Não consta, senhor (Parte 5)

Conto por Leonardo Afonso, em 29 de abril de 2010

Afonso saiu da sala do supe­rin­ten­dente Figuei­redo tre­mendo de ner­vo­sismo. O epi­só­dio todo já lhe des­gas­tara um bocado, mas aquele pare­cia ser o momento crí­tico. Fez um gesto para que o segu­rança seguisse à frente, e rece­beu uma nega­tiva muda. Deu um jeito de ficar lado a lado com ele; sua pre­o­cu­pa­ção era evi­tar que o sen­ti­nela se aper­ce­besse: ao pas­sar nova­mente pelo bal­cão de aten­di­mento, Afonso fez um leve sinal com a cabeça a Pedro. Res­pi­rou fundo, fechou os olhos; quando abriu, cons­ta­tou que tivera sucesso: Pedro res­pon­deu com um sinal de aqui­es­cên­cia, e o segu­rança seguiu seu passo firme. Afonso teve a sen­sa­sa­ção de que por pre­cá­rio que fosse seu plano, era justo e fadado a acon­te­cer que ele esca­passe; mas cada etapa era um desa­fio, e havia várias pela frente.

O segu­rança e seu quase-prisioneiro atin­gi­ram a área dos banhei­ros, e nosso heroi teve sua tor­cida aten­dida: ele se pos­tou ao lado da porta como o pro­ver­bial dois de paus — seria demais acompanhá-lo até o sani­tá­rio! Entrou. Pedro não pode­ria demo­rar demais para não levan­tar sus­pei­tas, e devia agir bem natu­ral­mente: esses eram os pen­sa­men­tos girando na cabeça de Afonso, quando a porta se abriu, e entrou o rapa­zola de colete azul. Pen­sar que à pri­meira impres­são Afonso o tomou por um abo­bado inú­til… Com mais um sinal de Afonso, os dois se reu­ni­ram em um dos reser­va­dos, e foi Pedro que come­çou a falar:

— Eu sabia…

— Shhh! Temos pouco tempo — sus­sur­rou, e assim pros­se­gui­ram a con­versa. Seguinte: você pode entrar no sis­tema e gerar uma ins­cri­ção nova?

— É difí­cil, mas no seu caso… acho que eu con­sigo, reaproveitando…

— Não, uma iden­ti­dade nova, você vai matar o Afonso, entendeu?

— Para quê, se ele nunca existiu!

— Enfim, eu quero que esta minha vinda aqui ao DCCC seja apa­gada, que o Afonso esteja morto há alguns anos; quero um nome novo e docu­men­tos, com chip e tudo.

— Puxa, Afonso, eu ima­gi­nei que você pudesse me aju­dar tam­bém, sabe, sem chip, você pode fazer tanta coisa sem ser detec­tado! Mas olha… quer dizer que você vai fugir então?

Afonso fez uma pausa antes de res­pon­der. Ouvira um baru­lho e que­ria des­co­brir se era o segu­rança bisbilhotando.

— Sim, é a minha saída. Eu sei que agora eles não vão me dar paz. Eu ten­tei enquanto eu pude só viver minha vida, agora eles me des­co­bri­ram. Mesmo que eu aceite a pro­posta de suborno desse supe­rin­ten­dente de merda…

— Ele é um escroto.

— … algo me diz que o sis­tema nunca mais me deixa em paz.

— Eu tenho uma ideia.

— Diga.

— O cadas­tro fan­tasma. Até eles cor­ri­gi­rem essa falha, eu posso me apro­vei­tar dela.

— Você vai per­der o emprego.

— Tal­vez, mas só um hac­ker entende a beleza em der­ro­tar um sis­tema. Ainda mais esse que domina abso­lu­ta­mente cada passo que damos… é um desafio!

— E qual é a ideia afinal?

— Eu crio uma pes­soa: pode ser Pedro Ped­dro Pedro. Ele vai virar um fan­tasma, e aí eu faço o que qui­ser: mato você, crio outra per­so­na­li­dade para você, outra para mim — por que não? E sem usar minha matrí­cula. Eu conheço todo mundo no CPD, ins­talo um link até em casa…

— Ótimo — inter­rom­peu Afonso — o que você quer em troca?

— Hã? Como assim, eu já disse, é o desafio.

— Deixa de balela, porra.

— Tá bom, eu quero ir contigo.

— Você nem sabe para onde eu vou!

— Mas a gente vai der­ro­tar o sis­tema juntos!

— Seu idi­ota, para onde eu vou mal existe computador!

O segu­rança bateu — com o cas­se­tete pro­va­vel­mente — na porta, apres­sando seu refém.

— Estou com diar­reia — gri­tou Afonso, e bai­xou de novo o tom:  minha casa, você fica com ela e faz o que qui­ser, pode casar, criar seus filhos, ven­der se qui­ser. Mas eu quero ir sozinho.

Pedro pare­ceu desa­pon­tado. De repente lhe veio um bom argumento:

— Mas no fim eles tam­bém vão me achar, minha matrí­cula vai ficar lá no cadas­tro do Pedro Ped­dro Pedro. Eu pre­ciso fugir.

— Tá, tudo bem então. Mas vamos logo: meu ende­reço é Rua do Por­tal, 720. Você acha que con­se­gue tudo para amanhã?

— Impos­sí­vel, três dias pelo menos.

— Tudo bem: con­siga os docu­men­tos e apa­reça lá.

— E como você se livra do superintendente?

— Eu dou um jeito. Vai lá, que vai dar na cara.

Fica­ram meio sem jeito no começo, mas aca­ba­ram tro­cando um abraço. Algo como um pai e um filho ado­tivo (antes que se pense alguma calú­nia). Pedro abriu a por­ti­nhola e olhou em volta. Lavou as mãos para dis­far­çar e no mesmo momento o segu­rança entre­a­briu a porta e enfiou o quepe para den­tro. Era uma ame­aça em sua lin­gua­gem muda. Afonso deu a des­carga, desa­bo­toou as cal­ças para fin­gir que as estava fechando, enquanto saía.

— Ufa! Eu devo ter comido alguma coisa…

O gen­darme tirou a cabeça de den­tro e fechou a porta. Foi uma cami­nhada bem mais tran­quila de volta ao gabi­nete do supe­rin­ten­dente Figuei­redo. Afonso já estava a essa altura ten­tando afas­tar a ideia de “filho que nunca tivera”. Por algum motivo, ainda não olhara as horas, e fê-lo agora: eram quase cinco horas, e sendo verão ainda have­ria bas­tante luz. Sorriu.

FracoRazoávelMédioBomÓtimo Ainda não há notas: dê já a sua!
Loading ... Loading ...

Comentários

Há 2 comentários.

  1. PH escreveu:
    29 de abril de 2010

    Bom, agora o Ped­dro entrou na saga. Vamos em frente!

  2. Alexandre escreveu:
    30 de abril de 2010

    Eita, será que a ideia e a exe­cu­ção do Pedro darão certo? Será que Af(f)onso con­se­guirá fugir ileso do sis­tema (fingindo-se de morto)? Depois da parte 5 (com direito a diar­réia e abraço livre-de-qualquer-suspeita no banheiro, hehehe), pode­mos já mudar o sta­tus dessa saga “computeiro-sistêmica” de conto para novela… veja­mos onde esses dois vão chegar.

Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.