— Novela por Leonardo Afonso, em 23 de julho de 2010
_ Porra, André, eu tô começando a gostar dessa história!
_ Nem me fala, cara, eu bem que poderia ficar um mês longe da bolsa, estou há três anos sem férias, vai me acrescentar uns anos de vida!
_ Eu acho que vou é chutar meu trampo pro alto. Uma aventura dessas vai melhorar meu currículo. Acho que a… como é mesmo seu nome? Acho que a Juliana tem razão, eu poderia dar palestras motivacionais, é uma grana fácil! Mas… será que um mês dá? Pra ir e voltar?
_ Ir e voltar por quê? Só chegar lá é mais que suficiente. A gente passa o carro nos cobres e volta voando.
Kátia, que também não conseguira se enturmar no meio dos artistas, e já matara a vontade de comer chocolate, voltou a sentar junto a seu homem. Ficou curiosa com o entusiasmo de todos.
_ De que vocês estão falando?
_ De dirigir até o Oceano Pacífico, baby! — Sérgio respondeu, com a boca cheia de castanhas.
_ Isso é conversa de bêbado!
Todos exercitaram mais uma vez a paciência com aquela moça bobinha que caíra nas garras de Sérgio, que, levando a mão à testa e baixando a cabeça, foi menos suave do que o amigo, tendo intimidade para tanto.
_ Qual é a sua, sua anta, quer jogar água no nosso chope? Estamos falando sério!
Ela fechou a cara, cruzou os braços e pediu timidamente desculpas.
_ Não fica assim boba — Sérgio tentou pacificá-la -, na verdade é um sonho antigo, que parece que pode se concretizar agora, dá pra respeitar? — Ela se desculpou mais uma vez e em instantes já estava sorrindo, pendurada no pescoço de seu garanhão.
_ Putz, lembra quando você tinha aquela CR-V? Era perfeita! — André retomou a conversa.
_ É, nem me lembra, eu gostava daquele carro. Sabe que eu comprei pensando nessa viagem, né?
_ Aí você porrou ela num poste, seu bebum irresponsável! — repreendeu o amigo meio a sério e meio de brincadeira — Mas não há de ser nada, hoje a gente tem como comprar qualquer utilitário esporte, e novo!
_ Vocês podem mesmo tentar isso pelo patrocínio — a empresária ressaltou -; olha, eu posso ajudar vocês: meu trabalho na peça está feito, eu tenho tempo livre.
Um ator jovem chegou-se ao ouvido de Carmen e sussurrou alguma coisa, e saiu com um sorriso no rosto e esfregando as mãos.
_ Sérgio, entiendes alguna cosa de autos, no?
_ Sinceramente, Carmen, só de dirigir. Bem lembrado, seria importante levar um mecânico. Na verdade, eu tenho um colega que saca muito, ele já me ajudou mais de uma vez; é até irritante, ele só fala de carro.
_ O Platinado!
_ Ele mesmo. O apelido já diz tudo, né? O cara é do tempo do platinado. Mas sabe tudo de parte eletrônica também. Eu vou conversar com ele.
_ André, vas a me dejar aqui por un mês?
_ Bem, você está presa aqui com a peça, não? Está pensando em ir com a gente?
_ Me gustaría, si. Y la temporada es de seis meces, no pueden esperar?
_ Eu precisaria de uns três ou quatro pra parte burocrática — Juliana observou.
_ Entón! Puedo ir?
_ Por suposto! — André, esfuziante, caçoou do portunhol da amásia — Brinde ao Projeto Pacífico!
_ Eu tenho uma ideia melhor: ir de um oceano ao outro. Uma trip transcontinental!
_ Boa, Sérgio! A gente podia sair do Rio, sabe como é, uma cidade conhecida no mundo todo. Rio-Lima!
O ator que confabulara com Carmen voltou com um baseado apertado. Como o fondue já acabara, e a doméstica estava recolhendo tudo, juntaram as duas mesas em uma; como já era um tanto tarde, alguns se despediram e se foram, ficando a festa mais intimista. Carmen foi até a vitrola e sapecou um Frank Zappa. Sérgio e André se lembraram das noites de rádio, em que Zappa era uma constante. Carmen, passando a bola para o parceiro, lembrou-se:
_ Termina de contar el viaje!
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