minha cola­bo­ra­ção semanal).

    Seu texto é real­mente denso, como fala­mos. Não por piro­tec­nia, mas pq vc traz na intro­du­ção uma série de notas sobre a tra­du­ção, que passa ao largo do arca­bouço cul­tu­ral dos lei­to­res comuns (cate­go­ria na qual me incluo, natu­ral­mente). Assim, é um texto téc­nico, e será muito apre­ci­ado por tra­du­to­res e espe­ci­a­lis­tas, sobre­tudo de Leopardi.

    Gos­tei bas­tante da cone­xão com o delí­rio de Brás Cubas. Abriu mais uma cla­reira neste que é um dos tre­chos mais bri­lhan­tes da lite­ra­tura em lín­gua portuguesa.

    Ade­mais, a tra­du­ção ficou com bom ritmo. Mesmo sem ana­li­sar a ver­são do ita­li­ano, o texto ficou claro, com bom enca­de­a­mento. Muito bom.

    Enfim, um texto de alto nível téc­nico e de eru­di­ção no Pipa­rote. Uma refe­rên­cia de qua­li­dade, que será ple­na­mente usu­fruida por um lei­to­res sele­tos, devido à ine­rente com­ple­xi­dade da tarefa e da aná­lise. Abs!

  2. Mário Neto escreveu:
    24 de abril de 2010

    Alê, esta tra­du­ção tem algo mais do que ape­nas “esme­rar o ita­li­ano”. Nota-se o cui­dado e a aten­ção (a téc­nica infe­liz­mente me falta capa­ci­dade para ava­liar) a que você dedi­cou à tra­du­ção, deta­lhando algu­mas das difi­cul­da­des da emprei­tada — como com “posare” e com “sera” — e bus­cando as pos­sí­veis refe­rên­cias e influên­cias de Leo­pardi — como a pre­sença da natu­reza em seus poe­mas, além do eco de Horá­cio. Com isso ganha­mos dupla­mente: com a bela tra­du­ção e com o sutil des­nu­dar do ofí­cio de tradutor.

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