— Conto por Leonardo Afonso, em 2 de abril de 2010
Afonso ergueu os olhos e deu com o ventilador galhofeiro; suspirou profunda, lentamente. Não podia dizer que não vinha pronto para aborrecimentos. Mais que isso, parecia que ali estavam dispostos a destruir a vida pela qual ele optara.
Como ele disse, nascera no século passado, e vivera uma época de uma transição tecnológica muito intensa, à qual não opôs muita resistência de início: tinha endereço eletrônico e tudo. Mas, a partir de determinado momento, pareceu-lhe que tudo ia ficando subordinado à eletrônica, aos sistemas e seus inúmeros terminais: uma ficção científica e distópica ia se materializando. Ele mesmo era um empregado do governo e as rotinas cibernéticas já tomavam pelo menos um terço de seu dia. Foi-se aborrecendo cada vez mais, até que vendeu o pouco que seu pai deixara (menos o nome excêntrico) e arranjou um casebre na saída da cidade, passando a se dedicar apenas ao que costumava ser um hobby: a pintura, além — é claro — de suas rosas. Foi-se desligando da parafernália: não tirou identidade com chip, e quando o governo concluiu o sistema integrado de cadastro civil — que regia tudo — descobriu um dia que não podia abrir conta no banco, pois ele simplesmente “não constava”. Achou ótimo e seguiu pintando e cuidando de rosas, o marchand que lhe comprava as telas fazia-lhe também as compras e ele não mexia com dinheiro. Digamos que era um jovem senhor tão excêntrico quanto o próprio nome.
De repente chega o tal superior, que em vez do colete azul à caixa de fast-food portava uma camisa listrada empapada de suor e uma gravata da mesma cor do colete, da cadeira e de quase tudo ali; era alguém já mais velho, de óculos, mas ainda com uma cabeleira castanha, cheia. Sentou-se onde ficava o rapazola, que ficou espiando tudo por sobre seus ombros, atento.
— Meu nome é Saldanha, bom dia.
Só agora Afonso se deu conta de que o rapazola não tinha nome. Olhou seu crachá, que só dizia “em treinamento”.
— Bom dia… Desculpe a curiosidade, Saldanha é nome ou sobrenome?
— Sobrenome. E o seu?
— Nome ou sobrenome?
— Os dois.
— Afonso e Afonso.
— Sr. Afonso, o Pedro aqui…
— Pode me chamar só de Afonso.
— Ele me disse que o senhor… não está no cadastro!
— Antes de mais nada, seo Saldanha, eu não gosto de ser chamado de senhor.
— Perdão. Mas como você pode não estar no cadastro?!
— Isso você é que tem que me dizer.
Saldanha adotou um tom didático.
— Bem, vejamos: todos foram chamados a fazer a nova identidade — e o prazo foi bem longo — mas o Pedro aqui me disse que o senhor não tem identidade com chip.
— Não mesmo. E senhor é o escambau. Tá me chamando de velho?
— Perdão. Enfim, houve um contingente residual, que foi procurado, na verdade enviamos uma carta por mês…
— Eu me mudei.
— Pois é, mesmo assim, no fim ficaram alguns registros sobrando. O que nós fizemos? Alimentamos o banco de dados com a informação de que dispúnhamos e geramos pelo menos um número para cada um deles, mesmo sem expedir o chip. Ou seja: o senhor deveria estar no cadastro de qualquer forma. Já faz quase uma década que anunciamos a digitalização total da população.
— Como?! — esta última expressão feriu os ouvidos do romântico.
— Afonso (ele se lembrou agora), nós fomos uma das primeiras nações a anunciar a digitalização total da população, é um orgulho nacional!
— Isso me faz pensar por que eu ainda não me mudei pra Bolívia… Mas onde estávamos?
— Bem, eu preciso primeiro entender por que o senhor… perdão, você não foi cadastrado. Isso constitui uma suspeita de fraude, entende? Eu vou chamar o analista de sistemas.
Fraude! Aquilo parece que seria pior do que suas piores expectativas.
Há 3 comentários.
PH escreveu:
2 de abril de 2010
Sr. Afonso, o clima tá ficando pesado. Interessante esta atmosfera apocalíptica, mezzo 666, mezzo sr. K. Ou seja, que ele tá entrando numa fria, tá. E, o pior, esse texto tem um “q” meio profético, baseado no atual andar da carruagem. Então, fico no aguardo para ver como o Affonso vai escapar desta (assim espero)… pra gente aprender, né?
Alexandre Piccolo escreveu:
4 de abril de 2010
É, o senhor Afonso (desculpe!)… o Afonso tá se vendo cada vez mais enrolado. Como ele não faz parte (nem quer fazer parte) de uma nação cuja população foi completamente digitalizada?! A alternativa boliviana soou interessante…
Bem, vejamos onde isso vai parar (será que vai?)…
Mário Neto escreveu:
5 de abril de 2010
O clima de 1984 se mantém, e bem lembrou PH também d’o Processo… E Saldanha é um bom nome, tem aquele cheiro luso-carioca-burocrático. Aguardo a continuação…
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