Abraxas

Resenha por , em 15 de junho de 2010

O cami­nho da mai­o­ria é fácil, o nosso é penoso. (Demian, p. 135)

Capa do álbum Abraxas, de Carlos Santana

Capa do álbum Abra­xas, de Car­los Santana

Em 1970, a banda lide­rada por Car­los San­tana lan­çou seu segundo long play: Abra­xas. Um sucesso de ven­das, de público, de crí­tica. As músi­cas do álbum mis­tu­ram rit­mos lati­nos (salsa) com jazz e blues e lon­gos solos de gui­tarra de puro rock ‘n’ roll ainda for­te­mente ligado ao fes­ti­val de Woods­tock, que acon­te­cera em 1969. O nome do disco não me cha­mara a aten­ção até a semana pas­sada: lendo o romance de Her­mann Hesse, Demian, quando topei a seguinte passagem:

A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem qui­ser nas­cer tem que des­truir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abra­xas. (p. 114)

O tre­cho surge no começo da segunda metade do livro (ou melhor, no iní­cio do capí­tulo cinco), quando o per­so­na­gem homô­nimo envia num bilhete as pala­vras acima ao narrador-personagem, per­sona que nos relata suas pró­prias expe­ri­ên­cias, da infân­cia à idade adulta. Até o refe­rido ponto da nar­ra­tiva, vemos esse eu-primeira-pessoa pen­du­lar seus prin­cí­pios reli­gi­o­sos, pes­so­ais e fami­li­a­res, em meio a expe­ri­ên­cias tri­vi­ais de inte­gra­ção com os cole­gas, por exem­plo, fin­gindo his­tó­rias para facilitar-lhe a acei­ta­ção do grupo. Os rumos ines­pe­ra­dos duma sin­gela brin­ca­deira infan­til levam-no às toli­ces da covar­dia des­me­dida, até que surge a enig­má­tica figura de Demian, que não só o impres­si­ona (rapaz que apa­renta mais idade e expe­ri­ên­cia que a mai­o­ria dos demais garo­tos da classe), mas chega mesmo a livrá-lo das incô­mo­das más com­pa­nhias. Mas não só. É Demian quem lhe faz inda­gar nar­ra­ti­vas e dog­mas cris­tãos tão enrai­za­dos na for­ma­ção da per­sona–nar­ra­dora: “o sinal de Caim” e “o mau ladrão” são dois des­ses ques­ti­o­na­men­tos, que inti­tu­lam impor­tan­tes capí­tu­los do romance.

O disco do San­tana, pelo que se per­cebe no encarte do CD, parece ter encon­trado no romance de Hesse a ins­pi­ra­ção para seu nome e suas diva­ga­ções filo­só­fi­cas. Note-se que o encarte cita esta pas­sa­gem, em inglês, cre­di­tada a Har­per & Row:

We stood before it and began to fre­eze inside from the exer­tion. We ques­ti­o­ned the pain­ting, bera­ted it, made love to it, prayed to it: We cal­led it mother, cal­led it whore and slut, cal­led it our belo­ved, cal­led it Abraxas…

Em por­tu­guês, segundo a tra­du­ção de Ivo Bar­roso, o mesmo tre­cho encontra-se no capí­tulo deno­mi­nado “A luta de Jacó” (lá pelos 40% do capítulo):

Não sei quanto tempo per­ma­neci ali imó­vel, diante do dese­nho. O enorme esforço inte­rior ia gelando-me o peito. Inter­ro­guei aquela ima­gem e acusei-a, acariciei-a e rezei de joe­lhos diante dela; chamei-a de mãe e chamei-a de amor, de pros­ti­tuta e de per­dida, chamei-a de Abraxas.

Fiquei intri­gado: por que o tra­du­tor inglês usa “we”, quando nosso tra­du­tor diz “eu”? E esse “não sei quanto tempo”, de onde vem? Pro­cu­rando pelo texto de Demian em ale­mão, não encon­trei o “nós” do inglês, tam­pouco o “não sei quanto tempo” do por­tu­guês. Supo­nho que haja, nos dois casos, certa dose de liber­dade tra­du­tó­ria, para se trans­mi­tir o “clima” do romance — evi­te­mos con­de­na­ções des­me­di­das ou des­ba­ra­ta­das. Eis aqui a passagem:

Ich stand davor und wurde vor inne­rer Ans­tren­gung kalt bis in die Brust hinein. Ich fragte das Bild, ich klagte es an, ich lieb­koste es, ich betete zu ihm; ich nannte es Mut­ter, ich nannte es Geli­ebte, nannte es Hure und Dirne, nannte es Abraxas.

Capa e lom­bada do volume Demian, de Her­mann Hesse, edi­tado pela Record

Dei­xa­das de lado essas picui­nhas meno­res, melhor é vol­tar ao texto e ao disco, para fina­li­zar. Por um lado, o livro traça uma busca infinda pelos sen­ti­dos ocul­tos da união do bem e do mal na divin­dade assim deno­mi­nada: Abra­xasA página da Wiki­pe­dia coloca a tal “enti­dade” na série de ver­be­tes sobre Gnos­ti­cismo, daí já se per­cebe que a con­versa vai longe… Con­tudo, sem ir tão dis­tante, devo con­fes­sar que foi bas­tante inte­res­sante esse pri­meiro con­tato com Her­mann Hesse roman­cista, cheio de incer­te­zas, fugas e ques­ti­o­na­men­tos real­mente per­ti­nen­tes. O lobo da estepe e Sidarta vão ficar prum “em breve”. E disse roman­cista por­que havia lido, há tem­pos, o conto estu­pendo “O poeta”, num volume da bela lavra tra­du­tó­ria de Rónai e Auré­lio Buar­que (Mar de His­tó­rias, vol. 9). Essa nar­ra­tiva curta de Hesse, com ares de Mär­chen ori­en­tal, parece com­par­ti­lhar das cores asiá­ti­cas que se per­ce­bem nas belas his­tó­rias de Your­ce­nar em “Con­tos Orientais”.

Por outro lado, o disco de San­tana, que já virou um “clás­sico” — como diriam os afi­ci­o­na­dos em rock, em solos de gui­tarra e em San­tana — sobre­tudo do rock lisér­gico dos anos 70, per­mite uma via­gem menos arrai­gada a mora­lis­mos ou filo­so­fias reli­gi­o­sas. Não obs­tante, um com­pleto entro­sa­mento das for­ças da natu­reza, por assim dizer, bem como a pro­cura por um ser que reúna em si o todo (até mesmo os opos­tos: o bem e o mal, o claro e o escuro etc.) pare­cem tam­bém aju­dar a com­por as can­ções mul­tis­so­no­ras desse LP roqueiro. É pos­sí­vel ouvir, no vídeo aqui acima, os 10 minu­tos ini­ci­ais.1 Fai­xas como “Black Magic Woman”, “Hope you’re fee­ling bet­ter” e mesmo “Oye, como va” pare­cem bus­car sua sono­ri­dade pró­pria, pro­cu­rando defi­nir tanto o álbum quanto o grupo de maneira carac­te­rís­tica e única. Essa busca pela iden­ti­dade na tri­lha de seu cami­nho indi­vi­dual, vemos, por exem­plo, no curto excerto do livro (para retomá-lo):

Só pode­mos aspi­rar a nós mes­mos, a nosso pró­prio des­tino. (Demian, p. 150)

São essas as via­gens de auto­des­co­bri­mento suge­ri­das nes­sas duas obras, cheias de intros­pec­ção e mis­ti­cismo, que influ­en­ci­a­ram, não por acaso, gera­ções de jovens incon­for­mis­tas dos anos 50 em diante, seja em lutas paci­fis­tas, seja em pere­gri­na­ções mís­ti­cas. Eis algu­mas das vere­das que unem tanto a música de San­tana quanto a nar­ra­tiva de Her­mann Hesse.

Texto citado:

HESSE, Her­man. Demian. Trad. Ivo Bar­roso. 22a. ed. Rio de Janeiro: Record, s./d.

  1. Ainda que o foo­tage do vídeo não cor­res­ponda ao clip do álbum, a fogueira que apa­rece naquele me lem­brou, no livro, o con­ví­vio do protagonista-narrador com Pis­tó­rius, per­so­na­gem que lhe ensina o encan­ta­mento de se olhar lon­ga­mente para o fogo, ritual de indu­ção à auto­re­fle­xão.
FracoRazoávelMédioBomÓtimo Ainda não há notas: dê já a sua!
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Comentários

Há 3 comentários.

  1. diego escreveu:
    17 de junho de 2010

    Muito bom saber um pouco mais da ori­gem da ins­pi­ra­ção do San­tana. Gos­tei do texto, Ale­xan­dre. Me fez pen­sar que o impe­ra­tivo “Conhece a ti mesmo” é muito recor­rente entre os mai­o­res artis­tas e pensadores.

  2. Leosfera escreveu:
    1 de julho de 2010

    Hesse era parte do ape­tre­cho ofi­cial hip­pie… cer­ta­mente ape­nas alguns iam a fundo em sua lite­ra­tura, limitando-se a uma “casca” mís­tica. Assim como fin­giam explo­rar os mean­dros da mente humana quando toma­vam ácido. San­tana me parece um sujeito que sin­ce­ra­mente tinha uma dimen­são espi­ri­tu­a­lista, e outra refe­rên­cia nesse sen­tido é sua par­ce­ria com John McLaugh­lin (sob o mesmo guru), no disco Love, Devo­tion, Sur­ren­der, que inclui inclu­sive (é redun­dân­cia, isso?) uma ver­são do hino do renas­ci­mento espi­ri­tual de John Col­trane, A Love Supreme. Eu vivo agora um momento pare­cido — abdi­car de álcool e dro­gas — mesmo estando longe da minha fase espi­ri­tu­a­lista, que con­si­dero reto­mar. Vol­tando ao Hesse, devo dizer que Sidarta foi des­ses livros que devo­rei em dois dias. Belo texto, Alê, arti­cu­lou muito bem várias fren­tes interrelacionadas.

  3. Isis escreveu:
    28 de dezembro de 2011

    Estou lendo Demian e hoje pela manhã me depa­rei com aquele tre­cho do livro que ori­gi­nou este texto. Fiquei fas­ci­nada com os sig­ni­fi­ca­dos por trás da frase e desta pala­vra que não conhe­cia, dai vim até a inter­net pro­cu­rar pelo nome Abra­xas e me depa­rei com sua rese­nha. Para­béns pelas arti­cu­la­ções e comen­tá­rios. O texto tá muito interessante.

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