— Conto por Leonardo Afonso, em 4 de junho de 2010
“Vocês já conheceram o Hélio? É meu caretinha de hoje à noite.” Acendeu o último cigarro do maço, que amassou e atirou por cima da cerca-viva. Douglas ralhou carinhosamente com ela: “Luna, de novo! Essa veia daí é um porre!” “Desculpa, Douglas, eu esqueço.” Virou-se para Hélio e achou-o acabrunhado. “Que foi, lindo?” Yolanda explicou: “esse troglodita aqui quase esganou seu paquera. Mas já tá tudo certo, não?” Douglas desculpou-se de novo, mais sem graça agora que sabia ser o rapaz a companhia de sua amiga. Hélio viu Yolanda remexer a bolsa de couro preto e tirar uma caixinha de metal, abri-la, e começar a manusear alguma coisa dentro; formulou suas suspeitas e ficou inquieto, lembrando suas experiências com aquela substância, e, tendo ficado meio contrariado com a provocação de Luna havia pouco, ficou tentado a se permitir mais uma experiência com aquilo. Tentou uma escapada: “acho que eu vou descer e pegar um chope, você quer alguma coisa?” Luna fez voz de manha para retê-lo: “vai não, fica aqui comigo”, e envolveu-o em carícias. Ele aquiesceu, e sorriu de sua própria ingenuidade: fugindo de um baseado. “É só dizer não”, pensou. Para dissipar qualquer dúvida, Yolanda tirou uma seda do livrinho, confeccionou uma piteira (o casal fazia questão desse detalhe) e torceu um belo petardo. “Tá cabeçuda, hein, Yolanda?” — cutucou Luna. “Quatro cabeças, fia, é isso mesmo.” “Três,” protestou Hélio. “Ah, ele é o caretinha da Luna,” Douglas quebrou seu silêncio; o mal-entendido de minutos atrás parece que ainda não dissipara totalmente, e ele tinha o pé atrás com Hélio, um “tipinho de camisa pólo” para ele. Hélio não gostou de ouvir isso do cara que lhe tinha segurado pelo colarinho; levantaria para buscar cerveja, não fosse Luna.
Luna recebeu o beque de Yolanda e, talvez para desanuviar o clima tenso, pediu à amiga que contasse “aquela história do México”. Ficava clara a relação filial de Luna com o casal; “ela trocou os pais caretas demais por esses”, pensou Hélio. Depois de uma sonora gargalhada, a motoqueira começou: “A gente tava subindo… maior perrengue pra atravessar a América Central… a gente decidiu que ia passar pelo Texas, a terra do Stevie Ray Vaughan. Na verdade a gente brigou porque o Douglas achou que a gente não ia conseguir entrar nos Estados Unidos, sem visto, sem porra nenhuma; eu achava que ninguém tinha nada a perder. Sabe como é, naquela época não existia segunda-feira, patrão, nada disso. Eu venci.” Nesse momento, Luna ofereceu a bola a Hélio, que fez um gesto recusando, mas dividido internamente; a roda prosseguiu com Douglas, e a estória com sua mina (não eram de fato casados). “Sei que a gente foi meio imprudente em entrar no deserto de Chiahuha sem se preparar. Na verdade, o ideal era atravessá-lo à noite, mas a gente teve que descobrir isso do pior jeito. Era umas três da tarde, eu tava pilotando e de repente passei mal, a gente caiu e se machucou todo. Lembrar a cara que o Douglas fez! Ele nem gosta de Stevie Ray… enfim: ali perto morava uma família num casebre e eles vieram nos socorrer. Trataram a gente muito bem, e à noite, depois do jantar, estávamos conversando no alpendre quando surgiu o assunto do peiote. Eu tinha ouvido falar vagamente daquilo, sabia que era um alucinógeno potente, e foi o que eu disse. Carlos, o patriarca, me censurou com vigor: era um veículo dos deuses, ou algo assim, e exigia respeito.” “Enteógeno” — acrescentou seu parceiro. “O Douglas interveio dizendo que o peiote não era muito conhecido na nossa terra, mas que ele sabia que tinha uma sabedoria profunda envolvida. Tava cantando o velho pra experimentar com o cacto. E deu certo, nós combinamos que no outro dia íamos procurar pelo cacto e participar do ritual todo.
“Tivemos que acordar cedo, quando o deserto era menos inclemente, e seguimos Carlos sem saber muito o que fazer. Depois que ele encontrou uma dúzia de botões — um estava florido, inclusive, lindo -, nós também começamos a reconhecer os bulbos espinhosos: foi uma colheita bem produtiva. Voltamos para perto da casa, onde havia uma espécie de galpão onde eles armazenavam o pouco milho que colhiam e mais um monte de tranqueira. Carlos montou um caldeirão de bruxa sobre um fogo de lenha e pediu que a gente acompanhasse ele nuns cânticos que ele entoava enquanto descascava e picava os botões bem lentamente, e jogava os pedaços no caldeirão. A dada altura ele distribuiu uns pedaços para que a gente mascasse. Por muito tempo, a gente só assistia tudo, cheio de expectativa e respeito.” Aqui, o baseado voltou a chegar em Luna e ela, depois de dois pegas, ia passando direto pra Douglas, mas Hélio — meio encabulado — pediu à ficante pra participar. Zoaram o pobre rapaz mais um pouco: “ele ficou mordido de ser chamado de careta”. “Olha, eu já fumei antes, sabia?” “Calma cara, a gente tá feliz de você fumar. Mas não se sinta pressionado.” “Nah, eu acho que tô virando um sapo rouco também.” Todos riram às gargalhadas. “Mas e aí?” — insistiu Luna, como se não tivesse escutado aquela estória ene vezes. “Bom — prosseguiu Yolanda — ele passou a explicar que nós íamos entrar no território dos deuses e que era preciso tranquilidade e confiança; explicou que cada um de nós iria encontrar um animal-guia e receberia seu próprio cântico. Eu já tava me sentindo diferente quando ele serviu a poção do caldeirão; depois disso, ficamos sentados no chão, em círculo, por uns vinte minutos, de repente me veio uma melodia à cabeça, eu lembro até hoje (começou a murmurar). Quando eu comecei a cantar, timidamente, minha melodia (eu sabia na hora que era disso que se tratava), vi uma explosão de cores, vivas, intensas como eu nunca vira. Formavam padrões que se desfaziam e se recriavam sem parar. Aos poucos eu pude discernir uma forma que se definia, e me pareceu uma arara azul — eu sabia que era, ainda que meio estilizada; mais ou menos ao mesmo tempo o Douglas começou a cantarolar (bastou um olhar e ele reproduziu sua melodia, acrescentando: “eu vi um leopardo”). E daí em diante o ritual fluiu numa boa, o Carlos disse depois que a gente parecia muito experiente.” Douglas a interrompeu: “Você está esquecendo a melhor parte!” “Eu ia contar, meu bem, calma!” Hélio de repente se levantou. “Que houve, lindo?” — perguntou Luna. “Só preciso ir ao banheiro” — disse ele, virando-se para ir. Luna olhou para o casal, preocupada, e foi atrás dele.
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