— Artigo por Fabiana Bigaton Tonin, em 4 de abril de 2010
Sim, sou uma sentimental. Às vezes mais do que deveria, às vezes, menos. Às vezes, “romântica” no pior sentido da palavra. Gosto de flores, firulas e alguns babados que destoam de uma “mulher moderna e independente” (imagem da qual, por vezes, rio e faço pouco). E, de novo, às vezes, como diria o Zeca Baleiro, além de qualquer beijo de novela me fazer chorar, um feriado pode me devolver um quê doce, quase piegas que escondo (ou tento, frente às exigências por um perfil mais duro) ou do qual me esqueço.
Sim, Páscoa. O trocadilho sugeriria que é uma data “doce” (sim, é péssimo o jogo de sentidos…). Pode ser. Família, telefonemas, afagos dos quais nos desvirtuamos. O mundo “pós-moderno” nos diz que é preciso ser independente e forte; sentimental, só em escusos lugares, em poucos e exclusivos momentos. E embora as propagandas joguem pesado com as imagens e estereótipos, poucas vezes, de verdade, na vida corrida, no vai-vem abarrotado de “coisas e assuntos pra resolver”, de fato, somos doces ao trato e sensíveis ao outro.
Então, aproveitando a permissão, sinto-me “livre” para exercitar minha sensibilidade talvez exacerbada. É dia de abraçar, tocar a alma e as mãos dos outros que amamos e estimamos. Sem falsos apelos, dia de fazer questão de dizer que, sim, queremos bem, sim, nos importamos, sim, queremos sorrir sem medo de parecer patéticos ou clichês.
Afinal, não faz sentido que o abraço só esteja na propaganda de celular ou que o “eu te amo” seja sempre desgastado pela cena tosca de novela. Não se pode deixar para a literatura a avalanche de sentimentos. Parece que, no cotidiano feroz, por vezes, só permitimos os sentimentos de “força” e individualidade ou, pior, egocentrismo.
Perdoem-me, estou piegas hoje e quero me permitir sentir a delicadeza do meu gato, a doçura do telefonema de avós, o abraço dos meus pais, tios, primos, a risada dos meus bons (queridos, próximos, distantes, saudosos, mas sempre) amigos, o beijo do namorado. Enfim, hoje quero celebrar a singeleza e ser, sim, sentimental.
Há 4 comentários.
Mário Neto escreveu:
5 de abril de 2010
Gostoso texto confessional, Fabiana.
Curioso que sejam necessárias ressalvas — “sem medo de parecer patéticos ou clichês”, “perdoem-me, estou piegas hoje”, — para se dizer o que sente, para ser sentimental. Isso sempre me lembra, se você me permite, aquele poema do Álvaro de Campos: “todas as cartas de amor são ridículas”, e as pessoas que nunca escreveram uma são…
Enfim, bem vinda ao piparote!
PH escreveu:
6 de abril de 2010
Fabiana, concordo com o Mário. Não precisamos de desculpas para expressar nossos sentimentos. E ‘estar’ sentimental é sempre revelador. Parabéns pelo começo no Piparote! Abs.
Rafael Bartholomeu escreveu:
25 de abril de 2010
Muito bom Fabi, gostei demais do seu texto. Confesso que ele teve o poder de me redimir da minha excessiva e insensível racionalidade. Às vezes me esqueço de ser sensível e de simplesmente saborear e celebrar o momento presente que nunca mais volta.
Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.