Transcontinental V

Novela por , em 13 de agosto de 2010

Inter­mezzo

Pla­ti­nado ficou ofen­dido com a oferta de Sér­gio de contratá-lo como mecâ­nico. Iria, sem dúvida, e com muito gosto, mas durante as férias, como mem­bro da trupe — como um D’Artagnan, brin­cou. Tro­ca­ram um vigo­roso aperto de mão e um meio-abraço. Sér­gio estava muito feliz com a pers­pec­tiva de con­cre­ti­zar aquele sonho já tão empo­ei­rado. Car­men, que che­gara depois ao Pro­jeto, não o estava menos: sem­pre gos­tara de conhe­cer outros paí­ses do sub­con­ti­nente, mas só esti­vera mesmo no Chile e no Uru­guai, além de Argen­tina e Bra­sil, obvi­a­mente. Suge­riu a André que mar­cas­sem uma reu­nião no pró­ximo sábado, depois da peça, em uma piz­za­ria tra­di­ci­o­nal ali perto do teatro.

O casal e Juli­ana che­ga­ram pri­meiro, Sér­gio se atra­sou por­que fez ques­tão de bus­car o Pla­ti­nado em Dia­dema. Aquele quin­teto seria como uma famí­lia dali em diante. Come­ça­ram por falar de ame­ni­da­des, até que Saulo (ou Pla­ti­nado), impa­ci­ente, perguntou:

_ Não faz mais sen­tido sair por Corumbá, pas­sando pela Bolí­via, mano? Tem o lago Titi­caca na fron­teira, um amigo disse que é bonito paca.

_ Mas para nós é uma ques­tão pes­soal, — Sér­gio expli­cou — refa­zer o mesmo cami­nho. Além do mais, a via­gem não inclui­ria a Amazô­nia. Pensa só: saindo do Rio, quer dizer, de Sampa pro Rio, daí pas­sa­mos por BH e Bra­sí­lia, Cui­abá e Porto Velho, e então Rio Branco e final­mente atra­ves­sa­mos a fron­teira. Damos volta à toa, mas vocês não acham que é impor­tante pas­sar na capi­tal? Temos um mês inteiro, tam­bém. Eu cal­cu­lei no Google: são 4800 km só de Bra­sil. É mais do que São Franciso-Nova Iorque!

_ E em estra­das bem pio­res, né? — obser­vou Saulo.

_ Pois é. Mais uns 1700 no Peru. 6500km ao todo, é quase como ir de Istam­bul a Mumbai.

_ Isso vai cons­tar do pro­jeto, com cer­teza! — Juli­ana tomou nota — Mas pelo que eu vi ainda não tem ponte!

_ Eu dei uma pes­qui­sada, está pro­me­tida pra novem­bro — André a tran­qui­li­zou. Eles vão cor­rer para inau­gu­rar ainda neste governo.

_ Melhor não cor­rer demais, ou ela cai com a gente — Car­men brin­cou, com ape­nas um leve sotaque.

_ Eu vou ten­tar meus con­ta­tos em Bra­sí­lia, pode ser que nos apoiem tam­bém — Juli­ana acres­cen­tou.  Se eles ven­ce­rem mesmo a elei­ção, claro. E eu acho que a TV Bra­sil cer­ta­mente vai se inte­res­sar. Vocês vão sair na TV!

_ Oh, quanta honra! Eu vou conhe­cer o Tar­cí­sio Meira? — André ria com gosto. Sua par­ceira o repreendeu:

_ Deixa de brin­ca­deira besta, André! E não men­ci­ona esse canas­trão! A Juli­ana tem se dedi­cado a isso, caramba, mos­tra pra eles, Ju.

_ Pois é. Vocês ainda pre­ci­sam deci­dir o tra­jeto, pla­ne­jar tudo melhor. Eu gos­tei da ideia do Sér­gio de pas­sar por Bra­sí­lia e outras capi­tais. O filme vai ficar bacana.

_ E agente pre­cisa estu­dar melhor sobre o Peru: estra­das, clima, várias coi­sas. — Sér­gio lembrou.

_ Ver­dade. Eu lem­bro de uns idi­o­tas que ten­ta­ram fazer essa trip na esta­ção chu­vosa, pela Play­boy. Não pasa­ram nem da Amazô­nia. Tinha que ser uns play­boys mesmo. — André completou.

_ Meu, vocês não têm nem o carro! — Saulo comen­tou em sua impaciência.

_ Calma, — Juli­ana pros­se­guiu — esse é um dos pon­tos que a gente vai bus­car: uma mon­ta­dora que ofe­reça o carro, eu tenho que ver com vocês quais mode­los inte­res­sam. Já disse que a Petro­brás é uma boa, mas a gente pode ten­tar outras de petró­leo. Aí tem pneu, acho que rola, nem que seja alguma loja, se nenhuma fábrica topar; e eu des­co­bri uma loja espe­ci­a­li­zada em uti­li­tá­rio esporte, de aven­tura, eles fazem modi­fi­ca­ções e tal, podem dar uma força. Aí eu pes­qui­sei tam­bém lojas de mate­rial de audi­o­vi­sual, que podem for­ne­cer a câmera, micro­fo­nes, e tal; pen­sei que a gente podia… quer dizer, vocês podiam levar um note­book para ali­men­tar uma página com con­teúdo ao longo da via­gem. A Car­men me disse que o André entende tudo de infor­má­tica, não?

_ Eu manjo de alguns apli­ca­ti­vos de vídeo sim, mas posso apren­der o que for necessário.

_ Legal. Se rolar com a TV eles darão todo apoio. Que mais? — parou pra respirar.

Todos fica­ram uns segun­dos em silên­cio, estu­pe­fac­tos em ver a via­gem se mate­ri­a­li­zar, e pelas mãos de uma com­pe­tente pro­fis­si­o­nal. Foi exa­ta­mente quando che­ga­ram as piz­zas, que mere­ce­ram alguns comen­tá­rios. André falou mal do vinho; não cos­tu­mava arris­car, mas os pre­ços ali eram absur­dos. Sér­gio vol­tou ao assunto:

_ Juli­ana, mas você vai ter esse tra­ba­lho todo a troco de nada?

_ Claro que não! Se tudo der certo — e tem tudo pra dar — todos nós vamos ter uma remu­ne­ra­ção. Quem tra­ba­lha de graça é relógio.

Pla­ti­nado não resistiu:

_ Como assim, mano? A gente vai fazer essa puta trip e ainda vai ganhar por isso?

_ Ora, eu te ofe­reci um salá­rio e você esno­bou! — pro­vo­cou Sérgio.

_ É dife­rente, mano, eu sou seu truta e não seu empre­gado, tá ligado? Mas e aí, qual vai ser o carro, afinal?

Sér­gio e ele pas­sa­ram a dis­cu­tir as alter­na­ti­vas, um ou outro deta­lhe ainda foi abor­dado, mas basi­ca­mente todos se deram por satis­fei­tos com as expo­si­ções de Sér­gio e Juli­ana. No final, quando Sér­gio propôs um brinde ao Pro­jeto Pacífico, Carmen o con­tes­tou: por que não Transcontinental? Puseram em vota­ção e ele ficou con­tra­ri­ado de ver o amigo votar com a namo­rada e não com ele. Trans­con­ti­nen­tal ven­ceu. Outros encon­tros como aquele foram se suce­dendo, a cada duas ou três sema­nas, e a cada um deles a coisa ganhava mais con­cre­tude. Em maio do ano seguinte esta­vam pron­tos para colo­car uma Santa Fe na estrada. E quanta estrada.

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