Não consta, senhor (Parte 4)

Conto por , em 23 de abril de 2010

— Eu só quero saber por que estou sendo tra­tado como um cri­mi­noso de guerra! — impacientou-se pela pri­meira vez Afonso ante o ques­ti­o­ná­rio — por que não dizer admo­es­ta­ção — do superintendente.

Supor­tara a humi­lha­ção de ser escor­tado por gen­dar­mes; retri­buíra os fal­sos sor­ri­sos do alto buro­crata com sua calva relu­zente e seu terno bem cor­tado; expli­cou mais uma vez por que não tinha chip; teve mesmo que repe­tir a ori­gem de seu nome; vol­tou a exi­bir o docu­mento antigo e garan­tiu que não sabia nada sobre cadastro-fantasma.

Olhava com ódio os dois fun­ci­o­ná­rios que, após ini­ciar seu cal­vá­rio, postavam-se ali de lado em reve­rên­cia ao supe­rior. Pen­sava em Pedro, o qual vira de volta ao posto no cami­nho até a sala do supe­rin­ten­dente; e come­çava a ter ideias. Mas por outro lado temia o abuso de poder daque­les agen­tes de um Estado dado a um rigo­roso e absurdo con­trole sobre o cida­dão; seu único crime tal­vez fosse ten­tar viver à mar­gem da dis­to­pia, mas de qual­quer forma temia não sair dali livre para rever suas rosas. Havia horas den­tro daquele edi­fí­cio assom­broso, ima­gi­nava que se saísse dali iria pin­tar o por-do-sol, e com gosto redobrado.

— Man­te­nha seu tem­pe­ra­mento, meu caro. É um direito meu enten­der a situ­a­ção, não achas? Veja só: seu cadas­tro é a única falha no sis­tema até hoje detec­tada. Mesmo assu­mindo que você mesmo não tenha res­pon­sa­bi­li­dade pelo fato — ainda que fosse um dever seu pro­vi­den­ciar a iden­ti­fi­ca­ção digi­tal inde­pen­den­te­mente de suas con­vic­ções filo­só­fi­cas — você cons­ti­tui uma ame­aça à cre­di­bi­li­dade de todo DCCC; diria que uma ame­aça à sociedade…

— Mas como assim! — inter­rom­peu Afonso — Eu venho aqui para uma regu­la­ri­za­ção cadas­tral e de repente sou uma ame­aça! Eu nunca fiz mal a nin­guém, e já vi que não deve­ria ter aten­dido àquela con­vo­ca­ção… Eu sin­ce­ra­mente pen­sei que fosse algo rela­ci­o­nado à casa… só não quis ficar sem água! Aliás, minhas rosas estão agora mor­rendo de sede! Vocês não podem me pren­der, eu não cometi nenhum crime!

Ao ten­tar se levan­tar, foi con­tido pelo Sal­da­nha, que o olhou com ar con­des­cen­dente. Sua ago­nia cres­cia, mas ele sabia que deve­ria se domi­nar para encon­trar uma saída.

— Meu caro, você ficou com impres­são errada! Nin­guém está pren­dendo nin­guém aqui! Não somos da polí­cia, afi­nal! Esta­mos ape­nas bus­cando uma saída boa para todos, não é mesmo?

— Claro! Claro! — res­pon­de­ram os dois subal­ter­nos em unís­sono, ins­ta­dos pelo superintendente.

— Vocês pode­riam bus­car aquele café pra gente, não? — disse o chefe com uma cons­pí­cua pis­ca­dela, daque­las das mais cínicas.

— Claro! Claro! — foi o coro mais uma vez.

Fica­ram tête-à-tête o supe­rin­ten­dente Figuei­redo (mas pode me cha­mar de Car­los) e nosso triste heroi, com ape­nas um segu­rança à porta, a quem bas­tou um sinal para que tam­bém saísse.

— Como eu dizia, meu amigo Afonso, o obje­tivo é achar a melhor saída para todos. Como eu tam­bém já expli­quei, há ele­men­tos para investigá-lo cri­mi­nal­mente por fraude. Mas a quem inte­ressa isso? Serão meses e meses de pro­ces­sos, audi­ên­cias, pape­lada… E tal­vez este­ja­mos des­per­di­çando o tempo do Estado com algo que não passa de um mal-entendido, como você garante.

Afonso cru­zou as per­nas, espe­rando para ver aonde ia a súbita ama­bi­li­dade do superintendente.

— Se eu entendo bem — pros­se­guiu — o que lhe inte­ressa é seguir sem cadas­tro, cri­ando suas rosas na saída da cidade, não é mesmo? Ima­gino que tenha um cachorro?

— Tenho um vira-lata.

— E como é o nome dele?

— Ringo.

— Ringo Ringgo Ringo?

— Não, só Ringo… — E Afonso ia rela­xando aos poucos.

— Pois é Afonso, você não pode viver como o Ringo. Sem regis­tro civil, sem pagar imposto, sem votar… Você é um cida­dão, afinal!

— Eu já fiz parte de tudo isso, Car­los, e pre­firo a vida que escolhi.

— Tudo bem, então acho muito cruel privá-lo de seu sonho, sabe? Poxa, meu dever pro­fis­si­o­nal é processá-lo, cobrar-lhe todos os impos­tos… ou pelo menos criar seu cadas­tro e con­ce­der uma anis­tia, mas é tanta pape­lada, sabe…

— Aonde você quer chegar?

— Bem, é que eu me afei­çoei a você. Veja que inu­si­tado: alguém com três nomes iguais, rá-rá…

— Na ver­dade, o do meio é com…

— Em ter­mos prá­ti­cos — inter­ro­peu Car­los — eu posso ser um cara bacana con­tigo. Mas e você, como pode retri­buir a gen­ti­leza? — e repe­tiu a pis­ca­dela cínica.

Afonso teve um lam­pejo, e ten­tou mesmo não trans­pa­re­cer seu oti­mismo. Pela pri­meira vez for­mava um plano claro e com chance de êxito. Esforçou-se por entrar no jogo do supe­rin­ten­dente Figuei­redo. Sor­riu maro­ta­mente e respondeu:

— Estou enten­dendo, Car­los. Eu já tinha pen­sado em algo assim, sabe… mas a gente fica com pudo­res, às vezes. Mas, sabe? Eu pre­firo dis­cu­tir isso com calma… a gente cer­ta­mente pode se acer­tar, mas… agora estou mor­rendo de von­tade de usar o banheiro! Que vergonha…

— Como assim, rapaz! Não há de que se enver­go­nhar, isso é natu­ral. Só tem um deta­lhe, o segu­rança vai ter de acom­pa­nhar. Não leve a mal.

— Ah, sem pro­blema, Car­los. O impor­tante é resol­ver a parada, hehe.

Figuei­redo levantou-se para indi­car o cami­nho. Aberta a porta, reco­men­dou ao capanga que acom­pa­nhasse Afonso ao sani­tá­rio. Este agra­de­ceu e com satis­fa­ção dei­xou a sala, onde o ar con­di­ci­o­nado estava forte demais, arris­cando mesmo um sor­riso para o segu­rança, que não retri­biu. Tinha um obje­tivo espe­cí­fico indo ao banheiro, mas pen­sou que o pre­ci­sava mesmo era vomi­tar, depois de toda aquela falsa cor­di­a­li­dade entre os dois.

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Comentários

Há 3 comentários.

  1. PH escreveu:
    23 de abril de 2010

    Boa. Gos­tei da montanha-russa, par­tindo de um clima muito tenso, com um rela­xa­mento momen­tâ­neo e, por fim, o des­fe­cho recu­pe­rando a ten­são nova­mente (o segu­rança não retri­bui o sor­riso). Cada vez mais o nosso AAA está entrando em um labi­rinto processual-ideológico… Já estou no aguardo do pró­ximo capí­tulo deste folhe­tim futu­rista! (opa, futu­rista?… hmmm…)

  2. Mário Neto escreveu:
    24 de abril de 2010

    Leo, tô acom­pa­nhando esta (tra­gicô­mica?) saga burocrática. []!

  3. Alexandre Piccolo escreveu:
    25 de abril de 2010

    Do desa­bafo bruto ini­cial à suges­tão de acerto por meio de “gen­ti­le­zas” (sutil e cor­ri­queira — como se ima­gina que se vê por aí), boa gui­nada num movi­mento pra­ti­ca­mente sem ação, refle­xivo, “enxa­drís­tico” vale­ria arris­car. A opção pelo banheiro deixa ainda em sus­pense as cenas do pró­ximo capítulo.

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