Transcontinental VII

Novela por , em 27 de agosto de 2010

O tre­cho seria curto, mas saí­ram cedo para parar um pouco na agra­dá­vel Petró­po­lis, que nem Car­men nem Pla­ti­nado conhe­ciam. Tro­ca­ram comen­tá­rios sobre a vio­lên­cia urbana no Rio, pas­sando pela Linha Ver­me­lha; Sér­gio defen­deu a pena de morte como solu­ção e foi dura­mente recha­çado, ape­nas Pla­ti­nado ficou com ele — come­çava a per­ce­ber que era melhor fugir de polí­tica. Che­ga­ram à Cidade Impe­rial, e não dei­xa­ram de notar o — frouxo, que seja –para­lelo com Cusco; André não per­deu a chance de fazer um de seus comen­tá­rios ácidos:

_ O Bra­sil foi o único país liber­tado pela famí­lia real metro­po­li­tana! Inde­pen­dên­cia mesmo só em 89, e olhe lá!

Pas­se­a­ram pelo cen­tro e fil­ma­ram uma inser­ção que não estava pre­vista, em frente à cate­dral. Sér­gio fez ques­tão de levá-los à Qui­tan­di­nha, antigo cas­sino, e Car­men — metida a enten­der de todas as artes — teceu comen­tá­rios depre­ci­a­ti­vos à arqui­te­tura; “era outra época”, André fez o advo­gado do diabo (ou do arquiteto).

Pé na estrada. As esta­ções do Rio já não pega­vam e Car­men per­gun­tou ao namo­rado se tinha alguma coisa de câmara. “Tem vários quar­te­tos: Brahms, Mozart… tem um Shos­ta­ko­vitch aqui. Música de Câmara Com­pleta” “Per­feito!”. A estrada cor­co­ve­ava, subindo cada vez mais, pista sim­ples, e Sér­gio fez uma ultra­pas­sa­gem mais ousada. No fim não foi tão impru­dente assim, em parte por­que o outro moto­rista tirou o pé, mas Car­men se assustou.

_ Ô Sér­gio! Pre­cisa disso?

_ Dava tran­quilo — defendeu-se ele.

_ Tá vendo, mano, — disse Pla­ti­nado — se a gente esti­vesse com a auto­má­tica você não pas­sava esse cami­nhão. Por isso eu fiz ques­tão da manual. Câm­bio auto­má­tico é pra tiozão.

_ E pra­que­les grin­gos abo­ba­lha­dos — com­ple­tou André. Você sabe que eles impor­ta­ram essa só pra gente?

_ Sér­gio, — Pla­ti­nado apro­vei­tou a deixa — será que eu posso ouvir um dos meus discos?

_ Passa aí pro André. Qual é mesmo?

_ Jorge Aragão.

_ Bacana.

_ A gente podia assis­tir a um filme depois do almoço, hein? — Car­mem propôs; tinha um Fel­lini engatilhado.

Entra­ram em Juiz de Fora para almo­çar, pega­ram um res­tau­rante sim­ples mas bem gos­toso; gos­ta­ram da cidade, mas não per­de­ram tempo: Belo Hori­zonte esta­ria com­pli­cada de qual­quer forma, mas se che­gas­sem de cinco em diante seria insu­por­tá­vel. Dessa vez foi Pla­ti­nado quem diri­giu; Car­men, que via­java na frente com medo de enjoar, foi atrás com o namo­rado, assis­tindo Noi­tes de Cabí­ria. Foi bom por­que Car­men não pres­tou muita aten­ção às estri­pu­lias de Pla­ti­nado, que diri­gia com “san­gue no zóio”, como ele mesmo dizia; “que caranga!”, entusiasmava-se. Mesmo che­gando cedo a BH, e con­forme pre­visto, pega­ram muito trân­sito. André ficou falando mal da cidade, e Sér­gio a defen­dia: “é terra de mulher bonita!”.

Não resis­ti­ram e deram um pulo na Savassi para tomar um chope, de leve. O dia seguinte era, mais uma vez, livre, ou quase, o com­pro­misso era ir à Pam­pu­lha fil­mar. Dessa vez foi Car­men quem, em frente à Igre­ji­nha, falou um pouco sobre a cidade e sobre Oscar Nie­meyer, apro­vei­tando a deixa para anun­ciar o pró­ximo des­tino: a capi­tal federal.

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