O homem filosofal

Conto por , em 13 de abril de 2010

O his­to­ri­a­dor árabe Ibn Qale­e­lan Khal­doun Char­muta Bas­sam relata ter encon­trado entre os mui­tos arqui­vos que pes­qui­sara a nar­ra­tiva a seguir. Segundo suas pala­vras, o docu­mento estava incom­pleto, com seu final apa­gado (ou melhor leve­mente “esbran­qui­çado”). Diz tam­bém não ter encon­trado outra fonte além desse pró­prio relato, sem assi­na­tura legí­vel, que ele mesmo tra­du­zira, do farsi para o fran­cês, a fim de faci­li­tar sua divul­ga­ção. É esse breve texto que agora damos a conhe­cer.1

Naquele dia de sol e lua, JP acor­dou estra­nho. Não era a cabeça nem o estô­mago que doíam, mas uma cons­tante for­mi­ga­ção nas mãos o inco­mo­dava desde o levan­tar. No espe­lho, notou-se mais pálido que o usual, porém pre­fe­riu igno­rar qual­quer sus­pei­ção. O susto ape­nas lhe ocor­reu com força minu­tos depois, ao pegar o jor­nal mati­nal para ler: o papel ficou branco.

Não enten­deu como aquilo acon­te­ceu, mas não havia mais letras, pala­vras, fra­ses, figu­ras, nem tinta alguma no maço diá­rio de jor­nal que pre­ten­dia ler tomando seu café. Irri­qui­eto antes de pro­pri­a­mente irri­tado, pre­fe­riu rumar para o tra­ba­lho. Cum­pri­men­tos e olha­res usu­ais acompanhavam-no com a impres­são de mais um dia comum. Ao che­gar à sua mesa (era escri­tu­rá­rio), os sus­tos aumen­ta­ram: de cada papel que tocava, a tinta desa­pa­re­cia. Inven­tá­rios, pro­cu­ra­ções, tes­ta­men­tos, decla­ra­ções, esta­tís­ti­cas, bas­tava encos­tar na folha e um branco com­pleto a tomava. À pri­meira vista, seus dedos pare­ciam sugar a tinta impressa no papel. Olhou com cui­dado para as pon­tas dos pró­prios dedos e nada encon­trou. Ten­tou pegar uma caneta e escre­ver algo. Nada. Tudo se tor­nava branco.

Médi­cos e outros espe­ci­a­lis­tas con­sul­ta­dos não sou­be­ram expli­car o que acon­te­cia nem seus porquês. No prin­cí­pio JP ten­tou tirar alguma van­ta­gem do fenô­meno inós­pito que o con­de­nava. Foi à agên­cia ban­cá­ria em que tinha uma dívida (con­trato de finan­ci­a­mento imo­bi­liá­rio, diz-se). Bas­tou tocar a folha: tudo apa­gado. Os homens de dinheiro se alvo­ro­ça­ra­ram. JP cor­reu por entre cai­xas, arqui­vos e pilhas de papel. Em pou­cos segun­dos, cédu­las, pro­mis­só­ria, dívi­das, balan­ce­tes, con­tra­tos — todos em branco, pelo sim­ples toque dos dedos de JP. A arru­aça foi pior que um assalto. Se mui­tos sen­ti­ram que lhe deviam esse “favor”, os fun­ci­o­ná­rios do banco culparam-no pela perda de seus empre­gos, quando a agên­cia pre­ci­sou ser fechada.

Depois desse e dou­tros peque­nos gol­pes, cujas van­ta­gens se mos­tra­ram irri­só­rias, JP per­ce­beu a misé­ria de sua situ­a­ção. Não podia mais escre­ver, tra­ba­lhar com papéis e tinta, guar­dar dinheiro ou assi­nar um che­que; não podia mais ler livro algum, nem escre­ver mais nada, nenhuma pala­vra impressa. Sequer tocar uma só foto, um único dese­nho ou rabisco. Tudo ficava branco em seus dedos, como se pre­ci­sasse ser refeito, rees­crito e vivido nova­mente. Não podia nem demar­car a tris­teza ou gra­var sua sina. Num dia bem pró­ximo à lou­cura, des­truiu (i.e. tor­nou todo branco) o acervo com­pleto da bibli­o­teca da cidade, com sua dezena de milha­res de volu­mes, como se deci­disse punir todos pela mal­di­ção que lhe cabia.

A esmo, pere­gri­nou nos arre­do­res, mas por pouco tempo, pois não era sujeito de lon­gas andan­ças. Tra­ba­lhou durante meses incon­tá­veis numa empresa que reci­clava papel. Seu ser­viço estú­pido e boçal de tor­nar branca a massa informe de papel a ser reci­clada tirou-lhe a fé na vida, no futuro e nos pró­prios dedos, cada vez mais bran­cos nas extre­mi­da­des. Evi­tou a si mesmo e saiu do tra[balho?/jeto?]…

(…)

…ao pre­fe­rir isolar-se e fugir para algum lugar de que nem Deus fizesse conta. Desa­pa­re­ceu (como mui­tos) sem dei­xar notícia.

  1. Uma dúvida (assaz per­ti­nente) rela­tiva à ori­gem desse docu­mento diz res­peito à tradução/transliteração do nome da per­so­na­gem para os idi­o­mas moder­nos: não há o fonema /p/ em farsi e a letra j sur­giu na escrita medi­e­val para dis­tin­guir o i vocá­lico do semi-vocálico nos docu­men­tos lati­nos. Que cri­té­rios usou o his­to­ri­a­dor, isso não sabe­mos.
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Comentários

Há 4 comentários.

  1. PH escreveu:
    13 de abril de 2010

    Inte­res­sante a nar­ra­tiva. Tb é inte­res­sante notar que é moderna, uma vez que men­ci­ona os ser­vi­ços buro­crá­ti­cos, ban­cos e cédu­las. O autor do texto ori­gi­nal, des­co­nhe­cido (pre­sumo eu), tem um estilo direto e rápido. Pode­ria ser cola­bo­ra­dor do Piparote…rs… Para­béns por mais esta tra­du­ção. Traga-nos mais novi­da­des dos can­tões des­co­nhe­ci­dos por nós e explo­rado por vc atra­vés das letras fran­ce­sas. Abs.

  2. Mário Neto escreveu:
    13 de abril de 2010

    Um bom conto fan­tás­tico, Ale­xan­dre. Que mal­di­ção, tudo tocar e virar branco. Curti a estra­té­gia bor­gi­ana de refe­ren­ciar no texto um outro texto, e a brin­ca­deira de que o pró­prio docu­mento tra­du­zido pelo his­to­ri­a­dor árabe (ô Char­muta!) tam­bém estava quase esbran­qui­çado. Teria o pró­prio JP apa­gado parte da his­tó­ria? Viva o mis­té­rio… Valeu!

  3. Leonardo Afonso escreveu:
    13 de abril de 2010

    Esse é o Midas Encon­tra Bar­tleby. Bacana a intro­du­ção exó­tica. Muito bom! O emprego na reci­cla­gem foi um barato.

  4. Brás Vitorino escreveu:
    31 de maio de 2010

    Meu caro amigo d’além mar. Esta his­tó­ria é tocante e meu único receio é o de que o per­so­na­gem venha a se tran­sor­mar em super-herói da nova gera­ção, pela aver­são gene­ra­li­zada que existe hoje con­tra a lei­tura. Agora permita-me uma obser­va­ção; se não me falha a memó­ria, char­muta em árabe é um sono­rís­simo pala­vrão. A conferir.

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