— Novela por Leonardo Afonso, em 16 de julho de 2010
Sérgio era engenheiro mecânico, e conhecera André — economista — no time de rúgbi da faculdade. Acabaram se mudando para a capital, aquele admitido em uma transnacional, este veio a se tornar operador financeiro. Eram dois belos e bem sucedidos trintões, e legítimos bon-vivants, cada um a seu modo: Sérgio gostava de carrões e de festas com música eletrônica, enquanto André era mais um homem de frequentar o teatro e metido a enólogo. O primeiro era um mulherengo inveterado, enquanto o segundo era praticamente casado com Carmen, uma argentina um pouco mais velha, atriz, que além de uma pessoa fascinante era herdeira de um rico industrial portenho (não que isso fosse determinante).
Carmen organizara um convescote com alguns colegas da companhia e André chamou a Sérgio, que apareceu com uma morena espetacular. Estavam todos no espaçoso apartamento da atriz, em um afluente bairro da metrópole; enquanto ela pilotava o toca-discos, trocando Miles Davis por Igor Stravinsky (vinil é “insuperable”, explicava ela), ele dava uma aula sobre Bordeaux; o amigo amassava a morena no sofá. Foi quando a doméstica uniformizada avisou que o fondue seria servido na varanda. Em uma mesa, o fondue de queijo reunia os dois casais e o diretor da trupe — um excêntrico sessentão homossexual; já o fondue de chocolate acabou sendo uma espécie de “segunda divisão”, não por isso menos animada.
A conversa passou por diversos assuntos, até que o dramaturgo revelou seus projetos malucos de uma peça sobre diversas coisas, dentre elas o império Inca. Os dois amigosse entreolharam com um sorriso. Sérgio explicou aos demais:
_ Na época da faculdade a gente fez uma viagem até Cusco. Muito legal lá.
A morena — Kátia, se eu esqueci de apresentar — olhou-o com ar de reverência e, passando a mão em seu rosto, pediu que contasse mais. Ele abocanhou mais uma torradinha com queijo derretido, deu um gole de vinho e começou:
_ A gente foi até o Acre. Na época nós estávamos envolvidos com o Santo Daime, e fomos até lá conhecer a origem de tudo.
_ Vocês sempre fueran parceiros mismo, hein? — Carmen interveio.
_ Ah, sim. E tinha a rádio também, a gente fazia um programa. Foram bons tempos — acrescentou André, girando sua taça de vinho para observá-lo escorrendo.
_ Bons tempos são agora! — atalhou Sérgio cortando a nostalgia e propondo um brinde.
_ Essa é atitude! — apoiou o diretor, estalando as mãos espalmadas com o engenheiro.
_ Daime não é aquela coisa que deixa doidão? — Kátia arriscou.
André fez uma cara feia, mas foi polido.
_ Não é nada disso, meu doce, qualquer dia eu te explico. Enfim, eu já tinha ido lá antes, e conhecia o pessoal de uma igrejinha pequena, e a gente ficou lá com eles; gente muito boa, simples. Faz muito bem a gente da selva de pedra, como nós.
_ Bem — prosseguiu Sérgio -, a gente tirou dez dias para ir até o Peru. O André também já conhecia lá, ele sempre se ligou nessas coisas meio ripongas, eu tava descobrindo um mundo novo. A gente preparou as mochilas, a ideia era fazer a trilha inca, e pegou o busão em Rio Branco que ia até a fronteira, Assis Brasil. Um lugarejo minúsculo.
_ Naquela época não tinha nem ponte, a gente teve que atravessar em uma canoa! — observou André.
_ Na verdade, a ponte ainda está em construção, deve ser inaugurada até o fim do ano. O mais surreal foi a Toyota que a gente pegou do outro lado, em…
_ Iñapari.
_ Isso. Os caras vão enfiando gente numa perua até no tanque de gasolina, e toca pra Maldonado, estrada de terra. Ali a paisagem ainda é a amazônica, mas a população já é basicamente mestiça. Inclusive foi junto com a gente uma bem bonitinha… (Kátia lhe deu um leve tapa na mão).
_ Lembra das pollerias? — os dois riram.
_ É o McDonald’s deles: frango assado com batata frita, a gente comia isso quase sempre.
André pediu licença para ir à cozinha avisar que o queijo acabava. Kátia optou por se juntar ao fondue de chocolate (um pouco pelo fora que dera), o diretor percebeu que não seria a alma da festa ali e se juntou aos colegas — suas risadas afetadas se fizeram escutar -, e Carmen aproveitou para virar o disco. Já Juliana, que era empresária do grupo, pediu para se juntar ao fondue de queijo.
Sérgio, chegando o amigo, perguntou se podia continuar.
_ Depois que eu buscar mais vinho, que eu ia esquecendo.
_ Pô, eu acho que eu tava afim de um scotch, você tem?
_ Eu sempre tenho, mas… a Kátia dirige depois?
_ Sem problema!
André abriu o vinho, com todos seus rituais, e serviu a todos, “na verdade, ele devia respirar” — fez questão de observar; a criada trouxe a garrafa de uísque e um balde com gelo, e castanhas.
_ Qué pasó después? — cobrou Carmen, que esquecia de falar português quando bebia.
_ Em Puerto Maldonado a gente pegou um avião pra Cusco — André retomou (os dois parece que disputavam para narrar). É fascinante ver a floresta simplesmente dando lugar à cordilheira, a transição é abrupta.
_ Tem mais: a gente ficou em dúvida ainda se ia de ônibus, mas eram quarenta minutos de voo e dois dias de busão! Mas imagina, subindo a cordilheira!
_ Foi aí que a gente começou a formular o Projeto Pacífico: comprar um 4X4 e ir até Cusco, e então até Lima, dirigindo.
_ Es locura! — exclamou Carmen. Sua amiga e colega, que estivera calada até então, fez a primeira intervenção:
_ Eu acho uma grande ideia. A vida é feita dessas loucuras. Tipo o Amir Klink: o cara atravessou o oceano remando, dá pra ser mais louco que isso? Depois escreveu livros, ganha uma grana dando palestras…
_ É, mas isso acabou virando lenda, a gente não levou muito a sério…
_ Eu nunca esqueci o projeto — protestou Sérgio — acho que um dia ainda dá pra fazer, mas o ideal era fazer um lance profissional, com patrocínio e tudo.
_ Pois então — animou-se Juliana — eu trabalho exatamente com isso. Se você formular um bom projeto, você consegue sim um patrocinador. Tipo Petrobrás, por exemplo… Alguma coisa relacionada a biodiesel, sei lá. Essa é uma viagem que teria repercussão internacional se bem explorada. É interessante pra eles.
Os amigos se entreolharam, num silêncio cheio de cumplicidade. Aquilo fazia sentido. Carmen partilhava do entusismo da amiga.
_ Vocês pueden facer una película, un road movie, documentário, sei lá. Es cierto que consiguen apoio! Hay la televisión do gobierno ahora, que puede interessarse; has dicho que la ponte vai ser inaugurada, trata-se de un hecho histórico, el camiño del Pacífico…
A ideia ganhava momento.
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