Minha primeira Copa do Mundo

Artigo por PH Ferreira, em 12 de maio de 2010

Rou­bei este título do Már­cio Sampa, con­frade dos tem­pos da aPa­tada. Sampa nos con­tou como foi a sua pri­meira expe­ri­ên­cia com Copa do Mundo, jus­ta­mente a fatí­dica, tor­tu­rante e sem­pre relem­brada Copa de 1982.

Agora esta­mos às por­tas de mais uma Copa do Mundo, na África do Sul, com iní­cio em 11 de junho 2010. O esqua­dão cana­ri­nho já foi con­vo­cado. E eu apro­veito para tam­bém regis­trar as lem­bran­ças sobre minha pri­meira Copa do Mundo, evento que mudou minha vida para sem­pre, sem exagero.

Foi em 1986. Copa do México, aquela do “Ara­kem, o gol man”. A sele­ção era “cana­ri­nho” mesmo, não com estes uni­for­mes frí­vo­los que a Nike nos faz engo­lir. Mas sim aquela camisa amarela-canário, bonita de se ver, acom­pa­nhada do short azul e meião branco. Uni­forme clás­sico. Clás­sico como o fute­bol fino jogado por aquele time que, como em 82, tam­bém era diri­gido por Telê San­tana (Olê, Olê, Olê, Olê… Telê… Telê…).

Era um sele­ci­o­nado que mes­clava a expe­ri­ên­cia do Sócra­tes, Fal­cão, Júnior e Zico (bale­ado), com o vigor do Careca, Mul­ler, Branco, Casa­grande. De novo, fute­bol fino. É claro que, como de praxe, a pres­são estava insu­por­tá­vel. De saída, Telê cor­tou o jovem Renato Gaú­cho por indis­ci­plina, e Lean­dro aban­do­nou o grupo, sob pro­tes­tos. Já no México, Casão, Ale­mão e Edson foram fla­gra­dos tomando cer­veja, o que atra­pa­lhou o ambi­ente. Mas, no fundo, era a pres­são de todo um país que ainda se iden­ti­fi­cava com a sele­ção. Uma sele­ção ainda machu­cada pela tra­gé­dia de Sar­riá, com a obri­ga­ção de se supe­rar e tra­zer o caneco. Jogando bonito.

Vou arris­car aqui uma opi­nião: esta foi a última sele­ção bra­si­leira que jogou bonito. Jogava fácil, com velo­ci­dade, efi­ci­ên­cia e ale­gria. Para as demais Copas — de 90 em diante — o com­ba­lido Bra­sil ado­tou uma pos­tura prag­má­tica. Mais tarde, ven­ce­dora. Mas aquela sele­ção de 1986, não. Ainda era a sele­ção do Telê (Olê, Olê, Olê…). Valia a pena ten­tar encan­tar o mundo, mesmo com a dor recente de 82.

Por isso que o fute­bol, ainda era rápido, veloz, ale­gre. O Bra­sil man­dou muito bem. Ape­sar de um iní­cio de Copa duvi­doso, no total fez 10 gols em cinco jogos, com direito a 2 gola­ços do fol­cló­rico Josi­mar. E o Careca, então? Comendo bola, foi arti­lheiro da sele­ção. Aliás, a come­mo­ra­ção ao estilo “avião­zi­nho”, no gol con­tra a Polô­nia, foi ado­tada por mim nas pela­das, durante anos (até eu per­ce­ber que não tinha tanta moral assim). A pro­pó­sito, foi o Sócra­tes que mar­cou o pri­meiro gol do Bra­sil, na magra vitó­ria con­tra a Espa­nha — “meu” pri­meiro gol do Bra­sil em Copas.

É… o Bra­sil jogava fácil. O vídeo acima con­so­lida todos os gols desta Copa. Tabela de cal­ca­nhar entre Zico e Careca, troca de pas­ses velo­zes, dri­bles na entrada da grande área e muita cor­reira. Ener­gia legí­tima, sem os manei­ris­mos ensai­a­dos dos cra­ques de hoje. Ainda pai­rava no ar o real desejo pelo caneco do mundo. É só per­ce­ber a rea­ção do  Branco: ao sofrer um pênalti con­tra a França, nas quar­tas de final, ele cai na área se con­tor­cendo todo. Basta ouvir o apito do juiz mar­cando a pena­li­dade máxima, que ele come­mora, sem cerimônia!

E foi jus­ta­mente aquele mal­dito pênalti batido pelo Zico… Injus­tiça do fute­bol, o Gali­nho bateu mal, meia altura, faci­li­tou o tra­ba­lho para Joel Bats, o goleiro fran­cês. Bats. Nunca vou esque­cer o nome. Para mim, soa mais amargo que o nome do Zidane. Muito mais. Aquele foi um dia triste em Muzambinho.

O resto é his­tó­ria. O Bra­sil foi eli­mi­nado nas quar­tas e o mundo viu um Mara­dona intenso, bri­lhante, tra­zer aquela taça para a Argen­tina. Argen­tina de Mara­dona que — pen­sando cá com meus botões verdes-e-amarelos — teria caído diante deste Bra­sil do Careca, em um suposto con­fronto direto. Assim como caiu em 82. Ou não, uma vez que em 90, a Argen­tina eli­mi­nou o Bra­sil, do mesmo Careca… Hum, diva­ga­ções à parte, este Bra­sil X Argen­tina de 1986 foi um dos gran­des con­fron­tos que dei­xa­ram de acon­te­cer em uma Copa.

Esta Copa que, de fato, mudou minha vida. Foi neste ano que me con­so­li­dei como um afic­ci­o­nado por fute­bol, ape­sar da pouca idade da época. Virei são-paulino, para des­gosto do meu avô corinthi­ano. O mesmo avô que me ensi­nou a amar o fute­bol, acima dos times, cam­pe­o­na­tos. Me ensi­nou que fute­bol faz parte da vida. Me mos­trou que Copa do Mundo faz parte da his­tó­ria recente da huma­ni­dade. Tema, diga-se de pas­sa­gem, com o qual ganhei uma Feira de Ciên­cias, na oitava série, vejam só…

Tanto é que agora estou aqui. Às vés­pe­ras da minha pri­meira Copa do Mundo, como pro­fis­si­o­nal de um veí­culo espor­tivo, fazendo todos os pre­pa­ra­ti­vos para o maior evento glo­bal, que reúne paí­ses em torno da bola, a cada 4 anos. Tor­neio de fute­bol no qual o Bra­sil — de Didi, Gar­rin­cha, Pelé, Romá­rio e Ronaldo — é pro­ta­go­nista. Fute­bol que me fez, dire­ta­mente, esco­lher uma pro­fis­são, da forma mais sub­je­tiva pos­sí­vel, base­ado em uma pai­xão. Uma pai­xão total­mente expli­cá­vel,  envol­vendo cri­an­ças e adul­tos, que comun­gam da sen­sa­ção de inse­gu­rança e per­ma­nente ansi­e­dade, moti­vada pela beleza e velo­ci­dade ene­bri­ante do vídeo acima. Que venha mais uma Copa do Mundo, minha “nova” pri­meira Copa do Mundo.

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Comentários

Há 5 comentários.

  1. Mário Neto escreveu:
    12 de maio de 2010

    Mui bela crô­nica, PH. Pela pro­xi­mi­dade de nos­sas ida­des, tal­vez não sur­pre­enda que esta Copa tam­bém tenha sido mar­cante pra mim, e me lem­bro dos gola­ços de Josi­mar e da tris­teza que foi aquela der­rota para a França. Esta memó­ria cole­tiva e frag­men­tada do fute­bol (e da his­tó­ria) muito me agrada. Seria muito legal ler mais sobre fute­bol por aqui. Abraços!

  2. Alexandre Piccolo escreveu:
    12 de maio de 2010

    Muito bom, PH: a galera nas­cida em 76, 77, 78, 79 com cer­teza tem lem­bran­ças diver­sas dessa “pri­meira” copa de 86 (já que esta­vam com ida­des entre 7 e 10 anos). Rever os gols (ótimo vídeo), ouvir o jin­gle (“ginga pra cá, gol, ginga pra lá…”), ler o texto, tudo isso deu um gos­ti­nho espe­cial a tan­tas recor­da­ções. E foi muito legal per­ce­ber que as refle­xões não fica­ram só no pas­sado, per­pas­sam supo­si­ções e “lamen­tos” his­tó­ri­cos (ah, se tivesse acon­te­cido aquele encon­tro entre o último Bra­sil de Telê e Argen­tina de Mara­dona em 86…) até che­gar às expli­ca­ções e refle­xões do pre­sente, do tra­ba­lho, dos rumos pro­fis­si­o­nais, tudo no cor­rer ágil da bola. Muito bom.

    Fiquei via­jando: donde será que vem as pala­vras “zicar”, “zica”…? Será…? Não achei no Hou­aiss… De qual­quer forma, eita “gali­nho cho­rado e lamen­tado” gra­ças a copa de 86…

    E pra levar adi­ante a obser­va­ção sobre o “fute­bol bonito”, que “jogava fácil, com velo­ci­dade, efi­ci­ên­cia e ale­gria” da turma dos anos 80, acho curi­oso pen­sar que as gera­ções futu­ras, cen­tra­das em efi­ci­ên­cia, pro­du­ti­vi­dade, imer­sas em aná­li­ses esta­tís­ti­cas e de ren­di­mento, pare­cem ter se per­dido nesse mesmo excesso de infor­ma­ção e suposta efi­ci­ên­cia — afi­nal, onde foi parar o “bri­lho” da coisa, onde se per­de­ram o sen­tido e o pra­zer do momento? Até o cho­pi­nho, antes roti­neiro, irre­ve­rente ou blasé, ganhou pro­to­colo, teve data e horá­rio mar­ca­dos bem como as calo­rias con­ta­das. Em mui­tas coi­sas, a graça parece mesmo ter ficado no passado.

  3. Penha escreveu:
    12 de maio de 2010

    Bacana. Lem­bro que o cal­ção azul não foi usado con­tra a espa­nha — rolou um estra­nho binô­mio camisa ama­rela, cal­ção branco.

    E, como bom opo­si­tor de opi­niões fute­bo­lís­ti­cas, eu gosto da sele­ção de 2002. Mesmo.

    Abs,

    AP

  4. Brunno escreveu:
    13 de maio de 2010

    PH, para­béns pelo belo texto.

    Com­par­ti­lho de suas memó­rias, pois afi­nal a Copa de 1986 tam­bém foi a “minha pri­meira Copa”, meu “debut”. Nas­cido em 1979, infe­liz­mente não me lem­bro da Copa de 1982. Mas vibrei, torci e con­so­li­dei minha pai­xão pelo fute­bol gra­ças à essa Copa no México (den­tre as sele­ções bra­si­lei­ras que vi, essa de 86 tam­bém foi a minha preferida).

    Sin­cro­ni­ca­mente, tam­bém escrevi sobre minhas lem­bran­ças da Copa de 1986 no blog Olhar Mutante — http://olharmutante.wordpress.com/2010/05/11/minhas-lembrancas-de-copa-do-mundo-parte-1/

    Bacana o texto. Con­ti­nue com­par­ti­lhando suas memó­rias, PH. Pois con­cordo com o Márião: “seria muito legal ler mais sobre fute­bol por aqui”.

    Abra­ços,
    Brunno — http://olharmutante.wordpress.com

  5. Brunno escreveu:
    17 de maio de 2010

    PH, muito bom o texto. A Copa de 1986 tam­bém é “a pri­meira” na minha lem­brança. Nasci em 1979, e não tinha idade sufi­ci­ente para lem­brar da Copa de 1982. Sin­cro­ni­ca­mente, tam­bém escrevi um texto sobre minhas lem­bran­ças dessa Copa no blog Olhar Mutante — “Minhas lem­bran­ças de Copa do Mundo — parte 1″ — http://olharmutante.wordpress.com/2010/05/11/minhas-lembrancas-de-copa-do-mundo-parte-1/

    E con­cordo com o Mário: seria muito bom ver mais tex­tos sobre fute­bol por aqui.

    Abra­ços.

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