— Tradução por Leonardo Afonso, em 14 de maio de 2010
“Os Contornos da Crise” — parte do capítulo “Controle da População”, no livro “Contendo a Democracia” (1992), de Noam Chomsky.
Um olhar mais próximo na crise das drogas é instrutivo. Não pode haver dúvida de que o problema é sério. “Abuso de substâncias,” para o usar o termo técnico, faz um estrago terrível. Os fatos inescapáveis são analisados por Ethan Nadelmann na revista Science. As mortes atribuíveis ao consumo de tabaco são estimadas em mais de 300.000 por ano, enquanto o uso de álcool acrescenta de 50.000 a 200.000 mortes anuais adicionais. Entre a faixa etária de quinze a vinte e quatro anos, o álcool é a maior causa de morte, também servindo como uma droga-degrau que leva ao uso de outras, de acordo com o Conselho Nacional sobre Alcoolismo. Em acréscimo, alguns milhares de mortes por drogas ilegais são registrados: 3562 mortes foram reportadas em 1985, por todas drogas ilegais combinadas. De acordo com essas estimativas, mais de 99 por cento das mortes por abuso de substância são atribuíveis a tabaco e álcool.
Há ainda enormes custos sanitários, mais uma vez primordialmente advindos do uso de álcool e tabaco: “os custos sanitários combinados de maconha, cocaína e heroína perfazem apenas uma pequena fração daqueles causados por qualquer das duas substâncias lícitas,” prossegue Nadelmann. Também a se considerar é a distribuição das vítimas. As drogas ilícitas afetam principalmente o usuário, mas suas primas legais afetam seriamente os outros, incluindo fumantes passivos e vítimas de motoristas embriagados e violência induzida por álcool; “nenhuma droga ilícita … está tão fortemente associada a comportamento violento como o álcool,” Nadelmann observa, e abuso de álcool é um fator em cerca de 40 por cento de aproximadamente 50,000 mortes de trânsito anuais.
A Agência de Proteção Ambiental (EPA) estima que 3.800 não-fumantes morrem todos anos de câncer de pulmão causado por respirar a fumaça de tabaco de outras pessoas, e que a mortandade do tabagismo passivo pode chegar a 46.000 anualmente se doença cardíaca e afecções respiratórias forem incluídas. Autoridades afirmam que, se confirmadas, essas conclusões requeririam que a fumaça de tabaco seja listada como um carcinógeno muito perigoso (classe A), juntamente com substâncias químicas tais como benzeno e radônio. O estatístico da Universidade da Califórnia Stanton Glantz descreve o tabagismo passivo como “a terceira maior causa de morte prevenível, atrás do tabagismo e do álcool.”
As drogas ilegais estão longe de uniformes em seus efeitos. Assim, “dentre os aproximadamente 60 milhões de americanos que fumaram maconha, nenhum morreu de uma overdose de maconha,” informa Nadelmann. Como ele e outros observaram, os esforços federais de interdição ajudaram a deslocar o uso de drogas da relativamente inofensiva maconha para drogas bem mais perigosas.
Pode-se perguntar por que o tabaco é legal e a maconha não. Uma possível resposta é sugerida pela natureza do cultivo. A maconha pode ser cultivada em quase qualquer lugar, com pouca dificuldade. Talvez não seja facilmente vendável por grandes corporações. O tabaco é uma história bem diferente.
Questões podem ser levantadas sobre a acurácia dos números. Teria-se que examinar os procedimentos para determinar a causa da morte, o escopo dessas investigações, e outras questões, tais como os efeitos sobre as crianças dos usuários. Mas mesmo se os números oficiais estiverem longe da marca, há pouca dúvida de que William Bennett esteja certo ao falar em “caos das drogas” e uma “assombrosa crise em aprofundamento” — grandemente atribuível a álcool e tabaco, ao que parece.
Custos humanos e sociais ulteriores incluem as vítimas de crimes relacionados a drogas e o enorme crescimento do crime organizado, que, acredita-se, aufere mais de metade de sua renda do negócio da droga. Nesse caso, os custos estão associados com as drogas ilícitas, mas porque são ilícitas, não porque são drogas. O mesmo era verdade para o álcool durante a era da Proibição. Estamos lidando aqui com questões de política social, que está sujeita a decisão e escolha. Nadelmannn defende legalização e regulação. Propostas similares foram expostas por uma ampla gama de opinião conservadora (a Economist de Londres, Milton Friedman, e por aí vai), e por alguns outros.
Respondendo a Friedman, William Bennett argumenta que após a revogação da Proibição, o uso do álcool disparou. Daí que a legalização não pode ser considerada. Sejam quais forem os méritos do argumento, está claro que Bennett não o leva a sério, uma vez que ele não propõe reinstituir a Proibição ou banir o tabaco — ou mesmo rifles de assalto. Seu próprio argumento é simplesmente que “o uso de droga é errado”, e portanto deve ser impedido. A conclusão implícita é que o uso de tabaco, álcool e rifles de assalto não é “errado”, por fundamentos que seguem por revelar, e que o Estado deve proibir e punir o que é “errado.” Engodo, talvez?
Estatistas radicais da variedade de Bennett gostam de pintar a si mesmos como humanistas assumindo uma postura moral, insistindo na “diferença entre o certo e o errado.” Transparentemente, é fraude pura.
Há 2 comentários.
PH escreveu:
15 de maio de 2010
Ótimo texto que vc traduziu, Léo. Chomsky fez uma separação racional entre efeitos das drogas em si e efeitos da” ilegalidade”. De fato, estes temas têm que ser analisados separadamente, para compararmos laranja com laranja. Mas a proposital “mistura de bolas” ocorre por interesses diversos, declarados ou não, que fazem parte desta “fraude pura”. Aliás, a maioria dos radicais tende a misturar laranja com banana, razão com emoção, verdade com mentira, para sustentar seus discursos. Isso vai desde o debate sobre a legalização das drogas, direitos humanos, diversidade sexual, reforma agrária, etc. Este tipo de postura confirma que o ser humano, de modo geral, não é capaz de elaborar juízos de valores com fundamentação e racionalidade. Isso vale para movimentos coletivos e tb para ações individuais, uma vez que o auto-governo é uma capacidade rara, para poucos. Não quero ser simplista, mas é por esta e outras que a humanidade, por si só, não tem salvação. Abs.
Alexandre Piccolo escreveu:
17 de maio de 2010
Excelente iniciativa, Léo, textos como esse enriquecem o acervo e permitem ao tradutor um exercício prático muito salutar, bem como oferecem aos leitores novos horizontes.
Sobre detalhes do texto, sem ter olhado o original inglês: a construção “acrescenta de 50.000 a 200.000 mortes anuais adicionais” me soou um cadinho redundante em português, talvez o adjetivo “adicionais” final seja dispensável (já que acrescenta…) — a se pensar. O anglicismo “acurácia” (para traduzir “accuracy”, suponho) me fez torcer o nariz à primeira leitura (eu talvez usasse “precisão”, não sei…), mas, no fim, gostei de vê-lo empregado, em uso vivo, para desenferrujá-lo. Logo a seguir, eu pensaria em trocar o período “Teria-se que examinar os procedimentos para determinar a causa da morte…” para “Teriam QUE SER EXAMINADOS os procedimentos…”, para evitar a ênclise no futuro do pretérito (já que é um texto formal) e as possíveis dúvidas de concordância. Bem, três pitaquinhos sobre o texto em português, frutos duma primeira impressão de leitura.
Sobre o “conteúdo” do texto: é, Chomsky costuma ser provocador e, aqui, parece bem tranquilo, com uma proposta simples de separar o joio do trigo, o que costuma ajudar na hora da reflexão e da tomada de decisões. Mesmo que um dos “objetivos” do texto seja desmontar a argumentação alheia (vide conclusão), a simplicidade e a transparência da abordagem permitem que se diga que “a questão NÃO é espinhosa”, é preciso apenas que se olhem os números com menos partidarismo e com a menor parcialidade possível. Afinal, ainda ressoa a pergunta: por que o álcool e o tabaco não figuram também no rol das DROGAS? E, se figuram, por que são eles os LÍCITOS escolhidos?
Novamente, parabéns pelo tradução e pela iniciativa. Abs!
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