A praça

Conto por Alexandre Piccolo, em 1 de junho de 2010

Anto­nio Sil­veira des­per­tara ner­voso, irri­tado com o sol que lhe feria a vista e com as lem­bran­ças de suas maqui­na­ções. Até as pom­bas da praça pare­ciam zom­bar dele. A cabeça doía num misto de fome e indig­na­ção. A grama verde e quente do meio-dia que tanto lhe aco­lhera os res­tau­ra­do­res cochi­los da tarde agora coçava-lhe em pre­nún­cio da vin­gança que se urdia. A brisa, outrora tão fresca, bafejava-lhe a cara suada. Aos ros­tos conhe­ci­dos e indis­tin­tos da vizi­nhança na praça cen­tral dis­tri­buía não mais o cor­ri­queiro sor­riso ben­fa­zejo, de lábios escu­ros e car­nu­dos, entre­me­a­dos aos ace­nos tão sim­pá­ti­cos. Barato a coisa não podia mais ficar, decidira.

Anto­nio Sil­veira guar­dava os car­ros das redon­de­zas há tanto tempo que nem mais sabia recor­dar quan­tos anos tinha quando come­çara. Quando menino, vigi­ava a praça toda, da esquina lá de cima com o antigo cinema e o hotel Plaza até o outro extremo, no cru­za­mento da rua do comér­cio com a saída do colé­gio muni­ci­pal. Praça grande, uns qua­tro quar­tei­rões ao todo. E ainda tinha pique para cor­rer às tra­ves­sas quando parava algum gran­fino, que ren­dia a espe­rança dum troco mais gordo. Apren­deu que os ricos eram mais sovi­nas e pre­fe­riu lavar os car­ros para­dos na praça com uma sur­rada lata velha de tinta, a água turva da fonte e uns tra­pos que o ser­vente da escola lhe arran­java. A meni­nada, depois do sinal, cor­ria desem­bes­tada rumo ao pipo­queiro e ao baleiro, espan­tando as pom­bas e gri­tando aos infer­nos. No meio da alga­zarra e de tan­tos pais e cri­an­ças, cos­tu­mava sobrar um tro­cado ou um doce que vinha ale­grar os fins de tarde. Em dias frios o movi­mento caía. Todos se fecha­vam em seus car­rões e casa­cos, esquentado-se ora com gulo­sei­mas, ora com abra­ços ami­gos. Na vés­pera dum feri­ado, ganhou da secre­tá­ria da escola uma blusa azul de lã, puída, limpa e bem dobrada, que aqueceu-lhe o peito nas manhãs frias de julho e acompanhou-o anos e anos a fio.

Anto­nio Sil­veira virou refe­rên­cia para mora­do­res e fre­quen­ta­do­res dos arre­do­res da praça. Não só olhava os car­ros e os lavava vez ou outra, mas entre­gava em mãos o jor­nal nas casas e no comér­cio da vizi­nhança (ganhando com isso uns tro­ca­dos do jor­na­leiro), dava uma vol­ti­nha com os poo­dles do dou­tor Már­cio Frei­tas (do pré­dio ao lado do hotel) quando o dou­tor “não tinha tempo”, aju­dava a car­re­gar as saco­las de com­pras das mora­do­ras ido­sas ao des­ce­rem do ônibus, o que cos­tu­mava lhe ren­der um pedaço de bolo ou pão reche­ado, agrado sem­pre muito bem vindo. Entediou-se certa oca­sião e ten­tou por um tempo engra­xar sapa­tos dos visi­tan­tes do hotel, pra variar o ofí­cio e a esquina de sua morada na praça, mas uma man­cha na calça dum estran­geiro e uns safa­nões lhe for­ça­ram retornos.

A esquina da escola era mesmo seu recanto. Entre o verde de várias árvo­res, a som­bra de duas man­guei­ras pró­xi­mas à fonte de água calma (sem cha­fa­riz, mas com algu­mas pom­bas ao redor) era sua casa e seu refú­gio, como seu rosto negro e sim­pá­tico era a cer­teza de um sor­riso amigo, aos que apren­de­ram a prezá-lo por ali. No prin­cí­pio, mui­tas mães olhavam-no res­sa­bi­a­das, sus­pei­tando algo que aquele negro da praça pudesse fazer a elas ou a seus filhos. O tempo ensi­nou (a quase todas) a retribuir-lhe a ter­nura que “Seo Sil­veira” dis­tri­buía com o olhar adulto, jamais adu­la­dor. Reco­nhe­cia os pas­san­tes de longe e com ace­nos for­tes à dis­tân­cia sentia-se senhor das cer­ca­nias, onde cum­pri­men­ta­vam e respeitavam-no. A moder­ni­dade, como se diz, que levou embora o cinema (hoje uma igreja), con­fe­riu a Seo Anto­nio Sil­veira a auto­ri­dade ou o “poder para­lelo”, nas pala­vras dos juris­tas que por ali pas­sa­vam à cami­nho do fórum, especulando.

Numa tarde, Sil­veira notou uma Kombi marron-clara na saída do colé­gio. Foi papear com o moto­rista e sua acom­pa­nhante e levou só sopapo: “vai cui­dar da sua vida, seu preto”. Nem lem­brava mais des­ses dis­tra­tos, tão usu­ais na moci­dade. Deu de ombros. Nou­tra semana, o mesmo casal da Kombi, esta­ci­o­nado – dessa vez na praça, bis­bi­lho­tando a vida dos meni­nos que Seo Anto­nio aju­dava a atra­ves­sar a rua. Dis­per­sos os garo­tos, sor­ra­teiro, foi lá per­gun­tar se espe­ra­vam por alguém. Um safa­não com a porta. O homem des­ceu do carro, esbo­fe­teou Anto­nio Sil­veira (que caiu) e, com um pedaço de pau, bateu-lhe até machu­car. Mui­tos, boqui­a­ber­tos, viram a cena sem nada enten­der ou fazer. De volta à Kombi, o homem par­tiu des­pre­o­cu­pado e em disparada.

Recu­pe­rado, Anto­nio Sil­veira deci­dira. Com olhos fun­dos se des­pe­diu dos ros­tos que mais pre­zava, ace­nou “tchaus” para mui­tos que nem mesmo o per­ce­be­ram. Preparava-se há dias para o revide e o reen­con­tro. Viu, numa tarde enso­la­rada de outu­bro, pela última vez, a som­bra das man­guei­ras que tanto o aco­lhera e a tal Kombi parada na esquina. De punhal nas mãos enro­la­das com as velhas sobras de sua blusa azul foi de encon­tro ao seu des­tino, sem mais se lem­brar das pom­bas, da fonte, da brisa da tarde em sua praça.

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Comentários

Há apenas 1 comentário até o momento.

  1. Alex escreveu:
    12 de julho de 2010

    Conto bom é aquele que ter­mina com gos­ti­nho de quero mais, que nem esse.

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