Crônica do Sapo Rouco pt.5

Conto por , em 18 de junho de 2010

Os dois foram até o bar, pedi­ram um chope e uma vodka dupla, Luna pediu licença para ir ao banheiro e vol­tou. Fica­ram em pé em meio ao salão lotado escu­tando a banda Good Times exe­cu­tar, e bem, os sons clás­si­cos do Led Zep­pe­lin, ambos cur­tindo um ao outro em silên­cio. Hélio já se sen­tia muito melhor, sentia-se cons­tran­gido com a cena de há pouco, mas não que­ria mais falar a res­peito; pen­sou em algo a dizer (ber­rando no ouvido da amiga): “Eu toco bate­ria, sabia?” “Uau! Que bacana, Hélio! E você tem banda e tudo?” “Já tive, já quis levar isso a sério inclu­sive… hoje a batera tá lá pegando poeira.” “Meus pais uma vez me deram uma gui­tarra… eu só ficava na frente do espe­lho fazendo poses; fiz uma aula e nunca mais…” Hélio per­ce­beu que a con­versa rea­cen­dia e suge­riu vol­ta­rem para a mesa perto da escada onde se bei­ja­ram pela pri­meira vez. Ali era pos­sí­vel ouvir a banda e con­ver­sar ao mesmo tempo.

Sentaram-se e fica­ram alguns minu­tos ape­nas tro­cando carí­cias. Quando os olhos se encon­tra­ram, Luna reti­rou os seus para caçar os ben­di­tos cigar­ros na bolsa; surpreendeu-se: “Cara­lho, eu aca­bei de abrir esse maço e tá na metade!” “Não é proi­bido fumar aqui?” — estra­nhou ele. “Putz, é mesmo; eu tô muito pilhada, cara! Mor­dendo a ore­lha!” “É, eu tô meio… bagun­çado até agora.” “Você nunca tinha chei­rado antes?” “Nunca.” “E gos­tou?” “É uma sen­sa­ção inte­res­sante. Quero ver o que eu vou pen­sar disso ama­nhã.” “Você é muito gri­lado, relaxa. Às vezes é melhor você nem usar nada mesmo. Não tem nada de errado em ser careta!” “Foi um impulso… sei lá. Mas agora eu tô mais de boa. Eu acho. Pelo menos eu estou aqui com você.” A banda ini­ci­ava Heart­bre­a­ker. “Eu devo ser maluco!”, riu-se ele, “me sen­tir seguro justo com uma malu­quete como você!” “Olha, Hélio, não começa a colo­car pres­são em mim!” “Como assim, pres­são?!” “Eu entendo tudo que você pasou, mas a gente aca­bou de se conhe­cer, e…” “Mas que pres­são, cazzo, será que eu não posso só cur­tir o momento, não posso ser sin­cero? Quem está enca­nada é você, ora!” “Tá bom, meu, esquece, eu só quero evi­tar… você não me conhece direito, eu tenho um tem­pe­ra­mento que olha lá…” “Só deixa as coi­sas acon­te­ce­rem, então.” “Hum, que cli­che­zão, hein?” “O bom do cli­chê é que o cli­chê fun­ci­ona.” Beijaram-se longamente.

Vamos subir,” sen­ten­ciou ela quando o vício da nico­tina o exi­giu. O ata­que de culpa que tomara Hélio de assalto já se dis­si­para de todo, e ele se sen­tia muito bem dis­posto, em parte ani­mado pelo pozi­nho branco, em parte pela pers­pec­tiva de romance. Para fazer uma graça, de gosto duvi­doso inclu­sive, tomou-a nos bra­ços no sopé da escada e a car­re­gou, sob pro­tes­tos dela, até o banco onde Yolanda tinha nar­rado sua aven­tura no deserto mexi­cano, o que lhe trouxe à mente: “é mesmo, como aca­bava a estó­ria do México?” Luna acen­deu o cigarro pelo lado errado e ficou tos­sindo e xin­gando; vol­tou a acen­der um, do lado certo, e antes de res­pon­der vol­tou a obser­var: “caramba, eu já fumei mais de um maço, só esta noite!” Lá embaixo come­ça­vam a tocar The Rain Song, ele ado­rou uma balada naquele momento, ela fez um muxoxo e res­mun­gou: “essas len­tas são um saco!” “Não são não,” pro­tes­tou ele, encer­rando o assunto com um beijo.

Como acaba afi­nal a estó­ria do pei­ote?” — insis­tiu ele. “Ah, só é legal com ela con­tando… Ela conta que achou um rio­zi­nho e dei­tou ao longo dele, e que sen­tia o fluxo da água como o curso da vida, e que per­ce­beu que a vida, por mais caó­tica que pareça, segue um curso, e às vezes nós é que nos atra­pa­lha­mos, colo­cando mil com­pli­ca­ções no cami­nho, quando o impor­tante é reco­nhe­cer o cami­nho que já está tra­çado. Mas ela conta as visões que ela teve enquanto pirava nisso, e que quando ela vol­tou a si estava enchar­cada e fazia um frio medo­nho, como o Car­los ria dela man­si­nho… A Lan é um barato.” “Sei… e você, acre­dita em des­tino?” “Por quê?” “Ora, a estó­ria dela fala disso, não?” “É, mais ou menos. Sei lá, viu. Eu mesma, tinha que virar isso aqui mesmo, sabe? Eu não podia virar uma patri­ci­nha, como minhas ami­gas de colé­gio fize­ram, estu­dar pra ves­ti­bu­lar, essa porra toda… Mas não acho que o que vai acon­te­cer ama­nhã ou ano que vem já está deci­dido.” “E em pres­sen­ti­mento, você tam­bém não acre­dita?” “Por quê, Hélio?” “Nada…” “Você é um barato, viu? Sério mesmo, você é tão fofo! A mai­o­ria dos homens que eu conheço são uns tro­glo­di­tas, você é tão edu­cado, todo sen­sí­vel… você é bem femi­nino, sabia?” “É, já me dis­se­ram isso uma vez, e eu não gos­tei na hora… mas acho que eu entendo agora.”

Ah, eu adoro essa!” — dis­pa­rou Luna, levan­tando do colo de Hélio. Referia-se a Good Times, Bad Times, exa­ta­mente a música que dava nome à banda (que esco­lhera man­ter só a pri­meira parte). Des­ce­ram apres­sa­da­mente e ele sor­ria ao ver o jeito espe­vi­tado da com­pa­nheira, que o cati­vava cada vez mais. Che­ga­ram em frente ao palco a tempo de can­ta­rem jun­tos: “In the days of my youth I was told what it means to be a man…” No meio da música teve um solo de bate­ria, e ao fim os músi­cos se des­pe­di­ram e entra­ram para o cama­rim. O público, nos­sos pom­bi­nhos inclu­sive, seguiu batendo pal­mas riti­ma­da­mente: sabiam que o estava quase aca­bando, mas que o melhor sem­pre vem no fim.

FracoRazoávelMédioBomÓtimo Ainda não há notas: dê já a sua!
Loading ... Loading ...

Comentários

Há 2 comentários.

  1. Alexandre Piccolo escreveu:
    20 de junho de 2010

    hmmm… “o melhor sem­pre vem no fim”? Achei que seria algo como “o melhor sem­pre tem um fim” — bem, dessa forma tal­vez não tería­mos essa tão doce “rock ‘n’ drug love-story”. E aí, aca­bou? Impres­são minha ou essa pt.5 ficou bem “melada”? Abs…!

  2. Leonardo Afonso escreveu:
    29 de junho de 2010

    save the best for last

Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.