Sentimental

Artigo por , em 4 de abril de 2010

Sim, sou uma sen­ti­men­tal. Às vezes mais do que deve­ria, às vezes, menos. Às vezes, “român­tica” no pior sen­tido da pala­vra. Gosto de flo­res, firu­las e alguns baba­dos que des­toam de uma “mulher moderna e inde­pen­dente” (ima­gem da qual, por vezes, rio e faço pouco). E, de novo, às vezes, como diria o Zeca Baleiro, além de qual­quer beijo de novela me fazer cho­rar, um feri­ado pode me devol­ver um quê doce, quase pie­gas que escondo (ou tento, frente às exi­gên­cias por um per­fil mais duro) ou do qual me esqueço.

Sim, Pás­coa. O tro­ca­di­lho suge­ri­ria que é uma data “doce” (sim, é pés­simo o jogo de sen­ti­dos…). Pode ser. Famí­lia, tele­fo­ne­mas, afa­gos dos quais nos des­vir­tu­a­mos. O mundo “pós-moderno” nos diz que é pre­ciso ser inde­pen­dente e forte; sen­ti­men­tal, só em escu­sos luga­res, em pou­cos e exclu­si­vos momen­tos. E embora as pro­pa­gan­das joguem pesado com as ima­gens e este­reó­ti­pos, pou­cas vezes, de ver­dade, na vida cor­rida, no vai-vem abar­ro­tado de “coi­sas e assun­tos pra resol­ver”, de fato, somos doces ao trato e sen­sí­veis ao outro.

Então, apro­vei­tando a per­mis­são, sinto-me “livre” para exer­ci­tar minha sen­si­bi­li­dade tal­vez exa­cer­bada. É dia de abra­çar, tocar a alma e as mãos dos outros que ama­mos e esti­ma­mos. Sem fal­sos ape­los, dia de fazer ques­tão de dizer que, sim, que­re­mos bem, sim, nos impor­ta­mos, sim, que­re­mos sor­rir sem medo de pare­cer paté­ti­cos ou clichês.

Afi­nal, não faz sen­tido que o abraço só esteja na pro­pa­ganda de celu­lar ou que o “eu te amo” seja sem­pre des­gas­tado pela cena tosca de novela. Não se pode dei­xar para a lite­ra­tura a ava­lan­che de sen­ti­men­tos. Parece que, no coti­di­ano feroz, por vezes, só per­mi­ti­mos os sen­ti­men­tos de “força” e indi­vi­du­a­li­dade ou, pior, egocentrismo.

Perdoem-me, estou pie­gas hoje e quero me per­mi­tir sen­tir a deli­ca­deza do meu gato, a doçura do tele­fo­nema de avós, o abraço dos meus pais, tios, pri­mos, a risada dos meus bons (que­ri­dos, pró­xi­mos, dis­tan­tes, sau­do­sos, mas sem­pre) ami­gos, o beijo do namo­rado. Enfim, hoje quero cele­brar a sin­ge­leza e ser, sim, sentimental.

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Comentários

Há 4 comentários.

  1. Mário Neto escreveu:
    5 de abril de 2010

    Gos­toso texto con­fes­si­o­nal, Fabiana.

    Curi­oso que sejam neces­sá­rias res­sal­vas — “sem medo de pare­cer paté­ti­cos ou cli­chês”, “perdoem-me, estou pie­gas hoje”, — para se dizer o que sente, para ser sen­ti­men­tal. Isso sem­pre me lem­bra, se você me per­mite, aquele poema do Álvaro de Cam­pos: “todas as car­tas de amor são ridí­cu­las”, e as pes­soas que nunca escre­ve­ram uma são…

    Enfim, bem vinda ao piparote!

  2. Alexandre Piccolo escreveu:
    5 de abril de 2010

    É, a lei­tura do texto é gos­tosa, como apon­tou o Mário. Acho que há manei­ras diver­sas de “ser sen­ti­men­tal” (ou seria “se mos­trar sen­ti­men­tal”?), tal­vez o incô­modo des­ta­cado pelo texto esteja sobre­tudo nas antí­te­ses coti­di­a­nas do mundo que nos cerca (apa­ren­te­mente cheio de nove­las e pro­pa­gan­das, mas vazio dos “valo­res e sen­ti­men­tos” alar­de­a­dos e ven­di­dos por tais veí­cu­los; repleto de apa­rên­cias e oco quanto às essên­cias…): quem sabe isso expli­que as res­sal­vas e des­cul­pas (tão for­tui­tas nesse “palco da vida” dito “ego­cên­trico”). Enfim, a sim­ples refle­xão legi­tima o texto — um ótimo começo.

  3. PH escreveu:
    6 de abril de 2010

    Fabi­ana, con­cordo com o Mário. Não pre­ci­sa­mos de des­cul­pas para expres­sar nos­sos sen­ti­men­tos. E ‘estar’ sen­ti­men­tal é sem­pre reve­la­dor. Para­béns pelo começo no Pipa­rote! Abs.

  4. Rafael Bartholomeu escreveu:
    25 de abril de 2010

    Muito bom Fabi, gos­tei demais do seu texto. Con­fesso que ele teve o poder de me redi­mir da minha exces­siva e insen­sí­vel raci­o­na­li­dade. Às vezes me esqueço de ser sen­sí­vel e de sim­ples­mente sabo­rear e cele­brar o momento pre­sente que nunca mais volta.

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