— Ensaio por Alexandre Piccolo, em 27 de abril de 2010
Por que tantos relatos de episódios vividos por vigaristas soam tão interessantes e instigantes? Por que, em certas histórias de criminosos (especialmente aquelas em que o malandro se dá bem), muitos desejariam até mesmo ter passado pelas peripécias de um farsante, se safando das situações difíceis no final? São tantos filmes de crimes incríveis (como os de Danny Ocean e seus onze, doze ou treze comparsas, ou A cartada final, com três gerações de grandes atores, Marlon Brando, Robert De Niro e Edward Norton — dentre muitos outros) que há até um gênero específico para eles, os heist movies.
Não sei se Prenda-me se for capaz (Catch me if you can, 2002) se enquadra exatamente como um desses, mas creio que muitos dos que assistiram ao filme tenham sentido algo em comum com o que às vezes se sente vendo os tais heist movies: uma espécie de simpática estupefação diante de uma empreitada engenhosa, difícil, cheia de riscos e que, no final, dá certo (para o bandido e seu bando, é claro). Talvez muitos dos que viram os disfarces de piloto, médico, advogado, com que Frank Abagnale aplicava seus golpes tenham também se flagrado, como eu, pensando: “ah, como seria legal viver perigosa e ilesamente, vivenciando as escapadas por que passou Frank Abagnale…?!”. Eis porque ainda me pergunto: o que há de tão fascinante nas histórias desses “bandidos galantes” que se dão bem?
O simples “se dar bem” parece um começo para uma resposta. A ilusão que se experimenta quando nos projetamos na pele de um malandro dessa estirpe tanto permite que se questionem os limites comuns de nosso cotidiano medíocre e corriqueiro (por exemplo, ao nos perguntarmos: será possível que alguém tenha realmente vivido tudo isso?), quanto nos faz embarcar nessa espécie de fantasia à beira da realidade (sobretudo quando o filme é “baseado em fatos reais”), cujo desfecho é positivamente feliz. Trocando em miúdos, compartilha-se, por meio da imaginação e sensibilidade individuais, uma experiência “mágica” alheia — o que parece ir de encontro às noções da apreciação estética ou da própria finalidade artística, de modo geral. Contudo, tentando ser mais específico, me parece que há algo mais por trás dessas narrativas da malandragem bem sucedida, por assim dizer.
O filme de Spielberg é uma de suas melhores produções, em minha opinião, mais gostoso de se ver (e rever) do que Minority Report, O resgate do soldado Ryan, Guerra dos Mundos, O terminal e o último Indiana Jones — para elencarmos apenas produções coevas. A parceria com John Williams soa magistral em Prenda-me se for capaz: notem-se o “lirismo” das cenas tristes (por exemplo, a lembrança do pai, desencadeada pela notícia do falecimento, no banheiro do avião), bem como a “melodia do mistério” (desde os créditos iniciais — primorosos, vale frisar — até os diversos momentos de perseguição dispersos em todo o filme), em simples solos de sax alto. Se Tom Hanks vive magistralmente o dedicado agente Hanratty, arriscaria dizer que Leonardo DiCaprio como o jovem Abagnale é uma das melhores “encarnações” do ator, especialmente porque desempenha o papel de um rapazola entre 16 e 21 anos, para o qual sua cara de garoto-tentando-se-passar-por-um-homem-mais-velho cai muito bem. Os coadjuvantes inclusive, como Christopher Walken e Martin Sheen, estão todos muito bem, em meio à agradável atmosfera recriada dos anos 60.
No cinema, o relato da história de Frank Abagnale começa evocando (ou literalmente imitando) um programa norte-americano chamado To tell the truth, programa de TV que realmente existiu e foi rodado em 1977 (cujos trechos podemos ver no Youtube), em que Frank Abagnale é questionado acerca de suas próprias falcatruas e aventuras. Para dizer a verdade, as peripécias e os percalços juvenis de Frank são tantos e tão miraculosos que beiram (se não ultrapassam) o incrível. No programa real, um dos entrevistadores chega a perguntar se a condicional de que o criminoso desfrutava então era realmente verdadeira. Afinal, levando em conta todos os golpes aplicados, um embusteiro dessa envergadura jamais poderia transitar impune e livremente entre os cidadãos idôneos e cumpridores da lei. Não deixa de parecer paradoxal, todavia, que muitos desses mesmos cidadãos não só invejem várias das aventuras de Abagnale como também lhe admirem a esperteza e sagacidade no burlar leis e preceitos impostos a todos. É quase como se dissessem: fraudar com tamanha elegância, desfaçatez e inteligência (nesse caso) é permitido. Mas sem propriamente legitimarem a criminalidade. Ver que o criminoso desfrutara um estilo sofisticado de vida (restaurantes caros, hotéis chiques, roupas de primeira etc.) não é motivo o bastante para saudar-lhe a dívida nem eximir-lhe a culpa, por mais genial que ele possa ter sido, do mesmo modo que a instável situação familiar em sua juventude precoce não explica nem justifica um percurso pessoal tão desviante.
A foto atual de Frank W. Abagnale, divulgada no site de sua companhia, mostra um senhor de cabelos brancos, algo bonachão, cujos sorriso e vasta “entrada” (para não dizer careca) parecem transparecer as boas lembranças de sua joie de vivre juvenil. A aparência notavelmente elegante vai de encontro ao primeiro dos três mandamentos do vigarista, assim descrito no livro:
(…) vejo o cuidado com a aparência como parte da personalidade de um indivíduo. Os maiores artistas da trapaça — sejam especializados em passar cheques frios ou vender licenciamentos fajutos de petróleo — sempre vestem-se bem e exsudam um ar de confiança e autoridade. Costumam também ser tão charmosos, corteses e aparentemente sinceros quanto um político em campanha de reeleição, embora às vezes possam exibir a arrogância fria de um magnata. (p. 146 — grifo meu)
Essa observação acerca do magnetismo visual (a que todos se fixam hipinoticamente) está transposto, no filme, no comentário sobre os Yankees, por exemplo, e seus uniformes listrados: enquanto uns creem que basta um jogador notável (como Mickey Mantle), o charlatão vende seu peixe já em sua imagem (primeira impressão), no que está à vista, na superfície. É o que basta para fazer crer.1
O roteiro de Prenda-me se for capaz adapta o livro autobiográfico de Frank W. Abagnale, redigido em parceria com Stan Redding (seu “not so ghost” writer). Depois de tanto ver e rever o filme em ocasiões diversas, decidi procurar e ler o livro. A história é deliciosa, especialmente para quem gostou do filme. Vemos algumas das cenas serem narradas com detalhes diferentes, vemos outros episódios serem acrescidos — e, nesse confronto, é possível perceber o papel da adaptação cinematográfica. De um lado, não caberia condenar o filme por preterir certas histórias (como a de Frank como professor de sociologia num curso de verão — p. 128 e ss.) ou por enxugar acontecimentos e condensar personagens. Cabe, sim, prosseguir os questionamentos iniciados: por que essas histórias, filmadas ou escritas, hipinotizam determinados espectadores e leitores? Tendo lido o livro depois de visto o filme, fiquei me perguntando em que medida o fato da história ser creditada como verídica influenciou minha leitura do livro, dito autobiográfico. Se o tivesse feito na ordem inversa, julgo que o resultado poderia ter sido bem diferente.
Por outro lado, não vi registrado no livro o bom humor de certas cenas do filme: por exemplo, quando o jovem Frank, na casa dos pais de Brenda (Amy Adams) profere a história dos ratinhos que caíram no balde de nata à guisa de oração na mesa de refeição, ou quando Abagnale conta à Brenda a verdade (que não é médico, nem advogado, nem luterano, nem tem 28 anos, nem se chama Frank Connors), ao que ela lhe pergunta estarrecida: “você não é luterano?” Mas para quem quiser saber como começaram os crimes de Frank (roubando do cartão de combustível do próprio pai) ou ler sobre os detalhes da viagem do “co-piloto Frank William” à Europa acompanhado de oito “aeromoças recém contratadas pela PAN-AM” (capítulo 8), o texto é delicioso. Ao final do livro uma dúvida já instigada pelo filme se mostrou mais concreta: foi tudo isso mesmo verdade?
No site de Frank W. Abagnale há uma frase creditada a Steven Spielberg que diz o seguinte:
I did not make this film about Frank Abagnale because of what he did… but because of what he has done with his life the past 30 years.
Por que a insistência no depoimento de Spielberg nesses “últimos 30 anos”, se não é disso que o filme trata? Ora, certamente houve quem questionou os benefícios de se divulgar uma história dessa natureza, que poderia incitar espíritos ansiosos por um estímulo externo, que poderia sugerir certa conivência com uma vida criminosa “bem sucedida” (uma vez que, depois de tantas falcatruas, Frank acaba trabalhando para o governo na prevenção de crimes similares aos que ele praticara). Nem o filme nem o livro tratam desses tais últimos anos da vida de Abagnale, que supomos serem, na verdade, tão burocráticos e tediosos como os de qualquer um — instigantes são os anos de supostas trapaças. Assim, uma história como a de Frank (e de outros criminosos cujos feitos se revelam mirabolantes) parece realmente ir contra a boa ordem do sistema. De um ponto de vista menos heterodoxo, não seria simplesmente o final feliz da narrativa que atrai ou valida a criminalidade: “se dar bem” pode (e costuma) ter mais de uma faceta. Portanto, a declaração moralista do diretor me pareceu propositalmente calculada para evitar “questionamentos e colocações indesejáveis”, por assim dizer. Encarando, pois, a pergunta de frente, livre de moralismos ou preocupações legais: ainda assim, por que a história parece tão fascinante?
Talvez contem a favor do criminoso as figuras lesadas. Descontando cheques falsos ou sem fundos, o espertinho roubava bancos, grandes companhias aéreas e hoteleiras, empresas multinacionais devidamente seguradas, corporações contra as quais nós, indivíduos comuns, mal temos voz ou chances de reclame (como reforçam os atuais 0800 e outros serviços de atendimento, que mais parecem blindar tais empresas). A única pessoa “física” diretamente lesada (i.e. que recebe um cheque falso como pagamento) é a modelo Cheryl (Jennifer Garner), numa cena de sensual oportunismo, a que poucos homens assistem sem partilhar a satisfação com o protagonista. O livro chega mesmo a dizer que ludibriar Cheryl custou a Abagnale um aperto ao seu cerco, graças à denúncia pessoal da “modelo” à polícia, como viria a saber depois.2
Ao final do volume (autobiográfico?), há uma forte impressão de termos caído nas lábias de Abagnale, como caíram tantos outros, nos casos que lhe ouvimos narrar. Os méritos da veracidade histórica ou de sua fidelidade, esses não podem sequer serem exigidos do próprio Abagnale que, se realmente viveu o que escreveu, acabou por relatar tudo muito tempo depois — e o tempo talvez seja o maior traiçoeiro e pregador de peças ao guardar e misturar detalhes e sequências de acontecimentos na memória. Enfim, fugindo das peças que o tempo costuma pregar, parece ainda haver o tal fascínio inerente aos logros miraculosos…
Retorno, assim, aos questionamentos que fiz no começo do texto. Suponho que não há uma resposta, como não existe uma única apreciação do filme e da história narrada. Minha aposta, todavia, vai rumo a uma digressão epicurista, versejada por Lucrécio no livro II do De natura rerum. O início do trecho é célebre (suave mari magno…3) e inspirou o título desse texto. Grosso modo, diz os versos que nos comprazemos ao ver o naufrágio distante, não porque temos propriamente prazer no sofrimento alheio, mas porque percebemos que estamos seguros, sãos e salvos, alheios às atribulações tão longe. O embuste arriscado do vigarista também passa próximo desse “naufrágio”. Vemos na tela e lemos no livro os perigos e riscos que viveu o criminoso, como se o víssemos se dirigir para um “barco furado” — momento em que nos sentimos seguros e tranquilos, uma vez que não estamos naquelas enrascadas (talvez apenas um pouco apreensivos pelo infeliz). Porém a história do embuste bem realizado não para aí. Vemos (e lemos), logo a seguir, que o larápio safou-se daquela situação embaraçosa, saiu vivo (e muito bem!) daquele “quase naufrágio” por assim dizer, não raro com muita perspicácia e alguma ajuda da Fortuna. É essa esperteza que o permitiu sair ileso de uma situação tão adversa, não apenas se esquivando mas lucrando com verdadeiro oportunismo, parte daquilo que admiramos, com um discreto sorriso no canto da boca, pensando: “ah, como teria sido legal…”
Texto citado: ABAGNALE, F. W.; REDDING, S. Prenda-me se for capaz. Trad. Sylvio Gonçalves. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2003.
Há 4 comentários.
PH escreveu:
27 de abril de 2010
Alex, excelente texto para começar o dia. Ótimo filme mesmo.
Seus questionamentos compõem o cerne deste tipo de história, daquelas que muitos de nós (sobretudo quando jovens) ansiávamos experimentar, nem que por um breve instante.
Afinal, como poderemos esquecer os Resevoirs Dogs, com o mr. Pink dizendo que temos que ser profissionais? Profissionais como Abgnale, na vida real, ou aspirantes a profissionais, como Raskólnikov, de Crime e Castigo (que inclusive publicou um artigo em que ele separava pessoas ordinárias das extraornárias. Estes últimos estariam acima dos valores morais e da lei para cometer crimes, com propósitos elevados).
Divertidíssimos os elementos que vc colocou no texto, principalmente o vídeo embedado no texto e a atual referência do Abgnale. Aliás, pela foto e o site deste senhor, percebe-se que ele continua em boa forma em termos de galantismo e “sambarilove”.
Tanto é que, no final das contas, ele se deu muito bem e hj pode ostentar, com orgulho, um passado de crimes charmosos, com um estilo de vida de pop star. Nada mal, huh? Abraços!
Mário Neto escreveu:
27 de abril de 2010
Resenha primorosa, Alexandre. Questões pertinentes, texto bem humorado, detalhes interessantes, e tudo costurado com desenvoltura e naturalidade. Excelente!
Marilda Piccolo escreveu:
27 de abril de 2010
Alê, esse filme, assistido uma porção de vezes, sempre me intrigou. Primeiro pela ingenuidade pilântrica de Frank Abagnale, chego a dizer até “política”, pois sua loucura o coloca acima de qualquer castigo. Por outro lado está o abnegado e totalmente desastrado detetive Hanratty (como chegou ao status que chegou não tenho ideia…), que dá asas à impunidade de um jovem que cola adesivo para falsificar um cheque… Bom, se não fosse uma história real e autobiográfica eu diria que os EUA estavam retratando os anos 70 sonhado por todos: eu te engano e vc finge q não vê, mas mesmo assim tenta me pegar, ok? Pra ser bem sincera, em nenhum momento eu torci para o bandido, muito menos para o policial… Eu fiquei o tempo todo pensando: quem se deixa enganar assim: eu? Todo mundo? Enfim, uma história que podia ter ficado nos arquivos policiais… Quanto à sua resenha: primorosa.
Lucy escreveu:
30 de abril de 2010
Como diria nosso poético Bezerra da Silva, malandro é malendro e mané é mané. Concordo que esse tipo de crimnoso chama a atenção por seu estilo de vida, por seu visual e, principalmente, por suas artimanhas. Mas isso, num primeiro momento.
A verdade é que nossa concepção de bandido está fundamentada naquilo que a mídia habituou-se a nos mostrar: código penal à parte, devemos concordar que um abismo gigantesco separa um Frank W. Abagnale de um Zé Pequeno. Vero?
A princípio, o malandro fala e se veste bem, é galante, tá na hora certa e no lugar certo e, o mais importante, sabe aproveitar as oportunidades, agindo sempre a seu favor (é, eles são egoístas assim como todos nós queremos ser). Esses malandros são verdadeiros ‘polítropos’. E como não adorar um herdeiro de Odisseu? O cara, embora seja um criminoso, não está estuprando, matando ou drogando ninguém e…
…mas aí começamos a pensar melhor na questão. Eu disse criminoso, não é? Para além da mídia, surge uma série de valores (e contra-valores) que, arraigados em nossa cultura, nos leva a perceber que as diferenças entre a imagem de um Leonardo de Caprio e de um Leandro Firmino não são mais tãããão destoantes.
Talvez por comodidade, não nos condicionamos a pensar que uma palavra, um gesto ou uma artimanha pode ser tão cruel e danoso quando a violência e o sangue que acompanham uma arma.
Mas o brilho do holofote, a etiqueta de uma roupa cara e o branco colgate de um sorriso (rsrs) da mídia capitalista mascara valores e vende sonhos, que compramos como uma espécie de recompensa para nosso egoísmo socialmente disciplinado.
Como sempre, faço questão de deixar meus elogios ao seu ótimo texto!
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