— Artigo por Alexandre Piccolo, em 20 de julho de 2010
No canto X da Eneida, Virgílio nos conta que o cinzelador Clono, filho de Eurite, gravara com multo auro uma cena cruenta no talim de Palante: numa única noite nupcial, esposos (quarenta e nove) criminosamente massacrados por suas jovens cônjuges. Eis o tálamo cruento, mencionado de passagem entre os versos 497 e 499 da epopéia.
Foram as quarenta e nove (das cinquenta) filhas de Dânao, a mando do próprio pai, que mataram os rapazes recém-casados. Tais infelizes eram primos das moças: eles queriam se casar com as primas para preservar o patrimônio familiar (eram os cinquenta filhos de Egito, irmão de Dânao), como ditava a tradição de certos povos orientais. Elas, por outro lado, queriam tanto fugir da submissão imposta pelo casamento (obrigadas a entregar suas heranças aos maridos), quanto evitar uma união incestuosa, socialmente condenável. Como a fuga que haviam intentado foi frustrada, preferiram o assassinato ao casamento consanguíneo.
A tragédia As Suplicantes, de Ésquilo, desenvolve parte importante desse tema (uma pena que as outras “duas tragédias” — que talvez completassem o mito — não chegaram até nós). Emile Benveniste, num gostoso e ainda atual artigo de 1949, traça um percurso rigoroso à guisa de análise dessa lenda trágica, revelando inclusive a existência dum poema épico intitulado As Danaides que contava toda essa história, infelizmente (também…) hoje perdido.
Talvez alguém tenha notado que, nesse breve panorama, ficou uma (e um) de lado: se quarenta e nove esposos (dos cinquenta) foram mortos e havia cinquenta filhas, o que aconteceu com a (e o) restante? Acaso ela decidiu ser solteirona? Não. Uma das versões da lenda diz que justamente a irmã mais velha, Hipermnestra, não cumpriu o pacto cruel, desobedeceu a ordem paterna e poupou seu esposo, Linceu. Teria sido essa união, entre Hipermnestra e Linceu, que resultou nos dânaos, uma das muitas designações para um dos povos gregos.
De qualquer modo, ao chegarem aos infernos, todas as Danaides foram punidas — e tal suplício tornou-se “motivo clássico” na tradição cultural do Ocidente. Condenadas a encher d’água um vaso furado no fundo, expiam até hoje (como outros eternamente torturados: Sísifo, Tício, Prometeu…) seja o crime coletivo, seja a traição da “irmã infiel” — e vale a consulta ao verbete Danaides no dicionário de Pierre Grimal. A imagem (ao lado) da tela de John William Waterhouse, em seu colorido neoclássico e suas feições apáticas, ilustra essa célebre condenação e talvez tenha servido de inspiração estética aos filmes norte-americanos da década de 50 e 60, cujas reconstituições de um certo passado mítico greco-romano misturam um ar pomposo e blasé a um colorido exagerado.
Divagações à parte, cumpre concluir dizendo que Horácio enriqueceu a literatura romana ao recontar parte dessa lenda, sob o viés da poesia lírica. O poeta latino dá voz a um momento central do mito, condensa-lhe o suspiro: o “aqui e agora” em que Hipermnestra decide poupar Linceu, instante tão intenso e caro aos acordes da lira. Eis as estrofes finais da Ode III. 11:
Que Lide ouça o crime e os castigos
conhecidos das virgens, e o vazio vaso
de água a escapar pelo imo fundo,
e os tardios fados,
que aguardam as falhas, mesmo sob o Orco.
Ímpias (pois o que podiam de mais condenável?),
ímpias foram capazes, com cruento ferro,
de matar seus esposos.
Uma só, dentre muitas, digna da chama
nupcial, foi ao perjurado pai
brilhantemente mentirosa, virgem notável
para todo o sempre,
“Levanta-te”, ela disse ao jovem marido,
“Levanta-te, que não te seja dado esse longo sono
por quem não temes; sogro e irmãs
criminosas engana,
as quais, assim como leoas ao topar vitelos,
ai!, dilaceram um a um. Eu, que elas
mais afável, nem te ferirei e nem entre
barras deterei.
Que meu pai sujeite-me aos sevos grilhões,
porque, clemente, a meu infortunado marido poupei,
ou me relegue, num navio, aos extremos
campos dos Númidas.
Vai, aonde teus pés e os ventos te levarem,
enquanto favorecem a Noite e Vênus, vai sob bom
presságio e, no meu sepulcro, esculpe um verso de lamento
à nossa memória.”
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