Não consta, senhor (Parte 3)

Conto por , em 9 de abril de 2010

O desa­gra­dá­vel Sal­da­nha entrou pelo labi­rinto de divi­só­rias bus­cando o tal ana­lista de sis­te­mas e dei­xou o rapa­zola do colete nova­mente em seu posto. Afonso pen­sava nas pobres rosas, seden­tas a essa hora adi­an­tada. O ambi­ente o sufo­cava, e não con­se­guia ficar indi­fe­rente àquele olhar apa­te­tado que o mirava como se fosse a uma aberração.

— Você é novo aqui? — arris­cou para que­brar o gelo.

— É o cra­chá, não é? E esse colete estú­pido. Olha, (bai­xando a voz e olhando em volta) eu detesto esse tra­ba­lho. Eu tô há dois meses aqui, mas se pudesse eu explo­dia tudo. Minha mãe que encren­cava com eu ficar o dia inteiro no computador…

Afonso sor­ria satis­feito em ver a ines­pe­rada meta­mor­fose do rapa­zola. Ao menos a situ­a­ção toda ganha con­tor­nos mais interessantes.

— … (sus­su­rado) eu sou hac­ker, sabe?

Afonso, que sen­tava de um jeito torto, com as per­nas cru­zada e um braço por sobre o encosto da cadeira, quase caiu ao ouvir aquilo. As coi­sas defi­ni­ti­va­mente fica­vam mais interessantes.

— Escuta, rapaz… como é seu nome afinal?

— Pedro.

— Você não acha que pode me aju­dar aqui, então, Pedro?

— (olhando para ver se eles vol­ta­vam) Claro, ora! Você é como um heroi para mim, sem chip! Ima­gine o que dá… (conteve-se) A fazer o quê, exatamente?

— Não sei, mas você sabe mexer no sis­tema, pode ser útil afinal.

— Me avisa então quando tiver um plano, então.

Essas últi­mas pala­vras já foram pro­nun­ci­a­das à medida em que entra­vam na sala Sal­da­nha e um tipo cor­pu­lento e com óculos escu­ros, o ana­lista de sis­tema. Ele usava camisa preta por fora dos jeans; e os cabe­los engo­ma­dos com gel. Os dois cochi­cha­do­res se recom­pu­se­ram e sua cons­pi­ra­ção ficou para depois. O ana­lista tomou a cadeira e o Sal­da­nha ficou-lhe às cos­tas de um lado; Pedro ten­tou ficar do outro lado, mas foi enxo­tado e sumiu pelos cor­re­do­res. O ana­lista já che­gou com um ar ame­a­ça­dor e após enca­rar Afonso uns ins­tan­tes, começou:

— Afonso Affonso Afonso. Como é que você me explica esse nome?

— Nunca vi nin­guém ter que expli­car o pró­prio nome. Aliás, qual é o seu?

— Pode me cha­mar de Mar­ti­nho. Eu sou da infor­má­tica. Mas me diga, estou curi­oso: como alguém con­se­gue ter um nome desses?

— Tudo bem. O sobre­nome do meu pai era Afonso. O da minha mãe, Affonso (com dois efes). Eles tinham um senso de humor pecu­liar e esco­lhe­ram me bati­zar Afonso. Na ver­dade, minha mãe que­ria Affonso (com dois efes), e eles tira­ram na sorte.

— Ficou bom assim, palíndromo.

— Eh… na ver­dade o palín­dromo de Afonso Affonso Afonso seria Osnofa Osnoffa Osnofa.

— Como?

— Nada. Mas afi­nal, há algo de errado em ter um nome estra­nho? Quanta gente por aí não tem nome estranho?

— Não se trata dito, senhor Afonso… ah, per­dão, você não gosta de ser cha­mado de senhor. Enfim, a situ­a­ção aqui é mais com­plexa, Afonso: você não tem nenhum tipo de cadas­tro conosco…

— Mas eu mos­trei meu docu­mento! — interrompeu.

— Seu docu­mento é do tempo do papel, e não me inter­rompa mais. Como eu dizia: nenhum tipo de cadas­tro, um nome estra­nho, e um nome estra­nho que, curi­o­sa­mente, cons­ti­tui a única falha no sis­tema já detectada.

— Como assim? Mas eu não tenho culpa…

— Veja só: o sis­tema pre­cisa de duas entra­das para reco­nhe­cer a entrada: nome e sobre­nome; como no seu caso são iguais, ele até busca nomes inter­me­diá­rios, mas o duplo efe é des­car­tado como pos­sí­vel falha de digi­ta­ção, então são três nomes iguais, a entrada é rejei­tada; mas ocorre que per­ma­nece um cadas­tro fan­tasma, pois todos os dados estão cor­re­tos, a falha foi só cata­lo­grá­fica. Foi isso que acon­te­ceu quando da migra­ção; e não acon­te­ce­ce­ria se você tivesse vindo fazer o chip; o fun­ci­o­ná­rio que ten­tou te cadas­trar não ten­tou resol­ver o pro­blema e deu um jeito de enco­brir o pro­blema. Então você meio que existe, mas não existe. É um fan­tasma no limbo. Aonde quero che­gar? É bem pos­sí­vel que alguém tenha des­co­berto e se apro­vei­tado desse cadas­tro fan­tasma — que como todo bom fan­tasma é inde­tec­tá­vel — para come­ter frau­des, e de fato ocor­re­ram algu­mas nunca solu­ci­o­na­das, e devi­da­mente aba­fa­das, é claro, pois nos orgu­lha­mos de um sis­tema a prova de frau­des, ou falhas.

— Escuta seo Mar­ti­nho, (Afonso tre­mia) não me importa seu sis­tema, suas frau­des e falhas. Eu levo uma vida sim­ples, com minhas telas, minhas rosas. Eu só vim aqui por­que eu recebi este papel (tirou-o do bolso, cada vez mais amas­sado) e eu fiquei com medo que cor­tas­sem a água. Agora eu sou de repente um criminoso?

— Exa­ta­mente, Afonso, o senhor já pagou a água?

— Eu nunca recebi a conta!

— Jus­ta­mente. Escuta Afonso, está dando meu horá­rio… eu só vim expli­car a você como ocor­reu a fraude, ou falha claro, são ape­nas sus­pei­tas, sabe, não fique ner­voso. Nós con­ver­sa­mos com o supe­rin­ten­dente (e o Sal­da­nha ace­nou com a cabeça, sua única inter­ven­ção) e ele vai con­ver­sar com você.

Nesse momento entra­ram dois segu­ran­ças na baia, cer­cando Afonso.

— Por favor não se assuste, é pro­ce­di­mento padrão. Os dois vão acompanhá-lo até o gabi­nete do superintendente.

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Comentários

Há 2 comentários.

  1. PH escreveu:
    9 de abril de 2010

    vixi. a situ­a­ção tá ficando mais com­pro­me­te­dora. Tomara que o Pedro possa ajudá-lo…

  2. Alexandre Piccolo escreveu:
    9 de abril de 2010

    Nesse epi­só­dio, virou Matrix esse Pro­cesso do Afonso — com direito a hac­ker, ana­lista e tudo mais. A des­cri­ção dos moti­vos que cau­sa­ram a falha no sis­tema foi ótima. Agora é espe­rar pra saber o que vão fazer com o Afonso nesse gabi­nete do superintendente…

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