Sempre redivivo fogo

Resenha por , em 8 de junho de 2010

Eu hoje vou sau­dar Fogo Morto, gos­tei mui­tís­simo” – eis as pala­vras de Mário de Andrade, redi­gi­das em 1944 como crí­tica não-profissional1, das quais com­par­ti­lho. O romance é estu­pendo, foi um grande mara­vi­lha­mento, uma ótima des­co­berta no rol de minhas par­cas lei­tu­ras. Livro pra se degus­tar, se reler vezes a fio. E con­ti­nuo com Mário: “Acho mesmo que o novo (sic) romance de Lins do Rego dei­xou em mim o res­saibo da obra-prima.” Sim, con­cordo com a impres­são e o epí­teto: é um des­ses livros de que facil­mente recor­da­mos o pra­zer pacato dos momen­tos de lei­tura, o intenso envol­vi­mento leitor-livro, as ima­gens nar­ra­das com doçura (posto que duras), como um São Ber­nardo ou um Vidas Secas, para ficar­mos ape­nas entre “ami­gos próximos”.

Capa do volume edi­tado pela José Olympio

Antes de pin­ce­lar um ou outro comen­tá­rio sobre o romance, falo do volume da José Olím­pio. Sexa­gé­sima nona edi­ção, que pri­mor: publi­cada no Rio de Janeiro, em 2010, em papel bonito (pólen? o colo­fão não diz), capa pri­mo­rosa, exce­lente aca­ba­mento tipo­grá­fico – des­ses livros agra­dá­veis tam­bém de se manu­sear, folhear. Isso sem ainda ter­mos men­ci­o­nado a prosa que, além do texto do romance pro­pri­a­mente dito, traz três pala­vras pré­vias (de Ben­ja­mim Abdala Jr., Mário de Andrade e Drum­mond) e um estudo final deli­ci­oso, com dados diver­sos do autor e da época. Enfim, para­béns a todos na edi­tora pelo volume exce­lente que colo­ca­ram em circulação.

Do romance, gos­tei tanto que meu gos­tar aca­bou tolhendo as pala­vras. Mas vão lá. Grosso modo, são três par­tes: 1. O mes­tre José Amaro, 2. O enge­nho do seu Lula, 3. O capi­tão Vito­rino. São os três per­so­na­gens prin­ci­pais do romance e são esses três que vere­mos de perto em todo o livro.

Na pri­meira parte, obser­va­mos o dia-a-dia dum seleiro de vida sim­ples, numa morada pobre, com a esposa e a filha que passa já da hora de casar. Sua casa fica onde passa muita gente e todos o conhe­cem, param pra puxar prosa, levar um recado, tra­zer uma notí­cia – e aí vamos conhe­cendo as demais per­so­na­gens. Curi­oso é que José Amaro, mesmo sim­plão e anal­fa­beto, não sofre dos entra­ves de lin­gua­gem como sofre, por exem­plo, Fabi­ano em Vidas Secas. Ao con­trá­rio, José Amaro, em suas idas-e-vindas (mais den­tro de si que fora), ensi­mes­mado, dá motivo pra fala­tó­rio do povo, quando é visto aos pas­seios à noite, sem expli­ca­ção. Um lobi­so­mem, um ser gros­seiro (mas que se enver­go­nha de sê-lo), amargo, revol­tado, entre a raiva e uma repri­mida ter­nura. Eis mais um estorvo: um disse-que-disse, que chega junto aos ata­ques da filha, às con­fu­sões com a esposa e muito mais.

Na parte dois (minha favo­rita), o romance volta no tempo para con­tar a che­gada do capi­tão Tomás à vár­zea do Paraíba, antes da revo­lu­ção de 1848, para fun­dar as bases do Santa Fé, pro­pri­e­dade açu­ca­reira que começa pequena, um sítio, mas vai cres­cendo à base de tra­ba­lho escravo e con­quis­tas do patrão. Vemo-lo casar e ter filhas, vemo-las cres­cer e ado­e­cer (uma delas) e casar. O genro: seu Lula de Holanda, moço do Recife (que tem lá sua his­tó­ria, triste…). As insa­tis­fa­ções do sogro com o genro dariam por si só uma novela. Mas a his­tó­ria pros­se­gue (escra­vos fugi­dos, o cabri­olé vindo da cidade, a neta de seu Tomás etc.) e eis que se acen­tua o ar de deca­dên­cia: a morte do patri­arca, a fazenda aos man­dos e des­man­dos do novo patrão (o her­deiro seu Lula), impi­e­doso com os escra­vos, os desen­ten­di­men­tos com a sogra, a abo­li­ção da escra­va­tura, a pro­pri­e­dade aban­do­nada pelos escra­vos, a demên­cia, um senhor de enge­nho já velho e ensi­mes­mado, com seus arrou­bos de fé, tão pró­xi­mos dos ata­ques epi­lé­ti­cos, tudo em sen­sí­vel declí­nio. Con­ta­dos assim os epi­só­dios soam insos­sos e pas­sa­gei­ros. É pre­ciso, pois, notar a prosa de mes­tre, flu­ente e lapi­dada de José Lins que sabe (como pou­cos) con­tar tudo isso tão bem, de modo tão vivo e prazeroso.

Bem, a ter­ceira e última parte leva o nome do capi­tão Vito­rino Car­neiro da Cunha, cum­pa­dre daquele José Amaro lá do começo (esse era padri­nho do filho daquele). É esse capi­tão Vito­rino que dá coe­são e uni­dade ao con­junto, como des­taca Abdala em seu estudo. Cheio de rom­pan­tes e impu­sos éticos, Vito­rino vive uma ilu­são cons­tante na pro­je­ção de sua auto­a­fir­ma­ção, “herói por suas pró­prias for­ças”. Figura engra­çada mas tam­bém triste, tolo, ata­cado: des­ses sem papas nas lín­guas e que gos­tam de dizê-lo, dizendo mais e mais boba­gens. Sujeito que tran­sita tanto nas rela­ções fami­li­a­res e soci­ais, quanto no regis­tro cômico (ape­li­dado de “Papa-Rabos”, sobre­tudo nas apa­ri­ções da pri­meira parte) e trá­gico (a força dos ide­ais cegos que se sobre­põe à rea­li­dade, espé­cie de Qui­xote ser­ta­nejo, como aponta o escri­tor Antô­nio Tor­res, na ore­lha do livro). Incon­for­mado e des­fo­cado, imba­tí­vel, de uma can­dura ingê­nua e pura, Vito­rino é uma per­sona sui gene­ris em todo o romance, sim­ples­mente inesquecível.

Bem, são pin­ce­la­das impres­si­o­nis­tas, às quais fal­tam os can­ga­cei­ros, as Sinhás, os escra­vos e mui­tos mais. Enfim, tal­vez sir­vam pra relem­brar impres­sões numa relei­tura futura e, quiçá, incen­ti­var novos lei­to­res desse livro que já nas­ceu clás­sico em nossa lite­ra­tura. Aos que gos­tam (e aos que des­gos­tam) das tão polê­mi­cas (quanto este­ti­ca­mente inú­teis) lis­tas dos mais-isso-e-mais-aquilo, cabe lem­brar que o livro de José Lins do Rego figura em diver­sos top-X dos melhores/maiores roman­ces bra­si­lei­ros — se é que isso faz alguma dife­rença para o soli­tá­rio e dedi­cado lei­tor. E para encer­rar falando do autor, esse Zé Lins devia mesmo ser figura: boa for­ma­ção, amigo de gente impor­tante, fla­men­guista faná­tico (tão logo chega ao Rio), sujeito apa­ren­te­mente sim­ples, cheio de idi­os­sin­cra­sias banais, à pri­meira vista, mas que, no con­junto, deviam com­por um “homem estra­nho”, como traça Car­pe­aux no final do volume. Só esse pequeno per­fil já vale todo o livro.

  1. Ape­nas para evi­tar o polê­mico “apo­lo­gé­tica”
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Comentários

Há 2 comentários.

  1. Leosfera escreveu:
    8 de junho de 2010

    Bem ins­ti­gante a rese­nha, Alê. Ando em falta com as letras patrícias.

    Só dá uma olhada ali em “à todos”, fim do 2 par. e “chega” em vez de “che­gada”. Já que eu já me dis­pus a ban­car o pen­te­lho, não sei bem quanto ao cir­cun­flexo de “vêmo-lo”.

    E tal­vez umas “palhi­nhas” tives­sem ilus­trado a maes­tria da prosa de Rego.

    Anda­mos notí­va­gos, não?

  2. Alexandre Piccolo escreveu:
    8 de junho de 2010

    Falhas cor­ri­gi­das, Léo, obri­gado pelos apon­ta­men­tos. Tam­bém senti falta de umas “palhi­nhas” do livro — tenho que con­fes­sar que essa foi uma lei­tura com­ple­ta­mente des­com­pro­mis­sada (tal­vez por isso tão pra­ze­rosa), não usei o lápis pra mar­car uma pas­sa­gem sequer (e, por diver­sas vezes, pare­cia sen­tir falta disso, tan­tas eram as pas­sa­gens bonitas/“assinaláveis”, tanto essa “mania” já se faz pre­sente em minhas lei­tu­ras), então, na hora de rese­nhar o livro, não sabia bem o que esco­lher, por onde come­çar a sele­ci­o­nar. Vão ficar pruma pró­xima relei­tura, sem dúvida. Mas insisto na reco­men­da­ção: essa é uma belís­sima obra pátria, mere­ce­dora de diver­sos superlativos.

    E quanto ao notí­va­gos… sem­pre.
    Abração.

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