Plano contínuo

Conto por , em 14 de abril de 2010

Alaor entrou em dis­pa­rada pela Rua do Hos­pí­cio, como um louco, vindo do porto. Dei­xou os com­pa­nhei­ros, o fumo e os tra­gos ao saber da notí­cia do enfor­ca­mento. Com pas­sos lar­gos, que­ria che­gar o mais rápido pos­sí­vel ao Campo da Cidade. Dobrou a Qui­tanda no sen­tido da Ouvi­dor, sem per­ce­ber a pre­sença de Leite que, ao ver a cor­re­ria do conhe­cido, já sabia do que se tratava. Também pôs-se a correr.

Leite pegou outro cami­nho, pois conhe­cia melhor as vie­las. Demons­trando mais luci­dez, subiu rapi­da­mente no sen­tido da rua do Pio­lho, pois evi­ta­ria pas­sar pelos domí­nios do Major. Durante o tra­jeto, quase se esbar­rou em Domin­gos, que aca­bava de sair da joga­tina e tam­bém per­ce­beu a movimentação.

Ligeiro, Domin­gos esgueirou-se pela Rua do Cano, acom­pa­nhando Leite à dis­tân­cia, para não cha­mar atenção. Mais a frente, para dispersar, dobrou a Lato­ei­ros. Pas­sou pela cafe­te­ria, de onde o Major obser­vava, sem que os gai­a­tos percebessem, toda aquela correria.

Tomou tran­qui­la­mente seu café, não tinha pressa. O evento não come­ça­ria sem ele. O Major sabia que uma mul­ti­dão o espe­rava no Campo. Dei­xou uma moeda no bal­cão e saiu à rua. Com pas­sos fir­mes, pas­sou pelo Gabi­nete Real e dobrou a esquina, de onde pôde avis­tar o tablado cen­tral. Sobre ele estava Emídio, com as mãos atadas, que logo per­ce­beu a apro­xi­ma­ção do Major.

A vista do tablado era pri­vi­le­gi­ada. Emí­dio pôde ver o deses­pero de Alaor, enquanto Leite e Domin­gos, menos afo­ba­dos, se espa­lha­vam entre a mul­ti­dão. Em comum, o olhar de súplica e medo.

Olhou para frente e lá estava o Major, impas­sí­vel. A espi­nha gelou quando o viu orde­nar, com um dis­creto aceno de cabeça, para que colo­cas­sem a corda em seu pes­coço. Mais uma pano­râ­mica, para reen­con­trar os com­par­sas e, final­mente, o olhar do Major — que fitava-o com satis­fa­ção. Foi sua última visão.

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Comentários

Há 4 comentários.

  1. Alexandre Piccolo escreveu:
    14 de abril de 2010

    Curti a cor­re­ria de efeito dominó. Ficou bom tam­bém o des­fe­cho na última visão do Emí­dio: num breve ins­tante, da impas­si­bi­li­dade à satis­fa­ção do Major. Belo exer­cí­cio da técnica.

  2. Mário Neto escreveu:
    14 de abril de 2010

    Bom exer­cí­cio, PH. Ima­gi­nei a cena como uma longa tomada cine­ma­to­grá­fica, com a câmera (em sobrevôo) ora se apro­xi­mando e dando as rápi­das gui­na­das nas esqui­nas do Rio, ora se afas­tando para pegar o palco do “espe­tá­culo”. Não sei por­que, me veio tam­bém algu­mas das toma­das de “Cidade de Deus”… (tal­vez o Rio, as ruas, a velo­ci­dade) Show! []!

  3. Dorly Neto escreveu:
    14 de abril de 2010

    Muito inte­res­sante PH!

    Ima­gi­nando essa cena em uma pers­pec­tiva cine­ma­to­grá­fica, seria bem inte­res­sante usar um estilo de fil­ma­gem dinâ­mico, mos­trando, em cada corte de cena, um dos per­so­na­gens andando e pegando cami­nhos dife­ren­tes. Essa noção de velo­ci­dade entre as ima­gens, cri­a­das bri­lhan­te­mente por Dziga Ver­tov, é bri­lhan­te­mente recri­ado por você na forma de texto. Outra lin­gua­gem, mesmo significado.

    Abra­ços!

  4. Brunno escreveu:
    17 de maio de 2010

    PH, lendo seu texto, não pude evi­tar um para­lelo com cer­tas cenas nar­ra­das em “Era no tempo do rei”, romance his­tó­rico de Ruy Cas­tro que narra a infân­cia de Dom Pedro I na Cidade Mara­vi­lhosa, em 1810. Em deter­mi­nada cena do livro (que faz para­le­los com situ­a­ções e per­so­na­gens de “Memó­rias de um sar­gento de milí­cias”), o menino Leo­nardo tam­bém corre em dis­pa­rada, fugindo por becos e ruas da então capi­tal do Impé­rio Português.

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