— Artigo por Alexandre Piccolo, em 4 de maio de 2010
Nessa última semana, na aula de Tópicos de Literatura Latina, deparamo-nos com uma carta de Cícero a seu irmão Quinto. Mais especificamente, a primeira carta da “coleção” que nos restou, como costumam organizar os editores modernos. Para quem não tem à mão as coleções da Belles Lettres ou da Loeb, um pequeno volume publicado pela Nova Alexandria fará as vezes (e muito bem): traz não só essa como outra carta ciceroneana, além duma pequena antologia de sentenças do orador latino versando sobre política de modo geral.
Uma vez que o número de leitores de Cícero, hoje, talvez não seja tão grande quanto o dos leitores de Harry Potter, Crepúsculo ou dos livros do Paulo Coelho (suponho…), faz-se necessário um “apelo de venda” mais chamativo na capa do singelo livro. Elucubrações outras relativas à popularidade dos exemplares de autores latinos não cabem neste espaço. Assim, as epístolas de Cícero, na edição brasileira, são intituladas logo na capa (de modo algo chamativo/publicitário): Manual do Candidato às Eleições e Carta do Bom Administrador Público. Fica por último o título das frases reunidas: Pensamentos políticos selecionados.
Claro que nenhuma das missivas latinas ganhou esses nomes quando escritas, tampouco outro texto ou coleção antiga. Não pense, contudo, que o chamariz comercial acaba por desmerecer o volume. Nem um pouco. Ainda que a brochura seja simples na aparência ou exagerada no tamanho dos títulos, o livro é bem traduzido, introduzido e anotado por Ricardo da Cunha Lima. Prova disso é o original latino que vem lado o lado, para quem quiser ou precisar tirar a prova.
Na contracapa, a fim de incitar o futuro comprador/leitor (que, por acaso, escolheu o livro na prateleira) a abri-lo e seguir adiante, lê-se um trechinho selecionado da Carta do Bom Administrador Público (i.e. Ad Quintum fratrem, I. 1, VIII. 24):
Ac mihi quidem videntur huc omnia esse referenda iis, qui praesunt aliis, ut ii, qui erunt in eorum imperio, sint quam beatissimi
Em tradução de serviço, poderíamos dizer em português:
Mas, de minha parte, nesse ponto parece-me que tudo [note-se o neutro generalizante, “todas as coisas”] deve ser feito por aqueles que estão à frente [literalmente: prae.sunt] dos outros, de modo que esses, que estarão sob o poder deles, sejam os mais felizes possível
O que não fica a anos-luz da tradução de Ricardo, bem mais arranjada e fluente:
A meu ver, todas as tarefas devem ser executadas pelos que governam outras pessoas tendo em mente o seguinte critério: que os indivíduos que estiverem sob seu governo sejam os mais felizes do mundo
Lendo toda a carta, além da modéstia costumeira de Cícero (brincadeira…), fica ainda mais patente a diferença dos valores ditos políticos — entre o mundo antigo e o nosso. Acho que foi o clima de “pré-eleição” (ainda não declarado, mas que já circula nos emails, blogues, noticiários, falatórios, na internet, na tv…) que me fez pensar essa bobagem: lembrando que não será apenas para presidente que se votará, mas para diversos outros cargos, a meu ver, mais importantes (para os quais já se noticiaram ótimos candidatos, versadíssimos naquela “felicidade de todos”…) — talvez pra reunir mais um elemento à lista interminável “como não somos nada parecidos com os antigos”, que ajuda a criar um devido afastamento para quem deseja estudar a Antiguidade. Alguém ousará dizer que o clima tão preocupado, altivo e filosófico como o do trecho acima citado de Cícero estará presente nos discursos dema.gógicos que ouviremos e leremos daqui algumas semanas? Fica a pergunta. Quem sabe algum candidato de plantão cai aqui por acaso e resolve procurar e comprar o livro, para se instruir um pouco mais sobre esse passado tão distante. Já é motivo legal o bastante para ficar satisfeito.
Mas não vou continuar delirando ou tergiversando porque — desculpe-me — política definitivamente não é minha praia. Além do que, bem antes da festa da democracia, temos a festa do futebol mundial, que está já aí…, para nos distrairmos mais um pouco. Que venha — primeiro — (a festa rumo a)o hexa futebolístico…!1
Há 5 comentários.
PH escreveu:
4 de maio de 2010
Boa indicação de referência pré-hexas: hexa em campo, hexa no Planalto. Muito bom o link para as matéria sobre os candidatos “versadíssimos”. A propósito, transferi meu título para o RJ, onde muitos candidatos deste naipe pleiteiam um cargo nos congressos. Mulheres-frutas, funkeiros, ex-jogadores, criminosos, além da dominante ala dos incompetentes e corruptos de sempre. Fauna Total. Vai ser dureza. Cícero que o diga.
Mário Neto escreveu:
5 de maio de 2010
Boa indicação, Alexandre. Se estas e outras boas admoestações (de ontem e de hoje) fossem levadas a sério, talvez tivéssemos melhores perspectivas pela frente. Talvez, pois quando se trata de política e poder, parece haver uma ética toda própria — e nisso lembro de Maquiavel, para ficar apenas num dos “clássicos” modernos do pensamento político. Um simples questionamento basta para complexificar a admoestação de Cícero: para a “maior felicidade dos governados”, é ético assassinar um líder opositor, impôr o medo, etc? Maquiavel acreditava que sim — e ele toma as ações de príncipes, reis, imperadores e governantes de ontem como exemplos de sucesso neste sentido. Será que Maquiavel concordaria com Zé Dirceu e o mensalão?
E como você mesmo indicou, alguns princípios — como este da “maior felicidade possível dos governados” — caem fácil no discurso dos candidatos e acabam servindo para justificar tudo. Vejamos o Lula: em última pesquisa do Datafolha, de março de 2010, três em cada quatro brasileiros acham que seu governo é ótimo ou bom. Será que com isso Lula poderia, de acordo com este princípio da “maior felicidade”, autoproclamar-se um bom governante, como aliás já o faz com sua humilde soberba?
Por fim, não sei o que é mais cômico: a Tati Quebra-Barraco se candidatando ou lendo Cícero. Prefiro-a lendo Cícero. Belo artigo-crônica. []s!
Penha escreveu:
5 de maio de 2010
Pois é.
Parece bom. Não li a obra do Cícero, mas teu texto me faz entender que ela serve como doses de conselhos políticos a qualquer ser humano, mais que como manual de qualquer coisa.
Eis que é meio por aí. Neste clima, eu também acho que tem muita coisa no Príncipe do Maquiavel que também tem conselhos bons. Este eu até li, com direito a cochilos, há uns anos. Mas ninguém é doido de vender uma tradução de um autor que virou adjetivo como “manual para administradores”. O próprio Maquiavel não seria tão ingênuo. =)
Por fim, eis aí uma crítica interessante que salta do seu texto aos meus olhos. Pelo trecho que você escolheu, a obra latina tem tudo a ver com a política… da América Latina. Você é feliz por ter um presidente populista? Muita gente é.
Um abraço,
Penha
Leosfera escreveu:
6 de maio de 2010
Cada tempo e lugar tem os Catilinas que merece. Bam-bam e Quebra-barraco não mereceriam sequer uma crítica de Cícero. Agora, peculiaridades à parte, códigos éticos e discursos bonitos considerados, o jogo político mantém um cerne, que é o controle da sociedade pela elite dirigente. Eu acho que se o Brasil ganhar o hexa, deviam alçar o Dunga a presidente. O Serra podia ser o Zangado e a Dilma a Branca de Neve…
Lucy escreveu:
17 de maio de 2010
Como sempre, ótimo texto!
Com a escalação “r(e)acional” do Dunga e a escolha do vice de Marina Silva que, acreditava eu, seria a salvação do meu escrutíneo, futebol e política se tornaram temas vetados em meu repertório.
Portanto, vou, como sempre, comentar nossas queridas Letras Clássicas. Eu acho que o monstro do mercado é irrefreável, mas a apelação das capas é, em parte, culpa nossa. Explico: a postura que a maioria dos classicistas adota é, no mínimo, insuportável. E revoltante. E desagradável. E… enfim, para um simples mortal, não agraciado pelos dons das musas, o comportamento de um classicista típico (a grande maioria, independente da idade e da nacionalidade) é desprezível. Somos os donos da verdade, sobretudo, porque sabemos a história e a verdade das palavras, do texto, do mundo das idéias. Afinal, todos nós sabemos falar, mas somente nós conhecemos a essência do falar. Como falar. Porque falar. E quem falou primeiro (essa informação, claro, em notinha de rodapé, remetendo à alguma edição de 300 anos em alguma língua de “difícil acesso”). Autor, que autor? Leitor? São as espécies repetitivas de sempre, sem espaço ou prestígio na coleção dos caçadores da entidade Texto.
E o meio acadêmico? Ah, as delícias de um paraíso restrito, o clube dos literatosfilósofosfilólogos (quem falar sem enroscar a língua ganha um artigo!), a Liga da Justiça dos intelectuais. Há até um estatuto, dizem. Mas tem acesso apenas aqueles que fizeram pesquisas com apoio de órgãos financiadores reconhecidos. Para tentar fazer parte do seleto grupo, basta enviar um projeto de até 20 páginas , com resumos em 3 idiomas, introdução, desenvolvimento, conclusão e bibliografia de 18 páginas.
Não tô criticando ninguém especificamente. Ou melhor, entenda-se uma autocrítica, se quiser. Muitas vezes, injusta: sei que seguimos a correnteza e, em determinado momento, ou embarcamos ou somos deixados à deriva. Eu preferi embarcar e não me arrependo disso. Aliás, essa postura que acabei de criticar não me incomoda. Pelo contrário: aprendi a me deleitar com traduções, citações, alusões e muitos “-ões” que não cabem aqui (pode me chamar de chata, não ligo!). Por isso mesmo, entendo aqueles que detestam os clássicos. Na verdade, os que detestam a imagem que muitos de nós passamos dos Clássicos. Daí o apelo daquelas capas que seguem tendências, tipo “delírios de consumos de Becky Bloom”. No entanto, não podemos evitar todo aquele discurso apelativo às massas: “compre-me, eu sou legal, atual, genial” (e muitos outros -“als” que não valem a pena comentar aqui). Mas também entendo o nosso lado e acho que, na maior parte das vezes, não vale a pena se “vender”, numa tentativa louca de misturar alhos com bugalhos. Até porque somos donos da verdade e não da vontade alheia. =D
No fundo, é uma questão tão polêmica quanto política e futebol.
Vamos falar de novela?
Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.