Filósofo

Conto por , em 29 de junho de 2010

Raci­o­ci­nar! Azi­aga con­tin­gên­cia!
Ser qua­drú­pede! Andar de qua­tro pés
É mais do que ser Cristo e ser Moi­sés
Por­que é ser ani­mal sem ter cons­ci­ên­cia!

Augusto dos Anjos (“Mis­té­rios de um fósforo”)

Não tinha jeito pra filó­sofo, mas vivia pen­sando solto, desde a hora que acor­dava. O sono embaçava-lhe a vista ao des­per­tar e era quando se per­gun­tava por que um novo dia come­çava, quando ape­nas algu­mas horas haviam se pas­sado e tudo con­ti­nu­ava na mais per­feita ordem que vira ao ador­me­cer naquele tempo cha­mado já ontem. Nessa fra­ção incal­cu­lá­vel de segun­dos, espreguiçava-se len­ta­mente, sen­tindo os mús­cu­los se esti­ca­rem e con­traí­rem como lhes orde­nava e nesse con­junto de ordens des­fru­tava um irre­freá­vel e tênue prazer.

Nunca tinha pla­nos cer­tos após um lento des­per­tar. Havia dias de cor­re­ria, esco­var os den­tes apres­sa­da­mente e sair à rua sem sequer engo­lir um copo d’água. Nou­tros balançava-se len­ta­mente pelo cor­re­dor da casa rumo à cozi­nha, como se atra­ves­sasse um extenso deserto ao nas­cer do sol, aden­trando labi­rin­tos de pouca luz que lhe reve­la­riam os segre­dos de um des­je­jum ines­pe­rado: ora um sim­ples pão com café, quente e esfu­ma­çado, ora por­ções de fru­tas com cere­ais, leite, tor­ra­das, geléia e outros ape­ri­ti­vos que só visa­vam tomar-lhe fru­gal­mente o tempo. Claro, sem­pre houve refle­xões sobre a com­plexa sim­pli­ci­dade do sis­tema diges­tivo, bem como a mis­te­ri­osa natu­reza do tempo durante os ins­tan­tes vari­a­dos do café-da-manhã, mas nada daquilo autorizava-lhe o título de filó­sofo, algo cer­ta­mente mais nobre que os deva­neios ao pri­meiro desjejum.

Se os pla­nos mati­nais come­ça­vam vagos, sua con­ti­nu­a­ção não pode­ria fugir à inde­ci­são. Domin­gos ser­viam à lei­tura, mas nem sem­pre. Sába­dos, quando não era ainda hora do almoço, vagava entre a tv, uma cami­nhada na praça e um pas­seio na feira de arte­sa­nato do bairro, onde sem­pre era pos­sí­vel encon­trar os mais diver­sos temas para suas even­tu­ais filo­so­fias: a essên­cia e o sig­ni­fi­cado da arte (moti­vos usu­al­mente engen­dra­dos pelo con­tem­plar das pin­tu­ras risí­veis expos­tas fora das bar­ra­cas de quin­qui­lha­rias), uma vaga ten­ta­tiva de se expli­car o impulso con­su­mista cole­tivo, a admi­ra­ção (jamais irre­fle­tida) pela sim­pli­ci­dade dos ani­mais que rode­a­vam os demais seres ditos huma­nos – den­tre outros temas, impos­sí­veis de se enu­me­ra­rem. Isso quando uma segunda ou terça-feira não o colo­ca­vam, já cedo, em diá­lo­gos telefô­ni­cos vari­a­dos (eis o diva­gar sobre a comu­ni­ca­ção humana ou as fron­tei­ras da lin­gua­gem), ou quando quar­tas, quin­tas ou sex­tas não o sur­pre­en­diam com uma roti­neira pas­ma­ceira do cor­rer da manhã, da música do cami­nhão de gás ao longe, do baru­lho dos car­ros na rua, do con­tem­plar o homem na bici­cleta, peda­lando deva­gar e sem­pre no mesmo ritmo, rumo a um lugar que não lhe entrava na mente, quando tocava o inter­fone e alguma notí­cia do mundo lhe inva­dia a sequên­cia incon­tro­lá­vel des­sas vagas impres­sões. Mas, não, por favor: nada de filosofia.

Even­tu­al­mente um almoço pla­ne­jado ou mar­cado. Sem (é claro) filo­so­fia. Isso é coisa pra filósofo.

FracoRazoávelMédioBomÓtimo Ainda não há notas: dê já a sua!
Loading ... Loading ...

Comentários

Há 3 comentários.

  1. diego escreveu:
    4 de julho de 2010

    inte­res­sante! gos­tei, me fez pensar…

  2. PH escreveu:
    5 de julho de 2010

    Bacana. A não-filosofia da filo­so­fia. De Tales de Mileto ao pro­ta­go­nista acima, eis o penso logo existo, em todos os níveis — do dia-a-dia ao perene.

  3. Leosfera escreveu:
    6 de julho de 2010

    hum… senti um quê autobiográfico?

Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.