— Conto por Alexandre Piccolo, em 29 de junho de 2010
Raciocinar! Aziaga contingência!
Ser quadrúpede! Andar de quatro pés
É mais do que ser Cristo e ser Moisés
Porque é ser animal sem ter consciência!
Augusto dos Anjos (“Mistérios de um fósforo”)
Não tinha jeito pra filósofo, mas vivia pensando solto, desde a hora que acordava. O sono embaçava-lhe a vista ao despertar e era quando se perguntava por que um novo dia começava, quando apenas algumas horas haviam se passado e tudo continuava na mais perfeita ordem que vira ao adormecer naquele tempo chamado já ontem. Nessa fração incalculável de segundos, espreguiçava-se lentamente, sentindo os músculos se esticarem e contraírem como lhes ordenava e nesse conjunto de ordens desfrutava um irrefreável e tênue prazer.
Nunca tinha planos certos após um lento despertar. Havia dias de correria, escovar os dentes apressadamente e sair à rua sem sequer engolir um copo d’água. Noutros balançava-se lentamente pelo corredor da casa rumo à cozinha, como se atravessasse um extenso deserto ao nascer do sol, adentrando labirintos de pouca luz que lhe revelariam os segredos de um desjejum inesperado: ora um simples pão com café, quente e esfumaçado, ora porções de frutas com cereais, leite, torradas, geléia e outros aperitivos que só visavam tomar-lhe frugalmente o tempo. Claro, sempre houve reflexões sobre a complexa simplicidade do sistema digestivo, bem como a misteriosa natureza do tempo durante os instantes variados do café-da-manhã, mas nada daquilo autorizava-lhe o título de filósofo, algo certamente mais nobre que os devaneios ao primeiro desjejum.
Se os planos matinais começavam vagos, sua continuação não poderia fugir à indecisão. Domingos serviam à leitura, mas nem sempre. Sábados, quando não era ainda hora do almoço, vagava entre a tv, uma caminhada na praça e um passeio na feira de artesanato do bairro, onde sempre era possível encontrar os mais diversos temas para suas eventuais filosofias: a essência e o significado da arte (motivos usualmente engendrados pelo contemplar das pinturas risíveis expostas fora das barracas de quinquilharias), uma vaga tentativa de se explicar o impulso consumista coletivo, a admiração (jamais irrefletida) pela simplicidade dos animais que rodeavam os demais seres ditos humanos – dentre outros temas, impossíveis de se enumerarem. Isso quando uma segunda ou terça-feira não o colocavam, já cedo, em diálogos telefônicos variados (eis o divagar sobre a comunicação humana ou as fronteiras da linguagem), ou quando quartas, quintas ou sextas não o surpreendiam com uma rotineira pasmaceira do correr da manhã, da música do caminhão de gás ao longe, do barulho dos carros na rua, do contemplar o homem na bicicleta, pedalando devagar e sempre no mesmo ritmo, rumo a um lugar que não lhe entrava na mente, quando tocava o interfone e alguma notícia do mundo lhe invadia a sequência incontrolável dessas vagas impressões. Mas, não, por favor: nada de filosofia.
Eventualmente um almoço planejado ou marcado. Sem (é claro) filosofia. Isso é coisa pra filósofo.
Há 3 comentários.
diego escreveu:
4 de julho de 2010
interessante! gostei, me fez pensar…
PH escreveu:
5 de julho de 2010
Bacana. A não-filosofia da filosofia. De Tales de Mileto ao protagonista acima, eis o penso logo existo, em todos os níveis — do dia-a-dia ao perene.
Leosfera escreveu:
6 de julho de 2010
hum… senti um quê autobiográfico?
Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.