— Conto por Leonardo Afonso, em 9 de abril de 2010
O desagradável Saldanha entrou pelo labirinto de divisórias buscando o tal analista de sistemas e deixou o rapazola do colete novamente em seu posto. Afonso pensava nas pobres rosas, sedentas a essa hora adiantada. O ambiente o sufocava, e não conseguia ficar indiferente àquele olhar apatetado que o mirava como se fosse a uma aberração.
— Você é novo aqui? — arriscou para quebrar o gelo.
— É o crachá, não é? E esse colete estúpido. Olha, (baixando a voz e olhando em volta) eu detesto esse trabalho. Eu tô há dois meses aqui, mas se pudesse eu explodia tudo. Minha mãe que encrencava com eu ficar o dia inteiro no computador…
Afonso sorria satisfeito em ver a inesperada metamorfose do rapazola. Ao menos a situação toda ganha contornos mais interessantes.
— … (sussurado) eu sou hacker, sabe?
Afonso, que sentava de um jeito torto, com as pernas cruzada e um braço por sobre o encosto da cadeira, quase caiu ao ouvir aquilo. As coisas definitivamente ficavam mais interessantes.
— Escuta, rapaz… como é seu nome afinal?
— Pedro.
— Você não acha que pode me ajudar aqui, então, Pedro?
— (olhando para ver se eles voltavam) Claro, ora! Você é como um heroi para mim, sem chip! Imagine o que dá… (conteve-se) A fazer o quê, exatamente?
— Não sei, mas você sabe mexer no sistema, pode ser útil afinal.
— Me avisa então quando tiver um plano, então.
Essas últimas palavras já foram pronunciadas à medida em que entravam na sala Saldanha e um tipo corpulento e com óculos escuros, o analista de sistema. Ele usava camisa preta por fora dos jeans; e os cabelos engomados com gel. Os dois cochichadores se recompuseram e sua conspiração ficou para depois. O analista tomou a cadeira e o Saldanha ficou-lhe às costas de um lado; Pedro tentou ficar do outro lado, mas foi enxotado e sumiu pelos corredores. O analista já chegou com um ar ameaçador e após encarar Afonso uns instantes, começou:
— Afonso Affonso Afonso. Como é que você me explica esse nome?
— Nunca vi ninguém ter que explicar o próprio nome. Aliás, qual é o seu?
— Pode me chamar de Martinho. Eu sou da informática. Mas me diga, estou curioso: como alguém consegue ter um nome desses?
— Tudo bem. O sobrenome do meu pai era Afonso. O da minha mãe, Affonso (com dois efes). Eles tinham um senso de humor peculiar e escolheram me batizar Afonso. Na verdade, minha mãe queria Affonso (com dois efes), e eles tiraram na sorte.
— Ficou bom assim, palíndromo.
— Eh… na verdade o palíndromo de Afonso Affonso Afonso seria Osnofa Osnoffa Osnofa.
— Como?
— Nada. Mas afinal, há algo de errado em ter um nome estranho? Quanta gente por aí não tem nome estranho?
— Não se trata dito, senhor Afonso… ah, perdão, você não gosta de ser chamado de senhor. Enfim, a situação aqui é mais complexa, Afonso: você não tem nenhum tipo de cadastro conosco…
— Mas eu mostrei meu documento! — interrompeu.
— Seu documento é do tempo do papel, e não me interrompa mais. Como eu dizia: nenhum tipo de cadastro, um nome estranho, e um nome estranho que, curiosamente, constitui a única falha no sistema já detectada.
— Como assim? Mas eu não tenho culpa…
— Veja só: o sistema precisa de duas entradas para reconhecer a entrada: nome e sobrenome; como no seu caso são iguais, ele até busca nomes intermediários, mas o duplo efe é descartado como possível falha de digitação, então são três nomes iguais, a entrada é rejeitada; mas ocorre que permanece um cadastro fantasma, pois todos os dados estão corretos, a falha foi só catalográfica. Foi isso que aconteceu quando da migração; e não acontececeria se você tivesse vindo fazer o chip; o funcionário que tentou te cadastrar não tentou resolver o problema e deu um jeito de encobrir o problema. Então você meio que existe, mas não existe. É um fantasma no limbo. Aonde quero chegar? É bem possível que alguém tenha descoberto e se aproveitado desse cadastro fantasma — que como todo bom fantasma é indetectável — para cometer fraudes, e de fato ocorreram algumas nunca solucionadas, e devidamente abafadas, é claro, pois nos orgulhamos de um sistema a prova de fraudes, ou falhas.
— Escuta seo Martinho, (Afonso tremia) não me importa seu sistema, suas fraudes e falhas. Eu levo uma vida simples, com minhas telas, minhas rosas. Eu só vim aqui porque eu recebi este papel (tirou-o do bolso, cada vez mais amassado) e eu fiquei com medo que cortassem a água. Agora eu sou de repente um criminoso?
— Exatamente, Afonso, o senhor já pagou a água?
— Eu nunca recebi a conta!
— Justamente. Escuta Afonso, está dando meu horário… eu só vim explicar a você como ocorreu a fraude, ou falha claro, são apenas suspeitas, sabe, não fique nervoso. Nós conversamos com o superintendente (e o Saldanha acenou com a cabeça, sua única intervenção) e ele vai conversar com você.
Nesse momento entraram dois seguranças na baia, cercando Afonso.
— Por favor não se assuste, é procedimento padrão. Os dois vão acompanhá-lo até o gabinete do superintendente.
Há 2 comentários.
PH escreveu:
9 de abril de 2010
vixi. a situação tá ficando mais comprometedora. Tomara que o Pedro possa ajudá-lo…
Alexandre Piccolo escreveu:
9 de abril de 2010
Nesse episódio, virou Matrix esse Processo do Afonso — com direito a hacker, analista e tudo mais. A descrição dos motivos que causaram a falha no sistema foi ótima. Agora é esperar pra saber o que vão fazer com o Afonso nesse gabinete do superintendente…
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