— Conto por Leonardo Afonso, em 7 de maio de 2010
_ Rapaz, estava tentandando fugir? — recepcionou-lhe o infame Carlos.
_ Pois é, Carlos, eu andei comendo frutos do mar… quase que escapo pelo esgoto! Hehe.
_ Dizem que a gente morre pela boca, né?
_ É… escuta…
_ Bateu de repente? Assim?
_ Como?
_ Você passou quarenta minutos aqui, sem pedir para usar o banheiro, e agora vem dizendo que tem diarreia?
_ Uh… claro! O que há de errado, eu tinha ido antes, esperando o atendimento…
_ Sim, sim, tudo bem. Espero que melhore. Mas é melhor você não estar tramando alguma coisa, seo Afonso.
_ Ora, que bobagem, Carlos! de forma alguma eu faria isso. Mas como eu queria dizer…
_ Errado. Eu queria dizer. Eu dizia que você está em encrenca, Afonso, a menos que se disponha a colaborar.
_ Exato, exato. Justamente isso: como você sabe, eu não tenho chip.
_ É claro.
_ Não tenho então conta bancária. Na verdade, eu nunca mexo com dinheiro… Mas o que me sustenta, eu já devo ter dito, é a pintura.
_ Eu não estou interessado em sua arte. — cortou bruscamente Figueiredo.
_ É uma pena, superintendente.
_ Pode me chamar de Carlos.
_ Então, Carlos, nem todos apreciam arte…
_ Eu não aprecio a sua arte.
_ Mas você nem a viu!
_ Não interessa. Olha aqui: eu vou ajudar você, mas só se você me ajudar. Sabe, uma mão lava outra e tal e coisa. E eu não quero seus quadros.
_ Ora, mas não foi isso que eu sugeri, não se apresse em ler minha mente, Carlos! O que eu ia dizer é que apenas quando eu vender, ou meu marchand vender, na verdade, alguns quadros, é que eu — ou ele — poderia repassar…
Figueiredo rabiscou um papel e estendeu a Afonso. Este arregalou os olhos e assobiou baixinho.
_ A metade disso — arriscou.
_ Dois terços.
_ Tudo bem. Eu preciso de uns cinco dias. Pelo menos.
O superintendente sorriu do seu modo nojento de sempre. Estendeu a mão, recolheu o bilhete e rasgou-o uma, duas, três e quatro vezes e jogou os dezesseis pedacinhos no lixo. Mudou de expressão para ameaçar o pintor:
_ Presta atenção, Afonso, eu sei que somos amigos. (Afonso sentiu um impulso de esmurrá-lo) Mas eu tenho que advertir que se você trair minha confiança, eu posso fazer da sua vida um inferno, compreende? Tudo que eu tenho é seu endereço, que deve ser o certo?
_ É o certo.
_ Justamente. Eu vou tirar uma fotografia sua. — e tirou do bolso do paletó um celular, capturando o quase livre conspirador — Para completar, você não pode pegar nem um ônibus interestadual sem o chip, então não irá muito longe. De qualquer forma, meu caro amigo: nem pense em tentar alguma gracinha, ou em vez de fazer vistas grossas eu vou fazer de sua vida um inferno! Compreendeste?
_ Não há o que temer, eu cumprirei com minha parte do trato.
E Carlos retomou o sorriso cínico.
_ Hoje é terça. Na próxima terça eu passo na sua casa. Até lá você, ou seu machão, não importa, terão o dinheiro pronto para transferir. É claro que eu não vou usar minha conta. E você não abre o bico com ninguém, viu? Nem amigo, nem parente, e muito menos imprensa — isso de viver sem registro até hoje, principalmente. Bico calado. Senão…
_ Minha vida vira um inferno, já sei. Eu gostaria de ir agora, sabe. Eu não estou preso, né? — arriscou um arroubo de auto-confiança — Estou muito cansado.
Carlos inclinou a cabeça e balançou o dedo indicador em riste, num misto de reproche e condescendência.
_ Terça feira.
_ Passar bem, superintendente.
Afonso Affonso Afonso ignorou Saldanha e Martinho que observavam meio escondidos à saída do escritório do superintendente, e trocou mais uma piscadela com seu cúmplice; mal podia acreditar ao escapar do prédio. Aquela gente ali era muito bem capaz de mantê-lo detido com base em precárias suspeitas de má-fé, e sua vida estaria bem complicada, não tendo parentes próximos ou mesmo distantes que dele se pudessem ocupar. Seu marchand tinha muito apreço por ele, mas envolver-se com aquele tipo de pepino poderia comprometê-lo de alguma forma. Após caminhar com esses cálculos na cabeça, fez sinal a um ônibus que parou, mesmo fora do ponto. Todos os motoristas daquela linha o conheciam e sabiam que ele nunca tinha dinheiro (ou não tinha chip, o que era o mesmo): pegou uma carona até em casa. Eram cinco e trinta. Após reencontar Ringo, que lhe fez uma tremenda festa, gastou gostosamente um quarto de hora aguando suas rosas: o canteiro das brancas e então o canteiro das vermelhas (ele detestava tanto as cor-de-rosa quanto as amarelas); chamava-as pelo nome: já dissemos que era excêntrico. Tomou um bom banho e montou seu cavalete em sua varanda, de onde tinha uma ótima vista do bairro todo, extendendo-se por um vale entre duas colinas: ele no topo de uma e na outra uma torre de igreja, exatamente onde se punha o sol naquela parte do ano. Era essa a paisagem que pintara algumas vezes, mas naquele dia havia um gosto especial de liberdade que se refletia na tela, que se ia revelando a melhor que já pintara. Havia um detalhe curioso que fez questão de acrescentar: de costas, como quem entra em cena, havia uma família com trajes andinos, o que parecia sem explicação alguma, e na direção oposta havia um matuto, de chapéu e pés descalços, e ao lado dele um jovem vestido à moda do tempo. Tudo isso era muito sutil ante a beleza do horizonte.
Na manhã seguinte Pedro apareceu, tomaram café e conversaram. O rapazola estava extático, contando que conseguira, sem muito esforço, realizar os comandos necessários para que Afonso Affonso Afonso passasse a existir no sistema, apenas para morrer por uma parada cardíaca repentina e ser enterrado no Campo da Esperança. De acidente de automóvel morreu Pedro Navarro, tendo o mesmo chão para repouso. Ao mesmo tempo nasceram Libério Bolívar e Horácio Prado, já com a idade de 45 e 19 anos, respectivamente, com todo histórico escolar e profissional, e deveres cívicos todos em dia. Pedro, ou melhor, Horácio, garantiu que em mais três ou quatro dias tinha as identidades com chip e passaporte na mão. Iam-se tornando mais e mais próximos, e o abraço de despedida foi bem mais desenvolto do que o primeiro que trocaram.
Libério ainda pintou mais uma dúzia de telas assinando Affonso, nome que já valia alguma coisa, e quando Matheus, seu amigo e marchand, o visitou na quinta, recebeu um lote que ele mesmo assegurava ser o melhor já produzido pelo artista, junto com a incumbência de comercializá-lo o mais rápido possível, auferindo ao menos o valor de umas quantas mil merrecas, e voltando na terça pela manhã com o montante combinado.
Libério passeou muito, a pé, naquele fim de semana. Observava os comportamentos das pessoas e se certificava da artificialidade abestalhada da vida contemporânea. Via aqueles zumbis com telefones pessoais, que não desejavam bom dia ou davam espaço para uma boa prosa. Via o ônibus ficar cinco minutos parado porque as soluções cibernéticas pareciam funcionar ao contrário. Via catracas e leitores biométricos, leitores de chip, e mil parafernálias que registravam cada passo do cidadão, enquanto o crime não parecia diminuir, o trânsito era um inferno, o ar era irespirável; e, no fim, as atividades públicas eram sempre algum divertimento vazio pré-fabricado em outro país. Ninguém dava valor a uma árvore, as rosas eram importadas, as frutas geralmente também o eram, vivia-se até a morte sem ver uma vaca. Plástico, aço, concreto. Era difícil até pintar ali. Tinha ainda um sentimento pela terra em que nascera, mas a vira se transformar sobremaneira. Ia embora.
Foi o sobrinho do superintendente Figueiredo quem apareceu em sua casa na terça. Sem demora, foram todos até um terminal — havia um bem perto, em um posto de gasolina — e completaram a transação que pacificava a sanha do DCCC contra o último cidadão sem registro digital. Matheus pediu explicações, mas só ouviu a trágica notícia: seu amigo iria embora. Libério consolou-o; pediu, como último favor a compra de uma passagem, para este nome aqui — e mostrou o documento falso, que Horácio lhe entregra. Matheus apenas olhou fixamente para o amigo:
_ É claro — disse, após alguns segundos, segurando as lágrimas e a curiosidade.
_ O que sobrar é todo seu.
_ Tudo bem - abraçaram-se.
Libério foi muito feliz pintando os Andes, e veio a se casar com uma índia; Horácio dava aulas de informática como voluntário aos alunos de sua namorada, e consertava computadores. Infelizmente, passaram-se apenas cinco anos até a Bolívia anunciar o cadastramento com chip obrigatório.
Há 2 comentários.
Alexandre Piccolo escreveu:
7 de maio de 2010
Enfim uma fuga para tirar os oprimidos do sufoco que quase os pegou de verdade. Uma paz, ainda que momentânea: a saga do controle estatal por meio da tecnologia que tudo invade (simbolizado sobretudo pelo “chip obrigatório”) chegou até à Bolívia — nossos destemidos Libério e Horácio terão o sossego interrompido em não muito tempo, imagino…
Boa novela, construída no correr desses dias (suponho…), que foi nos guiando a cada semana por novos meandros da “futura administração pública”, por assim dizer.
PH escreveu:
10 de maio de 2010
Chegamos ao fim da saga do Afonso Affonso Afonso. Aliás, personagem muito interessante, vale explorá-lo em outras histórias. Legal a idéia da Bolívia e o “sossego” temporário, até o sistema chegar por lá. No fundo, como diz Dylan, “we’re all boxed in, nowhere to espace”. Abs.
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