Sobre a Dicta e Serrote

Artigo por , em 7 de abril de 2010

O mer­cado edi­to­rial no Bra­sil é medo­nho. Isso não é segredo, há anos, e tem pio­rado de forma retumbante. Os casos de desin­for­ma­ção e levi­an­dade se tor­na­ram ainda mais recor­ren­tes depois que jor­na­lis­tas, twit­tei­ros e blo­guei­ros se (con)fundiram em uma meleca super­fi­cial e desin­for­ma­ci­o­nal - tra­ves­tida de mídias sociais, conteúdo cola­bo­ra­tivo, open source jour­na­lism.

Hoje em dia, qualquer Goo­glada se jus­ti­fica como uma “pes­quisa” ou “apu­ra­ção jor­na­lís­tica”. É evi­dente que esta­mos retro­a­gindo a pas­sos lar­gos e o nosso mer­cado cul­tu­ral, que vende o almoço para com­prar o jan­tar, está cada vez mais longe de se equi­pa­rar com mer­ca­dos mais desen­vol­vi­dos. Mas, recen­te­mente, duas ini­ci­a­ti­vas cha­ma­ram a aten­ção, jus­ta­mente por irem na con­tra­mão desta pas­ma­ceira entendiante.

Refiro-me às revis­tas Dicta e Con­tra­dicta e Ser­rote. As duas revis­tas nas­ce­ram mais ou menos na mesma época (a Dicta é de junho de 2008, 10 meses mais velha que a Ser­rote) e são pro­je­tos simi­la­res no que tange ao con­ceito de pro­duto, com for­mato dife­ren­ci­ado (cerca de 25 X 18 cm), pro­jeto grá­fico ele­gante, cir­cu­la­ção semes­tral (Dicta) ou qua­dri­mes­tral (Ser­rote) e ven­di­das em boas  livrarias, a pre­ços de capa con­di­zen­tes ao pro­pó­sito dos produtos.

Edi­ção #4 da revista Dicta e Con­tra­dicta, publi­cada em 09 de dezem­bro de 2009.

E qual este pro­pó­sito? Nos dois casos, o obje­tivo é pro­vo­car o debate e refle­xão sobre o pen­sa­mento humano, cul­tura, arte, filo­so­fia, lite­ra­tura, com ensaios pro­fun­dos, fic­ção, poe­sia, artes grá­fi­cas e outras pro­du­ções de boa qualidade. Ambas são ins­pi­ra­das em publi­ca­ções estran­gei­ras que tem a mesma dinâ­mica de cir­cu­la­ção, dis­tri­bui­ção e público-alvo. Este fato, por si só, já dimi­nui o gigan­tesco gap entre nosso mer­cado edi­to­rial e mer­ca­dos de outros países.

A Dicta é publi­cada pelo Ins­ti­tuto de For­ma­ção e Edu­ca­ção, uma asso­ci­a­ção sem fins lucra­ti­vos, “que visa a estu­dar, criar e divul­gar no Bra­sil conhe­ci­mento nos cam­pos das Huma­ni­da­des, das Artes e da Filosofia”; e a Ser­rote é um pro­duto do Ins­ti­tuto Moreira Sal­les, que dis­pensa apresentações.

Edi­ção #2 da Ser­rote, publi­cada em julho de 2009.

Nos dois casos, o con­teúdo pro­posto é pro­fundo e muito diverso, o que me livra - sem muita culpa - de fazer uma aná­lise minu­ci­osa sobre as edi­ções que adquiri recen­te­mente: a edi­ção #4 da Dicta e a #2 da Serrote.

Nas duas são encon­tra­dos ensaios e con­tos iné­di­tos, aná­li­ses sobre escri­to­res, músi­cos, filó­so­fos e temas diver­sos (até mesmo, inte­res­sante, arti­gos sobre neurociências). São dois bons volu­mes de infor­ma­ções sobre cul­tura e com tex­tos iné­di­tos, de escri­to­res bra­si­lei­ros e estrageiros.

Na Dicta, por exem­plo, os orga­ni­za­do­res tra­zem desde tra­du­ções de ensaios como “A Pobreza do Mal”, que um psi­qui­a­tra inglês escre­veu sobre a vio­lên­cia em zonas de con­flito, até aná­li­ses sobre o uni­verso de Tho­mas Pynchon; o res­gate de uma certa tra­du­ção de Tomás Antô­nio Gon­zaga para o Russo (em pleno século XIX); um diver­tido texto sobre a antro­po­lo­gia de Nel­son Rodri­gues; e a impor­tân­cia dos Bea­tles na cul­tura uni­ver­sal. Além de aná­li­ses de poe­mas, tre­chos da Bíblia Sagrada e ensaios variados, sempre sal­pi­ca­dos com muita pro­vo­ção, com o carac­te­rís­tico tom do pen­sa­mento conservador. São 281 pági­nas que dão corpo a um volume de peso, assinado com um ele­gante patro­cí­nio do Banco Fator e des­do­brado em uma edi­ção per­ma­nente, online, no blog da publi­ca­ção (enfim, eis um exem­plo de uso lúcido das mídias digi­tais na dinâ­mica de uma publicação).

A Ser­rote, por sua vez, tam­bém traz tra­du­ções de ensaios iné­di­tos, como um texto de John Updike sobre his­tó­rias em qua­dri­nhos. Aliás, a publi­ca­ção do IMS, por seu natu­ral poder de arti­cu­la­ção, car­rega tex­tos de nomes “galá­ti­cos”, como Antô­nio Cândido, Bernardo Carvalho, Gore Vidal e até mesmo uma inu­si­tada carta assi­nada por Grou­cho Marx. Com um pen­sa­mento mais libe­ral que a Dicta, a Ser­rote exala  pro­fis­si­o­na­lismo e efi­ci­ên­cia (inclu­sive uma certa impessoalidade…), e traz um pro­jeto grá­fico pri­mo­roso - que lança a mão do acervo de ima­gens do pró­prio ins­ti­tuto ao qual está ligada. A edi­ção #2 da Ser­rote tem 223 pági­nas e vem com uma publi­ci­dade de duas pági­nas da revista Piauí, além de um reclame do pró­prio IMS

O aspecto “pro­fis­si­o­na­lismo”, aliás, de certa forma torna a Ser­rote um pouco mais “dis­tante”, se com­pa­rar­mos com a Dicta. Enquanto a Ser­rote traz  arti­gos mais pala­tá­veis, jor­na­lís­ti­cos e poli­ti­ca­mente cor­re­tos, a Dicta pro­voca mais, é mais aguer­rida e, até mesmo, traz uma certa irre­gu­la­ri­dade na qua­li­dade dos textos. A Ser­rote passa a impres­são de ser uma con­so­li­da­ção muito bem exe­cu­tada do uni­verso de uma elite cul­tu­ral vigente, enquanto a Dicta é mais auto­ral, menos mains­tream, que busca abrir espaço para uma nova elite intelectual.

Pelo menos esta foi a minha impres­são ao com­pa­rar os dois exem­pla­res entre si, exer­cí­cio que tende a ser uma bobagem. Afinal, são duas publi­ca­ções de grande ever­ga­dura, con­sis­ten­tes, autên­ti­cas, que bus­cam ele­var o debate e o nível do mer­cado edi­to­rial, como um todo.  Inclu­sive, ao encon­trar tex­tos sobre humor/comédia e neu­ro­ci­ên­cias em ambas edi­ções, é pos­sí­vel suge­rir um diálogo-competitivo entre as revis­tas, dinâ­mica que vai per­mi­tir um cons­tante (e mútuo) aprimoramento do debate.

Em suma, care­ce­mos de mais Dic­tas e Ser­ro­tes em outros segmentos, com outros for­ma­tos e conceitos, pois a cons­ta­ta­ção mais rele­vante desta crí­tica é que as duas publi­ca­ções subi­ram o pata­mar de qua­li­dade do mer­cado edi­to­rial. Mos­tra­ram que, no Bra­sil, é viá­vel publi­car pro­du­tos cul­tu­rais com exce­lên­cia, com apoio de patro­ci­na­do­res cora­jo­sos e de um público sedento por fun­da­men­ta­ção, já nau­se­ado com a super­fi­ci­a­li­dade e com a incon­tro­lá­vel umbi­li­ca­li­dade do nosso medío­cre mer­cado editorial.

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Comentários

Há 6 comentários.

  1. Patricia Souza escreveu:
    7 de abril de 2010

    Ins­ti­gante, no mínimo. Uma boa refe­rên­cia para pro­cu­rar­mos essas publicações.

  2. Alexandre Piccolo escreveu:
    7 de abril de 2010

    Eu dis­cordo de uma coisa, PH: esse exer­cí­cio de aná­lise que você pro­põe aqui não tende nem um pouco a ser uma boba­gem. Ao con­trá­rio, é uma refle­xão equi­li­brada, que mos­tra a “con­tra­mão desta pas­ma­ceira enten­di­ante” que é o mer­cado edi­to­rial bra­si­leiro, sobre­tudo aquele clas­si­fi­cado como “cul­tu­ral”. Melhor que colo­car as duas revis­tas na balança (para sim­ples­mente esco­lher uma e defendê-la ou repudiá-la), você enxerga qua­li­da­des comuns e par­ti­cu­la­res em ambas as publi­ca­ções, além de iden­ti­fi­car ten­dên­cias espe­cí­fi­cas de cada grupo, sem subestimá-las. Em suma, seu texto ins­tiga a curi­o­si­dade do lei­tor que ainda não conhece as revis­tas, sem pre­co­ni­zar nem des­va­lo­ri­zar uma ou outra (como se cos­tuma fazer por aí, não raro gra­tui­ta­mente). Se nosso mer­cado melhora com o lan­ça­mento de boas revis­tas, o gênero das rese­nhas tam­bém se apri­mora com exem­plos de bons tex­tos, como é este seu: uma ótima resenha.

  3. Mário Neto escreveu:
    7 de abril de 2010

    Boas refe­rên­cias, PH. Bom saber que, de certa forma, publi­ca­ções desse gênero têem espaço neste nosso mer­cado edi­to­rial ainda tímido. []!

  4. Leosfera escreveu:
    8 de abril de 2010

    Não vou engros­sar a polê­mica da D&C, que um certo texto que o Alê me man­dou outro dia. Mas uma revista de “alta cul­tura” não cos­tuma abor­dar a “Bíblia Sagrada”. Sua ori­gem ligada à opus dei cobra seu preço. Enfim, como de resto, cabe absor­ver o que é ofe­re­cido, sem­pre com dis­cer­ni­mento. Se traz um artigo inte­res­sante sobre Ham­let, não importa de quem vem. Mas se é um artigo sobre aborto, é melhor levar em con­si­de­ra­ção a procedência.

    Mas fiquei curi­oso, vou bus­car conhe­cer os dois tra­ba­lhos. Belo texto.

  5. PH escreveu:
    8 de abril de 2010

    Leo, neste ponto eu dis­cordo de ti: creio que é legí­timo, sim, uma revista de “alta cul­tura” abor­dar tex­tos da Bíblia Sagrada. Prin­ci­pal­mente por­que este livro é uma das bases do pen­sa­mento oci­den­tal, assim como os gre­gos, lati­nos e até mesmo mais moder­nos, como o pró­prio She­a­kes­pe­are, que você men­ci­o­nou. Neste sen­tido, é sim legí­timo, inde­pen­dente de qual­quer even­tual liga­ção com alguma cor­rente reli­gi­osa. Eu não encon­trei nenhum tipo de dis­tor­ção, mesmo por­que é des­ti­nando a um público com maior dis­cer­ni­mento. É claro que a revista car­rega, decla­ra­da­mente, a linha de pen­sa­mento con­ser­va­dor. Mas isso é decla­rado e o lei­tor que tem acesso à publi­ca­ção deve fazer seu fil­tro, uma vez que não é um veí­culo de comu­ni­ca­ção de massa. Abração!

  6. Leonardo Afonso escreveu:
    8 de abril de 2010

    PH, então você não dis­corda, por­que eu penso mais ou menos o mesmo. É legí­timo sem dúvida, mas até onde eu conheça, não é usual; inclu­sive no meio inte­lec­tual como um todo a fé tem uma pene­tra­ção bem menor. no caso da revista, o artigo tinha que estar lá; e deve ser um que acres­cente alguma coisa, cer­ta­mente não seria crí­tico, ques­ti­o­na­dor, e essa inter­di­ção inte­lec­tual já é uma “pedra” no sapato da publi­ca­ção. o que não quer dizer que vá fal­tar assunto para outros debates.

    vou expe­ri­men­tar com­prar uma a pró­xima vez que for à cul­tura. agora estou vici­ado em com­prar LPs de jazz zerobala.

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