— Conto por Leonardo Afonso, em 28 de maio de 2010
“Você fuma?” “Cigarro, você diz?” “É, vamo lá em cima fumar.” “Eu parei, mas vamos, claro.” Subiram as escadas e alcançaram uma área no fundo da sapataria que servia de fumódromo. No começo, pulavam a cerca para fumar unzinho ali, e o Sapo teve de comprar a área por um acordo de cavalheiros. Havia um coqueiro bem no meio do pátio, com quatro bancos em volta, além de mais meia dúzia em lugares mais escondidos. Havia caveiras de gosto duvidoso e um detalhe peculiar: na entrada, um sapo em pose aristocrática fumava um charuto. Acharam um banco vago e se sentaram. O odor em volta era sugestivo. E a ela ocorreu perguntar: “Você disse que parou de fumar porque fez uma besteira, o que foi?” Terminando de falar, acendeu um estoura-peito com um isqueiro Zippo da Hello Kitty.
“Eu não conto essa história pra qualquer um… mas vá lá” — e tascou-lhe mais um estrepitoso beijo. “Eu tinha acabado de sair de casa, curtindo a liberdade, sabe? E tinha um pessoal na república que eu morava que fumava um. Eu fiquei meio assim, sabe? A gente só ouve ‘diga não’ e tal, mas aqueles caras levavam uma vida normal, tinham notas até melhores que as minhas… mudou meu conceito, e eu resolvi provar. A primeira vez foi numa festa lá em casa. Eu continuava falando não, mas minha resistência ia baixando e, quando eu bebi umas a mais não teve jeito: entrei num quarto e eles estavam acendendo. Acho que eu disse ‘eu também quero’ (forçando na imitação de bêbado), e todo mundo fez uma festa, tiraram sarro me chamando de caretinha… sei que eu dei uma, dei duas bolas e reclamei: ‘não tá batendo!’; me mandaram sossegar e antes do beque chegar de novo em mim eu estava dando risada… foi uma sensação muito boa na hora, eu pirei, subia na cama e fingia que voava… depois que eu voltei pra festa então, dava risada de tudo, todo mundo sacou na hora. Pena que depois nunca mais foi tão bom: na segunda vez que eu fumei foi de manhã, matando aula na facul, o campus tinha umas áreas bem agradáveis, sabe, onde a galera fumava, mas aí começou a bater uma culpa, uma paranoia de que todo mundo ia saber… Mas passou. O pior foi depois, outro dia, um fim de semana: os caras iam fumar e sair pra pedalar, eu tava esperando minha mina ligar, fiquei assim, lembrando o outro dia, mas como estava em casa, me senti mais confiante. Fumei. Eles saíram e eu fiquei sozinho. Sei que eu levei o som pro quintal, coloquei um Hendrix, e fiquei ali viajando. Você sabe como são essas primeiras viagens, né, a gente vai na lua e volta; sei que achei por bem ficar peladão tomando sol, só que tem um prédio bem ao lado. Ligaram pra polícia, que acabou tocando minha campainha; eu pensei que eram os caras que tinham esquecido a chave ou nem pensei nada, e abri pra polícia peladão mesmo… deu uma confusão na hora, me levaram pra DP porque sacaram meu olho vermelho, só pra me encher o saco, fazer um terrorismozinho, depois me liberaram. Sei que depois desse dia eu desencanei daquilo e voltei à minha caretice.”
“Você ainda pira nessa mina, fala a real!” “Bem, de certa forma sim, mas é sua vez de falar. Você deve ser dessas independentes, que usa um cara o quanto quer e segue adiante…” “Tá me chamando de puta?” “Não, é claro que não, só tive…” “É isso mesmo, eu não me apego a ninguém” cortou ela. “Vai dizer que nunca se apaixonou?” “Uma vez, e foi uma péssima ideia” “Ele te deixou.” “Ele nunca esteve comigo, o escroto. Eu era muito novinha. Dá certo não, minha vida é esta aqui mesmo.” “Então eu não tenho a menor chance de te ver de novo?” Luna, que estava meio deitada no colo de Hélio, levantou e o encarou como se ele dissesse um absurdo. “Mocinho, você está no Sapo Rouco, entende? Isso não é lugar de romance. Não fala de novo assim — foi taxativa — e tenta se divertir.” Jogou a bituca no chão e pisou com a bota. Ela usava uma blusa do Judas Priest, bem folgada e com uma gola enorme, que ela jogou de um lado pro outro, como quem quisesse achar a posição mais confortável dentro da roupa. “Eu vou ali, me espera” - ela disparou. “Mas Luna…” — tentou ele, preocupado com a súbita mudança de humor da moça, mas suas botas na escada já se faziam ouvir. Pensou um pouco e ficou mais tranquilo. Lembrou de como se conheceram, fazia pouco tempo, e mal podia crer que tinha cheirado pó. Sorriu e tentou apenas viver o clima de Sapo Rouco. Ia ser fácil, pois a banda iniciara um intervalo e lá vinha aquela horda de malucos juntar-se a ele no fumódromo.
Veio direto na direção dele um casal em coletes de couro preto, ele com bracelete de espinhos, e sem a menor cerimônia se sentou no banco dele, que apenas ameaçou protestar. Era no entanto um casal bem simpático, e apresentaram-se como Douglas e Yolanda, os proprietários. Hélio elogiou muito o bar, comentou sobre as fotos do Alasca e, depois de alguma conversa miúda, Hélio não conseguiu pensar em nada melhor para dizer e perguntou se “eles nunca tinham tido problema com a polícia”. Douglas, um coroa ainda inteirão e corpulento, pegou Hélio pela gola, exigindo explicações: “Cê tá falando de quê, rapaz? Cê é um cagueta?” Hélio fez o melhor para apaziguar o motoqueiro: “Calma, calma, é só porque… tá todo mundo fumando… cheirando…” “Douglas foi se acalmando aos poucos e Yolanda — uma coroa ainda bem aceitável, de cabelos vermelhos — tentou tranquilizar Hélio: “Ele é meio paranoico às vezes, não liga.” E para ele: “Douglas, foi só um comentário, esquece aquilo, não tem nada a ver”. Parecia que o rapaz atingira um ponto nevrálgico. Douglas já pedia desculpas e voltara à amabilidade inicial quando Luna reaparecu com um sorriso de orelha a orelha. O sorriso vinha lá de baixo, mas a visão de seus amigos deve ter ajudado. A moça trocou um longo abraço com cada um deles, deu uma golada da vodka e um beijo em um ainda atônito Hélio. Luna puxou Hélio para sentarem-se no chão de concreto, e encetou uma animada conversa com o outro casal que ficara com o banco para eles.
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Alexandre Piccolo escreveu:
29 de maio de 2010
Legal essa continuação, Léo. Isso tá cheirando (no bom sentido…) a romance, rapaz, descompromissado, analítico, com boas descrições, confissões pessoais e pinçados insights. Vejamos aonde isso vai. Abs!
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