— Artigo por Alexandre Piccolo, em 18 de maio de 2010
O tempo. De todos os tópoi literários, o tempo é o que mais me fascina. Parece estranho falar de tempo como tópoi, então, cabe especificá-lo, delineando tanto esse poder hipnótico quanto seu(s) lugar(es) nas obras ditas literárias. Encanta-me perceber como textos (e autores) variados trabalham a marcação e a passagem do tempo, seja mais diretamente, seja alusiva e filosoficamente (para ser impreciso). Seria impossível medir ou catalogar, de Homero (da cicatriz de Ulisses, por exemplo) até Proust (e toda a Recherche) e nossos ótimos compatriotas (Érico e seu O tempo e o vento ou Raduan em trechos de sua Lavoura), todas as recorrentes menções ao tempo, ora mais, ora menos sutis, em sua infindável passagem e marcação. Ora, a simples ideia de “tempo verbal” já permite falar em tempo, marcado, duradouro, pontual, redivivo e redividido, e o assunto parece mesmo não ter mais fim. Eis a graça. Das muitas metáforas que propõem imagens ao tempo, por exemplo, o rio (e seu curso) e a brisa (e seu sopro), tão recorrentes em literaturas diversas, são (talvez por isso) das mais belas e delicadas.
Feito esse preâmbulo, comento muito brevemente uns trechinhos de poemas, um latino, outro inglês, que sugerem imagens distintas da marcação do tempo. Uma ode célebre entre leitores da literatura latina se inicia com o fim do derreter das neves, o retorno do verde aos campos, das folhas às árvores; os rios, que haviam transbordado com acréscimo das águas degeladas, agora seguem o curso das margens. Veja-se o começo desse poema que parafraseei:
Diffugere niues, redeunt iam gramina campis
arboribus comae;
mutat terra uices et decrescentia ripas
flumina praetereunt;
(Horácio, Ode IV, VII, v. 1–4)
Dispersaram-se as neves, retornam já as gramas aos campos,
às árvores, as folhas;
muda a terra de aspecto e os rios, decrescendo,
as margens percorrem;
Seria apenas uma “corriqueira” descrição do fim de uma estação (note-se a primeira palavra no perfeito do indicativo) ou do início da primavera, se a ode não propusesse, versos adiante, o fim do inverno (frigora mitescunt Zephiris – os frios se abrandam pelos Zéfiros) e a infinda sucessão cíclica das estações (uer proterit aestas – a primavera vem no encalço do verão). Pode parecer banal, mas vale lembrar que a mudança na natureza servia (e ainda serve) para marcar a passagem do tempo – e, nessas imagens, Horácio é mestre exímio. As cenas da natureza (quase como símiles), imiscuídas aos personagens divinos e literários mencionados (as gêmeas Ninfas dançando e cantando em meio à Graça, Zéfiro e seus ventos do oeste, Enéias, Tulo etc.), pintam um cenário completo para o poeta tecer suas “reflexões filosóficas” – também sobre o tempo, ou melhor, seu contraste com nossa breve mortalidade – em versos lapidares (inmortalia ne speres… – não esperes as coisas imortais…) e sententiae imorredouras (puluis et umbra sumus – pó e sombra somos, cujo confronto com a “sombra de Píndaro” pode render bons insights). É sabido que nosso Camões leu e emulou de perto essa ode horaciana, produzindo a notável ode IX, também cheia de reflexões sobre o tempo:
Porque, enfim, tudo passa;
Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
E a nossa vida escassa
Foge tão apressada,
Que quando se começa é acabada. (v. 35–9)
Quase contemporâneo do grande Camões, Shakespeare, também leitor de latinos e gregos, marcava o tempo – mais de um milênio e meio depois – não só com a mudança das estações, mas já com o badalar dos sinos das igrejas e com os ruídos mecânicos dos relógios. Não que não existissem relógios na antiguidade: clepsidras, ampulhetas e relógios solares dão exemplo do fracionamento do tempo e de sua marcação entre povos antigos diversos, aí incluídos gregos e romanos. Todavia, os relógios mecânicos surgiram apenas na Idade Média (se não estou enganado…) e seus barulinhos, estalidos e tiques e taques parecem já comuns à época do bardo inglês. Note-se o começo do soneto 12:
When I do count the clock that tells the time,
And see the brave day sunk in hideous night;
When I behold the violet past prime,
And sable curls, all silver’d o’er with white;
Repare-se não apenas a menção ao relógio (clock): é possível “ouvir” o tique-taque do relógio marcado nas plosivas (/d/, /k/ e /t/) do primeiro verso. O passar do tempo, indicado já à época nos ponteiros das engrenagens mecânicas, “ainda” se materializa dos modos costumeiros, desde as cenas cotidianas e fugazes (o dia que se põe, ou melhor, afunda/sunk) ao lento e menos perceptível envelhecer (dos cachos dourados que se agrisalham). Uma brisa-vento parece tudo consumir ao som das fricativas (/v/ e /θ/) no final desse primeiro quarteto. Eis porque a tradução de Ivo Barroso (como já destacara Antonio Houaiss) é tão feliz (pois também sonora):
Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
A sequência do soneto shakesperiano, ao evocar os elementos da natureza (as árvores e as folhas, por exemplo), equilibra-os aos elementos humanos (a barba, a beleza), mostrando como ambos jamais escapam à foice do Tempo (Time’s scythe, v. 13). Como Horácio, o poeta inglês parece insistir no destaque: nada escapa à ação do tempo. A natureza, em ciclos, morre e se renova, infinitamente. Nós, entretanto, apenas vivemos e morremos uma única vez — e em nossa finitude nos é dado contemplar frações do infinito.
A conclusão da ode de Shakespeare pode, contudo, soar algo otimista.1 Afinal, nosso ciclo de nascer e morrer, à vista de gerações e gerações humanas que nascem e morrem, parece sugerir que, por meio da prole e sucessivas procriações, pode-se vencer o tempo. Caberia, pois, destacar uma cuidadosa reavaliação, intertextual se possível (menos vencedora, se desejar). Vista de outra maneira, a procriação e a prole acabam apenas mais bem nos integrando aos corriqueiros elementos da natureza, do qual somos já parte antes mesmo de assim nos pronunciarmos. Já nos disse (e ainda diz) Homero, colocando as palavras na boca de Glauco Hipolóquio:
(…). Símile à das folhas,
a geração dos homens: o vento faz cair
as folhas sobre a terra. Verdecendo, a selva
enfolha outras mais, vinda a primavera. Assim,
a linhagem dos homens: nascem e perecem.
(Ilíada VI, 146–50 — trad. Haroldo de Campos)
Há 5 comentários.
PH escreveu:
18 de maio de 2010
Grande texto, Alexandre. Nestes nossos (ainda) 30 e poucos anos, já sentimos maior velocidade dos d’s, k’s e t’s do de nossos relógios. Relógios assustadores, se olharmos sob nossa ínfima perspectiva. Mas se contemplarmos ação do Tempo, na natureza, na história, nos poemas, capturamos um pouco deste infinito do qual fazemos parte. É como a belíssima passagem sobre o tempo, de Eclesiaste 3 (“há tempo para tudo debaixo do sol”), cujos versos foram tão bem adaptados para o rock, na canção “Turn, Turn, Turn”, dos Byrds. Abs. PH
Lucy escreveu:
26 de maio de 2010
Parei para uma pausa-cafézinho e, ainda bem, passei por aqui.
Texto excelentissíssimo!
E olha só que coincidência: hj de manhã eu estava lendo umas notas que fiz sobre o livro de um crítico chamado Montuschi, Il tempo in Ovidio. Nada tão poético, não. Mais um elenco de citações, mesmo.
Por isso mesmo foi legal ler seu texto.
Parabéns!
Mário Neto escreveu:
2 de junho de 2010
Excelente, bem pontuado, ótimas referências, belos poemas.
Jorge Sousa Santos escreveu:
30 de junho de 2011
Obrigado! Deliciam-me os que fazem renascer as grandes lições dos clássicos, varridos do ensino em Portugal (espero que no Brasil não tenham cometido o mesmo crime). Também já escrevi sobre o assunto, embora tomando como base os poetas que viram na corrente do Tejo a lição reconstituída por Ricardo Reis «Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio»…).
Parabéns!
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