— Novela por Leonardo Afonso, em 6 de agosto de 2010
Riram-se às largas ambos camaradas, e André anunciou que aquele era um californiano, mas que era excelente; na verdade, tinha sempre um vinho mais barato para quando já estavam bêbados. O diretor, já de fogo, insistia em chamar atenção:
_ Ai, você me lembra um rapaz de São Francisco que eu conheci. Deus meu, o que era aquilo! — e fez um gesto com as duas mãos separadas pelo tamanho de um falo avantajado.
Carmen sentiu-se constrangida e levantou-se para puxar-lhe carinhosamente a orelha. Sérgio percebeu a deixa e retomou a narrativa:
_ Pois lá fomos nós com o Jacinto, esposa, filho e um perrito. Ele disse que ia para Huacahuasi. A gente olhou no mapa e simplesmente não tinha trilha até lá! Bem, confiamos nele quando ele disse que era perto: “dos horitas, poco, no más”, ele repetia. Dissemos que estávamos cansados, e lá vai ele: “despacito, dos horitas, poco, no más”. Sempre que a gente perguntava se estava perto ele dizia a mesma coisa.
_ A gente não conseguia acompanhar o ritmo deles, acostumados à altitude e ao trajeto, e ele ofereceu suas hojas de coca. Eu ia participar de uma seleção e achei melhor recusar, o Sérgio mascou com gosto.
_ Hoja de coca no es droga! — e chacoallhava o terceiro uísque.
_ Uma hora a gente chegou a um rio, com um pequeno plano. Eu percebi que era a deixa para ficar ali e erguer acampamento. O Sérgio queria ir adiante.
_ Só que quando eu fui falar eu vi que já não conseguia mais articular as palavras! Aí sem chance. Ficamos ali, fez um frio desgraçado quando a noite caiu; preparamos um macarrão com carne de soja e chegamos a conversar sobre a possibilidade de tomar Daime — a gente tinha levado uma garrafinha. Mas seria loucura… ou excepcional.
_ A gente deixou pra manhã seguinte a decisão: voltávamos pelo caminho conhecido ou arriscávamos chegar até Huacahuasi? De lá tinha caminho até outra cidade e aí passava uma estrada. Sei que apareceu um tio catando esterco de llama, figura improvável, catarro escorrendo, a cara queimada… Ele não falava quase nada de espanhol, eu entendi que ele estava indo pra Huacahuasi, e pensei que a gente pudesse acompanhá-lo. Ele dizia “dulce”, deve ter sido uma das únicas palavras em espanhol que ele disse, e eu dei uma bolacha recheada. No fim, a gente sacou que não ia obter nada dele. Aquela cena me lembra um conto do H.G. Wells…
_ Enfim, — Sérgio retomou — esse maluco aqui decidiu peitar o desafio, e seguimos por onde parecia haver uma trilha, que às vezes sumia, a gente ficava em dúvida, mas fomos adiante. Era longe pra burro, a gente nunca que ia chegar no dia anterior. Foi nesse dia que a gente foi mais alto, eu vi neve pela primeira vez. Sei que a gente chegou na casa do Jacinto (nuestro hombre en Huacahuasi), que ficava antes de chegar na cidade mesmo — se é que dá pra chamar aquilo de cidade.
_ Você está está esquecendo que a gente encontrou outro cara, um jovem, no final do trajeto, lembra o nome dele?
_ Sem chance. Sei que ele me deu umas lições de quechua, mas eu não guardei nada. Bem, quando afinal a cidade apareceu, todo esforço se pagou: a paisagem era linda! O lugarejo ficava no fundo de um vale escarpado — deu um bom trabalho descer! — e lá no fundo tinha uma cascata enorme, espetacular.
Sérgio olhou para André como que para “passar o bastão”, e assim iam acertando os ponteiro na narração compartilhada.
_ E a gente acampou lá, era no fim da tarde. Eram algumas casas de adobe ao longo de um riacho — o mesmo da cachoeira. Aliás, eu tinha esquecido, no começo da caminhada, quer dizer, partindo de Ollantaytambo, a gente passou por uma cachoeira e não teve dúvida: entrou debaixo; num frio medonho! Enfim, quando a gente acordou no outro dia, tinha um monte de moleque olhando pra gente como se a gente fosse alienígena! Muito engraçado.
O diretor entrou de novo em cena:
_ Olha, eu tô me sentindo até mal com minha vidinha confortável de “elite branca” (era uma alusão a uma declaração de um político). Eu nunca me meti numa aventura remoootamente parecida!
Carmen não ligou dessa vez, mas aproveitou a interrupção para observar que fazia muito frio ali fora, e convidou a todos para entrar. Sérgio precisou acordar Kátia, que dormia encostada em seu ombro. Mais dois dos atores se despediram. Sérgio percebeu que a hora era avançada e só então, sendo o papo tão bom, lhe ocorreu conferir o relógio (caríssimo), descobrindo que era uma e meia. Resolveu apressar a narrativa, que já estava mesmo perto do fim, e sinalizou a André, que prosseguiu.
_ A gente pegou a trilha para Lares. Moleza. Descendo, bem batida, e curta. Em Lares tinha águas termais, foi o repouso merecido. A gente ficou o dia inteiro praticamente de bobeira. À tarde a gente ficou esperando o transporte pra Cusco, e não viu nada. Só à noite a gente foi descobrir que era uma caminhonete comum, que a gente viu mesmo sair. Paciência.
_ Nós chegamos a dar entrada em uma hospedaje para ficar ali, quando apareceu uma van, a gente conversou com o cara, que disse que ia pra Cusco, e a gente subiu. Cara, eu só queria ter feito aquela trip de dia, para curtir a vista; a gente ia corcoveando, descendo a montanha; mas pelo menos tinha uma lua cheia. Chato foi a fitinha do George Michael! — os dois riram.
_ Então, aí quando chegou em Calca a gente resolveu descer. Ou foi em Pisaq que a gente dormiu?
_ Não foi Calca mesmo, no dia seguinte a gente foi pra Pisaq, conheceu as ruínas lá. Já disse que eu gostei mais que Machu Picchu, né? No mesmo dia a gente voltou pra Cusco e quando retomamos o quarto no hotel e entramos debaixo da ducha quente (separados, é claro), — o diretor disparou outra gargalhada — foi uma sensação tão boa de dever cumprido!
_ Pois é. E ainda teve direito a mais um Mama África antes de voltar. Era cada enxadada, uma minhoca, lembra?
_ Ô!
Dali em diante os ébrios convivas foram se dispersando, se despedindo. Sérgio teve dificuldade para levar a sonolenta morena embora (e no dia seguinte já estaria com outra). Carmen percebeu que esquecera a vitrola rodando sozinha, e desligou tudo. Juliana, que ficou muito chapada com o beque, e ficou escutando tudo em silêncio — ou ao menos a parte em que ainda estava acordada -, levantou grogue e reafirmou a seriedade da proposta, antes de ir embora com o diretor, que não parecia nem um pouco cansado e ainda passou uma não tão sutil cantada em Sérgio. Todos prometeram voltar a se falar sobre o Projeto.
Fim da Primeira Parte.
Este texto ainda não foi comentado.
Não se acanhe, participe! Você pode criticar, elogiar, questionar, sugerir, fazer uma brincadeira ou o que lhe parecer relevante.