— Conto por Leonardo Afonso, em 11 de junho de 2010
“Hélio!”- gritava ela perseguindo-o escada abaixo. Ele só parou na porta do bar; virou-se e deixou Luna colidir contra seu peito, que já sacodia com soluços incontidos. “Que houve, Hélio, cê tá passando bem?” Ele mal conseguia falar de início, mas se recompôs minimamente para falar: “vamo embora!” Luna fuzilou com o olhar todos os curiosos que ali se juntavam para ver aquele marmanjo chorar como menino. “Vem aqui comigo,” disse ela, passando o braço por cima do ombro dele, uns trinta centímetros mais alto, e conduzindo-o a um canto morto em um corredor de serviço lateral. “Fala comigo, lindo!” — ela dizia, limpando as lágrimas súbitas de seu “caretinha”, e caçando mais um cigarro na bolsa (só depois lembrou que estava no subsolo, mas acendeu assim mesmo). Ele respirou fundo e começou pedindo desculpas; ela perdeu finalmente a paciência: “dá pra parar de pedir desculpas, que você não fez nada errado, e me explica o que tá acontecendo, caramba!”. Ele pareceu voltar a si e olhou catatônico para ela antes de começar a falar. Os dois se sentaram em umas mesas velhas que estavam por ali.
“Desculpa… ih, lá vou eu de novo! Quer dizer… eu… você não sabe o tumulto que virou minha cabeça com essa maconha… isso é muito mais forte do que eu conheci na época! Eu não devia estar fazendo isso, Não devia! (e dava murros nas têmporas; ela o conteve). E eu me peguei pensando no passado…” “Você tá assim pela mina que te deixou!” — disse ela, já ameaçando uma crise de ciúmes. Ele é que ficou puto, de repente: “Me deixou? Me deixou? Meça suas palavras sua… maluquete, você não sabe da missa um terço, ouviu?” Foi a vez de ela pedir desculpas: “Tá bom, Hélio, desculpa meu gênio, vai… Mas fala o que te angustia, você me deixa com o coração na mão, criatura!” E a maquiagem negra em volta de seus olhos já estava toda borrada; ele viu, tentou consertar, só piorou, e os dois se beijaram. Ele mais uma vez tomou fôlego para falar.
“Não faz um mês…” e desatou a chorar de novo. Foram alguns minutos até conseguir falar novamente. “Eu vim pra cá pra fazer faculdade, como você, eu imagino?” “Não, eu sou daqui mesmo… e não fiz faculdade.” — respondeu ela. “Bem, eu vim de Sampa, faz cinco anos, pra fazer faculdade. Eu voltava todo fim-de-semana, pra ver minha mina… (aqui precisou se conter para não desatar em soluços novamente) e meus pais. Eu formei, e logo em seguida eu passei no concurso da prefeitura. Eu não queria mesmo voltar pra Sampa, e eu insistia com a Julinha para que ela viesse pra cá, ela dizia que não estava casada… não importa. O que aconteceu foi que… (respirou fundo) há quase um mês eu fiz aniversário, dia 17. Meus pais resolveram fazer uma surpresa e chamaram a Julinha e o Mané, meu amigo de infância, para vir até aqui, fazer uma festa-surpresa. Só que meu pai gostava de correr, a pista estava molhada… ele… derrapou, rodou, entrou debaixo de um caminhão. Morreram todos na hora.”
“Meu Deus e Jesus Cristo Amado!” bradou a ateia Luna, jogando o cigarro pela metade no chão. “Hélio, eu não podia imaginar… eu não sei o que dizer, eu…” “Não diz nada, só me abraça.” E um longo e sofrido abraço se deu entre os dois. Ele prosseguiu: “Eu acho que ainda estou meio desnorteado… eu sei que é uma fuga eu vir até aqui, beber… Deus do céu, hoje eu já fumei, cherei…” “Hélio, não vale a pena se sentir culpado… sua vida tinha que continuar, mesmo depois de uma tragédia assim!” “Isso é fácil falar, Luna, mas ainda dói muito… é que eu não conseguia mais ficar dentro de casa chorando! Eu estava ficando louco!” — e mergulhou a cabeça no peito da companheira, que de alguma forma, mesmo sendo rolo de um dia, já era próxima como uma amiga antiga. Luna acariciou os cachos de Hélio até que ele estancasse o pranto. A banda tinha encerrado o intervalo. Ela olhou-o nos olhos e disse: “Olha lá, Whole Lotta Love, vamo?” Hélio arriscou um sorriso e beijou-a ternamente. “Vamos”.
Quase ao mesmo tempo, Luna acendeu outro cigarro e Douglas apareceu no cantinho secreto do novo casal. “Fumando aqui em baixo, Luna! Caralho, como você gosta de dar trabalho!” “Não me enche o saco agora, Dô. Depois a gente conversa”. Ela desta vez esmagou um cigarro inteiro com a bota, e puxou Hélio, que passou pelo motoqueiro olhando feio, e foi retribuído. Entraram pela porta e retornaram ao mundo paralelo do Sapo Rouco. O vocalista mandava muito bem nos agudos à Robert Plant: “Way down inside…”
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Alexandre Piccolo escreveu:
13 de junho de 2010
Whole Lotta Love — é…, e que “começo”?!
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