Crônica do Sapo Rouco pt.6

Conto por Leonardo Afonso, em 2 de julho de 2010

Hélio abra­çava Luna por trás, e ras­pava a barba mal feita no pes­coço dela. Ela se virou com um sor­riso maroto, olhou-o nos olhos e os dois se bei­ja­ram vigo­ro­sa­mente, ele com as mãos no cabelo dela, por cima das ore­lhas; ela o enre­dava com as mãos pos­tas em seu qua­dril, puxando-o con­tra o seu. A coisa esquen­tava. Foi quando os músi­cos vol­ta­ram; o voca­lista fez um gesto para que a pla­teia se acal­masse, e logo em seguida o gui­tar­rista exe­cu­tou as três notas mais conhe­ci­das do hard-rock (quiçá da música pop), e todos foram ao delí­rio com o super­clás­sico Stairway to Hea­ven. Os dois se desen­cai­xa­ram e olha­ram um no olho do outro por um breve, mas sig­ni­fi­ca­tivo ins­tante. Ambos vol­ta­ram a aten­ção para o palco e se jun­ta­ram ao coro de “There’s a lady ashore, all that glit­ter is gold…”; pou­cos segui­ram acom­pa­nhando a letra — sabendo o que diziam, ao menos — como foi o caso da dupla. Quando entrou a parte pesada da música, os dois cha­co­a­lha­ram o esque­leto com vigor; quando o vocal vol­tou, puxando os agu­dos mais pon­ti­a­gu­dos, Hélio se sur­pre­en­deu com a desen­vol­tura da moça. Depois que o som ter­mi­nou, entre pal­mas e gri­tos, ele comen­tou: “Você canta bem!”, “Que nada!” — res­pon­deu ela com a voz já traindo sua embri­a­guez. Na fila — enorme — para pagar a conta, ela pro­vo­cou: “O que você acha que ele quer dizer com “stairway to hea­ven”? “Hum.. nunca pen­sei nisso!”, ela tirou seu tubi­nho da bolsa: “isso aqui”, “que nada! é uma metá­fora maluca, ou não quer dizer nada”, “como nada?”, “o cara pen­sou numa escada pro céu, sei lá”, “presta aten­ção: she’s buying the stairway to hea­ven… all that glit­ter is gold…”, “sim, mas o que quer dizer o verso seguinte, when she gets there she knows if the sto­res are all clo­sed? É só um monte de pala­vras! Igual Yes, você já viu as letras deles?”, “eu detesto pro­gres­sivo”, “ah, você é meta­leira, eu esqueci”, “mais ou menos, eu já tive fases, sabe?, “e quem não tem, gata?”.

Paga­ram e subi­ram a escada abra­ça­dos, uni­dos pelos qua­dris, em per­feita sin­cro­nia. “E agora?” — arris­cou ela, “vem comigo, eu tô de carro, você tam­bém?”, “não, eu não dirijo, vim de táxi”; che­ga­ram ao carro dele, “você tem um che­vette!”, “qual é o pro­blema?”, “pro­blema? eu acho esse carro super maneiro, adoro carro antigo!”, “é o que meu pai pôde me dar…” Entra­ram ambos e ele tomou uma pista prin­ci­pal, deserta, e ela pro­tes­tou: “pisa, caramba!”, “eu sou meio cagão, sabe, e eu bebi”, “porra, você bebeu o quê, três cho­pes?”, “qua­tro”, “eu bebi cinco vod­kas duplas, que­ri­di­nho!”, e pulou no pes­coço dele, beijando-o; ele quase per­deu o con­trole do carro, “ô! calma!”, e ela escor­re­gou a mão para a viri­lha dele. A coisa esquen­tava, defi­ni­ti­va­mente. “Pra onde você tá me levando, gara­nhão?” — pro­vo­cou ela; “pen­sei em ir lá pra casa…”, “hum… eu sou uma moça de famí­lia, sabia?” — brin­cou, “mesmo? então apro­veita, por­que…” e fez uma cara de choro; ela per­ce­beu a gafe e se des­cul­pou, ele disse que não era nada, mas o clima ficou chato um ins­tante. “Ah!” — fez ela de repente, vol­tando ao seu banco e vas­cu­lhando a bolsa, “esse som aceita pen drive, não?”, “sim”, ela achou o que que­ria e encai­xou no lugar apro­pri­ado, ele deu o comando e come­çou a tocar Metal­lica, And Jus­tice For All, ela jogou o volume no último, ele man­dou mais um “ô, calma!”, mas sor­riu e resol­veu não abai­xar; “pisa, porra!”, e ele aumen­tou pouca coisa a velo­ci­dade, “você é um care­ti­nha, mesmo, hein?”, disse ela emen­dando uma gar­ga­lhada; “como qui­ser, sua maluquete”.

Che­ga­ram ao apê dele, um quarto-e-sala no vigé­simo andar de um pré­dio sobre uma colina; ela che­gou à janela e ficou boqui­a­berta com a vista da cidade, “é bacana, não? é o bom desse pré­dio”. “Tem vinho?” — cor­tou ela abrup­ta­mente; “sim, tem um chi­leno, cabernet-sauvignon”, “eu não entendo nada, ami­gui­nho, só quero ficar cha­pada”, “mais?”, “careta!”, “tudo bem…”, e entrou pra cozi­nha para bus­car o vinho e duas taças; no meio tempo, ela esti­cou uma car­reira na mesi­nha de cen­tro e man­dou ver, estirou-se no sofá e come­çou a can­tar a ple­nos pul­mões um som do Mega­deth. Ele vol­tou deses­pe­rado: “são quase três sua loca! eu tenho vizi­nhos!”; ela só olhou torto para ele e esti­cou os bra­ços, ele dei­xou o vinho de lado e dei­tou por cima dela, em um beijo sôfrego, longo, las­civo. Todos sabem ao que isso levou, e tudo que posso dizer é que ela con­ti­nuou não ligando para os vizinhos.

Após a con­su­ma­ção do ato — para quem gosta de eufe­mis­mos — ou, melhor dizendo,  da tre­pada, fica­ram con­ver­sando na cama, ela com a cabeça sobre o ombro dele, aca­ri­ci­ando os cabe­los de seu peito. Ele res­pi­rou fundo: “puxa, eu não sei nada de você, a gente aca­bou de se conhe­cer, e aqui esta­mos… enquanto isso eu con­tei a his­tó­ria da minha vida!”, “eu não gosto de falar muito… eu moro com meu pai, bri­guei com a minha mãe, estou desem­pre­gada… e eu gosto de viver rápido, tá enten­dendo?”, “tá bom, não quero pres­si­o­nar nem nada… a gente vai ter tempo de se conhe­cer” — arris­cou ele, espe­rando a rea­ção dela. Esta veio: ela se ergueu na cama, com um olhar furi­oso; “moci­nho, você não sabe com quem tá mexendo, você é um cara tão cer­ti­nho, não inventa… aliás, eu não quero, eu já disse que não quero com­pro­misso, essa não é minha vida… eu sei que você tá na merda, mas não pode jogar a res­ponsa em cima de mim; foi só uma tre­pada, mais uma noite de Sapo Rouco, só isso.” “Tá bom, eu… deixa pra lá.” “Cadê aquele vinho?” — lembrou-se ela. “Puxa eu… tá, vai, mas eu não aguento mais nada…” Ele abriu o vinho e vol­ta­ram a con­ver­sar numa boa, mas após a pri­meira taça nosso herói pediu arrego; “gata, eu pre­ciso dor­mir, mesmo; fica aí, você não vai dor­mir tão cedo mesmo, né?” “Não vou dor­mir nunca!” “Tá, só não faz muito baru­lho, eu te levo em casa de manhã”. Ela deu um beijo afe­tu­oso na boche­cha do ficante ani­nhado sob a coberta e foi para a sala ver TV.

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Comentários

Há 2 comentários.

  1. Alexandre Piccolo escreveu:
    4 de julho de 2010

    A Luna doi­di­nha pas­sou do este­rió­tipo da porra-louquinha (ou não?), Hélio, mesmo com a “balada” con­su­mada, vol­tou à sua rotina care­ti­nha (ou não?), inte­res­sante como os deta­lhes tão-pequenos-de-nós-dois, no texto, tor­nam a des­cri­ção do casal­zi­nho de balada ora tão pecu­liar e única, ora tão cor­ri­queira e comum, mis­tura intrigante.

  2. leosfera escreveu:
    5 de julho de 2010

    Espere pelo arremate…

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