Crônica do Sapo Rouco pt.7 (Fim)

Conto por , em 9 de julho de 2010

Hélio acor­dou assus­tado. Luna à beira da cama tinha difi­cul­dade de falar, e só falava uma coisa: “me leva!” Seu peito arfava e ela fazia força para res­pi­rar. Estava pálida e com nari­nas e olhos aver­me­lha­dos. Quando sacu­diu um pouco o sono, ele pôde enten­der o que se pas­sava, e ela rei­te­rou: “pronto-socorro, me leva!” Que merda, pen­sou, uma over­dose. Carregou-a até o ele­va­dor, mal teve tempo de pôr a calça jeans da noite ante­rior, que cons­tra­tava com a camisa do pijama e com os chi­ne­los. Hélio não dei­xou de per­ce­ber que, em vez de estar puto da vida pelo tra­ba­lho que a moça dava, sen­tia um vín­culo muito forte, para além do ins­tinto de soli­da­ri­e­dade, ou da cum­pli­ci­dade — uma vez que mais cedo estava com­par­ti­lhando do mal­dito pó com ela -, mais do que sua ânsia de cari­nho depois da tra­gé­dia toda, naquele momento sentiu-se res­pon­sá­vel por uma vida. Acomodou-a no banco do pas­sa­geiro do che­vette, e desta vez obe­de­ceu ao que pedira sua “malu­quete”: pisou com vontade.

Che­gando ao hos­pi­tal, público, irritou-se com a indi­fe­rença de todos, e insis­tia: “ela vai mor­rer!” Che­ga­ram a cha­mar a segu­rança para contê-lo, mas enfim uma enfer­meira veio vê-la. Fez algu­mas per­gun­tas: “não, eu não sei quanto ela chei­rou; não sei se usou outra coisa, ela bebeu muito, ah é, a gente… ela fumou maco­nha tam­bém”. A enfer­meira sumiu sem dar muita expli­ca­ção e ele colou o rosto ao da garota, e não con­teve o choro. Ima­gi­nava que suas vicis­si­tu­des não teriam mais fim, e a bei­java na boche­cha, olhava-a nos olhos vidra­dos, gri­tava mais uma vez por socorro. De repente ela entrou em con­vul­são, feliz­mente pouco depois apa­re­ceu a maca que a levou. Persignou-se, mesmo não sendo reli­gi­oso, e ficou ali roendo as unhas. Ficou é modo de dizer, pois ele não parava qui­eto; saiu lá fora e viu as pri­mei­ras luzes da aurora, res­pi­rou fundo e orou como pôde, jun­tando cacos de pai nosso e outros de ave maria, mais seus pró­prios pedi­dos pelo res­ta­be­le­ci­mento daquela que mal conhe­cera e já lhe era tão importante.

Depois de inter­mi­ná­veis momen­tos em que con­se­guiu se acal­mar e sentar-se na sala de espera, foi cha­mado para vê-la na enfer­ma­ria: estava fora de perigo. Quando o viu, ape­nas pediu: “não fala nada”, mas depois de pou­cos minu­tos em que ele segu­rou as mãos dela e aca­ri­ciou seus cabe­los, ela disse com a voz embar­gada: “me ajuda a parar com essa merda”. “Claro…”, hesi­tou mas com­ple­tou em seu ouvido: “meu amor”. Ela esbo­çou um sor­riso, até onde pôde, e fechou os olhos. Ela pre­ci­sou de mais um tempo de repouso antes de ir, que ele apro­vei­tou para con­fe­rir um pão com man­tega e uma média, estava exausto.

Hélio conhe­ceu o pai de Luna em cir­cuns­tân­cias pra lá de adver­sas, mas ele gos­tou do rapaz, que ten­tou con­tar uma his­tó­ria furada, que não colou, é claro. Seu Ole­gá­rio conhe­cia a filha, e estava can­sado de admoestá-la; obvi­a­mente ficou feliz ao saber da dis­po­si­ção anun­ci­ada por ela, e viu em Hélio o arrimo de que ela pre­ci­sava. Ela dor­mia enquanto eles con­ver­sa­vam, e assim per­ma­ne­ceu; os dois des­co­bri­ram casu­al­mente tor­ce­rem para o mesmo time, e quando per­ce­be­ram esta­vam con­ver­sando ani­ma­da­mente, como se a morte não tivesse ron­dado a… família?

Luna se enga­nara: aquela não foi só mais uma noite de Sapo Rouco, foi um ponto de infle­xão em sua vida. Ela pre­ci­sou ir lá embaixo para reerguer-se como outra pes­soa, des­co­brindo que não estava fadada a viver repe­tindo os mes­mos erros, que não existe tal coisa como “charme deca­dente”, que sua rebel­dia era no fundo um infan­ti­lismo obs­ti­nado, que pra­ze­res fuga­zes não valiam o preço que cobra­vam: parou com tudo. Enfim, estava na hora de se tor­nar uma mulher. Não ape­nas uma mulher, mas, depois de pou­cos meses de namoro, tornou-se a mulher de Hélio. No casa­mento, uma cerimô­nia infor­mal com direito a Good Times, a mesma banda daquela (quase) fatí­dica noite, Yolanda con­tou a his­tó­ria do México mais uma vez, e Luna final­mente enten­deu ple­na­mente que a vida segue seu curso, mas nunca é a mesma, como um rio, onde não nos banha­mos duas vezes — foi a obser­va­ção do seu Ole­gá­rio. Acrescente-se que a mãe de Luna estava na festa, e suas rela­ções se nor­ma­li­za­ram. Os pom­bi­nhos foram morar em uma sim­pá­tica casa, e Hélio pôde vol­tar a tocar bate­ria. Como um colega de pre­fei­tura era gui­tar­rista e conhe­cia um bai­xista, come­ça­ram a ensaiar; Luna ainda relu­tou antes de assu­mir os vocais, mas revelou-se — como Hélio já havia per­ce­bido — uma grande can­tora. Hoje tocam várias do Led, que esta­rão cer­ta­mente no reper­tó­rio que pre­pa­ram para tocar no Sapo Rouco, onde Luna pas­sou a tra­ba­lhar (sem que isso ame­a­çasse sua reso­lu­ção). Hélio aca­bou pas­sando em um con­curso melhor, e hoje ganha muito bem. Ah, sim, a banda se chama Escada pro Céu. And the forest will echo with laughter.

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Comentários

Há apenas 1 comentário até o momento.

  1. Alexandre Piccolo escreveu:
    16 de julho de 2010

    Que bom que chegou-se ao des­fe­cho (“happy end”) da novela… Ah frase “sua rebel­dia era no fundo um infan­ti­lismo obs­ti­nado” tem algo de sábio na refle­xão. A relei­tura com­pleta (de todas as par­tes) de uma só vez tal­vez traga novas/outras impres­sões… legal.

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