— Resenha por Alexandre Piccolo, em 8 de junho de 2010
“Eu hoje vou saudar Fogo Morto, gostei muitíssimo” – eis as palavras de Mário de Andrade, redigidas em 1944 como crítica não-profissional1, das quais compartilho. O romance é estupendo, foi um grande maravilhamento, uma ótima descoberta no rol de minhas parcas leituras. Livro pra se degustar, se reler vezes a fio. E continuo com Mário: “Acho mesmo que o novo (sic) romance de Lins do Rego deixou em mim o ressaibo da obra-prima.” Sim, concordo com a impressão e o epíteto: é um desses livros de que facilmente recordamos o prazer pacato dos momentos de leitura, o intenso envolvimento leitor-livro, as imagens narradas com doçura (posto que duras), como um São Bernardo ou um Vidas Secas, para ficarmos apenas entre “amigos próximos”.
Antes de pincelar um ou outro comentário sobre o romance, falo do volume da José Olímpio. Sexagésima nona edição, que primor: publicada no Rio de Janeiro, em 2010, em papel bonito (pólen? o colofão não diz), capa primorosa, excelente acabamento tipográfico – desses livros agradáveis também de se manusear, folhear. Isso sem ainda termos mencionado a prosa que, além do texto do romance propriamente dito, traz três palavras prévias (de Benjamim Abdala Jr., Mário de Andrade e Drummond) e um estudo final delicioso, com dados diversos do autor e da época. Enfim, parabéns a todos na editora pelo volume excelente que colocaram em circulação.
Do romance, gostei tanto que meu gostar acabou tolhendo as palavras. Mas vão lá. Grosso modo, são três partes: 1. O mestre José Amaro, 2. O engenho do seu Lula, 3. O capitão Vitorino. São os três personagens principais do romance e são esses três que veremos de perto em todo o livro.
Na primeira parte, observamos o dia-a-dia dum seleiro de vida simples, numa morada pobre, com a esposa e a filha que passa já da hora de casar. Sua casa fica onde passa muita gente e todos o conhecem, param pra puxar prosa, levar um recado, trazer uma notícia – e aí vamos conhecendo as demais personagens. Curioso é que José Amaro, mesmo simplão e analfabeto, não sofre dos entraves de linguagem como sofre, por exemplo, Fabiano em Vidas Secas. Ao contrário, José Amaro, em suas idas-e-vindas (mais dentro de si que fora), ensimesmado, dá motivo pra falatório do povo, quando é visto aos passeios à noite, sem explicação. Um lobisomem, um ser grosseiro (mas que se envergonha de sê-lo), amargo, revoltado, entre a raiva e uma reprimida ternura. Eis mais um estorvo: um disse-que-disse, que chega junto aos ataques da filha, às confusões com a esposa e muito mais.
Na parte dois (minha favorita), o romance volta no tempo para contar a chegada do capitão Tomás à várzea do Paraíba, antes da revolução de 1848, para fundar as bases do Santa Fé, propriedade açucareira que começa pequena, um sítio, mas vai crescendo à base de trabalho escravo e conquistas do patrão. Vemo-lo casar e ter filhas, vemo-las crescer e adoecer (uma delas) e casar. O genro: seu Lula de Holanda, moço do Recife (que tem lá sua história, triste…). As insatisfações do sogro com o genro dariam por si só uma novela. Mas a história prossegue (escravos fugidos, o cabriolé vindo da cidade, a neta de seu Tomás etc.) e eis que se acentua o ar de decadência: a morte do patriarca, a fazenda aos mandos e desmandos do novo patrão (o herdeiro seu Lula), impiedoso com os escravos, os desentendimentos com a sogra, a abolição da escravatura, a propriedade abandonada pelos escravos, a demência, um senhor de engenho já velho e ensimesmado, com seus arroubos de fé, tão próximos dos ataques epiléticos, tudo em sensível declínio. Contados assim os episódios soam insossos e passageiros. É preciso, pois, notar a prosa de mestre, fluente e lapidada de José Lins que sabe (como poucos) contar tudo isso tão bem, de modo tão vivo e prazeroso.
Bem, a terceira e última parte leva o nome do capitão Vitorino Carneiro da Cunha, cumpadre daquele José Amaro lá do começo (esse era padrinho do filho daquele). É esse capitão Vitorino que dá coesão e unidade ao conjunto, como destaca Abdala em seu estudo. Cheio de rompantes e impusos éticos, Vitorino vive uma ilusão constante na projeção de sua autoafirmação, “herói por suas próprias forças”. Figura engraçada mas também triste, tolo, atacado: desses sem papas nas línguas e que gostam de dizê-lo, dizendo mais e mais bobagens. Sujeito que transita tanto nas relações familiares e sociais, quanto no registro cômico (apelidado de “Papa-Rabos”, sobretudo nas aparições da primeira parte) e trágico (a força dos ideais cegos que se sobrepõe à realidade, espécie de Quixote sertanejo, como aponta o escritor Antônio Torres, na orelha do livro). Inconformado e desfocado, imbatível, de uma candura ingênua e pura, Vitorino é uma persona sui generis em todo o romance, simplesmente inesquecível.
Bem, são pinceladas impressionistas, às quais faltam os cangaceiros, as Sinhás, os escravos e muitos mais. Enfim, talvez sirvam pra relembrar impressões numa releitura futura e, quiçá, incentivar novos leitores desse livro que já nasceu clássico em nossa literatura. Aos que gostam (e aos que desgostam) das tão polêmicas (quanto esteticamente inúteis) listas dos mais-isso-e-mais-aquilo, cabe lembrar que o livro de José Lins do Rego figura em diversos top-X dos melhores/maiores romances brasileiros — se é que isso faz alguma diferença para o solitário e dedicado leitor. E para encerrar falando do autor, esse Zé Lins devia mesmo ser figura: boa formação, amigo de gente importante, flamenguista fanático (tão logo chega ao Rio), sujeito aparentemente simples, cheio de idiossincrasias banais, à primeira vista, mas que, no conjunto, deviam compor um “homem estranho”, como traça Carpeaux no final do volume. Só esse pequeno perfil já vale todo o livro.
Há 2 comentários.
Leosfera escreveu:
8 de junho de 2010
Bem instigante a resenha, Alê. Ando em falta com as letras patrícias.
Só dá uma olhada ali em “à todos”, fim do 2 par. e “chega” em vez de “chegada”. Já que eu já me dispus a bancar o pentelho, não sei bem quanto ao circunflexo de “vêmo-lo”.
E talvez umas “palhinhas” tivessem ilustrado a maestria da prosa de Rego.
Andamos notívagos, não?
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