— Conto por Leonardo Afonso, em 18 de junho de 2010
Os dois foram até o bar, pediram um chope e uma vodka dupla, Luna pediu licença para ir ao banheiro e voltou. Ficaram em pé em meio ao salão lotado escutando a banda Good Times executar, e bem, os sons clássicos do Led Zeppelin, ambos curtindo um ao outro em silêncio. Hélio já se sentia muito melhor, sentia-se constrangido com a cena de há pouco, mas não queria mais falar a respeito; pensou em algo a dizer (berrando no ouvido da amiga): “Eu toco bateria, sabia?” “Uau! Que bacana, Hélio! E você tem banda e tudo?” “Já tive, já quis levar isso a sério inclusive… hoje a batera tá lá pegando poeira.” “Meus pais uma vez me deram uma guitarra… eu só ficava na frente do espelho fazendo poses; fiz uma aula e nunca mais…” Hélio percebeu que a conversa reacendia e sugeriu voltarem para a mesa perto da escada onde se beijaram pela primeira vez. Ali era possível ouvir a banda e conversar ao mesmo tempo.
Sentaram-se e ficaram alguns minutos apenas trocando carícias. Quando os olhos se encontraram, Luna retirou os seus para caçar os benditos cigarros na bolsa; surpreendeu-se: “Caralho, eu acabei de abrir esse maço e tá na metade!” “Não é proibido fumar aqui?” — estranhou ele. “Putz, é mesmo; eu tô muito pilhada, cara! Mordendo a orelha!” “É, eu tô meio… bagunçado até agora.” “Você nunca tinha cheirado antes?” “Nunca.” “E gostou?” “É uma sensação interessante. Quero ver o que eu vou pensar disso amanhã.” “Você é muito grilado, relaxa. Às vezes é melhor você nem usar nada mesmo. Não tem nada de errado em ser careta!” “Foi um impulso… sei lá. Mas agora eu tô mais de boa. Eu acho. Pelo menos eu estou aqui com você.” A banda iniciava Heartbreaker. “Eu devo ser maluco!”, riu-se ele, “me sentir seguro justo com uma maluquete como você!” “Olha, Hélio, não começa a colocar pressão em mim!” “Como assim, pressão?!” “Eu entendo tudo que você pasou, mas a gente acabou de se conhecer, e…” “Mas que pressão, cazzo, será que eu não posso só curtir o momento, não posso ser sincero? Quem está encanada é você, ora!” “Tá bom, meu, esquece, eu só quero evitar… você não me conhece direito, eu tenho um temperamento que olha lá…” “Só deixa as coisas acontecerem, então.” “Hum, que clichezão, hein?” “O bom do clichê é que o clichê funciona.” Beijaram-se longamente.
“Vamos subir,” sentenciou ela quando o vício da nicotina o exigiu. O ataque de culpa que tomara Hélio de assalto já se dissipara de todo, e ele se sentia muito bem disposto, em parte animado pelo pozinho branco, em parte pela perspectiva de romance. Para fazer uma graça, de gosto duvidoso inclusive, tomou-a nos braços no sopé da escada e a carregou, sob protestos dela, até o banco onde Yolanda tinha narrado sua aventura no deserto mexicano, o que lhe trouxe à mente: “é mesmo, como acabava a estória do México?” Luna acendeu o cigarro pelo lado errado e ficou tossindo e xingando; voltou a acender um, do lado certo, e antes de responder voltou a observar: “caramba, eu já fumei mais de um maço, só esta noite!” Lá embaixo começavam a tocar The Rain Song, ele adorou uma balada naquele momento, ela fez um muxoxo e resmungou: “essas lentas são um saco!” “Não são não,” protestou ele, encerrando o assunto com um beijo.
“Como acaba afinal a estória do peiote?” — insistiu ele. “Ah, só é legal com ela contando… Ela conta que achou um riozinho e deitou ao longo dele, e que sentia o fluxo da água como o curso da vida, e que percebeu que a vida, por mais caótica que pareça, segue um curso, e às vezes nós é que nos atrapalhamos, colocando mil complicações no caminho, quando o importante é reconhecer o caminho que já está traçado. Mas ela conta as visões que ela teve enquanto pirava nisso, e que quando ela voltou a si estava encharcada e fazia um frio medonho, como o Carlos ria dela mansinho… A Lan é um barato.” “Sei… e você, acredita em destino?” “Por quê?” “Ora, a estória dela fala disso, não?” “É, mais ou menos. Sei lá, viu. Eu mesma, tinha que virar isso aqui mesmo, sabe? Eu não podia virar uma patricinha, como minhas amigas de colégio fizeram, estudar pra vestibular, essa porra toda… Mas não acho que o que vai acontecer amanhã ou ano que vem já está decidido.” “E em pressentimento, você também não acredita?” “Por quê, Hélio?” “Nada…” “Você é um barato, viu? Sério mesmo, você é tão fofo! A maioria dos homens que eu conheço são uns trogloditas, você é tão educado, todo sensível… você é bem feminino, sabia?” “É, já me disseram isso uma vez, e eu não gostei na hora… mas acho que eu entendo agora.”
“Ah, eu adoro essa!” — disparou Luna, levantando do colo de Hélio. Referia-se a Good Times, Bad Times, exatamente a música que dava nome à banda (que escolhera manter só a primeira parte). Desceram apressadamente e ele sorria ao ver o jeito espevitado da companheira, que o cativava cada vez mais. Chegaram em frente ao palco a tempo de cantarem juntos: “In the days of my youth I was told what it means to be a man…” No meio da música teve um solo de bateria, e ao fim os músicos se despediram e entraram para o camarim. O público, nossos pombinhos inclusive, seguiu batendo palmas ritimadamente: sabiam que o estava quase acabando, mas que o melhor sempre vem no fim.
Há 2 comentários.
Alexandre Piccolo escreveu:
20 de junho de 2010
hmmm… “o melhor sempre vem no fim”? Achei que seria algo como “o melhor sempre tem um fim” — bem, dessa forma talvez não teríamos essa tão doce “rock ‘n’ drug love-story”. E aí, acabou? Impressão minha ou essa pt.5 ficou bem “melada”? Abs…!
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