— Novela por Leonardo Afonso, em 30 de julho de 2010
_ Cusco é toda marrom vista de cima, ao menos naquela época — Sérgio passou na frente do amigo, a quem Carmen se dirigira. Quando a gente pegou o táxi, eu fiquei curioso de ver a bandeira do movimento gay por todo lado. A do arco-íris. Depois eu fui descobrir que era a bandeira do Império Inca!
O diretor soltou mais uma de suas gargalhadas e fez questão de manifestar-se:
_ Eu não sabia disso! Certamente vou usar essa na peça, posso?
_ Claro, fique à vontade. Depois… — prosseguia Sérgio, até André também atropelá-lo.
_ A gente deixou as coisas no hotel, foi até a Plaza de Armas, que ficava perto. É lindo aquele lugar. Levei o Sérgio pra conhecer a Catedral e, depois de comer, fomos até Sacsayhuamán, ruínas ali bem perto da cidade. À noite, uma baladinha no Mama África, um dos muitos inferninhos da cidade.
_ De vez em quando um pega fogo — brincou Carmen. De fato, alguns anos antes houvera uma notícia nesse sentido.
_ No outro dia — Sérgio retomou -, eu peguei uma excursão para Machu Picchu; o André, que já conhecia, não quis ir, e passeou um pouco pela cidade. É muito bonito, interessante, mas tem turista demais. E no fim eu gostei mais de Pisaq.
_ Inclusive a gente descobriu que a trilha inca estava simplesmente impossível de ser feita, muito gringo. O que a gente fez? Comprou um mapa de trilhas para fazer uma caminhada por conta própria. E no dia seguinte partimos sem rumo definido.
_ Como chamava aquele primeiro lugar que a gente foi? Eu nunca lembro.
_ Chinchero — André completou satisfeito. Fomos de ônibus, para começar por lá. Era interessante que tinha prédios espanhóis erguidos sobre ruínas incas. Conhecemos uma moça israelense lá.
_ Eles têm uma história de fazer serviço militar e depois sair viajando, acho interessante. Sei que de Chinchero a gente andou contornando uns morros… É muito diferente a paisagem de relevo recente, e aquele céu translúcido… eu acho que ainda tenho aquelas fotos em algum lugar. Lembro que tirei várias no começo da viagem, depois acabou o filme — eu ainda usava filme! — e eu fui desencanando; afinal, você pode registrar uma imagem, mas não a experiência, ou mesmo a noção de profundidade. E eu nunca fui um fotógrafo profissional.
_ A Carmen sabe tudo de fotografia. Inclusive pode ser nossa cinegrafista, não?
Ela apenas sorriu com a sugestão do namorado. O entusiasmo crescia. André prosseguiu.
_ A gente estava quase chegando em Urubamba, o próximo lugarejo, quando passou um ônibus escolar. O Sérgio, que estava quase morto, fez sinal, e eles pararam. A gente acabou indo até Ollantaytambo, uma cidadezinha maior, de onde sai o trem pra Águas Calientes, onde fica Machu Picchu. A gente conseguiu uma hospedaje por lá pra passar a noite.
_ Esse dia foi mais um aquecimento, eu estava fora de forma, e fumava, na época. No dia seguinte é que a gente pegou uma trilha mais pesada, subindo. Passava em uns três lugarejos… Pallata, eu acho, foi onde a gente parou pra lanchar. Mais na frente, vinha subindo um caminhão e a gente pegou carona. O André queria tentar ir até uns lagos que estavam no mapa, mas a gente passou direto e quando o caminhão parou a gente resolveu seguir uma família, só o pai falava algum espanhol. Dali em diante foi como uma viagem no tempo: tanto pela paisagem exótica quanto pelas pessoas, que só falavam quechua.
André se levantou para buscar vinho e já estava bem chapado, tanto do vinho quanto da maconha, que só fumava de vez em quando. Amanhã é sábado, pensou, que se foda. Aproveitou para dispensar a doméstica, entregar-lhe o extra combinado (que mal valia o sacrifício de voltar àquela hora de ônibus para casa). Tentou ser rápido, para não perder a narrativa que tão boas recordações evocava, de lugares que talvez voltasse a visitar, se aquela conversa toda não se revelasse no fim — como sentenciou Kátia — mera conversa de bêbado. Chegando de volta, Sérgio lhe perguntou:
_ Como era o nome do tiozinho?
_ Jacinto, nuestro hombre en Huacahuasi!
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