Não consta, senhor (Parte 2)

Conto por , em 2 de abril de 2010

Afonso ergueu os olhos e deu com o ven­ti­la­dor galho­feiro; sus­pi­rou pro­funda, len­ta­mente. Não podia dizer que não vinha pronto para abor­re­ci­men­tos. Mais que isso, pare­cia que ali esta­vam dis­pos­tos a des­truir a vida pela qual ele optara.

Como ele disse, nas­cera no século pas­sado, e vivera uma época de uma tran­si­ção tec­no­ló­gica muito intensa, à qual não opôs muita resis­tên­cia de iní­cio: tinha ende­reço ele­trô­nico e tudo. Mas, a par­tir de deter­mi­nado momento, pareceu-lhe que tudo ia ficando subor­di­nado à ele­trô­nica, aos sis­te­mas e seus inú­me­ros ter­mi­nais: uma fic­ção cien­tí­fica e dis­tó­pica ia se mate­ri­a­li­zando. Ele mesmo era um empre­gado do governo e as roti­nas ciber­né­ti­cas já toma­vam pelo menos um terço de seu dia. Foi-se abor­re­cendo cada vez mais, até que ven­deu o pouco que seu pai dei­xara (menos o nome excên­trico) e arran­jou um case­bre na saída da cidade, pas­sando a se dedi­car ape­nas ao que cos­tu­mava ser um hobby: a pin­tura, além — é claro — de suas rosas. Foi-se des­li­gando da para­fer­ná­lia: não tirou iden­ti­dade com chip, e quando o governo con­cluiu o sis­tema inte­grado de cadas­tro civil — que regia tudo — des­co­briu um dia que não podia abrir conta no banco, pois ele sim­ples­mente “não cons­tava”. Achou ótimo e seguiu pin­tando e cui­dando de rosas, o mar­chand que lhe com­prava as telas fazia-lhe tam­bém as com­pras e ele não mexia com dinheiro. Diga­mos que era um jovem senhor tão excên­trico quanto o pró­prio nome.

De repente chega o tal supe­rior, que em vez do colete azul à caixa de fast-food por­tava uma camisa lis­trada empa­pada de suor e uma gra­vata da mesma cor do colete, da cadeira e de quase tudo ali; era alguém já mais velho, de óculos, mas ainda com uma cabe­leira cas­ta­nha, cheia. Sentou-se onde ficava o rapa­zola, que ficou espi­ando tudo por sobre seus ombros, atento.

— Meu nome é Sal­da­nha, bom dia.

Só agora Afonso se deu conta de que o rapa­zola não tinha nome. Olhou seu cra­chá, que só dizia “em treinamento”.

— Bom dia… Des­culpe a curi­o­si­dade, Sal­da­nha é nome ou sobrenome?

— Sobre­nome. E o seu?

— Nome ou sobrenome?

— Os dois.

— Afonso e Afonso.

— Sr. Afonso, o Pedro aqui…

— Pode me cha­mar só de Afonso.

— Ele me disse que o senhor… não está no cadastro!

— Antes de mais nada, seo Sal­da­nha, eu não gosto de ser cha­mado de senhor.

— Per­dão. Mas como você pode não estar no cadastro?!

— Isso você é que tem que me dizer.

Sal­da­nha ado­tou um tom didático.

— Bem, veja­mos: todos foram cha­ma­dos a fazer a nova iden­ti­dade — e o prazo foi bem longo — mas o Pedro aqui me disse que o senhor não tem iden­ti­dade com chip.

— Não mesmo. E senhor é o escam­bau. Tá me cha­mando de velho?

— Per­dão. Enfim, houve um con­tin­gente resi­dual, que foi pro­cu­rado, na ver­dade envi­a­mos uma carta por mês…

— Eu me mudei.

— Pois é, mesmo assim, no fim fica­ram alguns regis­tros sobrando. O que nós fize­mos? Ali­men­ta­mos o banco de dados com a infor­ma­ção de que dis­pú­nha­mos e gera­mos pelo menos um número para cada um deles, mesmo sem expe­dir o chip. Ou seja: o senhor deve­ria estar no cadas­tro de qual­quer forma. Já faz quase uma década que anun­ci­a­mos a digi­ta­li­za­ção total da população.

— Como?! — esta última expres­são feriu os ouvi­dos do romântico.

— Afonso (ele se lem­brou agora), nós fomos uma das pri­mei­ras nações a anun­ciar a digi­ta­li­za­ção total da popu­la­ção, é um orgu­lho nacional!

— Isso me faz pen­sar por que eu ainda não me mudei pra Bolí­via… Mas onde estávamos?

— Bem, eu pre­ciso pri­meiro enten­der por que o senhor… per­dão, você não foi cadas­trado. Isso cons­ti­tui uma sus­peita de fraude, entende? Eu vou cha­mar o ana­lista de sistemas.

Fraude! Aquilo parece que seria pior do que suas pio­res expectativas.

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Comentários

Há 3 comentários.

  1. PH escreveu:
    2 de abril de 2010

    Sr. Afonso, o clima tá ficando pesado. Inte­res­sante esta atmos­fera apo­ca­líp­tica, mezzo 666, mezzo sr. K. Ou seja, que ele tá entrando numa fria, tá. E, o pior, esse texto tem um “q” meio pro­fé­tico, base­ado no atual andar da car­ru­a­gem. Então, fico no aguardo para ver como o Affonso vai esca­par desta (assim espero)… pra gente apren­der, né?

  2. Alexandre Piccolo escreveu:
    4 de abril de 2010

    É, o senhor Afonso (des­culpe!)… o Afonso tá se vendo cada vez mais enro­lado. Como ele não faz parte (nem quer fazer parte) de uma nação cuja popu­la­ção foi com­ple­ta­mente digi­ta­li­zada?! A alter­na­tiva boli­vi­ana soou interessante…

    Bem, veja­mos onde isso vai parar (será que vai?)…

  3. Mário Neto escreveu:
    5 de abril de 2010

    O clima de 1984 se man­tém, e bem lem­brou PH tam­bém d’o Pro­cesso… E Sal­da­nha é um bom nome, tem aquele cheiro luso-carioca-burocrático. Aguardo a continuação…

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