— Conto por Leonardo Afonso, em 20 de maio de 2010
Hélio entrou no banheiro e deu de cara com Luna, que, debruçada sobre a pia, levantou instintivamente, fungando o nariz. Ela displicentemente esboçou explicações: “Tava trancado o feminino,” e partiu para cima: “vai aí?” Hélio hesitou: nunca experimentara, era daqueles que repetia os bordões de sempre; mas ali naquela situação concluiu que não lhe restava alternativa. Tudo estava tão revirado em sua vida e eis que lhe surge aquela criatura com cabelos cor-de-palha, e pele pálida, repleta de tatuagens, oferecendo-lhe o passaporte para um mundo novo, até então interdito… enfim, Hélio cheirou, e deu vexame, deixando clara sua inexperiência. Luna riu com gosto, francamente, o que era raro. O rapaz era obviamente aquele cara certinho que a esposa abandonara e entrara em parafuso, buscando brincar de ser doidão. Nisso ela tinha boa dose de razão, o que não chega a ser um fenômeno, dado que esse é apenas um dos arquétipos que frequentavam o Sapo Rouco.
Era um bar de roque, desses frequentados por motoqueiros de meia idade, homossexuais, a parte da juventude de elite metida a porra louca, punks, e uma boa gama de desajustados sociais. Funcionava so subsolo de uma sapataria, em um bairro fora isso tranquilo de uma dessas prósperas cidades do interior paulista. Os donos eram um casal que havia ido até o Alasca de Harley, e um mural próximo ao caixa o provava. Estavam quase sempre bêbados e se misturando ao público, enquanto o filho adolescente trabalhava de verdade. Naquela noite tocava uma banda cover de Led, e Luna não deu muita atenção às desajeitadas explicações de Hélio, correndo para fora do banheiro tão logo escutou lá fora começar a tocar The Ocean, um som que ela curtia muito, guardando o tubinho em uma pequena bolsa tipo riponga, estilo que se misturava a metal e hello kitty para formar seu visual heteróclito. Por algum motivo, e ao contrário do que costumava fazer, puxou o desconhecido pelo braço para acompanhá-la. Ele chegou a pensar em protestar, já que não cumprira seu objetivo inicial indo ao reservado; deixou pra depois: gostava da perspectiva de se envolver com aquela criatura exótica. E o apreço por Led Zeppelin ele de fato compartilhava com ela, não precisaria fingir e ser desmascarado; ele até sabia a letra da canção, isso deve ter contado pontos.
Mas a experiência do banheiro não foi inócua, e logo se fez notar: Hélio de repente começou a se sentir o máximo, e aquela gatinha lhe parecia “no papo”, então disparou a falar feito um louco, e só falava sobre si mesmo, e deixou de acompanhar a canção, até que Luna interveio: “Escuta, você nunca cheirou, né?” “Na verdade, não.” “Fica mais de boa aí, escuta o som.” Hélio sentiu o golpe em seu orgulho, e se ofereceu para buscar umas bebidas — aproveitando para saldar sua dívida para com o mictório.
Quando voltava com um chope pra ele e vodka dupla, pura, para ela, encontrou-a sendo abordada por um cara enorme; ficou à distância. Luna falava com o dedo na cara do sujeito, até que o cara fez menção de encostar nela e tomou uma chave de braço que o deixou vencido, pedindo que parasse. Alguns punks ali perto aplaudiram e gritaram o nome dela: Luna era conhecida naquele bar, dentre outras coisas por seu judô faixa-preta, que a ajudava com os engraçadinhos de sempre. “Puxa, como você fez isso?” — entregou-lhe a bebida. “Estou acostumada a me defender sozinha.” Hélio mais uma vez esboçou explicações por não ter intervindo, mas foi interrompido. Começaram a tocar uma música já do fim do Led, que Luna não curtia: “vamos sentar” determinou ela. Hélio podia estar se sentindo o cara, mas no fundo ela é quem conduzia a situação. Luna tinha uma tatuagem que era um dragão subindo por sua nuca e abocanhando sua orelha. Ele ficou pensando em usar aquele mote eventualmente. Sentaram-se, um pouco mais afastados do palco, já perto da escada.
Ela chicoteou de cara: “aposto que você foi largado pela mulher e resolveu bancar o maluco.” “Âh… na verdade é mais complicado que isso…”, “E você nunca veio aqui no Sapo Rouco?” “Já, não é a primeira vez.” “É a segunda?” “Terceira.” “Mas nunca usou drogas.” “Eu fumei maconha na faculdade… umas três vezes. Mas aí eu fiz uma cagada enorme e nunca mais fiz aquilo.” “Mas roquenrou você curte.” “Muito. Você… tem quantas tatuagens?” “Sete… não, nove.” “Puxa, você nem lembra?” “Eu sei que é em número par… quer dizer, ímpar! Sabe o que dizem.” “O que dizem?” “Não se deve ter tatuagem em número par, você faz uma e daí em diante sempre de duas em duas.” “Sei… e piercing?” “Só cinco. Você vai ficar fazendo questionário, eu também quero! Vamos lá: você já teve uma relação homossexual?” Hélio foi surpreendido no meio de uma golada e cuspiu longe o chopp. Pediu desculpas a uma interlocutora em gargalhadas; descobria o gênio complicado da moça. “Nunca, nunca!” “Mas qual o problema? Eu já tive várias” “Mas é diferente.” “Diferente nada. Esquece isso, estou te provocando. Mas ainda é minha vez: você estudou o quê? Matemática?” “Quase, contabilidade.” “Caramba! Contabilidade. Não dá pra ser mais chato!” “Eu sei, mas… agora é tarde, é o meu trabalho.” “Onde você trabalha?” “Serviço público, é um saco. Mas a grana é boa.” Ela de uma golada mandou ver metade da vodca que restava no copo: “Eu não páro em um emprego, é uma merda,” bebeu a outra metade, “não tenho saco, sabe?” “Sério? Como o que por exemplo?” “A porra toda: loja, cosmético… imagina eu vendendo cosmético! Que mais… até secretária eu já fui, usava gola roulé pra esconder a tatuagem.” “Acho muito bacana essa tatu… o dragão parece que vai engolir sua orelha.” “É essa a ideia.” “Eu bem queria fazer o mesmo.” “Como assim?” — fez-se de desentendida. “Se não sobrar uma chave de braço pro meu lado…” dizia ele enquanto trocava de cadeira para ficar ao seu lado, aproximando-se e… abocanhando a orelha da moça. Ela não opôs resistência, e no outro instante estavam se beijando.
Há 2 comentários.
PH escreveu:
20 de maio de 2010
Bem legal Curti o clima Ópera Rock/Delta Blues do texto. Bão mesmo!
Alexandre Piccolo escreveu:
21 de maio de 2010
Bem legal, Léo. Excelente nome para um lugar como esse: Sapo Rouco. Com Led e tudo mais. Acho que a dupla Hélio e Luna (hmmm.… quem se lembra da história no nome ἥλιος?) talvez rume prum Eduardo e Mônica, em meio à balada urbana, ele tão “careta”, ela tão “incomum”… Mas são só meus achismos. Veremos nas próximas partes o quão “mais complicado que isso” é realmente a história do Hélio.
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