Sir Dodgson e Miss Lidell

Crônica por , em 16 de abril de 2010

Dodg­son em autorretrato.

Você tal­vez não faça ideia de quem sejam as pes­soas cita­das no título,  ou tal­vez ape­nas não esteja ligando o nome à pes­soa: Char­les Lutwidge Dodg­son é o mesmo Lewis Car­roll e Lidell era o sobre­nome da Alice real, uma cri­ança da aris­to­cra­cia vito­ri­ana que ins­pi­rou uma das per­so­na­gens de maior sucesso do oci­dente, extra­va­sando a lite­ra­tura e, infe­liz­mente, sendo maior que o texto em si.

Essa cons­ta­ta­ção vem a pro­pó­sito, pois — coin­ci­den­te­mente — temos em car­taz um filme dos estú­dios Dis­ney sobre a(s) obra(s), ao mesmo tempo em que eu — para­le­la­mente — resolvi revi­si­tar os clás­si­cos Alice’s Adven­tu­res in Won­der­land e Through the Loo­king Glass, em bela edi­ção con­junta da Pen­guin, deste ano ainda, com bela capa psi­co­dé­lica e uma refe­rên­cia: “ins­pi­ra­ção para o filme”. Aí é que está: dei uma lida na sinopse que vinha em um DVD “cor­sá­rio” e des­co­bri que se tra­tava de uma liber­dade cri­a­tiva sobre a obra, em que uma Alice mais velha volta para reen­con­trar os per­so­na­gens dois dois livros. Bem, não é proi­bido recriar uma obra ou ela­bo­rar a par­tir dos ele­men­tos dados… mas eu fico com um pé atrás. Não assisti e não sei se assis­ti­rei ao filme, mas ima­gino que não iria me sen­tir à von­tade, espe­rando sem­pre a his­tó­ria ori­gi­nal. Tam­bém vi as ima­gens publi­ci­tá­rias e tive a impres­são que falta o tom vito­ri­ano que é tão carac­te­rís­tico à his­tó­ria; o cha­pe­leiro maluco car­re­gado de maqui­a­gem me pare­ceu ridí­culo. Temo jus­ta­mente que uma ênfase grande recaia sobre as ima­gens e per­cam relevo os jogos de pala­vras que são ful­crais. Tal­vez eu esteja tor­cendo o nariz por ser da Dis­ney, pode ser que a pelí­cula seja ótima, cada um que decida se vale a pena arriscar.

Mas, como disse, não foi o filme que me fez reler Car­roll, nem foi ele que moti­vou esta crô­nica (que dá des­canso ao Afonso A. Afonso). Resolvi escre­ver, no fim, por conta de um por­me­nor, que só agora des­co­bri, com as ricas notas da edi­ção refe­rida, sobre a inti­mi­dade das pes­soas reais envol­vi­das: o autor Char­les Dodg­son e a moci­nha Alice Lidell.

Char­les era aca­dê­mico na Christ Church, em Oxford, um mate­má­tico medío­cre que seria imor­ta­li­zado pelas letras; quase foi padre mas aca­bou desis­tindo. Quando Henry Lidell foi indi­cado Deão da ins­ti­tui­ção, Dodg­son logo se tor­nou um amigo de sua famí­lia:  na época, a diver­são pre­ci­sava ser cri­ada, em vez de vir pronta, e ele — cri­a­tivo — era o tele­vi­sor para as três meni­nas Lorina, Edith e Alice e o garoto Harry. Em um dos fre­quen­tes pas­seios de barco que rea­li­za­vam,  Dodg­son con­tou uma his­tó­ria que pro­me­teu escre­ver; pre­sen­teou tempo depois a Alice (em 1864) o manus­crito de Alice’s Adven­tu­res Under Ground. No ano seguinte, o texto, ampli­ado, foi publi­cado com o título atual (Alice no País das Mara­vi­lhas, aqui). O enorme sucesso do livro sus­ci­tou, seis anos depois, uma sequên­cia: Through The Looking-Glass (Alice no País do Espe­lho). Os dois são enca­ra­dos como um todo; por exem­plo, o filme da Dis­ney mis­tura per­so­na­gens dos dois livros, assim como o disco do Chick Corea — este sim alta­mente reco­men­dá­vel — Mad Hat­ter. Ocorre que os livros não são exa­ta­mente um fluxo con­tí­nuo, pelo con­trá­rio: há uma sen­sí­vel des­se­me­lhança de tom, que está rela­ci­o­nada com algo ocor­rido no inter­regno entre os dois tex­tos — e que pode dar mar­gem a muita polêmica.

Enquanto o pri­meiro é jovial e ale­gre, o segundo é mais som­brio, inver­nal; e o motivo Car­roll deixa claro logo no poema intro­du­tó­rio: a sepa­ra­ção e a nos­tal­gia de Alice. O casal Lidell rom­pera rela­ções com Dodg­son. O rom­pi­mento foi abrupto e as razões pouco cla­ras, mas disseminou-se a ver­são de que Alice estava no cen­tro do pro­blema. Os diá­rios dessa época foram des­truí­dos por Dodg­son. Pes­qui­sando um pouco mais, soube que Dodg­son pediu ofi­ci­al­mente (e em vão) per­mis­são para cor­te­jar Alice, então com 11 anos (12 era uma idade tole­rá­vel para casa­mento, então; no livro, Alice é repre­sen­tada com 7). Des­co­bri tam­bém que levou uma vida celi­ba­tá­ria — o único rumor envol­veu a gover­nanta das meni­nas, o que ele negou em seu diá­rio. Consta ainda que desis­tiu de ser orde­nado padre em meio a uma crise de culpa, em que se afir­mava um grande peca­dor. E mais, que ainda na década de 50 os pais pedi­ram a Dodg­son que não foto­gra­fasse mais as meni­nas e ten­ta­ram des­con­ti­nuar as visi­tas, ou seja, a rela­ção dele com o casal Lidell não eram lá essas coi­sas. Bem, foto­gra­fia era de fato um hobby do rapaz, e ele tinha um certo gosto por… nus femi­ni­nos infan­tis? Caramba, e aí você dá de cara com a foto de Alice, que sem­pre foi sua favo­rita, no limiar da obsessão:

Alice Lidell foto­gra­fada por Char­les Dodgson

Porra, até eu fiquei com tesão, mano! Se fosse hoje, o Magno Malta já tinha man­dado a PF em cima dele. Então quer dizer que Lewis Car­roll era pedó­filo? Teria abu­sado de Alice, daí o rom­pi­mento? Bem, longe de mim afir­mar isso assim, com todas as letras… mas que, con­ve­nha­mos, somando tudo, a sus­peita é con­sis­tente, não? Mas entre a infâ­mia gra­tuita e o bene­fí­cio da dúvida, é pru­dente ir com a última opção. Ele teve a sorte de viver antes dos tabloi­des, e não vou ser eu a levan­tar escân­dalo mais de um século depois. Mesmo por­que em última ins­tân­cia o que importa para nós é sua lite­ra­tura — que não é ape­nas “para cri­an­ças”, mas de uma maes­tria sin­gu­lar, o para­digma do nonsense.

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Comentários

Há 7 comentários.

  1. Alexandre escreveu:
    16 de abril de 2010

    Léo, você sabe que nesse espaço do Pipa­rote que esta­mos come­çando não há cen­sura. Aqui, cada cola­bo­ra­dor é livre pra expres­sar sua opi­nião e seus valo­res nos tex­tos sem qual­quer tipo de san­ção ou repre­sá­lia. Creio que, por isso mesmo, no espaço para comen­tá­rios dos lei­to­res, as crí­ti­cas (todas, mas sobre­tudo as cons­tru­ti­vas) são bem vin­das. Por­tanto, tendo “asso­prado”, agora vou bater.

    Achei seu texto bem fraco, prin­ci­pal­mente por­que já li e acom­pa­nhei suas con­tri­bui­ções na sau­dosa Patada. Explico. De um lado, pra quem “faz ideia de quem sejam as pes­soas cita­das no título”, me pare­ce­ram muito pouco ins­tru­ti­vos (refle­xivo, cons­tru­tivo, ana­lí­tico, pro­vei­toso…) a mera retrans­mis­são de anti­gos fala­tó­rios e a pro­pa­ga­ção de opi­niões pes­so­ais cujos fun­da­men­tos são, no mínimo, ques­ti­o­ná­veis. Afi­nal, o que seu texto acres­cen­tou à refle­xão de quem já leu a obra (e já bus­cou uma ou outra infor­ma­ção sobre o autor na inter­net ou alhu­res)? Algum “insight”, alguma per­cep­ção sen­sí­vel ou (re)avaliação de certo deta­lhe do texto que você deci­diu com­par­ti­lhar com seus lei­to­res, que pas­sa­ram a percebê-lo a par­tir de sua expo­si­ção? Não (exce­tu­ado o tesão con­fesso pela foto em ques­tão). Lem­bro até que, anos atrás, você havia já comen­tado comigo, pes­so­al­mente, cer­tas pas­sa­gens do texto em inglês que lhe trou­xe­ram grata sur­presa — uma pena que não encon­trei tais obser­va­ções aqui (só a bre­vís­sima impres­são “jogos de pala­vras ful­crais” — se são real­mente a base, o cerne do texto de Lewis Caroll, por que não explorá-los, comentá-los?). Os dois tex­tos da Alice já foram bas­tante tra­du­zi­dos e adap­ta­dos para nossa lín­gua, de for­mas diver­sas: nada disso foi sequer men­ci­o­nado. Ape­nas se repe­tiu um fala­tó­rio dis­se­mi­nado há décadas.

    Por outro lado, para quem não “faz ideia de quem sejam as pes­soas”, seu texto vei­cula a boa­ta­ria já céle­bre como se fosse uma “ver­dade plau­sí­vel”, algo que se encon­tra por aí aos mon­tes na inter­net. Enca­dear logi­ca­mente sus­pei­tas divul­ga­das por aí e depois vin­cu­lar tal enca­de­a­mento à inter­pre­ta­ção da obra é ven­der uma má inter­pre­ta­ção dos tex­tos, espe­ci­al­mente para quem não os conhece. Ora, “somando tudo, a sus­peita é con­sis­tente” — esse é um recurso deve­ras barato, vale dizer, espe­ci­al­mente para falar sobre o escri­tor (e sua vida) por meio das suges­tões de sus­pei­tas de inte­resse irri­só­rio à com­pre­en­são e à inter­pre­ta­ção tanto das nar­ra­ti­vas de Alice quanto da repre­sen­ta­ção cine­ma­to­grá­fica moderna. Você ainda con­clui com o “bene­fí­cio da dúvida”. Fiquei me per­gun­tanto: que “coi­sas boas” traz a dúvida nesse caso (rei­tero: em espe­cial para quem não leu os tex­tos)? Que há de van­ta­joso ao se jus­ti­fi­car o “inver­nal” e “som­brio” com sus­pei­tas extra­tex­tu­ais, se “o que importa para nós é sua lite­ra­tura”? Um con­tra­sensso, a meu ver. E isso nem foi bali­zado, ques­ti­o­nado, equi­li­brado no texto.

    Para quem não viu o filme e ainda se res­sente da “falta do tom vito­ri­ano que é tão carac­te­rís­tico à his­tó­ria” (che­gando a adje­ti­var de “ridí­cula” a maqui­a­gem do cha­pe­leiro maluco) — impres­sões extraí­das exclu­si­va­mente das ima­gens publi­ci­tá­rias, creio -, pareceu-me outro con­tras­senso tra­zer a “PF” e o “Magno Malta” para uma dis­cus­são (essa, sim, “ridí­cula”) que nada acres­centa ao lei­tor inte­res­sado nos tex­tos. Afi­nal, se o filme (a que não se assis­tiu) é mal visto (a pri­ori) por pro­por uma esté­tica pró­pria (supo­nho que “des­vi­ante”, por­que “não-vitoriana”) à his­tó­ria ence­nada, por que ape­nas você está auto­ri­zado mis­tu­rar “alhos e buga­lhos” em sua refle­xão tex­tual? Enfim, tal­vez tudo isso sirva ape­nas para des­ta­car que não prezo pon­de­ra­ções e comen­tá­rios à Oswald de Andrade: não li/vi e não gos­tei. Menos ainda repro­du­ções de boa­tos sem pro­pó­si­tos (note como a pró­pria wiki­pé­dia é mais cui­da­dosa ao falar das “suges­tões de pedo­fi­lia”, tra­zendo para o debate opi­niões de quem deci­diu olhar o assunto não ape­nas sobre a super­fí­cie: http://en.wikipedia.org/wiki/Lewis_Carroll — e.g. todos os itens de “con­tro­ver­sies and mys­te­ries” pare­cem mais bem refle­ti­dos e redi­gi­dos, a fim de que se evite a dis­se­mi­na­ção de “novas boba­gens”). Con­fesso que pre­fe­ri­ria ler a con­ti­nu­a­ção da saga do “Afonso A. Afonso” a revi­si­tar velhos boa­tos bobos (pode ficar tran­quilo: nem você é o pri­meiro a falar disso, nem parece cau­sar mais escân­dalo tais sus­pei­ções), que não me pare­ce­ram sequer medi­dos ou ques­ti­o­na­dos em seu texto (ao contrário!).

    Bem, tomara que “o asso­pro e a batida” sir­vam pra fazer com que você traga de volta os bons tex­tos da tam­bém sau­dosa “Qui­tanda do Léo” (uma boa aná­lise do disco do Chick Corea citado tal­vez ren­desse mais…), quando a pro­du­ção pare­cia (ao menos pra mim…) pon­de­rar ava­li­a­ções pes­so­ais mais bem refle­ti­das — ao invés do só pas­sar pra frente o “disse-que-disse”. Um abraço.

  2. PH escreveu:
    16 de abril de 2010

    Léo, con­cordo com as obser­va­ções do Ale­xan­dre, acima. Con­si­de­rando seus tex­tos apre­sen­ta­dos na boa e velha “Qui­tanda” e pela espe­rada (e apre­ci­ada) saga do Afonso Affonso Afonso, este seu texto foi um gol con­tra. Os argu­men­tos do Alex são muito bem fun­da­men­ta­dos e pon­tu­a­dos. Uma crí­tica bem emba­sada — como esta — deve ser­vir para sua pon­de­ra­ção e apri­mo­ra­mento como escri­tor. Você, de fato, tinha um assunto bem deli­cado e inte­res­sante, que pode­ria ser com­par­ti­lhado de uma forma muito pro­du­tiva com os con­fra­des do Pipa­rote. Ou seja, tinha um bom gan­cho. Mas você dei­xou esca­par esta opor­tu­ni­dade, ao tra­tar dife­ren­tes pon­tos sem muito foco, com super­fi­ci­a­li­dade e, até mesmo, com insen­si­bi­li­dade. Sir Dodg­son e Miss Lid­dell mere­cem um melhor tra­ta­mento, em ter­mos de pes­quisa, aná­lise e tex­tos, aqui no Pipa­rote. Afi­nal, o tema é ins­ti­gante e o legado, imen­su­rá­vel. PS: eu vou assis­tir ao Alice, do Tim Bur­ton, com Johnny Depp. Além de eu sus­pei­tar que a dobra­di­nha “Bur­ton e Depp” possa dar cores inte­res­sante à saga, eu vi o trai­ler em 3D: a expe­ri­ên­cia me pare­ceu pro­mis­sora, prin­ci­pal­mente ao ver o gato riso­nho, ali, sur­gindo aos pou­cos, bem na minha frente. Abraços!

  3. Leosfera escreveu:
    16 de abril de 2010

    Tá bom, mas não se irrite!

  4. Leosfera escreveu:
    19 de abril de 2010

    Bem, eu não ia me defen­der, mas de qual­quer sorte: o texto foi escrito como uma crô­nica e aborda minha pró­pria vivên­cia com o texto e fato­res “extra­texto”. Para dis­ser­ta­ções aca­dê­mi­cas, favor con­sul­tar os espe­ci­a­lis­tas. O texto foi escrito para o lei­tor em geral, the man on the street, não tinha ende­reço certo nem inten­ção de ofen­der ou ques­ti­o­nar a sapi­ên­cia do lei­tor espe­cí­fico. Foi escrito de forma pes­soal, humo­rís­tica e des­com­pro­mis­sada — como aliás está escrito aqui em algum lugar ser a pro­posta deste espaço; se não acres­centa à expe­ri­ên­cia de quem já leu o texto, o melhor que faço é reco­men­dar a edi­ção que traz notas redi­gi­das por espe­ci­a­lis­tas; se lança som­bra sobre a reti­dão moral de uma figura pública, não deve­ria ser mais levado a sério que uma revista de fofo­cas, uma iden­ti­dade autoirô­nica que vai lá suge­rida. E se tal sus­peita era de conhe­ci­mento até dos men­di­gos da Praça XV como parece ser o caso, só posso pedir per­dão por minha ignorância.

    Foi bem obser­vado que ele segue a linha da qui­tanda, e penso ser ver­dade; e se tenho direito a minha opi­nião, é dos meho­res tex­tos da série. Por­tanto se cons­tam obje­ções de qual­quer sorte às minhas mal­tra­ça­das linhas, espero ape­nas não ter que ler que meu texto é fraco, pois ou isso é um infâ­mia ao par com a que semis­se­ri­a­mente impingi um escri­tor morto ou no fim eu não mereço espaço algum para publi­car minhas boba­gens — o que aliás, como tam­bém foi suge­rido aqui, hoje é muito fácil.

    Enfim, que isso não se des­do­bre em mais bate­bo­cas — eu mesmo juro não fomentá-lo, e tal­vez ficasse melhor de boca fechada — mas como a tri­buna é livre, achei que devia só pas­sar aqui para dizer que me parece que pedem de mim mais do que eu pro­meti, numa ava­li­a­ção a meu ver injusta de minhas colo­ca­ções, negando mesmo o direito a uma opi­nião própria.

  5. Joseph K. escreveu:
    22 de abril de 2010

    Olhe estou de pas­sa­gem, e bem que pode­ria con­ti­nuar pas­sando, nas o teor desta “briga” me inte­ressa por demais! Sou com­ple­ta­mente apai­xo­nado por tudo que diz res­peito a Sir Dogd­son e Miss Lid­dell; a vida des­tes dois me inte­ressa mais que o livro de Car­roll. Obra, sur­gida sem pre­ten­são lite­rá­ria, fruto de um momento, que ape­sar disso, não sei se devido ao non­sense, ao fan­tás­tico, ou a estru­tura caó­tica da mesma, caiu no gosto do publico e aí meu amigo é só cor­rer para o abraço. Não quero dizer com isso que a obra não tenha valor, con­tudo ela pode ser tudo, menos lite­ra­tura infantil.

    Mas, Gos­tei do teu texto Leo; man­dou legal mesmo, a cri­tica que lhe fazem é real­mente des­pro­por­ci­o­nada, pois todos sabem que Sir Dogd­son era com­ple­ta­mente apai­xo­nado pela Alice. A tra­du­ção que que tive o tra­ba­lho de fazer do manus­crito ori­gi­nal que ele entre­gou a menina, con­tem nuan­ces e cui­da­dos no fei­tio tal, que não se faz para qual­quer pes­soa. Somente para alguém muito especial.

    Como não encon­trei este texto em por­tu­guês, fiz a tra­du­ção o mais perto pos­sí­vel das pala­vras de Car­roll; o motivo e que detesto tra­du­ções e adap­ta­ções que fazem das obras das pes­soas, este­re­o­ti­pando e des­truindo por com­pleto as idéias do autor.
    No caso deste livro Alice, onde alguns poe­mas e peque­nas can­ções que só tem sen­tido para o lei­tor inglês, há quem já os tenha subs­ti­tuído por obras de auto­res bra­si­lei­ros. No mínimo, uma barbaridade!

    Enfim, tudo a ver o teu texto, até mesmo tua forma irre­ve­rente de escre­ver; a estó­ria des­tes dois põe a obra de Car­roll no chi­nelo, creio até que vale­ria aqui uma frase da cul­tura árabe: “Os cães ladram, e cara­vana passa”.

    Joseph K.

  6. Mário Neto escreveu:
    24 de abril de 2010

    Leo, creio que os comen­tá­rios de Ale­xan­dre e PH foram bem cla­ros, e em nenhum momento eles lhe nega­ram “o direito a uma opi­nião pró­pria”. Os comen­tá­rios não colo­ca­ram em ques­tão, por exem­plo, se a sus­peita de assé­dio ou pedo­fi­lía tem ou não fun­da­mento, cuja opi­nião você exprime no fim. Os comen­tá­rios tam­bém não lhe pedi­ram uma dis­ser­ta­ção aca­dê­mica ou uma opi­nião de espe­ci­a­lista. Os comen­tá­rios ava­li­a­ram a sua crô­nica (e não você, o escri­tor) e pro­cu­ra­ram apon­tar o que, no enten­der deles, a enfra­que­ceu e a tor­nou contraditória.

    Con­cordo com todas as colo­ca­ções de Ale­xan­dre e PH. Ainda assim, eu gos­ta­ria de refor­çar o que con­si­dero a maior con­tra­di­ção de sua crô­nica: se “o que importa para nós é sua lite­ra­tura”, por que então uma crô­nica inteira sobre a vida de Car­roll e uma sus­peita? Se sua inten­ção era apon­tar alguma rela­ção entre este suposto assé­dio e a obra, sua crô­nica nada diz a res­peito — exceto que a Alice da obra é a Miss Lidell asse­di­ada. Se “o que importa para nós é sua lite­ra­tura”, deve­mos então enten­der que a sus­peita de pedo­fi­lía é irre­le­vante? Agora, se sua inten­ção era mos­trar sua per­ple­xi­dade diante deste “novo” fato, e me parece ter sido esta a razão de ser da crô­nica, ainda assim o texto se perde, comen­tando sobre um filme que você não viu, sobre a polí­cia fede­ral, sobre uma foto sen­sual e sobre como a sus­peita de pedo­fi­lía lhe pare­ceu con­sis­tente. Fal­tou, afi­nal, a sua visão sobre o que lhe dei­xou per­plexo, o que o sur­pre­en­deu e suas razões, algo que cos­tu­mei­ra­mente encon­tra­mos numa crônica.

    Lem­brando: no Pipa­rote, não existe qual­quer res­tri­ção a temas, sejam ou não polê­mi­cos, ou a abor­da­gens, sejam ou não dota­das de humor. Como disse o PH, você “tinha um assunto bem deli­cado e inte­res­sante”, mas aca­bou se per­dendo — con­corde ou não. Pedi­mos ape­nas “melhor tra­ta­mento, em ter­mos de pes­quisa, aná­lise e tex­tos”. Não esta­mos pedindo dis­ser­ta­ções aca­dê­mi­cas ou opi­niões de espe­ci­a­lis­tas — e os tex­tos até agora publi­ca­dos pare­cem dei­xar isto claro, não?

    Por fim, creio que o comen­tá­rio do anô­nimo Joseph K. mos­tra que ele não com­pre­en­deu as “crí­ti­cas”: “a cri­tica que lhe fazem é real­mente des­pro­por­ci­o­nada, pois todos sabem que Sir Dogd­son era com­ple­ta­mente apai­xo­nado pela Alice”. Repito: não foi colo­cada em ques­tão se a sus­peita levan­tada pela crô­nica é ou não con­sis­tente, mas sim o desen­vol­vi­mento da crô­nica em si. Tam­pouco as crí­ti­cas se devem, Leo, à “tua forma irre­ve­rente de escre­ver”. Seja tão irre­ve­rente quanto qui­ser ser.

    Enfim, rece­ber crí­ti­cas não é algo fácil. Receba-as, se as qui­ser, e aceite-as ou não con­forme seu íntimo. Um abraço.

  7. Joseph K. escreveu:
    25 de abril de 2010

    Gente, que con­fu­são é essa? Vamos enten­der isso; acham vocês que o desen­vol­vi­mento da crô­nica do rapaz não foi cor­reta? Olhem o titulo lá em cima e enten­dam o assunto que ele quer falar, e que o fez muito bem a meu ver. Não consta que ele que­ria ver­sar sobre esta famosa (e chata) obra do Car­roll, onde o maior mérito (além dos diá­lo­gos, que são sem­pre supri­mi­dos em parte pelos adap­ta­do­res) é a figura fan­tás­tica da pró­pria Alice. O cerne da ques­tão mesmo é o rela­ci­o­na­mento do autor com a sua musa, que houve de fato! Não em ter­mos de uma pedo­fi­lia, pala­vra ine­xis­tente (com o peso de hoje) na época Vito­ri­ana; onde meni­nas pode­riam se casar até com 12 anos. Diga­mos que Sir Dogd­son nutriu por ela uma pai­xão platô­nica, e que além das fotos (mara­vi­lho­sas) que fez dela, jamais lhe tocou um dedo. Era gamado sim, e essa é a his­tó­ria que me fascina.

    Creio que não foi cor­res­pon­dido, pois a fami­lia da menina aca­bou rom­pendo as rela­ções de ami­zade com ele. E ele nunca se casou, nem consta que tenha namo­rado alguém, coisa de gente super apai­xo­nada mesmo!
    Alice aos 20 anos teve uma paquera com o prín­cipe Leo­pold (filho da Rai­nha Vic­to­ria); con­tudo casou-se aos 28 anos com Regi­nald Rad­gre­a­ves e teve 3 filhos (dois mor­r­ream na segunda guerra), e ela fale­ceu em 1934 aos 84 anos.

    É inte­res­sante saber que Alice cha­mou seu pri­meiro filho Leo­pold (Prín­cipe Leo­pold tornou-se seu padri­nho) e Leo­pold cha­mou sua filha Alice.

    Alice publi­cou suas memó­rias antes de fale­cer, e esse livro eu ando louco atrás!

    Vejam como é diver­tida esta his­tó­ria de Sir Dodg­son e Miss Lid­dell, bem mais que as peri­pé­cias da menina cres­cendo e dimi­nuindo de tama­nho, e encon­trando toda sorte de ani­mais e gente esqui­si­tos na famosa obra de Carroll.

    Para botar mais pimenta nesta his­tó­ria, obser­vem que o nome Car­roll tem duas con­so­an­tes dobra­das e Lid­dell tam­bém; coin­ci­dên­cias? Quem sabe!…

    Tal­vez o dono do blog queira pros­se­guir em suas pes­qui­sas, ampli­ando o desen­vol­vi­mento do tema. Eu gostaria!

    Joseph K.

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