— Artigo por PH Ferreira, em 7 de abril de 2010
O mercado editorial no Brasil é medonho. Isso não é segredo, há anos, e tem piorado de forma retumbante. Os casos de desinformação e leviandade se tornaram ainda mais recorrentes depois que jornalistas, twitteiros e blogueiros se (con)fundiram em uma meleca superficial e desinformacional - travestida de mídias sociais, conteúdo colaborativo, open source journalism.
Hoje em dia, qualquer Googlada se justifica como uma “pesquisa” ou “apuração jornalística”. É evidente que estamos retroagindo a passos largos e o nosso mercado cultural, que vende o almoço para comprar o jantar, está cada vez mais longe de se equiparar com mercados mais desenvolvidos. Mas, recentemente, duas iniciativas chamaram a atenção, justamente por irem na contramão desta pasmaceira entendiante.
Refiro-me às revistas Dicta e Contradicta e Serrote. As duas revistas nasceram mais ou menos na mesma época (a Dicta é de junho de 2008, 10 meses mais velha que a Serrote) e são projetos similares no que tange ao conceito de produto, com formato diferenciado (cerca de 25 X 18 cm), projeto gráfico elegante, circulação semestral (Dicta) ou quadrimestral (Serrote) e vendidas em boas livrarias, a preços de capa condizentes ao propósito dos produtos.
E qual este propósito? Nos dois casos, o objetivo é provocar o debate e reflexão sobre o pensamento humano, cultura, arte, filosofia, literatura, com ensaios profundos, ficção, poesia, artes gráficas e outras produções de boa qualidade. Ambas são inspiradas em publicações estrangeiras que tem a mesma dinâmica de circulação, distribuição e público-alvo. Este fato, por si só, já diminui o gigantesco gap entre nosso mercado editorial e mercados de outros países.
A Dicta é publicada pelo Instituto de Formação e Educação, uma associação sem fins lucrativos, “que visa a estudar, criar e divulgar no Brasil conhecimento nos campos das Humanidades, das Artes e da Filosofia”; e a Serrote é um produto do Instituto Moreira Salles, que dispensa apresentações.
Nos dois casos, o conteúdo proposto é profundo e muito diverso, o que me livra - sem muita culpa - de fazer uma análise minuciosa sobre as edições que adquiri recentemente: a edição #4 da Dicta e a #2 da Serrote.
Nas duas são encontrados ensaios e contos inéditos, análises sobre escritores, músicos, filósofos e temas diversos (até mesmo, interessante, artigos sobre neurociências). São dois bons volumes de informações sobre cultura e com textos inéditos, de escritores brasileiros e estrageiros.
Na Dicta, por exemplo, os organizadores trazem desde traduções de ensaios como “A Pobreza do Mal”, que um psiquiatra inglês escreveu sobre a violência em zonas de conflito, até análises sobre o universo de Thomas Pynchon; o resgate de uma certa tradução de Tomás Antônio Gonzaga para o Russo (em pleno século XIX); um divertido texto sobre a antropologia de Nelson Rodrigues; e a importância dos Beatles na cultura universal. Além de análises de poemas, trechos da Bíblia Sagrada e ensaios variados, sempre salpicados com muita provoção, com o característico tom do pensamento conservador. São 281 páginas que dão corpo a um volume de peso, assinado com um elegante patrocínio do Banco Fator e desdobrado em uma edição permanente, online, no blog da publicação (enfim, eis um exemplo de uso lúcido das mídias digitais na dinâmica de uma publicação).
A Serrote, por sua vez, também traz traduções de ensaios inéditos, como um texto de John Updike sobre histórias em quadrinhos. Aliás, a publicação do IMS, por seu natural poder de articulação, carrega textos de nomes “galáticos”, como Antônio Cândido, Bernardo Carvalho, Gore Vidal e até mesmo uma inusitada carta assinada por Groucho Marx. Com um pensamento mais liberal que a Dicta, a Serrote exala profissionalismo e eficiência (inclusive uma certa impessoalidade…), e traz um projeto gráfico primoroso - que lança a mão do acervo de imagens do próprio instituto ao qual está ligada. A edição #2 da Serrote tem 223 páginas e vem com uma publicidade de duas páginas da revista Piauí, além de um reclame do próprio IMS.
O aspecto “profissionalismo”, aliás, de certa forma torna a Serrote um pouco mais “distante”, se compararmos com a Dicta. Enquanto a Serrote traz artigos mais palatáveis, jornalísticos e politicamente corretos, a Dicta provoca mais, é mais aguerrida e, até mesmo, traz uma certa irregularidade na qualidade dos textos. A Serrote passa a impressão de ser uma consolidação muito bem executada do universo de uma elite cultural vigente, enquanto a Dicta é mais autoral, menos mainstream, que busca abrir espaço para uma nova elite intelectual.
Pelo menos esta foi a minha impressão ao comparar os dois exemplares entre si, exercício que tende a ser uma bobagem. Afinal, são duas publicações de grande evergadura, consistentes, autênticas, que buscam elevar o debate e o nível do mercado editorial, como um todo. Inclusive, ao encontrar textos sobre humor/comédia e neurociências em ambas edições, é possível sugerir um diálogo-competitivo entre as revistas, dinâmica que vai permitir um constante (e mútuo) aprimoramento do debate.
Em suma, carecemos de mais Dictas e Serrotes em outros segmentos, com outros formatos e conceitos, pois a constatação mais relevante desta crítica é que as duas publicações subiram o patamar de qualidade do mercado editorial. Mostraram que, no Brasil, é viável publicar produtos culturais com excelência, com apoio de patrocinadores corajosos e de um público sedento por fundamentação, já nauseado com a superficialidade e com a incontrolável umbilicalidade do nosso medíocre mercado editorial.
Há 6 comentários.
Patricia Souza escreveu:
7 de abril de 2010
Instigante, no mínimo. Uma boa referência para procurarmos essas publicações.
Alexandre Piccolo escreveu:
7 de abril de 2010
Eu discordo de uma coisa, PH: esse exercício de análise que você propõe aqui não tende nem um pouco a ser uma bobagem. Ao contrário, é uma reflexão equilibrada, que mostra a “contramão desta pasmaceira entendiante” que é o mercado editorial brasileiro, sobretudo aquele classificado como “cultural”. Melhor que colocar as duas revistas na balança (para simplesmente escolher uma e defendê-la ou repudiá-la), você enxerga qualidades comuns e particulares em ambas as publicações, além de identificar tendências específicas de cada grupo, sem subestimá-las. Em suma, seu texto instiga a curiosidade do leitor que ainda não conhece as revistas, sem preconizar nem desvalorizar uma ou outra (como se costuma fazer por aí, não raro gratuitamente). Se nosso mercado melhora com o lançamento de boas revistas, o gênero das resenhas também se aprimora com exemplos de bons textos, como é este seu: uma ótima resenha.
Mário Neto escreveu:
7 de abril de 2010
Boas referências, PH. Bom saber que, de certa forma, publicações desse gênero têem espaço neste nosso mercado editorial ainda tímido. []!
Leosfera escreveu:
8 de abril de 2010
Não vou engrossar a polêmica da D&C, que um certo texto que o Alê me mandou outro dia. Mas uma revista de “alta cultura” não costuma abordar a “Bíblia Sagrada”. Sua origem ligada à opus dei cobra seu preço. Enfim, como de resto, cabe absorver o que é oferecido, sempre com discernimento. Se traz um artigo interessante sobre Hamlet, não importa de quem vem. Mas se é um artigo sobre aborto, é melhor levar em consideração a procedência.
Mas fiquei curioso, vou buscar conhecer os dois trabalhos. Belo texto.
PH escreveu:
8 de abril de 2010
Leo, neste ponto eu discordo de ti: creio que é legítimo, sim, uma revista de “alta cultura” abordar textos da Bíblia Sagrada. Principalmente porque este livro é uma das bases do pensamento ocidental, assim como os gregos, latinos e até mesmo mais modernos, como o próprio Sheakespeare, que você mencionou. Neste sentido, é sim legítimo, independente de qualquer eventual ligação com alguma corrente religiosa. Eu não encontrei nenhum tipo de distorção, mesmo porque é destinando a um público com maior discernimento. É claro que a revista carrega, declaradamente, a linha de pensamento conservador. Mas isso é declarado e o leitor que tem acesso à publicação deve fazer seu filtro, uma vez que não é um veículo de comunicação de massa. Abração!
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