— Novela por Leonardo Afonso, em 20 de agosto de 2010
Segunda Parte
A expectativa era enorme. André, que ao fim e ao cabo era autônomo, largou suas estressantes operações com derivativos. Sérgio levou adiante o propósito de chutar o emprego — e de fato conseguiria outro melhor quando quisesse. Carmen voltou a reunir os colegas, para se despedir, e a peça seguinte não incluiria uma personagem com sotaque portenho. Apenas Saulo viajava no período de férias, mas certamente seria suficiente. Juliana se apegou tanto ao grupo que estava com o coração na mão por ficar.
A pré-estreia ficou marcada para o Ibirapuera. Eles tentaram fazer umas imagens com o Monumento aos Bandeirantes, mas não só André protestou: “só no Brasil bandido é alçado a herói”, como parar o carro ali no meio do trânsito se mostrou impossível. A Oca ficou sendo o cenário em que André apresentava a trupe e anunciava sucintamente os ambiciosos palnos da Expedição Transcontinental, como acabou sendo batizado o Projeto, quando deixou de ser projeto. Almoçaram e partiram. Ju e Carmen abraçaram-se longamente, às lágrimas.
A Santa Fe, equipada pela Trilha 3, contava com DVD, e André apareceu com um estojo de 48 discos.
_ Isso é tudo CD de MP3? — Sérgio perguntou.
_ DVD.
_ Caramba! Que exagero!
_ Ah, você sabe que eu gosto de música!
_ Putz, alguém trouxe uns filmes?
_ É mesmo, Carmen levou a palma da mão à testa, eu tenho um bocado em casa!
_ Agora já era, não vou voltar por isso. — sentenciou Sérgio, que guiava — Já estamos quase na Dutra. No Rio a gente compra uns de camelô.
_ Camelô, cara, você quer ver filme de kung fu? — André irritou-se.
_ Tá bom, a gente vai no Xópim, tem aquela livraria que você gosta. — Sérgio conhecia bem o Rio.
_ Mano, é bom a gente lembrar logo tudo que pode ter esquecido, tá ligado? — Platinado fez-se notar. Sérgio não deixou passar a deixa:
_ Que eu me lembre eu não esqueci mais nada.
A estrada era dupla e privatizada, portanto a viagem foi sem sobressaltos. Pararam em Resende para um lanche e um café expresso. Sérgio teve a ideia de levar sempre uma garrafa de café a bordo.“Pelo menos uma droga a gente tem que ter!”, brincou André. No passado os dois tinham fumado muito juntos, mas só Sérgio dava uns tiros de vez em quando. Platinado que pareceu pouco à vontade com a brincadeira. Na saída, Sérgio comprou um chapéu de feltro marrom, que lhe caiu muito bem. André assumiu o volante, e dali ao Rio conversram sobre várias coisas, desde futebol, passando por cinema e, como era inevitável, política. André era o único mais conservador da turma, que teve que amargar a derrota na eleição passada. E na passagem por Brasília, graças aos contatos e ao bom trabalho de Juliana, a Expedição seria recebida pela primeira presidente do país. Havia mesmo um tom de ufanismo no ar, embora com os pés no chão, e até quem não era brasileira de nascença afirmava: “agora o Brasil tá no caminho certo”.
No Rio, chegaram em uma hora péssima, repleta de congestionamento, Av. Brasil parada. Sérgio pediu que André tirasse aquelas maluquices dele e pusesse na rádio. “Mas eu só pus som bem comportado!”, defendeu-se o amigo. Ainda tiveram que se informar umas quantas vezes até achar o hotel em que tinham reserva, no Centro. Cada um se banhou e pegaram um táxi até Ipanema, pena que a tarde já caíra; mas o dia seguinte era livre no Rio.
_ Tomara que faça tempo bom — desejou a cinegrafista.
_ Sabe o que… Quatro chopes, amigo! — pediu André: tinham sentado em um simpático barzinho — A gente podia ir à Lapa hoje.
_ Desde que a gente não enfie o pé na jaca — contestou o amigo.
Saulo se mostrou muito entusiasmado: gostava de Samba e ir à Lapa era como ir a Meca. A proposta venceu, e foram ao Semente, bem no pé dos arcos. Sérgio não perdeu tempo e, com seu chapéu e tudo, faturou uma loirinha potiguar. Música muito boa, e mais brindes à boa vida, e à aventura que lhes aguardava.
_ Expedição Transcontinental!
Na manhã seguinte foram à livraria, e compraram vários filmes — o casal puxando pros clássicos e cinema de autor, os outros dois pra cinema mais comercial. Platinado ficou meio sem jeito, mas comprou uns discos de samba e pagode para cobrar seu espaço. Carmen não resistiu comprou um Garcia Márquez, e depois ficou namorando os LP’s. “Vamos, cariño!”, apressou-a André. À tarde foram ao Cristo filmar, e de fato o tempo estava bom. Sérgio decorou o texto:
_ A Expedição Transcontinental parte oficialmente amanhã daqui da Cidade Maravilhosa, para viajar do Oceano Atlântico até o Oceano Pacífico, passando pela Mata Atlântica, pelo Cerrado, pela Amazônia, atravessando os Andes, visitando sete capitais brasileiras, atravessando a Ponte Binacional Brail-Peru (obra importantíssima, bla-bla-bla), passando pela imperial Cusco, por Nazca com seus gigantescos e misteriosos desenhos, e terminando na Rodovia Panamericana, até a capital Peruana, Lima.
_ Ficou ótimo! — Carmen deu-se por satisfeita no quarto “take”.
À noite, no quarto do hotel, André editou as imagens e as carregou no sítio criado para a Expedição. Ficaram assustados com o número de acessos ainda aquela noite: quase quinhentos. É bastante, considerando que ainda nem tinham aparecido na tevê. Mas graças a Juliana já tinham sido divulgados em sítios de aventura e em um importante jornal paulista.
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