— Conto por Alexandre Piccolo, em 13 de abril de 2010
O historiador árabe Ibn Qaleelan Khaldoun Charmuta Bassam relata ter encontrado entre os muitos arquivos que pesquisara a narrativa a seguir. Segundo suas palavras, o documento estava incompleto, com seu final apagado (ou melhor levemente “esbranquiçado”). Diz também não ter encontrado outra fonte além desse próprio relato, sem assinatura legível, que ele mesmo traduzira, do farsi para o francês, a fim de facilitar sua divulgação. É esse breve texto que agora damos a conhecer.1
Naquele dia de sol e lua, JP acordou estranho. Não era a cabeça nem o estômago que doíam, mas uma constante formigação nas mãos o incomodava desde o levantar. No espelho, notou-se mais pálido que o usual, porém preferiu ignorar qualquer suspeição. O susto apenas lhe ocorreu com força minutos depois, ao pegar o jornal matinal para ler: o papel ficou branco.
Não entendeu como aquilo aconteceu, mas não havia mais letras, palavras, frases, figuras, nem tinta alguma no maço diário de jornal que pretendia ler tomando seu café. Irriquieto antes de propriamente irritado, preferiu rumar para o trabalho. Cumprimentos e olhares usuais acompanhavam-no com a impressão de mais um dia comum. Ao chegar à sua mesa (era escriturário), os sustos aumentaram: de cada papel que tocava, a tinta desaparecia. Inventários, procurações, testamentos, declarações, estatísticas, bastava encostar na folha e um branco completo a tomava. À primeira vista, seus dedos pareciam sugar a tinta impressa no papel. Olhou com cuidado para as pontas dos próprios dedos e nada encontrou. Tentou pegar uma caneta e escrever algo. Nada. Tudo se tornava branco.
Médicos e outros especialistas consultados não souberam explicar o que acontecia nem seus porquês. No princípio JP tentou tirar alguma vantagem do fenômeno inóspito que o condenava. Foi à agência bancária em que tinha uma dívida (contrato de financiamento imobiliário, diz-se). Bastou tocar a folha: tudo apagado. Os homens de dinheiro se alvoroçararam. JP correu por entre caixas, arquivos e pilhas de papel. Em poucos segundos, cédulas, promissória, dívidas, balancetes, contratos — todos em branco, pelo simples toque dos dedos de JP. A arruaça foi pior que um assalto. Se muitos sentiram que lhe deviam esse “favor”, os funcionários do banco culparam-no pela perda de seus empregos, quando a agência precisou ser fechada.
Depois desse e doutros pequenos golpes, cujas vantagens se mostraram irrisórias, JP percebeu a miséria de sua situação. Não podia mais escrever, trabalhar com papéis e tinta, guardar dinheiro ou assinar um cheque; não podia mais ler livro algum, nem escrever mais nada, nenhuma palavra impressa. Sequer tocar uma só foto, um único desenho ou rabisco. Tudo ficava branco em seus dedos, como se precisasse ser refeito, reescrito e vivido novamente. Não podia nem demarcar a tristeza ou gravar sua sina. Num dia bem próximo à loucura, destruiu (i.e. tornou todo branco) o acervo completo da biblioteca da cidade, com sua dezena de milhares de volumes, como se decidisse punir todos pela maldição que lhe cabia.
A esmo, peregrinou nos arredores, mas por pouco tempo, pois não era sujeito de longas andanças. Trabalhou durante meses incontáveis numa empresa que reciclava papel. Seu serviço estúpido e boçal de tornar branca a massa informe de papel a ser reciclada tirou-lhe a fé na vida, no futuro e nos próprios dedos, cada vez mais brancos nas extremidades. Evitou a si mesmo e saiu do tra[balho?/jeto?]…
(…)
…ao preferir isolar-se e fugir para algum lugar de que nem Deus fizesse conta. Desapareceu (como muitos) sem deixar notícia.
Há 4 comentários.
PH escreveu:
13 de abril de 2010
Interessante a narrativa. Tb é interessante notar que é moderna, uma vez que menciona os serviços burocráticos, bancos e cédulas. O autor do texto original, desconhecido (presumo eu), tem um estilo direto e rápido. Poderia ser colaborador do Piparote…rs… Parabéns por mais esta tradução. Traga-nos mais novidades dos cantões desconhecidos por nós e explorado por vc através das letras francesas. Abs.
Mário Neto escreveu:
13 de abril de 2010
Um bom conto fantástico, Alexandre. Que maldição, tudo tocar e virar branco. Curti a estratégia borgiana de referenciar no texto um outro texto, e a brincadeira de que o próprio documento traduzido pelo historiador árabe (ô Charmuta!) também estava quase esbranquiçado. Teria o próprio JP apagado parte da história? Viva o mistério… Valeu!
Brás Vitorino escreveu:
31 de maio de 2010
Meu caro amigo d’além mar. Esta história é tocante e meu único receio é o de que o personagem venha a se transormar em super-herói da nova geração, pela aversão generalizada que existe hoje contra a leitura. Agora permita-me uma observação; se não me falha a memória, charmuta em árabe é um sonoríssimo palavrão. A conferir.
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