Yourcenar e Anacreonte

Tradução por , em 6 de abril de 2010

Mar­gue­rite Yourcenar(e seu livro em questão)

Mar­gue­rite Your­ce­nar é uma des­sas per­so­nae fas­ci­nan­tes. Pri­meira mulher a rece­ber os galar­dões da aca­de­mia fran­cesa de letras, Mar­gue­rite foi um fenô­meno belga na cena lite­rá­ria do século XX — espé­cie de “Mon­taigne moderna”, vale­ria arris­car. Mas não caberá comentá-la aqui neste texto. Aproveito-lhe a men­ção para falar de um de seus livros, La Cou­ronne et la Lyre. Sin­gelo, eru­dito e per­so­na­lís­simo, essa cole­ção de poe­mas (ou excer­tos de poe­mas) tra­du­zi­dos do grego para o fran­cês encanta tanto admi­ra­do­res da autora quanto cul­to­res da poe­sia, antiga (grega) e moderna (em lín­gua fran­cesa). São peque­nas péro­las reu­ni­das, às quais pre­ce­dem bre­ves “bio­gra­fias” de auto­res anti­gos diver­sos, sele­ções de sofis­ti­cada ele­gân­cia e sim­pli­ci­dade. É algo desse traço sim­ples e ele­gante, sen­sí­vel e pro­fundo, que tam­bém me fas­ci­nara (den­tre outros moti­vos) no belís­simo Memó­rias de Adri­ano, que vale ser relido (com muito pra­zer) e discutido.

O tre­cho que segue é uma des­sas bre­ves bio­gra­fias, cuja tra­du­ção deixo para ava­li­a­ção dos lei­to­res. Uma amos­tra do que vem entre a coroa e a lira, que pode ser­vir de estí­mulo tanto para futu­ras tra­du­ções quanto para outros deva­neios sobre a autora e seus textos.


Ana­cre­onte
(Século VI antes de nossa era)

Busto de Ana­cre­onte (no Lou­vre) e mapa das ilhas gre­gas com algu­mas das loca­li­da­des mencionadas

Ana­cre­onte nas­ceu em Teos na costa da Ásia Menor, mas pas­sou a maior parte de sua vida em Samos ao lado do tirano Polí­cra­tes. Nesse meio poli­ti­ca­mente bru­tal e artis­ti­ca­mente refi­nado, o poeta, nos diz um comen­ta­dor antigo, miti­gou a tira­nia do prín­cipe com a doçura de seus can­tos de amor. Ana­cre­onte cele­brou os pra­ze­res da vida fácil, as belas meni­nas e os belos pajens de lon­gos cabe­los, Megisto, Esmér­dis, Cle­o­bulo, Batilo, falando, parece, tanto em seu nome, quanto no do pró­prio Polícrates.

Esse tirano ambi­ci­oso, que acre­di­tou esta­be­le­cer sua supre­ma­cia no Egeu se apoi­ando tanto no Egito quanto na Pér­sia, foi por muito tempo feliz em seus pro­je­tos e essa feli­ci­dade inqui­e­tante deu lugar ao famoso conto O anel de Polí­cra­tes.1 A boa vida na cita­dela de Samos guar­dada por mil arquei­ros citas e rode­ada de fos­sos reple­tos de pri­si­o­nei­ros de guerra gre­gos teve brus­ca­mente fim. Ana­cre­onte ceava com Polí­cra­tes, dizem, no recinto dos homens, quando um men­sa­geiro persa veio inti­mar ao tirano que se ren­desse à Mag­né­sia de Mean­dro, pró­xima do sátrapa Oro­ete. Polí­cra­tes des­de­nhoso, ou tal­vez cons­ter­nado, virou-se para a parede sem res­pon­der. Atraído pela espe­rança de socorro, ele mor­reu final­mente ao se encon­trar com os Per­sas, quando foi ver­go­nho­sa­mente tor­tu­rado e cru­ci­fi­cado. Con­vi­dado em Ate­nas pelos Pisis­trá­ti­das, Ana­cre­onte esca­pou dos desas­tres que segui­ram. Nessa corte, tam­bém pom­posa e letrada como a de Samos, e ainda pro­te­gida con­tra a ame­aça persa, que não se ins­ta­la­ria em Ate­nas senão uns trinta anos mais tarde, Ana­cre­onte teve por comen­sais o grande lírico jônico Simô­ni­des, e Laso de Her­míone, que foi o mes­tre de Pín­daro. Ali can­tou o belo Crí­tias, avô do dis­cí­pulo incon­ve­ni­ente de Sócra­tes. A queda dos Pisis­trá­ti­das forçou-o nova­mente a bus­car asilo. Acredita-se que ele rumou, pela segunda vez por­ven­tura, para Abdera na Trá­cia, colô­nia de sua vila natal; depois se tor­nou hós­pede de uma pode­rosa famí­lia da Tes­sá­lia. Pode ser que tenha vol­tado, em seguida, a Ate­nas. Esse poeta, pra­zen­teiro até o fim, mor­reu, diz-se, aos oitenta e cinco anos, em todo caso tarde o bas­tante para ter chance de apre­ciar, como se conta que ele fez, os pri­mei­ros ver­sos de Ésquilo.

O imenso renome que se atri­buiu até os nos­sos dias ao nome de Ana­cre­onte é, em boa parte, gra­ças à voga das odes ditas ana­creôn­ti­cas, cuja com­po­si­ção se espaça entre o século I antes de nossa era até o período bizan­tino, se supõe, e cujo fazer gra­ci­oso, indul­gente e monó­tono, não se parece em nada com o pouco que se tem das obras do grande lírico e grande metri­cista do século VI. Dos cinco livros de poe­mas dei­xa­dos pelo ver­da­deiro Ana­cre­onte, sobra­ram ape­nas cerca de cento e cin­quenta frag­men­tos, a maior parte minús­cu­los, dos quais alguns con­têm somente sete ou oito linhas. Eles são para a ordem lite­rá­ria aquilo que, em maté­ria de escul­tura antiga, são os resquí­cios irre­co­nhe­cí­veis, peda­ços de már­more em que se des­co­brem, aqui e ali, uma roseta, uma parte de rosto, ou dois dedos de uma mão.

Texto extraído de:

YOURCENAR, M. La Cou­ronne et la Lyre: poè­mes tra­duits du grec. Paris: Gal­li­mard, 1979, p. 106–7.

  1. Em Heró­doto, III, 41–42. A fábula do objeto pre­ci­oso sacri­fi­cado e recu­pe­rado quase ime­di­a­ta­mente está em todos os fol­clo­res; o que é assaz grego na his­tó­ria do anel de Polí­cra­tes é que o anel lan­çado ao mar era ornado por uma esme­ralda gra­vada por um cin­ze­la­dor, cujo nome nos é reve­lado, Teo­doro, filho de Tele­cleu. Polí­cra­tes sacri­fica ao des­tino não ape­nas um objeto de valor, mas uma obra de arte amada (Nota da Autora). Cabe­ria lem­brar aos lei­to­res de lín­gua por­tu­guesa o deli­ci­oso conto de Machado de Assis (O anel de Polí­cra­tes, em Papéis Avul­sos), em que a fábula do anel é recon­tada em meio ao diá­logo tra­vado entre A e Z acerca dos per­cal­ços de Xavier (Nota do Tra­du­tor).
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Comentários

Há 2 comentários.

  1. PH escreveu:
    6 de abril de 2010

    Ale­xan­dre, para­béns pela tra­du­ção e por tra­zer infor­ma­ções sobre Mar­gue­rite Your­ce­nar, bem como sobre Ana­cre­onte, ambos iné­di­tos para mim. Vou recu­pe­rar o conto do Machado para fazer a rela­ção defi­ni­tiva e dige­rir um pouco melhor este novo ambi­ente apre­sen­tado em sua tra­du­ção. Abs.

  2. Mário Neto escreveu:
    6 de abril de 2010

    Assim como o PH, pra mim tam­bém Mar­gue­rite e Ana­cre­onte são com­ple­tas novi­da­des, e a apre­sen­ta­ção veio bem a calhar. O breve texto sobre Mar­gue­rite deu um gos­ti­nho de quero mais, quem sabe quando você escre­ver sobre “Memó­rias de Adri­ano”. Lem­bro de você ter tecido vários comen­tá­rios elo­gi­o­sos, tanto pelo tato da escri­tora quanto pela ritmo da nar­ra­tiva em si. Então, olha a inti­ma­ção… : ^) Sobre a tra­du­ção, posso ape­nas dizer que a lei­tura fluiu bem. (E o mapi­nha da região aju­dou a não me per­der tanto nas refe­rên­cias geo­grá­fi­cas.) Maravilha… []!

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