— Resenha por Alexandre Piccolo, em 6 de julho de 2010
Imaginação é um substantivo abstrato. Nosso Houaiss diz, logo na primeira acepção, que é “a faculdade que possui o espírito de representar imagens”. Ora, imaginação e imagem partilham algo mais: o mesmo radical imag–, oriundo do substantivo feminino latino imago,-inis. Ernout e Meillet nos ensinam que tal palavra latina tem os mesmos sentidos do étimo moderno “imagem” e, por conseguinte, “representação, retrato, fantasma, aparência (por oposição à realidade)” – e acrescentam que corresponde aos étimos gregos eikón (cf. “ícone”, em português) e phántasma, apontando inclusive outros parentescos com idiomas antigos. Assim, traçado esse parentesco comum, poderíamos arriscar que a imaginação constrói-se com imagens, materializa-se numa espécie de fantasmagoria visual, icônica. Sem imagens, existiria a imaginação?
Dizer que o filme O mundo imaginário do Dr. Parnassus é completamente imagético pode soar uma grande bobagem (talvez o seja), mas vale dizer: o filme é completamente imagético, ou seja, ele se exprime fundamentalmente por sucessões de imagens: tenebrosas, fantásticas, sedutoras, provocantes, idílicas. Para uma primeira impressão, pareceu-me difícil concretizar, de modo tão intenso, a aparência desse imaginário fantástico do tal dr. Parnassus sem a sucessão de imagens em movimento do cinema.
Afinal, qual a melhor maneira de se ilustrar a imaginação, de torná-la “concreta”?
Por palavras? Mas palavras não são exatamente imagens: a linguagem opera com uma representação convencionada das coisas, seja por meio de sons (oral), seja com rabiscos (escrita). Ainda que haja um desenho, no papel ou na tela, da palavra “árvore”, por exemplo, tais rabiscos ou borrões em nada se aproximam da imagem de uma árvore qualquer, mesmo que grafados em Kanji, ideograma japonês. Por assim dizer, a linguagem está um passo além das imagens, por isso, ora engendra com primor o que nenhuma imagem faria, ora fica aquém de certas representações imagéticas. Trocando em miúdos, como diz o ditado: uma imagem vale mais que mil palavras (mas vá dizer isso com uma imagem).
Por ilustrações? Talvez: um desenho, uma gravura, uma pintura são tipos de imagens estáticas, capazes de ilustrar algo imaginário. Lembremos, a título de exemplo, as famosas xilogravuras de Gustave Doré para diversos clássicos da literatura ocidental: como a do Quixote aí ao lado. Contudo, tais imagens prendem-se a uma “cena”, ilustram um único momento, permanecendo estática no papel ou na tela: por mais que uma ilustração tente retratar episódios distintos dentro de uma só moldura (como fazem iluminuras medievais, gravuras de contos de fada etc.), linhas, traços, cores e feições permanecem parados, imóveis, não se mexem diante de nossos olhos — não obstante certa impressão de movimento que possa haver.
A imaginação, no entanto, ainda que imaterial, esvoaçante (fantasmagórica?), a um só tempo diáfana e espessa, comumente também é ágil, fluida e fortuita. Às vezes, até sonora e colorida.
O cinema permite que linhas e cores da imaginação se movimentem. Ainda que cada quadro do rolo cinematográfico esteja parado (afinal, é uma fotografia, ou seja, luz gravada), a veloz sequência de projeção, associada à sonoridade da apresentação, confere vida às imagens. Em outras palavras, vê-se na tela a imaginação tomar forma, se concretizar. E se as imagens cinematográficas moldam e realizam a imaginação alheia (do diretor, por exemplo), tal sequência imagética passa a povoar não apenas nossa memória e nosso repertório cultural, mas também nossa imaginação, individual e coletiva, a qual doravante se vê embebida das impressões cunhadas por imagens de outrem. O filme no cinema permite que se abram as cortinas ao imaginário (tanto próprio quanto alheio), como num primeiro despertar – para usar uma associação já popularizada. E são com cortinas se abrindo que começa nosso filme.
Toda essa divagação serve apenas para incitar a reflexão acerca da imaginação, ou melhor, do imaginário do Dr. Parnassus. Escancaradas as cortinas da companhia teatral móvel dessa figura milenar (interpretado por Christopher Plummer), acompanhado de sua reduzida trupe, adentramos espectros móveis das narrativas, dos sonhos e dos desejos. As cores da tela ganham o brilho do imaginário de cada personagem. Não por acaso, materializar tais realidades significa, concretamente, atravessar um misterioso espelho, posicionado bem ao centro do palco. A simplicidade simbólica do espelho (eis sua beleza, sua eficiência) permite que enxerguemos “por dentro” cada um que o adentra: a aparência cinematográfica permite que se vejam tais essências veladas, individuais, únicas. Aqueles que se embrenham em tal espelho acabam por encontrar um outro eu do lado de lá, seja em meio à lama e garrafas sujas, seja em meio a bolsas e calçados chiques. Que cada um sonhe com o que bem quiser, isso parece banal de se dizer. Mais difícil, talvez, seja ilustrar a imaginação de cada um – coisa que o filme faz com primor.
Além da realização estética iluminada (sobretudo nas imagens que concretizam o tal imaginário do Dr. Parnassus) e da engenhosa troca de papéis necessária à interpretação de Tony (dada a contingência da morte de Heath Ledger durante a filmagem, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel assumem-no “dentro do espelho”), o enredo tangencia temas caros à “arte da palavra” — e não os trata com desdém. O mundo como conjunto de histórias sem fim contadas por monges talvez agradasse leitores borgianos (quiçá ao próprio Borges) e a imortalidade como danação foge do superficialismo venal de certos filmes de vampiro. Embora assimétrica, talvez renda bons frutos a comparação da narrativa, no filme, da filha prometida ao diabo com a fábula, nos livros, de Rumpelstiltskin, conto popular recuperado pelas histórias dos irmãos Grimm (cujas vidas fantasiosas Terry Gilliam já filmara, com o mesmo Ledger e Matt Damon em cena).
E por falar em Terry Gilliam, sua lista de filmes como diretor é deveras seleta. Dos que vi, todos parecem cuidar (com primor) da impressão visual, imagética, em prol da “concretização ideal” de um certo imaginário cinematográfico. Além dos esquetes impagáveis de Monthy Python e o cálice sagrado e da fábula futurista burocrática de Brazil (com Robert De Niro engolido em meio à parafernália de fios), as reviravoltas temporais no clássico embate livre-arbítrio versus destino em Os doze macacos (Brad Pitt em atuação memorável), bem como as chapações insanas de Medo e delírio (Johny Depp andando mais uma vez em seu wild side) são algumas das lembranças que guardei do diretor e de seus filmes. Todos com imagens marcantes, dessas que se estampam para sempre na memória e na imaginação. A aparência de sonho e sua tênue fronteira com a realidade, um enredo prenhe em alegorias nada banais, as belas imagens que dão cores e contornos ao imaginário das personagens (e do próprio filme) são algumas das virtudes que fizeram o Dr. Parnassus entrar para essa seleta lista de ótimas realizações de Terry Gilliam. Imagens para se levar na memória — e no imaginário.
Há 3 comentários.
Leosfera escreveu:
6 de julho de 2010
Ah, o filme é do ano passado e ainda não entrou em cartaz? Torrent neles!
Leosfera escreveu:
17 de julho de 2010
Excelente película! Gilliam em seu melhor. Inclusive remete muito a sua época Python, principalmente os policiais dançando… e o cenário se fragmentando. Eles amarraram bem a falta do Ledger, como assinalado, mas achei que quatro atores foi exagero.
O que me parece irônico é que o filme é de certa forma uma crítica a uma sociedade moderna que vai perdendo a capacidade de imaginar, justamente pela superabundância de produtos imagéticos computadorizados, categoria na qual o próprio filme se enquadra… Viagem minha?
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