O tempo não para

Artigo por , em 18 de maio de 2010

O tempo. De todos os tópoi lite­rá­rios, o tempo é o que mais me fas­cina. Parece estra­nho falar de tempo como tópoi, então, cabe especificá-lo, deli­ne­ando tanto esse poder hip­nó­tico quanto seu(s) lugar(es) nas obras ditas lite­rá­rias. Encanta-me per­ce­ber como tex­tos (e auto­res) vari­a­dos tra­ba­lham a mar­ca­ção e a pas­sa­gem do tempo, seja mais dire­ta­mente, seja alu­siva e filo­so­fi­ca­mente (para ser impre­ciso). Seria impos­sí­vel medir ou cata­lo­gar, de Homero (da cica­triz de Ulis­ses, por exem­plo) até Proust (e toda a Recher­che) e nos­sos ótimos com­pa­tri­o­tas (Érico e seu O tempo e o vento ou Raduan em tre­chos de sua Lavoura), todas as recor­ren­tes men­ções ao tempo, ora mais, ora menos sutis, em sua infin­dá­vel pas­sa­gem e mar­ca­ção. Ora, a sim­ples ideia de “tempo ver­bal” já per­mite falar em tempo, mar­cado, dura­douro, pon­tual, redi­vivo e redi­vi­dido, e o assunto parece mesmo não ter mais fim. Eis a graça. Das mui­tas metá­fo­ras que pro­põem ima­gens ao tempo, por exem­plo, o rio (e seu curso) e a brisa (e seu sopro), tão recor­ren­tes em lite­ra­tu­ras diver­sas, são (tal­vez por isso) das mais belas e delicadas.

Feito esse preâm­bulo, comento muito bre­ve­mente uns tre­chi­nhos de poe­mas, um latino, outro inglês, que suge­rem ima­gens dis­tin­tas da mar­ca­ção do tempo. Uma ode céle­bre entre lei­to­res da lite­ra­tura latina se ini­cia com o fim do der­re­ter das neves, o retorno do verde aos cam­pos, das folhas às árvo­res; os rios, que haviam trans­bor­dado com acrés­cimo das águas dege­la­das, agora seguem o curso das mar­gens. Veja-se o começo desse poema que parafraseei:

Dif­fu­gere niues, redeunt iam gra­mina cam­pis
arbo­ri­bus comae;

mutat terra uices et decres­cen­tia ripas

flu­mina pra­e­te­reunt;

(Horá­cio, Ode IV, VII, v. 1–4)

Dispersaram-se as neves, retor­nam já as gra­mas aos cam­pos,
às árvo­res, as folhas;
muda a terra de aspecto e os rios, decres­cendo,
as mar­gens percorrem;

Seria ape­nas uma “cor­ri­queira” des­cri­ção do fim de uma esta­ção (note-se a pri­meira pala­vra no per­feito do indi­ca­tivo) ou do iní­cio da pri­ma­vera, se a ode não pro­pu­sesse, ver­sos adi­ante, o fim do inverno (fri­gora mites­cunt Zephi­ris – os frios se abran­dam pelos Zéfi­ros) e a infinda suces­são cíclica das esta­ções (uer pro­te­rit aes­tas – a pri­ma­vera vem no encalço do verão). Pode pare­cer banal, mas vale lem­brar que a mudança na natu­reza ser­via (e ainda serve) para mar­car a pas­sa­gem do tempo – e, nes­sas ima­gens, Horá­cio é mes­tre exí­mio. As cenas da natu­reza (quase como sími­les), imis­cuí­das aos per­so­na­gens divi­nos e lite­rá­rios men­ci­o­na­dos (as gêmeas Nin­fas dan­çando e can­tando em meio à Graça, Zéfiro e seus ven­tos do oeste, Enéias, Tulo etc.), pin­tam um cená­rio com­pleto para o poeta tecer suas “refle­xões filo­só­fi­cas” – tam­bém sobre o tempo, ou melhor, seu con­traste com nossa breve mor­ta­li­dade – em ver­sos lapi­da­res (inmor­ta­lia ne spe­res… – não espe­res as coi­sas imor­tais…) e sen­ten­tiae imor­re­dou­ras (puluis et umbra sumus – pó e som­bra somos, cujo con­fronto com a “som­bra de Pín­daro” pode ren­der bons insights). É sabido que nosso Camões leu e emu­lou de perto essa ode hora­ci­ana, pro­du­zindo a notá­vel ode IX, tam­bém cheia de refle­xões sobre o tempo:

Por­que, enfim, tudo passa;
Não sabe o Tempo ter fir­meza em nada;
E a nossa vida escassa
Foge tão apres­sada,
Que quando se começa é aca­bada. (v. 35–9)

Quase con­tem­po­râ­neo do grande Camões, Sha­kes­pe­are, tam­bém lei­tor de lati­nos e gre­gos, mar­cava o tempo – mais de um milê­nio e meio depois – não só com a mudança das esta­ções, mas já com o bada­lar dos sinos das igre­jas e com os ruí­dos mecâ­ni­cos dos reló­gios. Não que não exis­tis­sem reló­gios na anti­gui­dade: clep­si­dras, ampu­lhe­tas e reló­gios sola­res dão exem­plo do fra­ci­o­na­mento do tempo e de sua mar­ca­ção entre povos anti­gos diver­sos, aí incluí­dos gre­gos e roma­nos. Toda­via, os reló­gios mecâ­ni­cos sur­gi­ram ape­nas na Idade Média (se não estou enga­nado…) e seus baru­li­nhos, esta­li­dos e tiques e taques pare­cem já comuns à época do bardo inglês. Note-se o começo do soneto 12:

When I do count the clock that tells the time,
And see the brave day sunk in hide­ous night;
When I behold the vio­let past prime,
And sable curls, all silver’d o’er with white;

Repare-se não ape­nas a men­ção ao reló­gio (clock): é pos­sí­vel “ouvir” o tique-taque do reló­gio mar­cado nas plo­si­vas (/d/, /k/ e /t/) do pri­meiro verso. O pas­sar do tempo, indi­cado já à época nos pon­tei­ros das engre­na­gens mecâ­ni­cas, “ainda” se mate­ri­a­liza dos modos cos­tu­mei­ros, desde as cenas coti­di­a­nas e fuga­zes (o dia que se põe, ou melhor, afunda/sunk) ao lento e menos per­cep­tí­vel enve­lhe­cer (dos cachos dou­ra­dos que se agri­sa­lham). Uma brisa-vento parece tudo con­su­mir ao som das fri­ca­ti­vas (/v/ e /θ/) no final desse pri­meiro quar­teto. Eis por­que a tra­du­ção de Ivo Bar­roso (como já des­ta­cara Anto­nio Hou­aiss) é tão feliz (pois tam­bém sonora):

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite hor­renda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a vio­leta, ou que
A prata a preta têm­pora assedia;

A sequên­cia do soneto sha­kes­pe­ri­ano, ao evo­car os ele­men­tos da natu­reza (as árvo­res e as folhas, por exem­plo), equilibra-os aos ele­men­tos huma­nos (a barba, a beleza), mos­trando como ambos jamais esca­pam à foice do Tempo (Time’s scythe, v. 13). Como Horá­cio, o poeta inglês parece insis­tir no des­ta­que: nada escapa à ação do tempo. A natu­reza, em ciclos, morre e se renova, infi­ni­ta­mente. Nós, entre­tanto, ape­nas vive­mos e mor­re­mos uma única vez — e em nossa fini­tude nos é dado con­tem­plar fra­ções do infinito.

A con­clu­são da ode de Sha­kes­pe­are pode, con­tudo, soar algo oti­mista.1 Afi­nal, nosso ciclo de nas­cer e mor­rer, à vista de gera­ções e gera­ções huma­nas que nas­cem e mor­rem, parece suge­rir que, por meio da prole e suces­si­vas pro­cri­a­ções, pode-se ven­cer o tempo. Cabe­ria, pois, des­ta­car uma cui­da­dosa rea­va­li­a­ção, inter­tex­tual se pos­sí­vel (menos ven­ce­dora, se dese­jar). Vista de outra maneira, a pro­cri­a­ção e a prole aca­bam ape­nas mais bem nos inte­grando aos cor­ri­quei­ros ele­men­tos da natu­reza, do qual somos já parte antes mesmo de assim nos pro­nun­ci­ar­mos. Já nos disse (e ainda diz) Homero, colo­cando as pala­vras na boca de Glauco Hipolóquio:

(…). Símile à das folhas,
a gera­ção dos homens: o vento faz cair
as folhas sobre a terra. Ver­de­cendo, a selva
enfo­lha outras mais, vinda a pri­ma­vera. Assim,
a linha­gem dos homens: nas­cem e pere­cem.
(Ilíada VI, 146–50 — trad. Haroldo de Campos)

  1. Há uma men­ção desse poema no filme O homem que copi­ava, na tra­du­ção de Ivo Bar­roso.
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Comentários

Há 5 comentários.

  1. PH escreveu:
    18 de maio de 2010

    Grande texto, Ale­xan­dre. Nes­tes nos­sos (ainda) 30 e pou­cos anos, já sen­ti­mos maior velo­ci­dade dos d’s, k’s e t’s do de nos­sos reló­gios. Reló­gios assus­ta­do­res, se olhar­mos sob nossa ínfima pers­pec­tiva. Mas se con­tem­plar­mos ação do Tempo, na natu­reza, na his­tó­ria, nos poe­mas, cap­tu­ra­mos um pouco deste infi­nito do qual faze­mos parte. É como a belís­sima pas­sa­gem sobre o tempo, de Ecle­si­aste 3 (“há tempo para tudo debaixo do sol”), cujos ver­sos foram tão bem adap­ta­dos para o rock, na can­ção “Turn, Turn, Turn”, dos Byrds. Abs. PH

  2. Leonardo Afonso escreveu:
    20 de maio de 2010

    E eis que meus sable curls já estão silver’d o’er com white… Sem tempo para comen­tar mais. Ótimo texto (eu evi­ta­ria o título, jus­ta­mente para esca­par do Cazuza).

  3. Lucy escreveu:
    26 de maio de 2010

    Parei para uma pausa-cafézinho e, ainda bem, pas­sei por aqui.
    Texto exce­len­tis­sís­simo!
    E olha só que coin­ci­dên­cia: hj de manhã eu estava lendo umas notas que fiz sobre o livro de um crí­tico cha­mado Mon­tus­chi, Il tempo in Ovi­dio. Nada tão poé­tico, não. Mais um elenco de cita­ções, mesmo.
    Por isso mesmo foi legal ler seu texto.
    Parabéns!

  4. Mário Neto escreveu:
    2 de junho de 2010

    Exce­lente, bem pon­tu­ado, ótimas refe­rên­cias, belos poemas.

  5. Jorge Sousa Santos escreveu:
    30 de junho de 2011

    Obri­gado! Deliciam-me os que fazem renas­cer as gran­des lições dos clás­si­cos, var­ri­dos do ensino em Por­tu­gal (espero que no Bra­sil não tenham come­tido o mesmo crime). Tam­bém já escrevi sobre o assunto, embora tomando como base os poe­tas que viram na cor­rente do Tejo a lição recons­ti­tuída por Ricardo Reis «Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio»…).
    Parabéns!

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